Thursday, July 29, 2004

a primeira vez que me perdi bonito – e ri por dentro

Até achei que demorou muito. Estava sentindo falta de arregalar os olhos e comer as unhas e ficar atenta a todas as placas e ruas. Ontem à noite, pela primeira vez, me perdi em Londres. Mas me perdi bonito. Já estava quase saindo da cidade. Juro. Fui parar na última estação de metrô da linha norte. Obviamente eu não estava no metrô, mas no ônibus. No metrô daqui não tem muito como se perder, como qualquer metrô. Já ônibus.

Foi assim. Eu estava voltando do centro da cidade à noite. Eram 23h. Eu estava no ponto de ônibus esperando o 98, que vai bonitinho até minha casa. Mas como eu estava tão feliz de saber para onde eu tava indo, resolvi inventar. Peguei outro ônibus, o 13, me achando a Londoner, para depois pegar mais um adiante. Eu estava com um ticket único, então não precisava pagar duas vezes se quisesse pegar dois ônibus.

Não demorou tanto quanto o de costume para eu perceber que estava perdida. Umas avenidas tipo Brasília que não têm nada a ver com Londres, umas placas indicando saídas da cidade. Arrepio na espinha. Desci do ônibus. Reação típica minha. E assim que desci do ônibus pensei, ótimo, e agora, para onde ir? Por que você desceu, retardada? Estava com medo de não ter mais busão passando naquela região, apenas Night Buses em direção à cidade. É claro que se tudo estivesse perdido,eu ainda poderia descer do ônibus, atravessar a rua, pegar o mesmo número em direção ao centro e de lá pegar algum dos ônibus que eu conheço para casa. Mas demoraria uma eternidade. Daqui de Willesden Green até Oxford Street, no centrão, demora uns 45 a 50 minutos de busão. Façam a soma.

Havia ainda outra saída: descer numa estação de metrô e tenta pegar um dos últimos trens. Mas não. Aí seria fácil demais. No final das contas, eu nunca achei tão ruim assim me perder. Porque eu sei quão bom é me achar depois. Claro que tentei ligar para o meu primo, toda chorosa, para receber uma assessorada. Mas ele não atendeu o celular. Acabou de arrancar o siso e está todo grogue.

Depois de descer do 13, tentar falar com meu primo e pensar “agora fodeu mesmo porque aqui não tem estação de metrô”, peguei uma avenidona adjacente e esperei num ponto de ônibus. Estava quase desistindo, já que não tinha ninguém esperando também e não parecia que passaria nenhum outro ônibus por lá. Quando eu vejo os farolões e o vermelhinho vindo na minha direção. Subi e tentei explicar pro motorista a merda que eu tinha feito. Ele então sorriu, o dente da frente de ouro, dread lock pelos ombros: “Minha filha, você está indo para o lado errado. Isso aqui vai para Edgware Station”. Me rendi e tive de implorar: “eu sei, moço, estava voltando para casa, tentei inventar um caminho diferente e acabei me perdendo. O que eu faço?” O cara era muito gente fina. Falava naquele jeito negão de falar, meio cantando, meio cuspindo, e sempre mostrando o dente de ouro. Ele foi muito legal. Disse para eu ir com ele até o ponto final e lá perguntaríamos para o supervisor dos ônibus.

A essa altura eu já estava me divertindo. Cheguei na garage do ônibus, onde teoricamete não é permitido estranhos entrarem, e vi aquele mundo de vermelhinhos prontos para ir para as ruas. O negão do dente de ouro me levou até o chefe dele e disse: “chief, I’ve got a princess for you!” e foi-se embora. O tal superindente, depois de perguntar se eu sou australiana (???) e se eu não queria esperar até 1h30 da manhã para ele me levar de carro (!!!) – com evidente negativa de minha parte, nem preciso dizer -, me meteu num ônibus que vai direto a Cricklewood, do lado de casa.

Acabou a noite. Cheguei em casa faminta, exausta, meia-noite e meia. Mas eu juro que estava rindo por dentro.

Sunday, July 25, 2004

London calling

Mal cheguei e jah to toda fogueteira. Sexta, no dia em que voltei para Londres, fui a um "churrasco" (muitas, muitas aspas para o que os ingleses chamam de churrasco. Tava bom e tal, mas hamburguer e frango nao sao suficientes para fazer jus ao nome, convenhamos). Tentei a noite toda ignorar uma picada de abelha que doeu pacas no ponto de onibus. Alias, a picada foi ganhando vida propria e no momento ocupa mais de dez centimetros do meu antebraco. Serio.

