Friday, December 30, 2005

fade in Brazil

Cheguei como se chegasse a uma reencarnação. Uma volta a uma vida que é minha e não me pertence. Essa foi a primeira impressão. Passados os primeiros sustos do passado, estou amando estar aqui. Estou amando o cheiro, as pessoas falando português a minha volta, até o calor, que costuma me irritar. Os pássaros que realmente cantam (lá, costumo dizer, eles são 'polite' demais para cantar), barulho de martelos - obras, obras, essa cidade nunca mais pára de crescer -, no começo tudo gritava. Agora estou me reacostumando. Os buracos no asfalto não são tão estarrecedores e as favelas não são mais outro mundo. É parte do meu mundo. Sempre foi. Muito foda chegar aqui com olhos virgens, olhos de bebê, desacostumado com o que é feio, pobre, sujo. Com o que é indecente mas se passa por decente. Como é que o brasileiro nem se abala mais? Como é que eu não me abalava? Será que vou ser para sempre uma sócio-chata se resolver voltar?

Estou amando tudo aqui. Amando as dores, até. Se sinto dor, é porque isso aqui ainda é meu. Se sinto dor, também sinto que eu ligo, sim, que é meu país que está fodido, apesar do futebol.

E tem todo mundo, né? As pessoas que vi. As pessoas com quem falei. Gente remota cuja voz reconheci. Gente próxima cuja voz desconheci - e doeu saber que um ano e meio é tempo suficiente para esquecer da voz de gente que eu amo. E toda aquela legião de amados querendo porque querendo me ver. E a legião de amados que decepcionam - olha, continuo amando vocês, mas amor não é eterno, não temos mais 15 anos, façavor de cultivar.

Foi especial ver tanta gente no happy hour queridamente organizado por minha irmã. Foi especial ver que cada rostinho mudou tanto e continua igual. Que as vidas mudaram tanto e continuam iguais. Que eu mesma, a seus olhos, mudei tanto e continuo igual.

Ainda não acabou. Estou no começo de tudo. Viajando, pegando uma cor. Combinando de encontrar e reencontrar pessoas que nem sei se vão realmente me ver. Eu quero encontrar todas.

Agora, puramente, um feliz 2006 para quem está por aqui. Celebremos a tragédia que foi 2005. Pior que esse ano não dá para ser. Que venha 2006, então, um ano que já chega mimado e cheio de expectativas. Um ano que traz consigo a obrigação de ser melhor. A obrigação de ser saudável e inesquecível. Vai ser.

Monday, December 19, 2005

esperando na janela

Que estranho... Eu jurava que tinha escrito outro post. Devo ter sonhado. Ultimamente meus sonhos tem invadido a realidade. Soh consigo descobrir quando algo assim acontece. Essa noite, sonhei que vomitava. Um vomito pequeno, que dava para segurar na boca. Acordei checando o travesseiro.

Estou ridiculamente ansiosa. Fico checando se lembrei de tudo o tempo todo. Sinto falta de ar de pensar nas coisinhas brasileiras que vou estar fazendo em breve. Amanha eu embarco, depois de amanha estou ai, a 12 horas de distancia, no sol, na poluicao, na pobreza, no biquini. Vou para ver se volto, tambem. Vou para testar. Vou para ver se eh possivel ser ainda mais feliz ou ainda mais triste. Vou para carregar coisas e recarregar baterias.

e depois volto. Mas agora nao eh hora de pensar nisso. Agora eh hora de pensar em nao perder o trem para o aeroporto, nao perder o check-in, nao perder a cabeca. Depois, cuidar para nao desmaiar, ou vomitar, ou panicar.

E depois cuidar do sol, que vai estar forte mesmo que esteja fraco, porque minha pele se acostumou com tudo o que eh cinza e frio. Mesmo apos a burrada de sabado, quando inventei de fazer bronzeamento artificial sem saber direito o que estava fazendo (como quase tudo o que faco). Me meti na cama, 12 minutos, nao passei nada. Resultado: fiquei roxa. Inteirinha, ja que a porra da sunbed eh para se ir pelada. Mas ja melhorou, quase passou.

Nao vejo a hora de estar com voces!

Monday, December 12, 2005

Menos um

Menos um. Foi a temperatura nessa madrugada. E a idiota saiu sem cachecol. Minha cabeca estah assim. Funciona em meia-fase. Lembro de coisas extremamente esqueciveis; esqueco as memoraveis. Ansiedade eh isso.

Ja comprei quase tudo que queria comprar, mas ainda falta. Acho que vai sempre faltar. Acho que vou chegar no Brasil e lembrar que tenho alguem muito especial de quem nao lembrei quando estava aqui.

Estah dificil fazer qualquer coisa e eu soh falto implorar pro meu chefe me passar trabalho para fazer o tempo passar. Mas no momento ele estah comentando comigo como o ceu perto da casa dele ficou preto com as cinzas do petroleo da explosao de ontem. Alias, nada mudou. Ninguem morreu, todo mundo foi trabalhar, nenhum drama, really. Estamos mais longe do protocolo de Kyoto talvez. Uma pena.

E o fim de semana foi bom. Sexta fui a Wimbledon depois do trabalho. Comprei um sobretudo vermelho e deixei o cartao de credito na loja (tipico). Babai, babae, sem panica: estah lah, guardadinho, no cofre. Vou buscar hoje, exatamente na hora em que estiver me atrasando para ir ao curso da Birkbeck.

Na sexta mesmo fui a Greenwich com Mr Australia e uma amiga do trabalho que eu queria que encaixasse com ele. Acabou que nao rolou. Sim, juro, nao tem mais nada a ver, eu e ele. Ele continua um fofo. Mas nada a ver. Mesmo. Passou.

E depois foi casa e cama. Dormi ateh meio-dia de sabado. Fui encontrar Broo, Re e o Ma (que eh o alguma coisa da Broo) para fazer compras de natal. O inferno, o inferno. Primeiro, a patetica ideia de ir a Harrods. O inferno. Logo desistimos. Andamos, andamos, acabei comprando muito do que queria, mas nao do jeito que queria. Foi uma coisa meio deixa-eu-comprar-logo-para-me-livrar, em vez de compras com carinho. Sad but true. Devia ter me prevenido e feito compras antes.

Aih sabadanoite fomos para casa de Broo, onde a festa ficou por conta das calories: pizza e Banoffee pie (torta de banana e toffee, ouch!). E la se foi, lancado ao espaco, mais uma tentative de chegar ao Brasil um cheirinho mais fina.

Domingo trabalhei. Trabalhei, trabalhei, trabalhei. Cheguei em casa e cozinhei. Assisti a um filme que ja havia assistido. Um domingo igual aos outros.

E estou aqui, agora, esperando meu chefe revisar meu ingles para uma propaganda que eu quero mandar ainda essa semana. Enquanto isso ele fala de quao feliz estah porque a BBC vai reprisar a serie preferida dele.

Eu deveria ficar feliz, nao? Todo mundo fica feliz quando tem um chefe assim, que trabalha um ‘cadim, conversa um ‘cadim. Acho que estou de fato ansiosa demais.

Thursday, December 08, 2005

a farsa

Eu estou evitando de todas as maneiras me considerer uma farsa. Anoto tudo o que aprendo, faco tudo o que me pedem, estou sempre alerta e solicita. Aprendo rapido, faco perguntas inteligentes, respondo o que o chefe quer ouvir. Voce nao quer um funcionario assim? Essa sou eu. Eu e minha tentative de nao me achar uma farsa. Mas acho que ela eh inerente ao ser humano (ou “cerumano”, como li uma vez). Ja se passaram mais de tres horas do meu dia no trabalho e nao fiz absolutamente nada porque nao ha nada a fazzer. Preciso esperar meu chefe terminar o que for que ele tenha que terminar para poder seguir com explicacoes sobre minha campanha. Ja fiz tudo o que podia fazer, agora ele precisa me pegar pela mao e ir.

Enquanto isso nao acontece, fico navegando, lendo artigos de todo o genero, atualizando um ou outro email, indo ao banheiro, tomando café. E ai fica bem dificil nao ser inundada pela pesarosa sensacao de ser uma farsa.

Voltemos aos meus impulsos ansioliticos. Eu nao estou mais me aguentando para ir ao Brasil. Nao penso em outra coisa. Uma pentelha. Vira e mexe recebo um convite para uma festa no dia 20/12 e abro aquele sorrisao: “Oh, sorry, I’m not gonna make it, I’ll be flying by then!” Ou para o Natal ou para o Ano Novo. Varios convites. Minha prima Emily me convidou par air para o sulo ds Franca. Meu tio me chamou para a Madeira. Fora os convites de festinha em Londres. Mas nenhum deles me deu agua na boca. Nada como ir pra minha terrinha, onde la em casa eh la em casa mesmo.

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Falando em ansiedade, uma outra agitacao foi aliviada. Ontem fui conhecer a casa nova do Chris. E, er, conheci a casa do Chris. Foi bom.

Tuesday, December 06, 2005

tudo de novo no front

O sumico tem explicacao obvia: trabalho, trabalho, trabalho. Animo zero de chegar em casa e ligar o computador depois de oito horas com olhos grudados na tela. Mas ca estou, sorrateiramente escrevendo no meu lunch break. Para voces terem uma ideia do quanto valem. Parte do meu lunch break vale muito.

Estah tudo bem aqui na WK. A responsabilidade que tenho que assumir eh grande, bem maior do que estava acostumada em meu antigo emprego, onde era apenas uma assistente de Marketing. Agora, tenho meus produtos, um budget, um target. Tudo dependendo de mim. Nao faco ideia do que esteja fazendo mas estou gostando mesmo assim. Ganho bem, as pessoas aqui sao legais e quero aprender a fazer essa coisa direito. Precisa mais?

Faltam 15 dias para eu chegar na terrinha. Duas semanas e um dia. Todo mundo disse que passaria rapido. Ateh agora, parece que o tempo se arrasta, tenta segurar nas paredes, luta contra passer, luta para ficar. Mas me disseram que a ultima semana passa ventando e voce acaba nao fazendo tudo o que tem que fazer. Tomara.

E agora vou la comer. Essa semana deve ser toda agitadinha. Drinks, jantares, Xmas Parties. Vamos ver se eu aguento.

Wednesday, November 30, 2005

o sorriso no rosto cansado

Começou a ventar mesmo e meu coração não pára mais. Quanto mais quieta eu fico, menos escuto. Não deveria ser assim. Mas eu vou tirar o dedão da tecla espaço. Vou revolucionar essa merdinha de mundo meu.

Amanhã começo o novo trabalho. Vai dar certo mesmo que dê errado. A três semanas de ir para o Brasil, fica difícil tirar o sorriso do meu rosto cansado.

Mas vez ou outra acontece.

A gente sempre recebe as notícias mais doídas quando não agüentamos mais doer? Tá certo que eu tenho doído pouco, mas simplesmente porque minha cota para esse ano foi atingida, tipo, no primeiro semestre. E tudo o que houve de ruim no segundo semestre fica de quitação da dívida da vida para comigo para 2006. Eu deixei que a vida me fodesse de propósito, para fazer do que vem agora algo mais especial.

Eu desci degraus despencando. Está na hora descer como uma mocinha. Não preciso ser arrastada para a realidade. Vou sozinha, a meu tempo, o sorriso no rosto cansado.

Acho que estou viciada em saudades. Cada vez que chega mais perto de eu matá-la, mais eu a sinto pulsando, quase que uma entidade fora de mim que me assombra e me testa e me sangra.

Meu estômago, um poço de adrenalina com caroços de expectativa e medo. Será que ainda sou eu mesma para quem me conheceu antes de eu vir para cá? Sou tão volúvel assim? Gosto das mesmas coisas? Me incomodo com os mesmos cheiros? Escrevo do mesmo jeito? Me digam, escrevo do mesmo jeito?

Escócia e Irlanda

Achem o álbum "Escocia e...", cuja capa duas meninas fofas e bochechudas ilustram. O link é esse aqui. Divirtam-se!

Monday, November 28, 2005

das coisas escondidas atrás da cabeça

Hoje saía do curso de Imprensa Britânica na University of London com minha colega Emma, uma garota brilhante que anunciou que conseguiu um novo emprego numa revista financeira. Ela disse que, apesar de o emprego ser legal, ela vai começar lá embaixo, na base da hierarquia. E eu, sem nem perceber, soltei uma verdade linda, que deveria, inclusive, servir para mim: "É bem melhor olhar para o topo da montanha com preguiça de escalar, mas enfim escalar; que ser jogada no meio da escalada e ficar o tempo todo com medo de cair, afinal você ainda não conhece a montanha".

Que bonito. Ela olhou para mim. Eu calei a boca e olhei para ela. Ela sorriu: "For fuck's sake, é a mais pura verdade".

Eu queria muitas vezes entender as coisas que eu falo como as outras pessoas entendem. É legal me ver de fora, parece. Eu também quero achar legal.

E falando em curso, recebi meu essay de volta, corrigido ou, como prefere o professor, "comentado". Com nota e tudo. Dizem as boas línguas que minha nota foi das mais altas. O comentário foi favorável mesmo, com críticas esperadas, como das minhas longas (e portuguesas) frases e da minha vontade de querer dizer várias coisas ao mesmo tempo. Sim, sim, sou ansiosa até em ensaios.

Mas tá beleza. Fiquei satisfeita com o resultado. "Um ótimo começo", disse Prof. Caplan.

