Friday, July 29, 2005

the world spinning in front of my astonished eyes

Férias dos sonhos. Fechei os olhos e entrei nelas, nas férias. E só agora saí delas e abri os olhos para o mundo novamente. E os dias que passei de olhos fechados foram dos mais especiais este ano, junto com os dias movidos a tapas e paella com babãe. A Ilha da Madeira é um pequeno mundo de sonhos, um daqueles carrossel em que toda criança quer subir e nenhuma quer descer. O mar a cada canto dos olhos, peixes em cada canto dos mares, sol demais, sempre a brisa. Mordomia. Uma parte da minha família, como já devo ter citado no ano passado, quando também fui à Madeira, é dona de uma cacetada de coisas, entre elas quatro hotéis, um deles daqueles que já são o sonho em si. Um sonho dentro do sonho. Fiquei hospedada na casa de um de meus tios-primos preferidos, o Michael. Fora que ficar de papo pro ar, vendo as paisagens mais bonitas que meus olhos podem absorver, ao lado de alguém tão querido quanto minha Piu, chega a ser sacanagem de tão bom. Chega a doer, chega a congelar, apesar de o tempo voar. Chega a fazer me sentir uma idiota de passar por pequenas coisas ruins e me deixar abalar, se tenho a pessoa mais preciosa do mundo ao meu lado num dos lugares mais preciosos aqui já fui.

E ainda para ser arrebatada com um proto-convite para ir morar na Ilha da Madeira. Digo proto porque quem me convidou foi a esposa do Michael, que não manda muito no circo. Mas o Michael estava presente, assentindo. Mas calado. Calado não é bom. E também não sei se quero morar na Madeira. Acho que em alguns meses eu estaria correndo atrás do próprio rabo, com medo de pôr chinelas e ir à padaria do Joaquim porque obviamente em alguns meses já estaria "falada" num lugar tão provinciano.

Meninas traquinas como eu devem se conformar com a condição de encurraladas nas megalópoles. Ou livres para aprontar sem ser identificadas. Escolham a versão que parece menos ruim. Ambas estão corretas.

Voltando à família, uma das melhores sensações que tive foi a de ver meu pai, que chegou na Madeira três dias após eu e minha irmã, resgatando uma parte importante do passado dele. Primos que ele não via há 35 anos. Outros que ele nem conhecia. Os filhos, os netos, as casas e as vidas. As dores, as viúvas, tudo o que há numa família. A família do meu pai, a família No.2, depois de minha irmã e eu. Finalmente, a família de cujo reencontro ouso me sentir pivô. Babái não tinha contato com esse lado dele até que eu resolvi cutucar o vespeiro. Primeiro morando com meu tio-primo aqui em Londres nos primeiros meses. Depois, indo para a Madeira e desenterrando, inclusive para muitos que nem sabiam da minha existência, o lado Blandy que vem do Brasil. Um lado Blandy que é branquelo de olhos claros, mas que samba, joga futebol, ri pra cacete e abraça. Uma louca brasileira que ninguém lembrava que poderia um dia aparecer. Mas apareci e este ano voltei, com minha irmã a tiracolo e babái, uma mão dada a mim, outra a sua namorada, para rever o passado. Entender como tudo foi parar onde parou.

Foi precioso ver onde meu pai aprendeu a andar de bicicleta. Onde passava horas olhando os astros por um telescópio. Onde morou os primeiros anos de infância. Onde aprendeu a nadar, puta merda, onde APRENDEU a NADAR.

Foi delicioso revisitar o passado com babái. Não foi fácil dizer tchau. Mas nunca é. Acho que tô ficando profissional nesse negócio de despedida. Tô me acostumando à saudade. Tô me acostumando em deixar pedaços de mim com pessoas que deixam pedaços delas comigo também. Fui eu que escolhi.

Monday, July 18, 2005

Cardiff

Conheci uma das minhas cidades preferidas. Eu sabia que adoraria, tinha um good feeling sobre a capital do País de Gales. Estava certa. Eu e minha Piu aproveitamos cada segundo dessa viagem deliciosa. Mal chegamos no hotel - delicios, diga-se - fomos para o Cardiff Castle. Fizemos o tour completo. Maravilhoso. Ainda passeamos pelo centro da cidade e terminamos o dia em Cardiff Bay, o ponto de encontro de final da tarde, cerveja pros que são de cerveja, suco pros que são de suco. O sol se pondo às 10pm.

