Eu juro para vocês que poucas vezes estive tão feliz como ontem. Acho que, por mais lamentável que pareça, só sentimos a felicidade assim crua quando passamos por tristezas profundas antes. Se a vida é toda feliz ela acaba paradoxalmente não sendo feliz. Anestesia pura. Assim como tristeza constante não é tristeza, mas a perspectiva de ter mais felicidade com uma simples borrifada de esperança. Vai ver é por isso o povo brasileiro é tão feliz. Tristeza constante não é tristeza.
Mas eu ia dizendo. Estava eu extremamente mau humorada, irritadiça e, what the hell, deprê, chorosa, toda ardida por dentro na quinta-feira. Até nadar não deu certo porque tava tendo aula da pirralhada (ou cavocada, como diria meu ex-treinador Edu, porque criança não nada, cavoca) e eles tiveram o dom de pôr uma raia de assim, e não de assado, de forma que nnao tinha uma raia inteira para nadar e, logo, perdeu toda a graça (porque tudo corria o sério risco de a qualquer momento perder a graça na quinta-feira). Para ajudar, chuva, frio, cinza, vento, alô, primavera? Vai rolar ou tá difícil? Eu estava cursing e swearing e, you name it, todos os palavrões não cabiam em minha cabeça. E minha cabeça é grande.
Aí resolvi acabar com a palhaçada e fui dormir às 11h da noite. Sexta o dia já amanheceu todo diferente. Quer dizer, naquelas, estava chovendo ainda, cinza, frio, vento, oh well, eu vim pra Londres, não vim? Agora que agüente sem reclamar. Mas acordei depois de uma noite bem dormida. 8:30h em pé. Fui até Poplar, um bairro aqui no leste, mas mais leste ainda. Meio dodgy, mas encarei. Fui a uma agência de empregos lá, especializada em jobs na região leste de Londres. Eu percebi que aquele seria um bom dia porque dei gargalhada numa situação que deveria me fazer abrir as ventas de emputecimento. Estava com meu iPod tentando achar a maldita entrada da job agency e um segurança bem invocadinho me pára e pergunta o que estou procurando. Responde e ele começa a falar tudo enrolado, com aquele sotaque cockney maldito, e eu toda enrolada nos fios do iPod, tentando achar o botãozinho de desliga. Foi o suficiente para ele se enfezar e dizer "tira essa coisa do ouvido para falar comigo senão você não entende nada mesmo". Ele estava bravo. E eu achei engraçado porque ele foi extremamente grosso e invasivo como poucos ingleses são (obviamente ele não era inglês, mas, morando aqui, favor se adaptar à cultura local). E foi então que comecei a rir. Mais de surpresa que de qualquer outra coisa. Anyway, o jeito que ele olha me faz desconfiar de que há algo meio errado na cachola.
Preenchi um cadastro e fui m'embora. De lá passei em casa e depois fui pro meu ex-trabalho, encontrar o pessoal pro almoço. Foi bem divertido ver todo mundo. Apesar de toda a sacanagem, apesar de todo o sofrimento da última semana, gosto muito de toda aquela gente, inclusive de minhas ex-chefes. E ontem pude ter um "glance" de como sou amada lá também.
Depois fui ao escritório. Sentei na minha antiga mesa, ao lado de Tatyana, na frente de minhas chefes. Minha chefe mais próxima disse que era para eu imprimir tudo o que tinha feito, para montar uma espécie de portfolio. Também sentou comigo e reformulou meu CV com o que fiz durante os nove meses em que trabalhei lá. Quando bateu 4:30pm, metade do escritório - isso dá umas 30 pessoas - se reuniu em frente a minha mesa para me dar presentes de despedida e um cartão lindo, com mensagens lindas, todas elas me convencendo de que meu sorriso é capaz de iluminar um dia inteiro. Os presentes, todos preciosos, porque foram pensados com carinho: um óculos e uma touca de natação, uma cafeteira de filtro, um kit de coisinhas de banho, uma apple pie (porque minha irmã me chama de tortinha de maçã e eles lembraram desse estranho detalhe), biscoitinhos para comer com o café, 10 libras para gastar com livros numa livraria e, claro, o cartão. Muita, muita coisa. Bem mais do que eu esperava. E toda aquela gente me olhando, e eu roxa de vergonha, sem saber o que falar, meio, "really, guys, I loved it and I'll miss you so much, but I know we'll keep in touch, oh, look, this is really lovely, thanks for being so nice". Toda a raiva que eu havia acumulado de repente adentrou ralo e eu percebi que a merda toda não era culpa de ninguém. Que não tinha como alguém querer me foder tanto (no mau sentido) gostando tanto de mim. Ou então toda aquela demonstração de carinho era extravasamento de culpa. Não sei. Não importa. Recebi um quentinho tão bom no peito que não senti at all na última semana em que estive sentada naquela cadeira. E a simples assimilação disso me deu vontade de chorar, but I held back the tears, fir I've already cried a river. Desnecessário.
Do escritório fomos ao happy hour. Um monte de gente foi lá para se despedir de mim. Entre os mais fofos, Steve (claro), Nick (um cara com quem troquei poucas palavras mas que ama a língua portuguesa), minhas chefes que adoraram me ver sorrindo de novo e, bom, um carinha. Mas isso é história para se algo acontecer. Um carinha que saiu da BMI há uma semana e apareceu no pub. Um carinha que sempre passava pelo corredor me olhando, mas cujo nome eu nem sabia. Finalmente, ontem, eu soube. Após meia hora de conversa, "sorry, what's your name?" Engraçado. Trocamos telefone. E ontem mesmo, quando fui embora, ele me ligou. O Chris? Olha, estamos bem. Logo mais fazemos 6 meses juntos, mas eu sei e ele sabe que não é um relacionamento que vai, assim, prosperar numa esfera mais elevada. Não vai. É ótimo tê-lo por perto agora, mas ele não me dá frios no estômago. Não mais.
E, para terminar a noite, mais uma entrevista na segunda-feira. Para duas empresas de PR. Para ganhar mais (bem mais) do que eu estava ganhando na BMI. Ontem foi um dia certo do começo ao fim. Um dos melhores dias aqui. Obrigada todos pelas vibrações positivas. Estou novamente pensando mais alto que o chão, mas sem tirar meu pé dele. Sou feliz de novo.
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