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Vocês têm noção de que em 23 dias estou aí? Meda, pânica, horrora, desespera, socorra, não vou conseguir nem a pau nem a pedra emagrecer como queria. Hoje mesmo, do alto de meu regime, engoli quase sem sentir o gosto um pedaço de bolo de chocolate pelo aniversário da Louise, uma Manager lá da Cannons.

E agora começo a pensar no que levar para o Brasil. Não tenho roupas de verão. Não tenho idéias. Não tenho nem vontade. Quero fazer uma mochila e ir. E só depois me preocupar em como voltar. Mas não vai ser assim. De uma coisa eu sei: vou contrabandear Havaianas. Comprar a dérreal e vender a £8. Aiai.

E já podem ir me informando quando estarão por Sampa para me visitar. Fim de ano toido mundo zarpa, mas quero todos os meus amados comigo, pelo menos por um fim de semana. Façavor então. Meu aniversário, 11 de janeiro, podem reservar. Quem disser que não pode vai realmente me emputecer. Vocês sabem (ou não) do que sou capaz emputecida.

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Quinta-feira começo meu novo emprego. Vamos chamá-lo de WK, para deixar tudo mais fácil (o nome da maledeta é Wolters Kluwer, no one deserves ter que escrever isso toda vez). Tô meio que borrando as calças. Uma mistura de ansiedade boa, recomeço; com uma ansiedade ruim, traumas da nossa amiga BMI. Um medo daqueles bem Bia de não estar de acordo com as expectativas alheias. De novamente me descobrir uma farsa de, yadda yadda, lá vou eu outra vez me convencer de que o mundo está errado de me ver como sou, na pretensão autista de saber, só eu, quem realmente sou.

Não, de novo não. Prometo evitar doravante.

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Fim de semana todo gostoso, a não ser por um detalhe de domingo à noite. Sábado aquela palhaçada de ter que trabalhar. Eu fiquei meio doente, estranha, não sei. Resistência baixa, me arrastei pela academia e pela piscina e pelo clientes, com um sorriso doído no rosto. O corpo todo dolorido, implorando sossego. Claro que não dei. Saí do trabalho às 6pm e fui para Leicester Square, encontrar Broo e Renata para comermos um japa. Olha, que japa fenomenal aquele. Então fizemos umas extravagâncias em lojinhas e viemos aqui para casa. Elas se divertiram com a Sky. Eu, já mais para lá do que para cá, despenquei.

Dia seguinte fomos a Greenwich. Olha, desculpem, quem não vai a Greenwich não conhece Londres direito. Sério. E agora Greenwich fica walking distance de casa. Um mercado liiiiindo, cheio de coisas compráveis (eu me segurei, foram só dois livrinhos). Um parque todo cores de outono, esquilos, crianças almofadadas e cachorros correndo atrás do rabo de outros cachorros. Aquela cena de cinema. Subimos até o Royal Observatory, onde passa o meridiano de Greenwich, e ficamos com um pé no oriente e o outro no ocidente, e o mundo realmente parecia que estava prestes a mudar toda vez que eu passava para o outro lado. Um balé de iminências na minha cabeça.

Voltamos para casa, onde Mr Austrália cozinharia seu Lamb Perfeito. Na verdade, ele já cozinhou melhores. Mas a abóbora estava algo assim entre o sublime e o carnal. Alucinantemente bom, como nunca cogitamos ser possível com uma abóbora.

Comemos, tudo muito bom, tudo muito bem. Aquela horinha pós-refeição e tal. Fomos para fora de casa. Frio. Entramos. Quente. Sentei. Comecei a me sentir estranha. Eis o detalhe de domingo à noite que impediu que meu fim de semana fosse, enfim, depois de muito tempo, finalmente, bom.

Pânico. Mas dessa vez foi sério. Me tranquei no banheiro. Tudo sumiu, comecei a suar, respirar acelerado, meu coração gelado no meio do meu sangue quente. O peito apertado e ao mesmo tempo querendo estourar minha pele. Tudo desconfortável no saco que carrega meus órgãos. Sentei na provada. Sentei no chão. Levantei. Sentei de novo. Me olhei no espelho. BRANCA. Comecei a chorar, aquele choro seco de desespero. Vou ficar aqui até passar. Melhorou. Desço. Piorou. Mas não subo. Fico. Sento. Tento entender. Broo e Rê cada uma com uma mão. As palavras saindo da minha boca bem antes do que o planejado. Ou chegando aos meus ouvidos depois do que deveriam.

Tentei ignorar, mas minha mão tremia. Um tremor forte, que chegou a me impedir de dar uma garfada no doce que as meninas tentaram me enfiar goela abaixo.

Nada pior que estar atenta a todo e qualquer potencial problema no seu corpo. Pânico, entre outras coisas, é fechar o ouvido para o que está fora, fechar a cabeça para as razões do mundo, e criar suas próprias razões e sensações, e diagnosticar, e ouvir apenas o que se passa dentro. Autismo mesmo. Não queria me ver nesse estado.

Agora PASSOU. Não precisam se preocupar. E eu tive todo o suporte de que precisei.

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Myriam de volta ao Brasil. Mais uma que se vai.

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Se eu realmente conseguir encontrar no Brasil todo mundo que está falando que eu vou encontrar, vai ser difícil voltar...

Wednesday, November 23, 2005

fim de outono

Voltar foi difícil. Sinal de que a viagem foi boa. Boa demais. Edinburgo é uma cidade absurdamente fofa, é toda escurinha, como se fosse de brinquedo, tirada de uma história da carochinha mesmo. Dizem que a cidade é assombrada - mais um de seus charmes. Ela é fria, mas o povo é quente. Acho que por sobrevivência eles têm que ser mesmo. Dias ainda mais curtos que os londrinos, mas sol, sol, céu sem uma única nuvem. Poçass d'água congeladas, tartan para todos os lados, gaita de fole tocando em todo lugar, homens de saia - eu nunca pensei que fosse achar homem de saia charmoso. Ainda quero voltar para a Escócia, visitar os lagos de Inverness e dar um pulo em Glasgow. Quem sabe numa época um pouquinho mais quente.

Irlanda também é linda. Para falar a verdade mesmo, foi meio decepcionante. Acho que eu tava esperando demais. Mas fizemos tudo conforme o figurino. Visitamos igrejas e castelos, batemos muita perna, fomos em pubs na fábrica da Guiness em Dublin e beijamos a pedra de Blarney, no castelo de Blarney, o melhor programa da viagem, na minha opinião - mesmo minha câmera digital tendo despencado uns 20m, do alto da torre do castelo. Fiquei amiga de um velhinho no ônibus de Dublin a Cork, um velhinho veterinário e fazendeiro que mora numa cidade perdida no centro da Irlanda. Conhecemos pessoas estranhas também pelos albergues. Albergue é albergue, né, minha gente... Aquela palhaçada de chegar no quarto e ter gente dormindo na sua cama, ou de não suportar os cheiros do próximo, tudo esperado e, obviamente, concretizado.

Broo é uma ótima companhia de viagem. Temos o mesmo pique, as mesmas vontades, as mesmas neuras e o mesmo timing. Claro que ela sempre demora mais para se vestir, mas isso desde que vim ao mundo é assim. Não sou de muita enrolação e já cresci sabendo esperar o outro que, dentro de sua humanidade, não faz tudo voando feito eu.

Fotos em breve no meu albinho virtual.

Ah, e o trampo na editora foi confirmado. A partir de 1o. de dezembro sou uma executivammmmm de marketingmmmmmmm. Palmas para mim, que vou ao Brasil sem precisar em como correr atrás do prejú quando voltar.

Faltam 28 dias. Estou começando a ficar assustada.

Tuesday, November 15, 2005

antes de partir

Último post antes de ir para Escócia + Irlanda. Vocês querem saber a previsão do tempo?
Quinta-feira, snow showers em Edinburgh, onde chegamos. Sexta, sol (sensação térmica de 0oC). Sábado, mostly cloudy em Dublin (pelo menos a temperatura é de 4 a 11oC). Domingo e segunda alternando nuvens e sol em Cork, temperatura sobe (6 a 10oC, maravilha).

Pelo menos não vai chover, segundo os meteorologistas.

Estou toda empacotada já. Meu agasalho mais quente (e um dos mais feios também) já está separado. Meias-calças de lã, bota de neve comprada no Brasil (?), pijama de flanela, gorro, cachecóis, tudo, não estou esquecendo nada. Sou dessas pessoas irritantes que sabem que não esqueceram nada antes de viajar, ao contrário de quase toda a humanidade. Como sou especial.

Amanhã vou trabalhar com a mala já. Saio de lá e vou para a Bru, onde passo a noite - ou metade dela, já que acordamos às 5h para ir ao aeroporto. Não vejo a hora. Eu mereço tanto. Mas taaaanto.

Quando voltar prometo relatos detalhados. Podem cobrar.

Sunday, November 13, 2005

shadow boxer

Tenho por princípio nunca fechar portas, mas como mantê-las abertas o tempo todo se em certos dias o vento quer derrubar tudo?

Está ficando muito frio. Hoje senti falta de gorro, minha orelha quase congelou quando resolvi passear por Leicester Square depois do trabalho. Eu até queria estar com alguém ao lado, mas tenho certeza de que não seria boa companhia. Aliás, não seria companhia. Não tava a fim de falar, de sorrir, de interjeitar. Nem de ouvir, o mais inofensivo dos atos. Nem isso. Mas aí, andando em meio àquele mundo de gente, fui parar no Soho, a única parte de Londres, ao lado de Brixton, que realmente nunca dorme. Entrei numa loja, experimentei uma bota linda, mas só tinha tamanho grande demais ou pequeno demais. Saí, entrei na Soho Books, livraria de precinhos camaradas e artigos alternativos e uma loja de DVDs pornográficos no subsolo. Mas nada me chamou a atenção. Saí, ainda sem querer parar. Resolvi que precisava comer. Ali no Soho era meio complicado; mais capaz de eu ser comida.

Voltei para a civilização. Parei num pub que adoro. Aí pensei que era deprimente demais sentar sozinha e comer sozinha e olhar para o nada ou fingir que lia. Resolvi não entrar. E fiquei pensando, puta merda, como sou normal. Sou como qualquer outra dessas meninas que não querem ser vistas sozinhas, que não agüentam um olhar de piedade alheia mesmo quando sabem que não há nada de que sentir pena nelas. Apenas volúveis aos olhares de fora, de pessoas que nunca mais farão parte da sua vida a não ser naquele instante. Por que querer parecer algo para pessoas que jamais vão me ver de novo e, pior, na verdade nem estão prestando tanta atenção assim na minha condição de sozinha?

Continuei andando. Outro restaurante. Um vietnamita. Vontade de entrar. Passo reto. Vai que não é bom. Uma volta por fora em Leicester Square. Quanta gente andando na rua nesse frio. Será que as facas vêm de dentro mesmo? Eu achava que estava sendo furada pelo vento, mas talvez não. Quando minhas três camadas de roupas não são mais suficientes para me manterem nas condições normais de temperatura e pressão, e meu estômago ronca e minha bexiga aperta, resolvo parar. Um italiano ali, um rice and noodles, um Subway, um Pizza Hut. Rice and noodles. Arroz misto e frango agridoce numa caixa de papelão. “Eat in or take away?” Take away, respondi, quase ofendida. “No, no, sorry, eat in. Yes, eat in”. A atendente sorriu, quase complacente. Ela entende. Ou estava apenas sendo educada quando na verdade queria me chamar de stupid cow. Sentei num banquinho e comi. Peguei o celular. Ligo para a Piu. Nada. A Broo está com o papi dela que vai embora amanhã. Ernesto em Barcelona, Marinella em Amsterdã. Myriam sempre cheia das baladas. Chris. Ficamos de nos ver nesse fim de semana, certo? Certo. Liguei, chama e ninguém atende. Caixa postal. Não deixo recado. Acabo de comer, só então percebendo o rombo que havia no meu estômago. Mais um passeio pela praça. Paro no All Bar One para fazer xixi. Uma vontade imensa de ser segura o suficiente para ficar lá sozinha sem fechar a cara e o coração. Mas não consigo, pelo jeito. Não sou tão cool assim.

Faço xixi e vou embora. Minha Piu me liga. Falo com ela um tequinho, um tequinho antes de dar uma leve desmoronada em meu regime e comprar um waffle com sorvete do Ben & Jerry. Malditos todos os fabricantes de açúcar foda do planeta. Eu estava indo tão bem. Mas amanhã eu volto, prometo. Fui para casa para constatar, um ‘cadim mais, que meus queridos flatmates têm me irritado. Não sei explicar bem porquê. Irritaram sem fazer nada demais. Agora escrevo, fone nos ouvidos, eles estão deitados às minhas costas, vendo TV, inofensivos, cansados também, porque todos nós estamos sempre cansados mesmo quando acabamos de descansar. O fracasso do ser humano é deixar que o cansaço dite quando se deve descansar.

E me imaginando terminando de escrever isso aqui e indo ler meu livro na cama, ou respondendo um email, ou qualquer outra coisa que seja minha e só minha e que me deixe nesse meu autismo que tanto cultivo para depois escrever, aqui, reclamando.

Saturday, November 12, 2005

troca de guarda

Faltando ainda 38 dias para ir ao Brasil e eu me pego já pensando em cada momento, cada coisinha, desde o pouso do avião. até as pessoas me esperando no aeroporto, até a chegada em casa, o barulho da porta rangendo, o cheiro de feijão da Ligia, os cheiros, os cheiros. O calor, o mal-jeito jeitoso do brasileiro. Tudo. Acho que vou entrar em parafuso.