Dia seguinte acordamos cedo, nos esbaldamos no café-da-manhã do hotel e pegamos o busão para Barry Island, que fica a uns 50 minutos de Cardiff. Praia de areia (um adendo necessário nessa ilha chamada Grã-Bretanha), mar quentinho, crianças, muitas crianças, praia limpa e sol, sol, sol. Banho de sal para me livrar de qualquer coisa ruim que esteja me impregnando. Porque acredito muito que esteja.

Na praia fizemos um amigo, o Ethan. Ethan tem dois anos e a língua presa. Sorvete seco espalhado pela cara e areia por todos os lados. Sempre que saía para pegar um brinquedo, anunciava depois sua volta: "I come back". E cismava que tinha um barco, mas que não estava achando. Pegava pedrinhas na areia e dizia: "tiny!" e eu me controlava, ô se me controlava, porque aqui é meio estranho essa história de sacudir bochecha de bebês alheios.

Ainda tentei negociar com o pai, já que uma hora em que estava indo dar uma nadada no mar o Ethan quis vir junto. Disse ao pai que sou salva-vidas e que não teria problema levá-lo para um mergulho. Ainda assim não quis. Entendo.

Piu e eu ainda tentamos, nesse mesmo dia, visitar St Fagan's, uma vilazinha ao lado de Cardiff que possui o maior museu aberto da ilha, o Welsh Folk Museum. Mas o último ônibus partia às 18h (!). Nada feito.

Passeamos mais por Cardiff, exploramos o Bute Park (acho que é esse o nome, not sure, not sure) e voltamos cedo para o hotel. No dia seguinte, hoje, era o dia de empacotar tudo e voltar. Ainda deu tempo de passear pelo parque, mas fomos pega por uma chuva pentelha - já era esperado, ninguém tem a sorte de só pegar sol na Inglaterra; com minha Piu não seria diferente.

Na hora do almoço arribamos no trem. Para nossa surpresa, nos puseram na primeira classe. Não reclamamos. Eu até consegui dormir, já que, em troca de um gole da minha coca-light, minha irmã prometeu não cantar as músicas que ia ouvindo no discman.

Agora estou resolvendo todos os pepinos a serem resolvidos antes da esperada viagem para a Ilha da Madeira. Novo telefonema para a polícia, nova constatação de que polícia é incompetente em qualquer lugar.

Minha pequena ruiva deve estar perdida em Oxford Street, comprando lembrancinhas inglesas para seus brasileirinhos. Estou sozinha em casa. Faz tempo que não fico sozinha. Um vento delicioso entrando pela janela. Um sol brilhando apesar de estar meio nublado. Um sossego de que tudo dará certo, sempre, mesmo que certo não signifique perfeito.

retrolavagem e purificação

Começo a desconfiar que este blog está amaldiçoado. Gente demais lendo, nem todas de boa energia. Infelizmente ainda não inventaram um recurso para banir de acesso a esta página essa gente pequena, cujas grandes alegrias são encher o saco da vida alheia. Um recado: eu sei que esse blog é legal, que vocês não conseguem não vir aqui ler, que minha vida é mesmo muito interessante. Mesmo não concordando com vocês entendo que, em tendo uma vidinha bem mais ou menos, vocês achem a minha excitante. Óquei, sem problemas. Mas leia e vá embora. Não deixe aqui seu fedor

Friday, July 15, 2005

aftermaths ou two steps away from losing it

Estou ao lado da pessoa que mais amo no mundo exatamente agora que o mundo resolveu desabar e eu não sei no que me seguro, na raiz ou na nuvem. Nenhum apetitoso. Só consigo agarrar minha irmã, e morro de medo de levá-la comigo para o caminho errado.