Enquanto isso, para tentar segurar a ansiedade (ficar nessas por mais 38 dias vai ser bastaaaante sofrido), penso na viagem da semana que vem. E penso que preciso resolver minhas pendências empregatícias logo. E penso que a idéia de mudar de casa vai ter que ser bem considerável nos próximos meses. E penso que dia 3 de dezembro vou para Brighton comemorar mais um aninho dos 95 que meu tio-avô viveu até hoje. Aquela coisa fofa.

Enfim, hoje foi mais um sábado de trabalho, amanhã mais um domingo de trabalho, e assim vou apagando, um a um, os fins de semana que não existiram em 2005. Ontem fui assistir a The Constant Gardener, o novo filme do Fernando Meirelles cujo nome em português ignoro. Achei muito bom, mas prefiri Cidade de Deus. Aliás, engraçadíssimo: estava saindo do cinema em Kilburn, na companhia da Broo (bem melhor que Bru, não?), Paulinha e Renata, quando vejo aquele poste com um chumaço branco no topo: uncle John! Uncle John e a Bruxa foram ver o mesmo filme, uma sessão mais tarde. Foi tudo bem rápido porque a bruxa da Bruxa estava ansiosa para entrar logo (isso porque aqui cinema tem cadeira marcada, mas enfim, bruxa é bruxa). Saindo do cinema fomos num pub-restaurante foférrimo, sugestão da Broo, que já foi uma Garota de Kilburn.

E aí dormi na casa da Broo e mais uma vez descobri que felicidade responde pelo nome de FUTON. Dormi como um anjo naquele futon duro e confortável. Preciso comprar um ou minhas costas vão morrer.

Agora estou aqui, insistindo para assistir a um filme que os meninos não querem assistir, eles, malditos monopolizadores da TV e do DVD e da Sky. Eu nunca peço porra nenhuma, porque nunca estou em casa ou acordada para ficar vendo programas. Quando peço, uma vez, uminha, para assistir a um filme, recebo um NAO e um olhar indignado, tipo, já-vimos-esse-filme.

Fodam-se. Vou ler e dormir que ganho mais.

Não, vou lutar pelos meus direitos de moradora dessa casa, malditos sacos de testosterona mal-conduzida. Vou lutar e depois conto como foi. Estou ficando de mau humor.

Wednesday, November 09, 2005

rápidas

* Estou de regime e agora é sério (tem que ser, tem que ser, não quero chegar no Brasil um balão).

* Eu e Bru já bookamos os albergues em que ficaremos. Daqui a uma semana voamos para Escócia. Hurrah!

* Aiai. Tô cansada, viu? Amanhã trabalho das 8am até 10:30pm. Sério.

* O trabalho de Kingston, tudo indica, vai rolar. Eu já comecei a achar que era lenda, mas a moça da agência disse que o chefão estava todo angustiado pensando que com a demora da papelada eu poderia desistir da vaga.

* Entreguei meu primeiro essay para o curso na Birkbeck. Eu gostei, apesar de não ter dado tempo de revisar.

* Ando de saco cheio do Mr. Suécia. Ele é meio tantan. E em dezembro teremos nova flatmate, uma alemã que parece ser bem legal. Ela vai ficar no lugar da sul-africana. Não ficarei em luto com a partida.

* Faltam 41 dias.

Friday, November 04, 2005

no chão

Essa noite dormi no chão. Me enchi o saco do colchão, arregacei um lençol e me mudei para o chão. Queria dormir no que fosse mais duro possível. Dormi feito anjo. E minhas costas estão melhor hoje. O negócio vai ser repetir a dose, até resolver comprar um colchão decente afinal.

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A sentença daquele lance do carro roubado finalmente saiu. Não poderia ter sido mais positiva, segundo meus advogados Ivan (oficial) e Thathá (especial). Fiquei muito feliz. Após dois anos na justiça, o caso foi finalmente julgado. Só que agora eles podem recorrer e aí são mais não sei quantos anos. Eles vão recorrer, obviamente. Quanto mais for possível usar do poder judiciário para postergar uma dívida (o bom e velho empurrando com a barriga), mais se fará uso disso. Babacas. Anyway, terão que pagar, uma hora ou outra. Não quero saber de onde vem o dinheiro, mas ele tem que vir. E virá.

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Quarta-feira fui com a Marinella num workshop chamado Landmark Forum. Já ouviram falar? Bom, resumindo, é um empresa que vende felicidade. Eles garantem que após três dias de curso intensivo, você será uma nova pessoa, capaz de resolver todo e cada problema da sua vida. Você será capaz de descobrir quem são realmente as pessoas que te cercam e quem é a pessoa mais importante na sua vida, você.

Na boa, se eu conseguir isso em três dias é capaz de ao final deles me sucidar. Pela estupidez de não ser capaz de descobrir em 25 anos o que completos estranhos desvelam em três dias. Ao preço de £300. Ótimas intenções, tenho certeza, mas thanks but no thanks.

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Daqui a pouco vou encontrar os queridos Marius e Steeeeeve, da BMI, antigo trampo, lembram? Marius, a bicha romena que eu adoro, Steeeeve, que ameaçou me roubar do Chris (na verdade eu ameacei largar do Chris por ele, ele não fez patavinas, do alto de seu topete cor-de-burro-quando-foge). Vai ser legal. E no fim de semana vou tentar dar um jeito de encontrar o Chris depois do trampo. Porque eu e ele não temos mais nada a ver, e exatamente por isso nada nos impede de encontros fortuitos e felizes.

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Ontem, Sam e eu, daydreaming na recepção da Cannons, resolvemos que ela vai comigo pro Brasil ano que vem e eu vou para Nova Zelândia e Hong Kong com ela. Ela é neo-zelandeza e hong-konguiana (como se chama quem vem de Hong Kong?). Uma fofa. Minha maior companhia no Cannons. Fofa demais. Tem até foto nossa na recepção da Cannons no meu álbum do Yahoo.

Mas foi só um daydreaming. Pouco depois ela disse que iria fazer bronzeamento artificial, mas que odiava aquelas cápsulas em que não se pode fazer nada, apenas existir na cápsula, e por isso ela conta. Conta, fica contando. Um, dois, três... Não é MUITO FOFO?

Vou sentir falta da Sam quando deixar a Cannons.

Wednesday, November 02, 2005

inscrições abertas

Venham, venham! Essa oportunidade é única. Estou anunciando espaços livres no meu coração. Não só no sentido amor carnal. Não. Esse não anuncio porque não garanto poder proporcionar. Anuncio vagas no estacionamento apenas. Estou aberta a ser legal com as pessoas, a deixá-las entrar na minha vida. Estou aberta a gostar. A fazer amigos. A poder passar com alguém(ns) o pouco do tempo que nos sobra - que parece muito tempo quando se está sozinha.

Estou me sentindo assim, completamente abandonada, cheia de tiradas e cometários que só faço pensar. Minha boca está atrofiando. Não falo mais português, estou realmente pensando mais em inglês que em português ultimamente. Como é que se pode ser uma pessoa complexa em duas línguas? Isso me faz duas vezes mais complexa que o resto do mundo, ou meia vez?

Isso realmente importa? No momento o que importa é que minha vida está ficando mais interessante. Não sou mais aquela pessoa resmungando que a vida foi filha da puta o ano todo, e que várias vezes pensei em dar um fim (à filhadaputagem, não à vida) a isso a meu bronco e estúpido modo. Mas não. Eu soube esperar. Eu soube me desesperar driblando o acelerador do meu coração. E minha vida começa a ter alguma cor, com dinheiro no bolso, novo emprego, ida ao Brasil, um curso legal. Só falta as pessoinhas para ocupar as vagas vazias. Falta com quem dividir isso tudo. Todo dia. Minha vida inteira me acostumei a falar da minha vida, mesmo quando não queria. Não dá para ficar sem isso de uma hora para a outra. As vagas estão abertas até eu dizer chega.

Tuesday, November 01, 2005

agora é oficial

Estou viciada em Su Doku.

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Dias lindos têm feito aqui. Daqueles de pendurar a roupa no varal de fora. Algo errado, muito errado. Eu finjo que não é comigo. Já basta a escuridão que é às 5pm. Que o sol e céu azul sejam eternos enquanto durem. Meteorologistas (catastrofistas?) estimam que este será o inverno mais frio dos últimos 40 anos. Bem possível que eu já tenha escrito isso aqui. Só lembrando. Mas eu não penso, não penso. Saio de casa de óculos escuros e guarda-chuva, just in case, just in case. Precaução é sobrevivência em Londres.

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Estou ficando realmente viciada em Su Doku.

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Estou ficando realmente irritada com meu colchão. Acho que vai ser o presente que vou me dar quando começar no novo trampo.

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Um mundo de saudades invade o mundo de verdades. Acho que a perspectiva de reencontrar meus amados todos faz com que eu me permita sentir saudades. Saudades que sempre estiveram aqui mas a que nunca pude dar vazão porque simplesmente, se desse vazão, eu voltava, ou morria, ou enlouquecia, qualquer coisa que eu não quero agora. Saudade só é dor boa de sentir quando está prestes a não ser mais. Que nem sauna. Sauna só é boa quando há um chuveiro gelado por perto.

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Vocês sabem o que é Su Doku? Nãããão? Pois pesquisem. Hoje vou trabalhar fazendo Su Doku no trem.

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Falei que ontem saí com o Chris antes do meu curso? E que ele está vindo morar em Canary Wharf? E que nos abraçamos muito e que foi bom? E que nos beijamos? Ahn, e que estou viciada em Su Doku?

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E o curso, o curso. Ensaio maldito. Comecei a pescar umas coisinhas já. Uma hora eu sento a bunda e sai tudo numa rajada (soou meio mal, mas deu para sacar). Comigo é assim. Se pá, hoje decido que jornal vou analisar. Estou entre o Daily Mail, o Daily Mirror e o Evening Standard. Me divirto à beça com os tablóides. Eles pecam pela obviedade. Vai ser fácil analisar a semiótica de um jornal que não esconde a que veio.

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Aiai. Estou cheia de amor para dar.

Monday, October 31, 2005

amanhã é 23

Vinte e três dias exatos que trabalho sem um dia de descanso. Seria muito mais, não fosse minha assertividade mais que vital para dizer não, ao menos uma vez, para o pessoal do trabalho. Estou aprendendo. Não só falei não, como "possovelmente nunca mais" para St. George's. Já avisei Cannons que em breve abandonarei o barco por lá também. Ainda preciso de uma dose de assertividade para falar para o Imperial College que valeu, mas não vai rolar dessa vez. E assumir novamente minha confortável posição de mono-trampo, nine-to-five, de que só reclama quem nunca trabalhou five-to-nine, am-pm. Acreditem, eu já. E não é tão legal e ainda assim me esforço para conseguir pagar o aluguel e as contas e o maldito cartão de crédito, meu contrato com o diabo. Graças ao cartão de crédito comprei meu iPod que me quebrou as pernas. Adoro ele, meu nano, mas foi deveras irresponsável comprá-lo. Só eu sei. Meda, pânica, horrora, desespera, socorra quando vi minha conta baixar a marca dos £100 este mês.

Mas tudo passou. Passou mesmo. E meu novo emprego deve me deixar bem mais, ahn, confortável. Paga mais do que eu jamais ganhei.

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Estou aqui now and then; assino como Bee S.

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Estou realmente penando um tequinho para fazer esse primeiro essay do curso da facul. Nunca imaginei que isso fosse acontecer, mas hoje serei uma dessas que ficam segurando o professor depois da aula para pedir ajuda particular. Céus, como sou mala. Entendo todos os preceitos, teorias, estou feliz da vida ao notar o universo semiótico se abrindo num sorriso para mim. Mas não adianta, esse semiotas (semióticos + idiotas) falam de comunicação para lá, comunicação para cá, mas o que menos fazem é comunicar. Incrível pensar que essa é uma disciplina fundamental a quem estuda comunicação. Mas sempre há quem ache bela a língua alemã só porque faz parte do seleto grupo dos que a dominam também. Ah, o gozo do conhecimento partilhado por poucos. No worries, eu também já tive muitas alegriazinhas assim. Aí passou.

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Preciso encerrar este post em breve. Vou me encontrar com o glorioso Chris. Ontem, assistindo Betty Blue na Sky, lembrei muito de nós dois em algumas cenas crássicas (crassas + clássicas) e na mesma hora ele ligou. Vai se mudar para Canary Wharf em uma semana. Vamos morar alguns minutos um do outro. Tipo uns 20 andando. Não vai prestar.

Mas vai ser legal.

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E quarta-feira vou com a Marinella num workshop e sexta vou almoçar com meus queridos Marius e Steve da BMI e, ufff, viram só como sou popular? Saudade de tanta gente... Nada melhor que se enganar com dois ou três minutos longe de qualquer realidade.

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Estou pensando seriamente em investir um pouco do dinheiro que não tenho num colchão novo. Minhas costas estão cada dia pior. Merda de landlord muquirana que comprou o colchão mais barato DO MUNDO para pôr na minha cama. Mongolóide.

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Hoje eu deveria ter pesquisado hotéis na Escócia e na Irlanda para mim e Bruninha, mas vai ficar para outro dia. Quase não consegui escrever no blog como havia me prometido. Nem adiantei meu essay porque NAO SEI POR ONDE COMEÇAR. Isso só me acontece em inglês mesmo.

Ouvindo The Dancer da PJ Harvey no repeat. Isso só pode ser sinal de inspiração. Vou ali ver o Chris e seguir direto pro meu curso.

Uninspired.

Wednesday, October 26, 2005

brainstorm

Vou tentar descrever para vocês como está meu cérebro, descivilizadamente:

Ai eu mereço essa viagem eu e Bru e talvez Paulinha e talvez outras pessoas mais sempre quis conhecer a Escócia e a Irlanda tickets comprados ainda bem será que vai dar tempo de tomar banho antes do trabalho acho bom dar porque ontem não tomei banho que medo de começar o novo trabalho será que vai rolar mesmo ou é mais uma pegadinha não posso esquecer de tomar Goody's enxaqueca bombando saco saco saco David Gray é mesmo muito legal amanhã é niver do meu Putão e eu estou aqui até convite pra festa o desgraçado me mandou ele me paga faltam menos de oito semanas para ir ao brasil sonhei que minha irmã também era salva-vidas essa noite e também que o Manager me agarrava coisa boa quisera eu ano novo vai ser em Duas Marias família sossego cheiro e comida de infância mami e Piu mato calor não sei se meeu coração agüenta tanta felicidade preciso lembrar de marcar dentista e ginecologista no Brasil o Chris ficou de me ligar no final dessa semana ele foi tão legal na última vez que nos falamos ele viu que eu não tava bem mas agora estou ele já devia ter se acostumado com a montanha russa que é estar ao meu lado tudo muda em uma semana e eu vou com a onda não tenho culpa o curso tá bem legal mas porra tenho que escrever um essay de 1,500 palavras para segunda-feira sem ser essa a outr 1,500 palavras é pouco para o tema que ele pediu análise semiótica dos jornais nunca pensei que fosse realmente REALMENTE entender semiótica sinto que aprendi uma nova língua ai quantos emails pra responder bobby me escreveu perguntado cadê eu mas eu escrevi perguntando cadê ela e mais uma vez não sabemos quem sumiu primeiro mas adorei mesmo o sonho com o Manager pena que vou abandoná-lo ou melhor falando abandonar a possibilidade eu certamente me divertiria com ele mas aquele lugar paga muito mal ninguém merece ainda preciso avisar o pessoal do Imperial College que o sim que eu disse é não não vou mais trabalhar com eles não vejo a hora de ganhar decentemente mas não vejo a hora de ter merecidos cinco dias de descanso na Escócia e Irlanda o que será que vou gostar mais Edimburgo Dublin sudoeste irlandês ou cork vai ser demais e sexta-feira trabalho num lugar em Covent Garden chamado The Sanctuary um spa todo posh e saio as três e de lá vou pra Cannons onde encontro com Bru e vamos nos esforçar merecidamente em nosso descanso ai spa sauna piscina ginástica uma aulinha de Pilates maybe qualquer coisa que quisermos é bom trabalhar lá também vou sentir falta se bem que quero continuar trabalhando ao menos uma vez por semana para poder usar a academia e a piscina depois do trabalho nem é fora de mão de repente eu trabalho de sábado e pronto caralho 11:22 se não for tomar banho agora não tomo mais não esquecer o goody's para enxaqueca pelo menos já me livrei de faxinar a cozinha.

Sunday, October 23, 2005

grito de dor feliz

Estou cansada. Dormi menos de sete horas nas últimas três noites; menos de oito nas últimas semanas. Estou cansada mas estou sorrindo. Meio xingando o mundo, mas eu sou assim, xinguenta, rabugenta. Ainda assim sorrindo. Um sorriso que é mais um rasgo na diagonal, mas ainda assim um sorriso. Torto de guerra. Sou uma puta guerreira, é isso que sou. Não paro porque não posso parar. Se parar, morro, tal qual uma guerreira. Nunca o termo foi tão bem aplicado. Me orgulho do peito ferido, do coração esmagado, das marcass de pneus nas minhas costas. Me orgulho das marcas de bota na bunda, das bolhas nesses pés que só fazem andar, dessas mãos que derrubam tudo, mas não desistem de levantar tudo o que derrubam.

Sinto-me perfeitamente confortável com olheiras e ombros duros. Meio assustador, porque se me pego sem fazer nada, a guerra começa na minha cabeça.

Hoje a Fru voltou para o Brasil, mas não sei se quero falar disso. Não sei se quero falar da pessoa que me foi mais importante aqui, junto com a Bobby. Não sei se quero lembrar o quanto rimos e choramos e ignoramos o silêncio juntas. Não sei se quero entender que estou mais sozinha ainda. Eu, que já vinha me sentindo cada vez mais sozinha. Não sei se quero guardar na memória nossos rosto contorcidos de choro de despedida. Sei que vou vê-la no Brasil em menos de dois meses, mas, ninguém vai entender, ela é parte de Londres para mim. Ela está aqui comigo desde meu terceiro mês por aqui. Ela indo embora equaliza Londres faltando um pedaço. Para mim, a vida aqui perdeu um pouquinho mais da graça. Que já não é mais a mesma anyway.

Olha, não me venham com papinho de que sou pessimista. Vem aqui pôr o cu na pimenta um tequinho para entender. Não tenho tempo para chorar.

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Estou querendo uns dias de luxo. Novidades mais concretas, quando a vontade se fizer concreta. E possível, for a change. Por enquanto, luxo é aquilo que posso ver sem tocar. Nem sempre foi assim. Sinal de que nem sempre será.

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Fui chamada para trabalho permanente no Imperial College. Eles estão inaugurando um novo centro esportivo do caralho, piscina semi-olímpica e pans, e eu faria um papel meio que de tudo: salva-vidas, recepcionista, supervisora esportiva, instrutora sabe deus do quê...

Eu disse sim.

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Então começo meu trampo novo no começo de dezembro. Até lá, muito trampo para pagar as contas. Quando o trampo novo começar, quero crer que minha vida vai entrar nos eixos. Vou ganhar relativamente bem.

De qualquer maneira, amanhã tenho entrevista em Kingston. A terceira. Palhaçada. Nem sei se quero mesmo. Vou por desencargo de consciência e para entender porque eles querem me ver pela terceira vez. Mas é isso. Não irei uma quarta vez, a não ser que seja para de fato trabalhar. Faz tempo que o mundo já não é mais uma criança carente pedindo dinheiro no farol e ganhando minha compaixão e meu bolso. Não dou nada de graça para o mundo se não houver a perspectiva de receber. E se recebo primeiro, dou um pouco de volta, e mais um pouco, e mais um pouco. De pouco em pouco, para me iludir com a idéia deliciosa de que o mundo sempre vai me dar e vez ou outra receber.

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Dia 18 foi aniversário do meu Hemingway. Ele me disse ao telefone, pouco antes de desligarmos: "Você escreve muito bem, né?" Acho que meu Hemingway não sabe o quanto isso significou para mim. Você, meu Hemingway, é uma das poucas pessoas para quem escrevo esse blog. A maioria apenas lê. Você, meu Hemingway, você recebe. Você sabe que é para você. Happy birthday, dear Hemingway. Quem sabe ano que vem não estarei na área para comemorarmos juntos?

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Sabem meu último post? Então. Na mesma noite sonhei com meu avô. Ele estava deitadinho, sereno, na cama do hospital. Eu, ao lado dele, segurando suas duas mãos com minhas duas mãos, um pavor de que qualquer parte dele escapasse por entre os dedos magros. Eu estava ali para me despedir. Dava um beijo em sua testa e saia. Ao lado de fora, uma excursão de crianças esperava para entrar no quarto também. Eu pensava, ufa, cheguei a tempo.

Obrigada, vovinho, por me deixar te dar adeus. Eu não sabia que você lia meu blog.

Sunday, October 16, 2005

floco de neve

Hoje meu avô faria 93 aninhos. Noventa e três aninhos se não tivesse partido alguns meses atrás, como leitores mais assíduos e mais memoriados hão de se lembrar.

Hoje tentei não pensar nisso para não deixar o dia pesado, mas todo mundo quis me lembrar. Todo mundo me perguntou que dia era hoje. Sixteenth of October. Eu tentava dizer da maneira mais vazia possível. Como se fosse apenas mais um dia como a maioria, mais um dia para carregar nas costas. Mas não é. Esse é o primeiro dia 16 de outubro em que não falo "feliz aniversário" para ninguém. É o primeiro 16 de outubro que me vem em gotas de saudade, uma saudade que sei que nunca irei saciar, por isso uma saudade serena e doída, saudade

Hoje meu velhinho faria noventa e três anos. Onde ele estiver, aqueles olhinhos cheios de história continuarão morando em mim. Quer ele queira, quer não. Eu só sinto muito e continuo sentindo muito por não ter podido me despedir. Sem a despedida, ainda fico meio perdida. Algumas vezes na última semana me deparei com a dúvida do que minha irmã poderia comprar para dar para meu avô em meu nome. Preciso entender de uma vez por todas que o que posso dar a ele não se compra e é bem mais precioso. Hoje, vovinho, te entrego meu pensamento. Todo ele foi seu. Todas as linhas que meus olhos correram lendo, vendo, piscando, não distraíram meu cérebro de você. Te dei minha saudade doce e doída de aniversário. Aceite, é de coração.

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Fim de semana besta, gripe besta. Em menos de uma semana a Fru volta pro Brasil. Acho que ainda não caiu a ficha. Não sei se quero que caia também. Dói. Cansei de doer.

Provavelmente nos veremos algumas vezes essa semana, antes do tchau derradeiro. E nem é um tchau tão sofrido por que nos veremos de novo em dois meses, no Brasil. Mas mesmo assim, ela sabe o papel importante que tem aqui dentro. Amiga que mora com a gente e continua amiga, é amiga pra vida inteira! Eu não tenho dúvidas de que minha pequena, apesar de todos os encalços, obstáculos, pedras no sapato e chiliques, é a minha pequena para sempre. Agora fodeu. Você sabe que pode cometer a maior cagada que uma amiga pode cometer e eu vou continuar te amando da mesma forma. Puta da vida, te xingando, chorando ou triste. Mas o amor é o mesmo. Sempre. Amo você. Amo tudo o que vivemos e passaria por tudo quantas vezes mais forem necessárias. E pediria desculpas mil vezes e aceitaria mil desculpas suas. Vale a pena passar pelo que for para te ter ao lado, all the way, ocupando o pódio do meu coração.

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Ontem assisti “Lucia e o Sexo” na TV. Na verdade, eu ia assistir “A Excêntrica Família de Antonia”, que havia gravado no Sky. Mas acabei deletando o filme sem saber direito porquê. De qualquer forma, valeu. “Lucia e o Sexo” é fabuloso. Roteiro incrível, diálogos bem bolados, trama contagiante e, claro, tema que nunca se esgota: sexo. Ou melhor, amor. Apesar de tantas cenas de sexo, esse é um filme, acima de tudo, sobre o amor.

Ontem, também, tive o primeiro encontro com um novo morador da casa: um rato. Ele me saudou passando correndo sobre meus pés descalços. Era um rato gelado. Fiquei apavorada. Não gritei nem nada, mas senti a adrenalina subindo minha espinha e meu pé se fechou numa bola que nem bailarina seria capaz. Subi correndo as escadas e me enfiei debaixo do meu edredon. Custei a dormir e pedi a Morfeu que me poupasse de sonhar com ratos, porque seria uma brincadeira de deveras mau gosto. Batizei o novo inquilino de Little Izac.

Tuesday, October 11, 2005

eu e o gato

Eu queria, juro que queria, poder dividir com vocês todos, amados leitores, lurkers e escancarados, conhecidos e desconhecidos, tudo o que se passa ao meu redor. Eu queria. Só para vocês verem que de fato minha vida é inundada por filmes. Geralmente os filmes são inundados por vidas, quero crer.

Mas eu não posso. Não posso expor tanta gente. Eu optei por ter um blog, não as pessoas que convivem comigo. Então não posso, não quero, não vou. Por isso uso pseudônimos, iniciais, nacionalidades, mil artimanhas. E por isso muitas vezes sou toda abstrata, um quadro de Miró. Você não entende nada, mas sabe que a Lua e a estrela estão lá, então só pode ser um quadro de Miró.

Aiai. Eu me comparando com Miró. O acinte. O fim.

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E outro dia estava andando pelas ruas de Mudchute. Devia ser 5:30h da manhã, eu estava indo pro trabalho - sim, sinta-se mal por reclamar do SEU trabalho - e no meio do delírio onírico que costumo ter a essa hora, vejo um gato. Não um gato qualquer. Um gato belo. Caramelo com um splash branco no focinho. Rabo bem peludo, empinado. Gato limpo. Coleira e tal. Na hora pensei que podia ser um gato perdido, sim, provavelmente era. Mas pensei que poderia ser apenas um gato tão domesticado que já ganhou a confiança do dono para deixá-lo passear por aí. Ou, mesmo que estivesse perdido, o que eu poderia fazer? Levar o gato para o trabalho? Deixá-lo afinado as garras na sauna seca? Pô-lo para correr na esteira? Desencanei.