Antes dos ataques terroristas, antes de babái me dar o deleite de sua visita, muita merda fedeu. Duas noites após terminar o namoro, encontrei aquele gatinho, o Certinho, que a partir de agora, se é que há algum partir que não seja partida em minha vida, chamarei de D. Fui assistir Bonbón com ele, um filme argentino que julgo eu deve estar fazendo sucesso pela terrinha. Resolvemos esticar depois para um pub. Coisa rápida já que ambos acordavam cedo no dia seguinte, mesmo sendo domingo. Levantei para ir embora, virei para alcançar minha bolsa e não havia mais bolsa. Fui roubada pelo mais malandro dos trombadinhas. Não percebi nada, e não deixei a cadeira nem para ir ao banheiro - vantagens de não beber.

Eu não acreditava. Na hora me veio um gelado na espinha, daqueles que todo mundo tem, de desespero. Mas comigo sempre é mais dramático. Associei as sensações a um ataque de pânico e quase o tive ali, em frente ao D., que me olhava com cara de "fuck!", e em frente às garçonetes do pub, que estavam tentando partilhar da minha dor, mas que na hora, aos meus olhos ranzinzas, apenas regozijavam internamente por não ter acontecido com elas.

Sem carteira, sem cartões, sem dinheiro, sem iPod, sem telefone celular, sem chave de casa, o desespero foi crescendo porque o quebra-cabeça foi fechando e parecia que as peças não iam mais se encaixar. Foi nessa hora que me deu um clique, naquela hora em que a vista começa a escurecer. Essa é minha hora preferida de ter cliques. Nunca antes de tudo parecer perdido. Sempre segundos antes de eu apagar.

O único celular que eu sabia de cor era o do Ernesto. Liguei para ele depois de cancelar celular e cartões de banco e pedi o número do telefone da Bobby. Mais uma longa jornada até encontrá-la. Cheguei em casa detonada, chorando, mal mesmo, achando que não conseguiria levantar no dia seguinte para trabalhar. Eu estava certa. Eu não conseguiria levantar, mas alguma força maior que eu andou por mim, comeu por mim e me levou ao trabalho.

Daí para frente vocês já conhecem. Fui me reerguendo, resolvendo todas as dores de cabeça que uma perda desse gênero gera, yadda yadda yadda. A verdade é que cansei do meu próprio discurso de eu-me-fodo-mas-levanto-pois-sou-foda. Cansei do gesto de bumbar no peito estufado. Cansei de ficar serena, esperando a hora certa para levantar e levar outro bofetão, mesmo depois de juiz ter decretado nocaute. É isso. Alô deus, rolou um nocaute aqui, já. Fim de jogo. Esquece os próximos rounds porque, really, I can't cope.

E babái aqui e minha Piu aqui, e todos os elementos que deveriam me deixar explodindo de alegria, ainda não estão conseguindo. Não quero saber de D. ou de L. (L. agora é o Malandro). Não quero saber. Preciso mudar de casa com a Bobby e ao mesmo tempo I don't give a shit. Moro em qualquer canto, jogada, durmo em qualquer esquina, em posição fetal, economizo no arroz. Tudo o que eu nunca quis para mim.

Estar com a minha irmã aqui faz com que tudo seja menos insuportável. Só não quero levá-la comigo para a merda. Eu jamais me perdoaria. Jamais.

**

Em tempo, amanhã começam minhas férias. Vou para o País de Gales, volto na segunda e na quata vou para a Ilha da Madeira novamente. Eu pretendo muito acordar outra. Férias merecidas. Férias de mim mesma.

Thursday, July 07, 2005

estou bem

Aparentemente. Nada aconteceu comigo ou com alguém que eu conheça. Até agora, que eu saiba, apenas uma amiga estava num metrô que foi evacuado. Parece pouco, mas é traumático demais. Por aqui, no Eastend, o barulho das ambulâncias está começando a ser uma extensão de meu ouvido. Melhor assim, porque passo a não ouvir de tanto ouvir. Não a ser humano que agüente a certeza a todo segundo de que tem alguém morrendo ou sofrendo aqui do lado.

Londres está quieta. Depois de um dia de chuva intermitente, finalmente o sol saiu. Mas não tem ninguém lá fora para aproveitar. Os que estão na rua, estão tentando ter uma idéia de como vão voltar para casa.