Dia seguinte, num horário igualmente indigno, começo a caminhada de oito minutos até a estação de metrô e o que eu vejo? Não, não foi o gato. Foi uma placa pregada na árvore: Gato perdido, yadda yadda, dona sensível, yadda yadda, atende por Mr P., yadda yadda, é caramelo com splashes brancos, coleira e microchip. Me enfureci. Por que não puseram as placas no dia anterior? Se foderam, eu poderia ter feito a vida da dona sensível cor-de-rosa de novo. Segui andando para o metrô e pensando na ironia da história, na inversão temporal das coisas. Não fazia sentido. Chegando no metrô, o que eu vejo? Não, não foi o gato. Foi a dona pregando plaquinhas desesperadamente em tudo o que se projeto do chão. Caminhei até ela, uma senhora gorda, redonda mesmo, óculos, calça de moleton, nariz assado de gente deprimida. "Olha, minha senhora, eu vi seu gato passeando ontem por aquelas bandas ali, ó". Ela me olhou com um misto de esperança e ceticismo. Acho que não estava convencida de que eu tinha realmente visto o gato dela.

Aí fui embora. A história não saía da minha cabeça. Como pode? Apenas um dia e o gato que eu vi solto poderia estar de volta aos aconchegantes e gordos braços de quem lhe dava comida, bebida e cafuné.

Mais um dia se passa e na manhã seguinte lá vou eu, já na espera de ver a placa do gato, olhos atentos aos canteiros e arbustos, vai que eu via o gato de novo? Não tem gente que ganha mais de uma vez na lotto? Deve ter.

Eis que a placa não está lá. Foi arrancada. Todas as outras também. Para mim estava claro: haviam achado o gato. De fato, devem tê-lo achado. Fiquei feliz. Ao mesmo tempo, um vazio disputava espaço com a felicidade. Aquela era a MINHA história. EEEEU tinha visto o gato, EEEEU tinha encontrado a dona, EEEEU fui falar com ela. Como é que outra pessoa rouba o meu papel de anjo nessa história? Incrível. Eu e meu egoísmo. Mas acho que somos todos assim. Caridade nunca é só caridade. Se dando não se recebesse, seríamos cofres ancorados ao mar. Nada entra, nada sai. Eu, louca para fazer parte, louca para ser a agente da ativa dessa história, e por quê? Só para ser eu. Só para me redimir de tudo o que recebi sem autorização e resolvi não dar em troca.

Não funcionou. Quantos gatos precisam se perder para eu entender que o problema é que não é recebendo que se dá, mas é dando que se recebe? A verdade é que tenho medo de nunca receber. Acho que a vida me fez assim. Odeio esperar.

Friday, October 07, 2005

o fantástico mundo de Bobby

Qual a chance do dia ser uma merda quando a primeira coisa que leio é um email amado, amado, amado, de uma pessoa que eu levaria no bolso ou empoleirada no meu ombro para sempre se pudesse?

Oh, meu xuxu, se prepara pro abraco que eu vou te dar qdo nos vermos. Ontem eu contei pro John da briga que tivemos, e eu tentando ir pra cima da Bibi e ela me olhando quase rindo com uma cara de "fofa, voce ta delirando, eh so eu levantar meu braco que voce voa..."Ele quase chorou de rir. Eu disse que Bia eh Bia e sempre sera Bia. E que eu gosto da Bia, muito Bia, sempre Bia. Foi mais ou menos o que eu disse. Ele morreu de fofura e eu chorei.


Chance zero.

Monday, October 03, 2005

the only way is out

Você acredita no que eu escrevo? Pois não acredite. A partir de agora eu não acredito mais no que digo e penso. Tudo de que tenho certeza absoluta sempre vai ter um ponto de interrogação no final, daqui para frente, até eu aprender a me entender, me conhecer, saber quem sou e não quem gostaria de ser. É muito fácil fingir que sou o que gostaria de ser o tempo todo. Eu visto uma máscara (minha preferida é a de nada-me-abala-a-vida-é-uma-festa) e ela só cai quando a vida anda na minha direção, quando trombo com fatos que, na teoria, nem chegariam a ser fatos, tão insignificantes. Várias coisas disputam meu pensamento agora. Eu fico meio perdida, porque são pensamentos genuínos, a partir de coisas reais. Minha máscara está caindo e não aprendi a viver sem ela ainda. Tenho medo de chorar e a lágrima furar minha cara. Tenho medo de abraçar e quebrar os ossos. Tenho medo. Sou, enfim, uma pessoa como você. Uma vez uma leitora me disse que sonhou comigo e eu era uma espécie de Angelina Jolie naquele filme que ela era heroína de não me lembro o quê. Eu achei uma graça, mas fiquei a pensar se é essa a imagem que passo: de uma super-heroína cuja vida é cool e cujos obstáculos fazem cócegas. Não fazem.

A partir de agora, não acreditem mais no que eu digo. Acreditem apenas no que questiono. A dúvida é minha única certeza.

***

Fim de semana agitado. Alucinada. Dormi quase nada, mas trabalhei. Me arrastei o dia inteiro. Já está virando hobby esse negócio de dormir no quartinho de primeiros-socorros. Nada como um bom cochilo na maca. Sábado foi o housewarming da Fru e da Bruna. Foi uma delícia rever tanta gente legal que acabei perdendo o contato porque sou uma anta de tetas workaholic. Tudo culpa minha. A Paulinha, por exemplo, é uma amiga da PUC que está aqui já faz três meses e sábado foi a primeira vez em que a vi. Claro que minha vida está uma correria e yadda yadda, mas eu podia ter dado um jeito. No final, combinamos de nos encontrar com mais freqüência, já que ela está morando em Bermondsey, não muito longe de mim. Também reencontrei a Camila, ex-flatmate do Ernesto, uma fofa que é a enxaqueca em pessoa, mas é fofa. Poucos sabem o quanto ela é doce.

Enfim, levei meus flatmates, Mr. Australia e Mr. Suécia, para a festa. Eles se divertiram. Bastante. Mas, sei lá, se pudesse voltar no tempo acho que não os teria levado, não. Mas xapralá. Eu me diverti, eles se divertiram, todos se divertiram e é isso que importa, ou que deveria importar. Se ficou um gosto amargo no final é porque eu precisava aprender - mais uma vez, mais uma vez - que não há doce absoluto. Até quindim tem seu lado perversamente amargo. Não há exceções. Um dia, um dia eu quero voltar a ser imaculada. Quero voltar a ser pura. Voltar a pensar que existe certo e errado e que eu saio ganhando fazendo o certo. Um dia quero escolher o Bem novamente, acreditar que há essa alternativa. Acreditar que uma porta quadrada, definida, iluminada, me espera em alguma ponta do labirinto. Chega de portas semi-abertas. Chega de portas semi-fechadas.

Thursday, September 29, 2005

depois do afeto

Apesar de ter metido o pé na jaca no meu regime, tenho me sentido linda. Gatinhos na área. Alguns mais, alguns menos, alguns novos e alguns velhos. O Chris, por exemplo, resolveu reaparecer. Combinamos de nos ver semana passada. Fomos num pub no final da tarde, depois do trabalho de ambos. Conversamos muito, tudo muito divertido, ele fofo, eu fofa, somos fofos afinal. Aí no final fomos nos despedir e, tchuf, o moço atola a mão na minha bunda. Ah, Chris, não é assim que se faz. Tudo errado.

Definitivamente passado.

Meu atual foco não é Manager, não é Malandro, não é Chris. É o Mr Austrália.

Tá. Pode ser a maior cagada dos últimos tempos (e olha que pra ser maior cagada nos últimos tempos tem que feder meeeesmo), mas, cara, tá foda. E se digo que está é porque está mesmo. Fruquinha amiga e leitora assídua não me deixa mentir e estava presente no digníssimo housewarming que fizemos aqui. Ela conheceu meus novos flatmates e aprovou o mocinho, claro, ele é todo aprovável. Provável, na conotação, ahn, gastronômica da palavra.

Mas pára, Bia, pára. Não bom. Ele mora com você e vai morar com você por sabe deus quanto tempo mais. Ele vai trazer menininhas para dormir no quarto dele. Eu pretendo muito decentemente trazer rapazinhos para dormir no meu quarto. Não vai ser legal ver olhos injetados de ciúmes de nenhuma parte. Não quero correr o risco de me sentir incomodada com a idéia de trazer algum carinha em casa, nem com a idéia de vê-lo chegar com uma sirigaita. Assim sendo, declaro e assino aqui que só darei o próximo passo (que promete ser deliciosamente cheio de beijos e amassos, ufff) se for para fazer direito. Brincar sério, se é que vocês me entendem.

Mudemos de assunto e só voltemos a este quando eu tiver NOTÍCIAS, e não POSSIBILIDADES.

Fui a uma entrevista na segunda-feira. Não gostei. Serviu para eu conhecer Kingston, ao sul de Wimbledon. Uma gracinha de vila. Mas não rolará ir todo dia para lá, ainda mais que não achei o lugar tão bacana assim. O negócio é que eles gostaram de mim, e querem me ver novamente, e eu não quero e não sei ainda o que vou fazer. Aí quarta tive outra entrevista, em Highgate Village, uma coooooisa de região, norte de Londres, próximo de Hampstead, ladeirinhas, casas vitorianas, praças de paralelepípedos, tudo pequeno, tudo lindo. Adorei o trampo. Tô na expectativa de que dê certo. Mesmo. Amanh㘘tenho outra entrevista, dessa vez para salva-vidas, para um trampo que paga bem melhor. Dinheiro é coisa do bem. Todo mundo merece.

E segunda-feira tem uma surpresa. Além do curso, que está indo muito bem, e que vocês poderão acompanhar mais de perto no meu blog recém-nascido. A surpresa fica para quando ela deixar de ser POSSIBILIDADE e virar FATO, ok? Cansei de me iludir e iludir vocês, fofos leitores.

E é isso. Minha vida está quase boa de novo. Nota 6.0. Falta bastante tempero, mas os ingredientes básicos já estão cozinhando.

Wednesday, September 28, 2005

o sétimo filho

Queridos, amados, conhecidos, desconhecidos: hoje pari meu sétimo filho eletrônico. Desta vez, nasceu nerd, de óculos e livro em punhos, com bafo de quem fica muito tempo sem falar, com teorias por trás de qualquer prática. Meu primeiro filho gringo, inclusive. Educadinho a falar inglês desde o nascimento. Meu filho acadêmico. Na verdade, nasceu como lição de casa do curso que comecei a fazer na University of London na última segunda-feira. Evitem morte prematura: visitem, leiam e comentem.

Ele está aqui, ó: Blame it on Media!

Friday, September 23, 2005

working my arse out

Basicamente sumi e basicamente serei breve agora porque estou trabalhando muito mais que um dia sonhei. E isso porque, entre outras coisas, não tenho dinheiro para comprar um iPod nano como o que comprei alguns dias atrás. Foi tão fácil... Entrei no site da Apple Store, nenhuma taxa de entrega, algumas AirMiles colecionáveis e a lembrança de como eu e meu iPod Shuffle nos dávamos bem antes de ser seqüestrado sem pedido de resgate.

Depois de mais uma semana de self-pity (juro que tentei evitar, mas aconteceu), resolvi me dar esse *treat*. E para me dar esse treat, tive que sacrificar dias de merecida bundação para trabalhar como ontem, por exemplo, das 6:30h às 21:30h, com meia hora de intervalo, o tempo de subir no metrô e ir de um trampo ao outro.

Ridículo, babaca, sem graça. Mas foi. Trabalho logo mais e o fim de semana inteiro e a semana inteira, claro. Esse iPod nano é bom ser a coisa mais *fofa* dos últimos tempos, porque me custou bem mais que £140 no final. Custou um tequinho da minha saúde.

Novamente, aquele blablablá: estou atrasada em meus emails, posts, escritos, falados, telefonemas, tudo. Não sei se um dia chegarei a ficar realmente em dia com tudo. Desconfio que não, mas tento não falar isso muito alto em caso de eu ouvir. O eu obsessivo-compulsivo que não agüenta nada pendente, nem mesmo uma vontade mínima de fazer xixi. Não muito longe do ódio de existir na forma humana, que permite estar consciente de que há uma vontade de fazer xixi; há, portanto, a necessidade de uma privada e, preferivelmente, um rolo de papel higiênico.

Ai, tô pirando demais. Mesmo meus leitores mais costumazes não devem estar entendendo nada. Não os culpo: eu também já não entendo mais.

Saturday, September 17, 2005

aonde foi parar minha casa ou a metáfora do ponto de ônibus

Outro dia estava saindo do trabalho, no ponto de ônibus, e um cara senta ao meu lado. Distraído, ele não viu o ônibus dele chegando e quase partindo. Levantou esbaforido e saiu correndo. Eu gritei, ei, moço, não esquece sua sacola! E ele respondeu "sorry". Tudo bem que inglês pede desculpas até por respirar mas a questão é que, em vez de agradecer, ele se desculpou. Como se fosse uma ofensa esquecer uma sacolinha, uma dessas small brown bags, no banco do ponto de ônibus. Como se, enfim, eu fosse achar que naquela sacolinha de papel estivesse uma bomba.

Aqui está assim. Uma neura sem tamanho, mas não sem fundamento. Agora Londres é parte do crescente número de cidades *com histórico*. Enquanto qualquer cidade for *sem histórico* de terrorismo, nenhuma precaução é justificada, qualquer alerta é alarde, uma ameaça é só uma ameaça e uma sacola esquecida e recuperada é agradecida, e não desculpada.

Claro que somado ao fato de morar numa cidade *com histórico* está minha desilusão com o rumo que minha vida tomou aqui. Não estou querendo soar fatalista; tudo pode mudar e as coisas podem parecer menos negras ou até coloridas dentro de alguns meses. Mas por enquanto meu gráfico está caminhando para a abcissa.

Essa semana, inclusive, bati meu recorde. Não consegui o mestrado, não consegui Reader's Digest, não consegui IMP, nem uma noite, er, quentinha ao lado do Malandro consegui. Ficamos assistindo devedê. Supimpa. Devedê my ass, meu filho.

Três da manhã e lá fui eu de volta para casa de táxi, pensando que de fato tudo o que realmente quero não tem acontecido. Onde eu errei? O que está faltando? O que está sobrando? Quantas voltas mais o mundo precisa dar para começar a girar para o lado contrário - o certo? Quando todos esses nãos vão fazer algum sentido? Estou esperando a hora em que vai me dar o tal do clique. Que vou entender por que, como todos dizem, tudo aconteceu de forma a me contrariar mas só porque lá na frente vai fazer sentido. Estou esperando para ligar os pontos. Estou há meses com o lápis na mão. Espero que na hora em que houver pontos a ser ligados *lá na frente* eu não tenha quebrado a ponta.

De repente me senti sozinha de novo. Bobbynha me mandando text messages de L.A., aquela fofa. Fruquinha me afofando o quanto pode, aquela fofa. Mas ainda assim me sinto sozinha. Todas as pessoas importantes na minha vida estão longe de mim. Não sobrou uma, UMA. Todas moram no meu coração, mas eu quero *tocá-las*. Beijar molhado a bochecha da minha mãe, arrancar o nariz da minha irmã, balançar a lela do meu pai,mordiscar a bochecha da Bathatha, passar a mão na testinha enrugada da minha avó, beijar a careca do meu avô (que saudade, que saudade), beijar o olho do Putão, apertar o queixo da Cá, esmagar o braço da Dé, e apertar tantos outros braços e testas de tantos fofos com braços e testas apertáveis. Minhas saudades começam a sair pelos poros, no suor, no movimento rápido dos olhos, nos suspiros mais e mais freqüentes, em lágrimas que inevitavelmente me escapam - já nem luto mais.

Que medo de desabar mesmo.

Thursday, September 15, 2005

babylon

Sem aviso a vida desaba. Um precipício raso, mas ainda assim precipício. Eu prometo não gritar quando chegar a hora de me atirar. Porque todas as decepções que eu podia ter esse ano não cabem num grito, nem o fazem valer a pena. Cair nem seria assim tão ruim, para quem se estatelou sem sair do lugar.

O mestrado não vai rolar. Basicamente, o diretor do curso acha meu inglês escrito fraco para um curso dentro do Departamento de Inglês. E, agora, looking back, concordo com ele. Não quero estudar aqui, investir tempo e dinheiro, para ser aluna nota 5.0. Nunca fui, nunca quero ser.

Agora é hora de repensar minha vida aqui. Não vim pra Londres pra ser salva-vidas. No matter how cool alguns acham, esse trabalho é bem entediante. Então, o negócio é tentar entender o que está me esperando aqui realmente. Quero ficar mais um tempo aqui. Minha hora ainda não chegou. Tenho alguns trabalhos esperando resposta. Reader's Digest obviamente não vai rolar, mas ainda não recebi resposta da outra empresa, IMP. E tem ainda outras coisas. Estou pensando em fazer short courses, para continuar pensando. Não quero parar de pensar, porque eu sem pensar, ou pensando para dentro, sou um perigo. Atestado por minha psiquiatra.

**

E depois de chorar pra burro com a falha no mestrado, resolvi, no bom e velho estilo I'm-a-survivor, sacudir. Let go your heart, let go your head. O mundo continua desabando, eu continuo me estatelando sem sair do lugar, o precipício canta meu nome, mas eu não vou. Ainda não.

Hoje vou sair com o Malandro. Não sei aonde vamos, não sei sobre o que conversaremos, não sei se vou continuar curtindo a idéia de curti-lo, não sei. E estou adorando a idéia de não saber.

Depois conto do Manager. Estou atrasada e preciso tomar um banho caprichado hoje. Porque termino o trampo às 22h30 e de lá vou encontrar o Malandro e sei que a noite vai ser só uma criança.

Sunday, September 11, 2005

cyberlove

Não. Não é isso que vocês estão pensando. Não encontrei um amor virtual. É o mundo virtual que eu amo. Essa é uma declaração de amor à internet. Internet, obrigada por você existir e me manter tão próxima a um passado amado, aos amados de ontem e hoje e sempre. Aos leitores que nem me conhecem e mandam ondinhas de amor - eu sei, eu sinto.

Estou com internet em casa. No meu colo, para ser exata. Enquanto Mr Austrália e Mr Suécia assistem a Dogville no DVD, digito freneticamente.

Minha vida está em apnéia até amanhã, quando muita coisa vai ficar clara na minha vida. Amanhã sai a resposta do mestrado. Se rolar, começo a estudar já no mês que vem. Isso significa que tenho que ler, em um mês, uns 7 livros, entre eles Ulysses. Sim, sim. Se rolar o mestrado estarei pretty much fucked até sabe deus quando. De qualquer maneira, não quero que nada atrapalhe minha ida ao Brasil. Mesmo que tenha que levar livros & cia a tiracolo.

**[pausa para comentário urgente] Gente, o australiano deitou aqui do meu lado, a cabeça a uma régua escolar de distância. Puta vontade de fazer um cafuné. Ele é um fofo. [/pausa para comentário urgente]**

A entrevista de sexta, a segunda que fiz na Reader's Digest, foi uma bosta. Quer dizer, isso foi o que eu achei. Jamais me contrataria se tivesse assistido àquela apresentação. Tive brancos, ri de nervoso, troquei palavras, coisa mais difícil que é embromar em inglês. Não que eu tivesse a intenção de embromar, mas entrevista de emprego precisa ter uns floreamentos. Você não responde simplesmente "não". Responde "não, mas acho que se x e y colaborarem, ou se z não atrapalhar, e se o alfabeto inteiro estiver disposto, aí acho que pode ser. Mas, a priori, não".

Pois foi isso. Me enrolei no meu próprio nariz de cera. Maldição jornalística.

Mas esqueçamos. Passou, foi, zupt, sumiu. Agora é só esperar. Esperar a resposta do mestrado. Esperar a resposta da IMP. Esperar a resposta da Reader's Digest. Sabe que até estou começando a gostar de esperar. Porque quando todas as respostas chegarem, todas todas, aí sim vou ter que começar a tomar decisões. E não são das mais fáceis. E não são das mais superficiais. São decisões de gente grande saindo de uma cabeça que cisma em continuar bebê, sempre que possível. E o sempre que possível está se tornando quase impossível. Quanto mais o tempo passa aqui, mais me sinto uma senhora. Tantas responsabilidades, tantas preocupações, tanto a pensar, decidir, unir, excluir, telefonemas a fazer, coração para aquietar, minha saúde, compras, o aluguel, trabalho demais, e no entanto estou aqui, sentada na sala com dois rapazes deitados, assistindo a um filme quietinhos, enquanto digito e nada, nada além de digitar, nada além de vomitar pelos dedos, ocupa minha cabeça.

Uma senhora. Crescer é isso. Saber que o mundo desaba sobre seus ombros todos os dias, e nem por isso você deixa de regar sua planta, ou fazer seu café com calma, ou assistir a um programa favorito, ou escrever num blog que é mero engano de Google para tantos leitores.

Voltei.

Tuesday, September 06, 2005

a place called home

Desde ontem um bolo na garganta. Um medo de tanta coisa acontecer em tao pouco tempo e nao ter ninguem para olhar serenamente de fora. Sim, estou sozinha. Digo, me sentindo sozinha. Sozinha mesmo eu nunca estou. Minha casa estah sempre cheia, meu trabalho eh com pessoas o tempo todo, minhas viagens de trem sao regadas a mensagens e telefonemas. Mas estou meio sozinha.

Acabo de sair da Goldsmiths. Basicamente, preciso provar que sou capaz de escrever um trabalho academico em ingles. Se conseguir fazer isso, nos proximos dois dias estou dentro. Sim, eles me ofereceram a vaga de mestrado. Fui aceita. Claro, com a condicao de poder provar que sou capaz de escrever. Eu. Capaz de escrever. Vou arrebentar meu computador. Ele quer 6 paginas. Farei 12. E nao quero nenhum native speaker corrigindo meus desabafos. Eu e eu apenas. Eu e o desafio. Vou escrever. Dai, apenas continuem torcendo.

Tenho toda essa mistura de medo e felicidade tipica de novos tempos, e nao tenho com quem dividir. Bobby na Franca, Fru em Budapeste e eu aqui, meio perdida, meio achada, feliz e assustada, correndo parada.

Ainda sem internet em casa. Puta merda, minha gente, puta merda.

Respirem por mim, porque eu, nos proximos dias, estou prendendo o ar com medo de ele, tambem, me escapulir para sempre, perdido entre as coisas que vem e vao tao depressa na minha vida.

Saturday, August 27, 2005

worried eyes

Ainda sem internet em casa - desgraca. Estou tao cheia de palavras, mas nao tenho como da-las a voces agora. Estou escrevendo, sempre. Mas para mim. Ou para voces no futuro. Meus livrinhos. Em breve um terceiro comecarah a tomar forma. O esboco ja estah feito. A historia eh otima e besta ao mesmo tempo. Mas como sempre, boa literatura nao eh uma boa historia. Eh uma historia qualquer escrita com maestria. Os melhores livros que li nao tinham enredos inesqueciveis, mas estilos inesqueciveis.

Bom, nao vou comecar a filosofar porque soh tenho mais meia hora nesse cybercafe meio pulguento no Soho (pelo menos eh £1 a hora). Aas news:

* Finalmente fui a uma fisioterapia. Levei bronca por ter demorado tanto. Meu pescoco estah crunchy e meu tornozelo inchado. Sou toda elastica, tenho as malditas double joints que, por um lado, me permitem acrobacias e manobras deveras apreciaveis, mas, por outro, me causam dores porque tendo a compensar o peso nas pobres juntas. Terca-feira volto la, vou comecar a fazer uns exercicios de Pilates.

* Entrevista na Reader's Digest foi muito bem. Fui chamada para a segunda etapa, em que terei de fazer uma apresentacao (!) para o diretor de marketing (!!) e uma prova de matematica (!!!). Bom, todos sabemos que ainda tenho meu empreguinho humirde de lifeguard. Oh well, nao sei quanto tempo mais aguento.

* Application mandada para a Goldsmiths College. Agora eh esperar, esperar, esperar. Odeio esperar quando nao ha mais nada a fazer a nao ser esperar.

* Descobri que o amor da minha vida da semana passada eh casado e tem tres filhos. To fora. Perdeu a graca.

* Amanha vou sair com o Malandro. Resolvi reavivar a situacao depois que descobri a vida dupla (hahaha) do Manager, que por sinal ainda nao voltou de Cyprus e tenho certeza de que quando voltar vai gavianar minha vida bem agora que resolvi abandonar o jogo.

* Carnaval em Notting Hill - to fora tambem. Nada mais deprimente.

* Estou apaixonada pelo livro que comecei a ler esta semana. I am Charlotte Simmons, do Tom Wolfe. Santo Tom Wolfe, merece minha adoracao. Ele, que eh o pai do New Journalism. Leiam, leiam, leiam. Eh novo, mas ja deve estar no Brasil.

* A casa nova vai comecando a ficar confortavel. Ainda nao eh a *minha* casa, com *minhas* amadas Fru & Bobby Co Ltd. Mas eh interessante. Aos poucos estou conhecendo melhor a sul-africana, que eh gente boa, apesar de muito fechada. E estou conhecendo mais e mais Mr Australia. Hum.

Bom, nao consigo pensar em mais nada. 15 minutos para estourar meu tempo e uma tonelada de emails para responder, de voces, amados conhecidos e desconhecidos! Voces que me mantem menos saudosa quando as saudades me parecem insuportaveis. Ta ficando cada vez mais dificil pensar a vida longe de todos voces.

Wednesday, August 17, 2005

manha de sol

Estou num cybercafeh meio fedidim em Shadwell mesmo, perto de onde trabalho. Sem internet em casa fica faltando um pedaco. Once nerd always nerd.

De qualquer maneira, amigos, estou amando meu quarto. Ontem finalmente meus outros tres flatmates se mudaram. Mal os vi, jah que antes das 23h capotei. E a verdade eh que a menina que mudou eh ligeiramente chatonilda. Os dois caras sao bem legais, como havia dito. A menina eh uma sul-africana com um sotaque desgracaderrimo, nao sei, nao sei, sou chata pra burro, mas vou fazer o esforco para ir com a cara dela, afinal, agora moramos juntas. Pelo que entendi, ela nao era a primeira opcao dos meninos. Ela foi ver a casa algumas semanas atras e eles preferiram outras flatmates, euzinha por exemplo. Ai o tempo foi passando e nao achavamos ninguem para por no quarto quarto. Entao foi ela mesmo. Ainda teve o acinte de "reclamar de brincadeira" que eu peguei o quarto de cima, com espelhos na parede. Te foder, neh, fia?

No mais, tenho entrevista na Reader's Digest depois de amanha. E outra na quarta. Varias coisas.

E a application para meu mestrado, se deus for pai, chegara a tempo nas maos dos todo-poderosos assessores do curso.

No final, pelo menos, aqui faz sol. Ja eh motivo para comemorar.

Thursday, August 11, 2005

um ano em um dia

Hoje cresci um ano. Acordei às 5:45h, sabendo que a vida já não me deixa em paz e cisma em me tirar de minha voluntária meia-morte. Mas não reclamei de ir trabalhar. Um cara muito especial, novíssimo na parada, estaria no trabalho hoje. Ele não é salva-vidas. Ele é apenas lindo. Com sua lovely evil face. Cara de mau, mas não tão mau. Um sorriso que em alguns anos lhe renderá belíssimas proto-rugas. Um cabelo cuidadosamente descabelado, um corpo de endoidecer amantes de corpos.