Meu peito está apertado, medo fodido de passar pelo que passei no 11 de setembro. Meu pai na cidade, depois de mais de ano sem vê-lo, e não posso encontrá-lo porque simplesmente não há como. Não há meio.

Se deus quiser amanhã será um dia de reerguimento. Não dá para parar.

Quando achamos que chegamos no inferno, ainda estamos aptos a achar, então ainda não chegamos lá. Agora que tudo começa a perder as margens é que desconfio de que o verdadeiro inferno está próximo.

Nada não. Amanhã estou melhor. Por ora, eu e Schopenhauer dançamos o mais triste dos tangos.

Friday, July 01, 2005

o fim da primeira metade

Acabou a primeira metade de 2005 e, com o fim, minha esperança de que esse ano não será um fiasco completo, afinal ainda temos meio ano pela frente para fazê-lo um semi-fiasco: é só tudo dar certo a partir de HOJE. Já que até hoje, convenhamos, conto nos dedos de uma mão as coisas boas que me acontecerm. 2004 foi ridiculamente bom. vai ver é isso. Alguém reclamou lá em cima que era meio mancada me deixar tão feliz. Aí deu no que deu: fechei os seis primeiros meses do ano em grande classe: eu e o Chris terminamos.

Já era esperado, claro, vide post abaixo, vide antigos posts, vide minha vida. Mas o fim de um namoro é sempre um fim. O Chris esteve comigo durante a metade do tempo em que estou na Inglaterra. E eu o conheci apenas dois meses após ter aqui me ancorado. Ele é importante. É especial. Uma das três pessoas que me fazem ou fizeram não desistir de tudo e voltar.

Mas nosso tempo passou. Na verdade, passou do ponto do passou. Mais um pouco e a gente nem se olharia mais na cara. Foi um término civilizado. Mãos agarradas, olhos nos olhos, umas e outras lagriminhas saindo dos olhos nos olhos. Alívio. A certeza, para ele, de que é só um tempo e que provavelmente vamos voltar. A certeza, para mim, de que é o fim definitivo.

Mas ele não precisa saber.

Fechei o primeiro semestre com mais uma perda. Nesses seis meses perdi meu avô, perdi meu emprego, perdi meu namorado, perdi dinheiro e, finalmente, me perdi. Fiquei meio abirutada no meio de campo. Mas depois me achei um pouco. Sempre vão faltar alguns parafusos porque sou um quebra-cabeça infinito. Tive momentos de serenidade. A viagem com babãe para a Espanha foi, sem dúvida, o cume de minha felicidade nesses tempos difíceis.

E hoje é dia primeiro de julho e eu não quero sentar para ver o resto do ano me foder. Hoje dormi como há muitas semanas não conseguia. 10 horas de sono sem parar. Acordei depois de sonhos estranhos. Pesadelos, as usual. Mas o sono em si foi bom. Tenho um freela dos muito bem apessoados para fazer na sexta-feira que vem, de intérprete num evento bem dos chiques. Dei meu valor, £30 por hora. Acabo de pegar a resposta: valor aceito.

Também recebi telefonema do meu chefe na academia em que trabalho aos fins de semana e ele quer me pôr em mais shifts a partir dessa semana.

Amanhã devo ver pelo menos um dos gatinhos, o Certinho. Finalmente, se deus for mesmo pai, dessa vez rola.

E ainda há chances de ver o Malandro. Sob o pretexto dele deixar o CV dele na academia em que trabalho. Vai ser bom entrar nos olhos dele de novo.

Sem falar na vinda eminente de babái, que está me deixando bastante apreensiva. Não parei de voltar na sala do meu manager na St George's para lembrá-lo que farei small shifts nas próximas duas semanas, e no shift at all nas duas seguintes.

Foi-se o primeiro dia da melhor metade de ano que posso ter, já que foi-se a pior metade que já passei as well. Tenho que acreditar em algo nessa vida, nem que seja na matemática.

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Minha pessoa favorita criou uma comunidade no Orkut para moi! Se estiverem no embalo, vão lá.