Só o sotaque que é meio foda. Ele nasceu em East London e morou por três anos na Escócia. Praticamente um estrangeiro para mim, tanto quanto eu. Ele fala e eu não entendo. mas ele sempre repete sorrindo, olhando através dos meus olhos, como se um varal de roupas nos ligasse e dependesse exclusivamente dele. Se ele deixar a corda cair, eu caio junto. Mas ele não deixa. Ele segura, e eu vou desmanchando, só meus olhos continuam inteiros, em pé, teimosos, nos dele.

Ele me chama de Bee. Bom, todo mundo no trabalho me chama de Bee. Mas com ele é mais especial. Apenas recentemente ele começou a me chamar de Bee. E eu adoro. E, olha, sinceramente, acho que há recíproca. É bom que eu esteja muito certa disso, porque ele, bom, ele é meu chefe. Não é legal excangalhar com o emprego, néam? Mas estou quase, quase certa. Ele me ama e eu o amo loucamente.

Aí estava saindo do trabalho e topo com L., o Malandro. Ele foi visitar o pessoal. De quebra, um eu-te-ligo-sabadanoite. Eu até queria que ele ligasse. Mas nosso amigo malandro sambou no lugar. Perdeu pontos na comissão de frente mesmo. O novo amor da minha vida dessa semana - dessa vez é sério - promete ser destaque da escola.

Desnecessário dizer que saí do trabalho carregada por borboletas. Tentei disfarçar para a Anna, a polonesa que trabalha comigo, mas achon que não consegui. Ela não comentou nada, mas sou um bebezão transparente e imagino que ela seja minimamente perspicaz. Oh well, foda-se. Tô nem aí.

E começou a grande mudança para a casa nova. Antes de sair de casa, claro, tinha que ser, um quebra-pau em terra amiga. Brigar tem sido tão fácil ultimamente... Acho que os ânimos estão em progressivo caos. Pela primeira vez em Londres, vou me separar das meninas. O dia está chegando. Já fechei contrato com o Mr Australia e Mr Suécia-Equador. A partir de domingo meu endereço oficial é em Mudchute, em Isle of Dogs, uma região nas docklands, zona leste, céito? Mas zona leste do bem. Muito verde, muita casa bonita, meu lar a 50m do Thames. Estou feliz demais com minha escolha. Meu quarto é um bibelô. Todo azul, mas não azul-calcinha. Um anil apastelado. Lindo. E armário com portas de espelho deveras interessante. E, porra, meu quarto, meu meu meu. No terceiro andar. Lindo, cheiroso, superficialmente bagunçado, como eu gosto.

Apesar das brigas por aqui, estou feliz. Um sentimento bom e adormecido voltou a cutucar meu coração, esse bolostrô preguiçoso e idoso, cansado de guerra. Uma casa nova. Bastante trabalho e, a última ótima notícia: fui chamada para uma entrevista na Reader's Digest. Sexta-feira que vem. Fingers crossed once again!

Em um dia, tanta coisa. Eu querendo meio-morrer porque não agüento mais correr tanto assim, e minha meia-vida querendo ser inteira, chacoalhando meu corpo fodido de tanto tentar escalar. Unhas sangrando de tanto tentar agarrar. Olhos ardendo de tanto querer enxergar. Braços doendo de tanto arrastar - coisas, pessoas, principalmente pessoas - e de ser arrastada - por coisas, pessoas, lugares também, mas principalmente pessoas.

Foi um dia e tanto. Meio-ressucitei com a força de um ano. Um ano para entender que cresci e que minha força é mais que nunca absurda. Absurda.

Friday, August 05, 2005

I don't believe in hell

Porque estou dançando entre as chamas que queimam minha alma. Dançando e rindo e cantando. Então não pode ser inferno. Inferno não existe. Liberte-se desse consolo chamado inferno. Liberte-se também do paraíso. Hoje conheci outro australiano com um quarto para alugar. O apê dele é de frente para o rio, todo decorado, muderno, a dois passos de London Bridge, a um do Borough Market. Ele queria me alugar um quarto de solteiro por £140 por semana. Escapou-me uma gargalhadinha. Falô então.

Mas ele estava infeliz. Tinha tido um péssimo dia no seu emprego nine-to-five. Uma reunião não saía bem. Ele tem um daqueles sorrisos bem largos de dentes amarelos, como todos eles.

Eu não quis ser ele, mesmo querendo ter sua casa.

E atinei então que não existe também paraíso. Foi então que percebi que estava livre para rir, dançar, me sujar nas cinzas do inferno. O inferno que é pura ilusão. O mundo está aí e não é inferno nem paraíso. É um eterno purgatório, te lança para cima para baixo, mas no final você morre sem saber realmente se usou a vida para provar alguma coisa. Para que provar, então?

Esquece isso. Preciso parar de ter vergonha do que sou hoje. Sempre me orgulho do passado. Preciso me preocupar mais com o presente. E esquecer um pouco essa história de futuro. Futuro, inferno, paraíso. Tudo a mesma merda, tudo a mesma ilusão. Não quero viver para morrer feliz. Quero viver feliz e depois morrer. Apenas morrer. Não quero morrer feliz. Morta, nem devo saber o que é felicidade. Não que eu saiba hoje. mas pelo menos ela, a puta da felicidade, hoje tem o dom de me deixar encafifada.

Be good to yourself 'cause nobody else has the power to make you happy.

Thursday, August 04, 2005

O encontro com o Mr Austrália

Foi quase todo smoothly. Pelo detalhe de que esqueci meu celular em casa e não sabia como o cara era e ele não sabia como eu era. Havíamos marcado de se encontrar nas escadas saindo da estação de Canary Wharf pela Docklands Light Railway. Combinamos meio nas coxas já imaginando que por celular nos acharíamos. E eu levo tudo, menos o celular.

Óquei. Encosto numa pilastra e sei que se a cagada foi minha, sou eu quem tenho que descobrir quem é o cara. Para facilitar um pouco, fiz minha mais genuína cara de perdida, olhando em volta, encarando os homens que estavam parados por ali. Olho à minha direita, um cara bonitinho parado na frente da escada. Olho para frente, um executivo cabeçudo mandando SMS freneticamente. À minha esquerda, um japonês parado com cara de nada. Alguns subindo escadas, andam, olham em volta e seguem. Fodeu, pensei. O cara é que vai ter que me achar. Só tem homem nesse lugar. Não vou sair feito uma louca perguntando quem é o Mr Austrália.

Mudei de idéia subitamente quando um colega de GANA resolveu puxar conversa. Ele vinha com um relógio na mão, para consertar ali do lado. Arrastava suas chinelas num ambiente bem pouco chinelento. Camisa pólo verde musgo, toda encardida. Uns fiapos brancos no pescoço e na cabeça que me deixou sem entender mesmo. Começou perguntando se eu era americana. Nope. Australiana? Nope. De onde então? Brasil. Ah, Brasil, era do Brasil o cara que foi assassinado no metrô, né? É. Triste, não? Muito.

Eu já estava perdendo a paciência porque queria ser vista pelo Mr. Australia sozinha. Com o Mr GANA do meu lado meu possível futuro housemate jamais viria conferir se eu sou eu.

Abri as ventas em desaprovação. Olha, moço, eu preciso ir porque tenho que encontrar alguém. Onde você vai encontrar esse alguém? Aqui mesmo. Então aonde você está indo? Olha, moço, prestenção: não conheço a pessoa que veio me encontrar e ela nunca vai me achar se me vir aqui conversando com você. Ponto de interrogação do tamanho do prédio do Citigroup. Me dá seu telefone então? Não. Por que não? Porque não lembro o número e esqueci o celular em casa. Ahn... peraí então, deixa eu pegar um papel, segura aqui meu relógio e...

Eu já estava freaking out. Olha, Mr. Gana, preciso ir, really. Olha, tá vendo aquele cara ali sentado? (Apontei para o bonitinho à direita) Então, tenho quase certeza de que é ele. Entreguei o relógio na mão dele e andei até o carinha. Oi. Qual é o seu nome? Ele disse. E era ele. O Mr. Austrália era o bonitinho. Uau. Uau. UAU. Nem parece a minha vida. Não dou essas sortes. O Mr. Austrália não só é gato como é bem legal. Dei um aceno para o Mr Gana sem olhar para ele. Não queria ver sua reação ao me ver walking away com outro cara. O cara que eu estava esperando.

Ele perguntou se eu conhecia aquele cara, referindo-se a Mr Gana. Não! (Aturdida demais) Quer dizer, não...(Mais mansa) Ele veio puxar papo, sei lá, gente estranha, daquelas bem Londres. Ele riu. Eu ri. E ele riu da minha risada. Estávamos entrando em sintonia.

Gostei. Vou conhecer o outro cara que morará nessa casa no sábado. Mr Suécia. Acho que não tiro dois 6 nos dados, mas vai que a sorte está virando?

Pelo menos defini que o Tony, um amigo da BMI, mudará comigo. Decidimos que vamos morar juntos. Ele é um amor, o mesmo que me arranjou onde ficar em Southampton. Em alguns meses estarei falando inglês com sotaque de Bristol.

E encerro esse post agora, já, porque vou encontrar Tony e ver uma casa em Maida Vale. Estamos considerando casas vazias para depois escolhermos, você sim, você não, pessoas para morar conosco.

Vai funcionar. Porque tem que funcionar. Na metade da semana que vem temos que mudar.

Wednesday, August 03, 2005

on my own - and I don't really care

Então aconteceu. Aquilo de it can't get any worse é puro bullshit. Estamos nos separando. As três. A Fru vai para oeste. De lá, um par de meses depois, voltará ao Brasil. A Bobby também vai embora. Ainda não sabe para onde, mas vai. Ainda não sabe para quê, mas vai. Ainda não sabe. Mas eu, que sou péssima nisso de não saber, preciso definir minha vida agora. E estou procurando um quarto, não importa o tamanho, não importa a região, não importa o número de pessoas que vai morar comigo. Só importa que eu possa, novamente, criar meu universo e pagar minhas contas. Meu quarto e apenas o suficiente no bolso, for now. Porque, ladies, gents, eu não paro de escrever, não. Um dos meus livros está gigante. O outro, começando a fermentar. Eu preciso acreditar que alguma coisa boa de toda a tragédia dos últimos meses vai germinar.

Sim, sim.

Vai.

Ontem visitei uma casa em Bethnal Green. Amo a região, mas a casa é lamentável. Hoje vou encontrar um Mr Australia em Canary Wharf. Um pouco mais promissor, I'd say. Um monte de coisas ameaçando encaixar. Não quero me iludir, for I've already eaten the bread the devil smashed (ok, foi fraca) por aqui.

Friday, July 29, 2005

the world spinning in front of my astonished eyes

Férias dos sonhos. Fechei os olhos e entrei nelas, nas férias. E só agora saí delas e abri os olhos para o mundo novamente. E os dias que passei de olhos fechados foram dos mais especiais este ano, junto com os dias movidos a tapas e paella com babãe. A Ilha da Madeira é um pequeno mundo de sonhos, um daqueles carrossel em que toda criança quer subir e nenhuma quer descer. O mar a cada canto dos olhos, peixes em cada canto dos mares, sol demais, sempre a brisa. Mordomia. Uma parte da minha família, como já devo ter citado no ano passado, quando também fui à Madeira, é dona de uma cacetada de coisas, entre elas quatro hotéis, um deles daqueles que já são o sonho em si. Um sonho dentro do sonho. Fiquei hospedada na casa de um de meus tios-primos preferidos, o Michael. Fora que ficar de papo pro ar, vendo as paisagens mais bonitas que meus olhos podem absorver, ao lado de alguém tão querido quanto minha Piu, chega a ser sacanagem de tão bom. Chega a doer, chega a congelar, apesar de o tempo voar. Chega a fazer me sentir uma idiota de passar por pequenas coisas ruins e me deixar abalar, se tenho a pessoa mais preciosa do mundo ao meu lado num dos lugares mais preciosos aqui já fui.

E ainda para ser arrebatada com um proto-convite para ir morar na Ilha da Madeira. Digo proto porque quem me convidou foi a esposa do Michael, que não manda muito no circo. Mas o Michael estava presente, assentindo. Mas calado. Calado não é bom. E também não sei se quero morar na Madeira. Acho que em alguns meses eu estaria correndo atrás do próprio rabo, com medo de pôr chinelas e ir à padaria do Joaquim porque obviamente em alguns meses já estaria "falada" num lugar tão provinciano.

Meninas traquinas como eu devem se conformar com a condição de encurraladas nas megalópoles. Ou livres para aprontar sem ser identificadas. Escolham a versão que parece menos ruim. Ambas estão corretas.

Voltando à família, uma das melhores sensações que tive foi a de ver meu pai, que chegou na Madeira três dias após eu e minha irmã, resgatando uma parte importante do passado dele. Primos que ele não via há 35 anos. Outros que ele nem conhecia. Os filhos, os netos, as casas e as vidas. As dores, as viúvas, tudo o que há numa família. A família do meu pai, a família No.2, depois de minha irmã e eu. Finalmente, a família de cujo reencontro ouso me sentir pivô. Babái não tinha contato com esse lado dele até que eu resolvi cutucar o vespeiro. Primeiro morando com meu tio-primo aqui em Londres nos primeiros meses. Depois, indo para a Madeira e desenterrando, inclusive para muitos que nem sabiam da minha existência, o lado Blandy que vem do Brasil. Um lado Blandy que é branquelo de olhos claros, mas que samba, joga futebol, ri pra cacete e abraça. Uma louca brasileira que ninguém lembrava que poderia um dia aparecer. Mas apareci e este ano voltei, com minha irmã a tiracolo e babái, uma mão dada a mim, outra a sua namorada, para rever o passado. Entender como tudo foi parar onde parou.

Foi precioso ver onde meu pai aprendeu a andar de bicicleta. Onde passava horas olhando os astros por um telescópio. Onde morou os primeiros anos de infância. Onde aprendeu a nadar, puta merda, onde APRENDEU a NADAR.

Foi delicioso revisitar o passado com babái. Não foi fácil dizer tchau. Mas nunca é. Acho que tô ficando profissional nesse negócio de despedida. Tô me acostumando à saudade. Tô me acostumando em deixar pedaços de mim com pessoas que deixam pedaços delas comigo também. Fui eu que escolhi.

Monday, July 18, 2005

Cardiff

Conheci uma das minhas cidades preferidas. Eu sabia que adoraria, tinha um good feeling sobre a capital do País de Gales. Estava certa. Eu e minha Piu aproveitamos cada segundo dessa viagem deliciosa. Mal chegamos no hotel - delicios, diga-se - fomos para o Cardiff Castle. Fizemos o tour completo. Maravilhoso. Ainda passeamos pelo centro da cidade e terminamos o dia em Cardiff Bay, o ponto de encontro de final da tarde, cerveja pros que são de cerveja, suco pros que são de suco. O sol se pondo às 10pm.

Dia seguinte acordamos cedo, nos esbaldamos no café-da-manhã do hotel e pegamos o busão para Barry Island, que fica a uns 50 minutos de Cardiff. Praia de areia (um adendo necessário nessa ilha chamada Grã-Bretanha), mar quentinho, crianças, muitas crianças, praia limpa e sol, sol, sol. Banho de sal para me livrar de qualquer coisa ruim que esteja me impregnando. Porque acredito muito que esteja.

Na praia fizemos um amigo, o Ethan. Ethan tem dois anos e a língua presa. Sorvete seco espalhado pela cara e areia por todos os lados. Sempre que saía para pegar um brinquedo, anunciava depois sua volta: "I come back". E cismava que tinha um barco, mas que não estava achando. Pegava pedrinhas na areia e dizia: "tiny!" e eu me controlava, ô se me controlava, porque aqui é meio estranho essa história de sacudir bochecha de bebês alheios.

Ainda tentei negociar com o pai, já que uma hora em que estava indo dar uma nadada no mar o Ethan quis vir junto. Disse ao pai que sou salva-vidas e que não teria problema levá-lo para um mergulho. Ainda assim não quis. Entendo.

Piu e eu ainda tentamos, nesse mesmo dia, visitar St Fagan's, uma vilazinha ao lado de Cardiff que possui o maior museu aberto da ilha, o Welsh Folk Museum. Mas o último ônibus partia às 18h (!). Nada feito.

Passeamos mais por Cardiff, exploramos o Bute Park (acho que é esse o nome, not sure, not sure) e voltamos cedo para o hotel. No dia seguinte, hoje, era o dia de empacotar tudo e voltar. Ainda deu tempo de passear pelo parque, mas fomos pega por uma chuva pentelha - já era esperado, ninguém tem a sorte de só pegar sol na Inglaterra; com minha Piu não seria diferente.

Na hora do almoço arribamos no trem. Para nossa surpresa, nos puseram na primeira classe. Não reclamamos. Eu até consegui dormir, já que, em troca de um gole da minha coca-light, minha irmã prometeu não cantar as músicas que ia ouvindo no discman.

Agora estou resolvendo todos os pepinos a serem resolvidos antes da esperada viagem para a Ilha da Madeira. Novo telefonema para a polícia, nova constatação de que polícia é incompetente em qualquer lugar.

Minha pequena ruiva deve estar perdida em Oxford Street, comprando lembrancinhas inglesas para seus brasileirinhos. Estou sozinha em casa. Faz tempo que não fico sozinha. Um vento delicioso entrando pela janela. Um sol brilhando apesar de estar meio nublado. Um sossego de que tudo dará certo, sempre, mesmo que certo não signifique perfeito.

retrolavagem e purificação

Começo a desconfiar que este blog está amaldiçoado. Gente demais lendo, nem todas de boa energia. Infelizmente ainda não inventaram um recurso para banir de acesso a esta página essa gente pequena, cujas grandes alegrias são encher o saco da vida alheia. Um recado: eu sei que esse blog é legal, que vocês não conseguem não vir aqui ler, que minha vida é mesmo muito interessante. Mesmo não concordando com vocês entendo que, em tendo uma vidinha bem mais ou menos, vocês achem a minha excitante. Óquei, sem problemas. Mas leia e vá embora. Não deixe aqui seu fedor

Friday, July 15, 2005

aftermaths ou two steps away from losing it

Estou ao lado da pessoa que mais amo no mundo exatamente agora que o mundo resolveu desabar e eu não sei no que me seguro, na raiz ou na nuvem. Nenhum apetitoso. Só consigo agarrar minha irmã, e morro de medo de levá-la comigo para o caminho errado.

Antes dos ataques terroristas, antes de babái me dar o deleite de sua visita, muita merda fedeu. Duas noites após terminar o namoro, encontrei aquele gatinho, o Certinho, que a partir de agora, se é que há algum partir que não seja partida em minha vida, chamarei de D. Fui assistir Bonbón com ele, um filme argentino que julgo eu deve estar fazendo sucesso pela terrinha. Resolvemos esticar depois para um pub. Coisa rápida já que ambos acordavam cedo no dia seguinte, mesmo sendo domingo. Levantei para ir embora, virei para alcançar minha bolsa e não havia mais bolsa. Fui roubada pelo mais malandro dos trombadinhas. Não percebi nada, e não deixei a cadeira nem para ir ao banheiro - vantagens de não beber.

Eu não acreditava. Na hora me veio um gelado na espinha, daqueles que todo mundo tem, de desespero. Mas comigo sempre é mais dramático. Associei as sensações a um ataque de pânico e quase o tive ali, em frente ao D., que me olhava com cara de "fuck!", e em frente às garçonetes do pub, que estavam tentando partilhar da minha dor, mas que na hora, aos meus olhos ranzinzas, apenas regozijavam internamente por não ter acontecido com elas.

Sem carteira, sem cartões, sem dinheiro, sem iPod, sem telefone celular, sem chave de casa, o desespero foi crescendo porque o quebra-cabeça foi fechando e parecia que as peças não iam mais se encaixar. Foi nessa hora que me deu um clique, naquela hora em que a vista começa a escurecer. Essa é minha hora preferida de ter cliques. Nunca antes de tudo parecer perdido. Sempre segundos antes de eu apagar.

O único celular que eu sabia de cor era o do Ernesto. Liguei para ele depois de cancelar celular e cartões de banco e pedi o número do telefone da Bobby. Mais uma longa jornada até encontrá-la. Cheguei em casa detonada, chorando, mal mesmo, achando que não conseguiria levantar no dia seguinte para trabalhar. Eu estava certa. Eu não conseguiria levantar, mas alguma força maior que eu andou por mim, comeu por mim e me levou ao trabalho.

Daí para frente vocês já conhecem. Fui me reerguendo, resolvendo todas as dores de cabeça que uma perda desse gênero gera, yadda yadda yadda. A verdade é que cansei do meu próprio discurso de eu-me-fodo-mas-levanto-pois-sou-foda. Cansei do gesto de bumbar no peito estufado. Cansei de ficar serena, esperando a hora certa para levantar e levar outro bofetão, mesmo depois de juiz ter decretado nocaute. É isso. Alô deus, rolou um nocaute aqui, já. Fim de jogo. Esquece os próximos rounds porque, really, I can't cope.

E babái aqui e minha Piu aqui, e todos os elementos que deveriam me deixar explodindo de alegria, ainda não estão conseguindo. Não quero saber de D. ou de L. (L. agora é o Malandro). Não quero saber. Preciso mudar de casa com a Bobby e ao mesmo tempo I don't give a shit. Moro em qualquer canto, jogada, durmo em qualquer esquina, em posição fetal, economizo no arroz. Tudo o que eu nunca quis para mim.

Estar com a minha irmã aqui faz com que tudo seja menos insuportável. Só não quero levá-la comigo para a merda. Eu jamais me perdoaria. Jamais.

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Em tempo, amanhã começam minhas férias. Vou para o País de Gales, volto na segunda e na quata vou para a Ilha da Madeira novamente. Eu pretendo muito acordar outra. Férias merecidas. Férias de mim mesma.

Thursday, July 07, 2005

estou bem

Aparentemente. Nada aconteceu comigo ou com alguém que eu conheça. Até agora, que eu saiba, apenas uma amiga estava num metrô que foi evacuado. Parece pouco, mas é traumático demais. Por aqui, no Eastend, o barulho das ambulâncias está começando a ser uma extensão de meu ouvido. Melhor assim, porque passo a não ouvir de tanto ouvir. Não a ser humano que agüente a certeza a todo segundo de que tem alguém morrendo ou sofrendo aqui do lado.

Londres está quieta. Depois de um dia de chuva intermitente, finalmente o sol saiu. Mas não tem ninguém lá fora para aproveitar. Os que estão na rua, estão tentando ter uma idéia de como vão voltar para casa.

Meu peito está apertado, medo fodido de passar pelo que passei no 11 de setembro. Meu pai na cidade, depois de mais de ano sem vê-lo, e não posso encontrá-lo porque simplesmente não há como. Não há meio.

Se deus quiser amanhã será um dia de reerguimento. Não dá para parar.

Quando achamos que chegamos no inferno, ainda estamos aptos a achar, então ainda não chegamos lá. Agora que tudo começa a perder as margens é que desconfio de que o verdadeiro inferno está próximo.

Nada não. Amanhã estou melhor. Por ora, eu e Schopenhauer dançamos o mais triste dos tangos.

Friday, July 01, 2005

o fim da primeira metade

Acabou a primeira metade de 2005 e, com o fim, minha esperança de que esse ano não será um fiasco completo, afinal ainda temos meio ano pela frente para fazê-lo um semi-fiasco: é só tudo dar certo a partir de HOJE. Já que até hoje, convenhamos, conto nos dedos de uma mão as coisas boas que me acontecerm. 2004 foi ridiculamente bom. vai ver é isso. Alguém reclamou lá em cima que era meio mancada me deixar tão feliz. Aí deu no que deu: fechei os seis primeiros meses do ano em grande classe: eu e o Chris terminamos.

Já era esperado, claro, vide post abaixo, vide antigos posts, vide minha vida. Mas o fim de um namoro é sempre um fim. O Chris esteve comigo durante a metade do tempo em que estou na Inglaterra. E eu o conheci apenas dois meses após ter aqui me ancorado. Ele é importante. É especial. Uma das três pessoas que me fazem ou fizeram não desistir de tudo e voltar.

Mas nosso tempo passou. Na verdade, passou do ponto do passou. Mais um pouco e a gente nem se olharia mais na cara. Foi um término civilizado. Mãos agarradas, olhos nos olhos, umas e outras lagriminhas saindo dos olhos nos olhos. Alívio. A certeza, para ele, de que é só um tempo e que provavelmente vamos voltar. A certeza, para mim, de que é o fim definitivo.

Mas ele não precisa saber.

Fechei o primeiro semestre com mais uma perda. Nesses seis meses perdi meu avô, perdi meu emprego, perdi meu namorado, perdi dinheiro e, finalmente, me perdi. Fiquei meio abirutada no meio de campo. Mas depois me achei um pouco. Sempre vão faltar alguns parafusos porque sou um quebra-cabeça infinito. Tive momentos de serenidade. A viagem com babãe para a Espanha foi, sem dúvida, o cume de minha felicidade nesses tempos difíceis.

E hoje é dia primeiro de julho e eu não quero sentar para ver o resto do ano me foder. Hoje dormi como há muitas semanas não conseguia. 10 horas de sono sem parar. Acordei depois de sonhos estranhos. Pesadelos, as usual. Mas o sono em si foi bom. Tenho um freela dos muito bem apessoados para fazer na sexta-feira que vem, de intérprete num evento bem dos chiques. Dei meu valor, £30 por hora. Acabo de pegar a resposta: valor aceito.

Também recebi telefonema do meu chefe na academia em que trabalho aos fins de semana e ele quer me pôr em mais shifts a partir dessa semana.

Amanhã devo ver pelo menos um dos gatinhos, o Certinho. Finalmente, se deus for mesmo pai, dessa vez rola.

E ainda há chances de ver o Malandro. Sob o pretexto dele deixar o CV dele na academia em que trabalho. Vai ser bom entrar nos olhos dele de novo.

Sem falar na vinda eminente de babái, que está me deixando bastante apreensiva. Não parei de voltar na sala do meu manager na St George's para lembrá-lo que farei small shifts nas próximas duas semanas, e no shift at all nas duas seguintes.

Foi-se o primeiro dia da melhor metade de ano que posso ter, já que foi-se a pior metade que já passei as well. Tenho que acreditar em algo nessa vida, nem que seja na matemática.

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Minha pessoa favorita criou uma comunidade no Orkut para moi! Se estiverem no embalo, vão lá.