Bom, o churrasco foi muito legal. Acordei de madrugada com Piuzette Maria me ligando do Brasil. Claro que eu adorei. No comeco minha voz estava indisfarcavelmente embargada. Depois fui acordando e adorando e comemorando a minha volta a Londres, onde finalmente posso falar com meus queridos porque tenho um celular.

Sabado fui comer doce numa doceria nova que abriu aqui e que a Paige estava batendo o peh para o namorado, meu primo Rols, leva-la. Fomos e atestamos o bucolico cookies and cream com o certificado de bosta de lugar.

Passei a tarde no parque sem fazer nada. Foi delicioso. A noite um cineminha basico. Fahreinheit 9-11. Jah chegou no Brasil? Vou dizer o seguinte: gostei muito do que vi. Isso porque nao vi tudo, sabe? O sono me fez comecar a ver dois Bushes naquela tela imensa. Foi demais para a minha cabeca e tive medo de ter pesadelos. Entao fechei os olhos soh um tequinho e acordei com "Keep on rockin' in a free world" que tocou quando os letreiros subiram. Terei que ir novamente. Mesmo porque do jeito que eu tava podre, devo ter entendido tudo trocado.

Naturalmente, hoje fui acordada ao meio-dia pela mulher do meu tio, com o telefone na mao. Era minha prima Jessica, querendo almocar no Hyde Park e se jogar na grama para aproveitar o sol. Fomos. Comecou a chover. Assim eh Londres. O ceu estava absolutamente azul. Impressionante. Bateu uma ventania e pronto. Comeca a chover. Mas nada que me dissolvesse. Neste exato momento, voltei da casa do Jamie, onde fomos assistir ao jogo do Brasil e Argentina. Roland e Paige, assim como eu, vestidos a carater. O jogo foi emocionante -- nem preciso dizer. Cheguei, afofei a Biggles e estou aqui. Daqui a pouco eh hora de nanar. Amanha acordo cedo e comeco a disparar telefonemas. Ninguem segura eu!

**

By the way, vai ser complicado por mais fotos no ar porque descarreguei as imagens em outro maquina, que neste momento estah no quarto temporariamente ocupado por uma senhora idosa, mae da Jane, que nao faz ideia do que eh essa coisa estranha que soh ocupa espaco, chamada por nos carinhosamente de computador. Entao segurem perus e periquitas que eu vou atualizar.

Saturday, July 24, 2004

fotos da Madeira

Querem?

Entao vejam aqui. Vou postar um pouquinho por dia!!!

Estou de volta a Londres. Oh, yeah!

Thursday, July 22, 2004

princípio, meio, fim

Amanhã acaba. Em uma semana a cor do pecado que eu, acreditem, consegui pegar estará desbotando e eu voltarei à minha busca alucinada por um emprego. Acabou a mamata de acordar para almoçar. Acabou a dúvida entre ir para o Cliff Bay nadar no mar ou ficar pela piscina da Quinta de Santa Luzia.

Acabou e eu nem estou triste. Primeiro, porque recebi um convite para voltar no Natal e ano-novo, o que não sei realmente se vai rolar porque tudo indica que estarei com duas pessoas amadíssimas, Frubosa e Titi, por aqui comigo. Claro que se eles disserem que os três podem vir para a Ilha, eles não têm como recusar. Mas acho meio difícil. Em segundo lugar, porque estou a fim de assentar minha vida em Londres. Começar uma rotina, levar uma vida um pouco mais regrada, que é do que mais reclamo mas de que acabo setindo falta afinal.

Sem falar do resto. Assim, eu até tento não demonstrar, mas é difícil. Esses dias na Madeira foram paradisíacos, totalmente dignos de um conto de fadas. Mas foi muito complicado ver as famílias (minha família, mas mesmo assim) todas unidas, à vontade. Senti falta dos momentos de intimidade com minha família, com meus amigos, com qualquer pessoa com quem eu podia ser realmente espontânea. Não que eu não tenha sido aqui. Claro que fui. Mas eu era o centro das atenções, a half-Blandy que ninguém conhecia, que veio do Brasil, que nada, que escreve, que fala português. Então eu acabava pensando algumas vezes além do convencional antes de falar o que me viesse na cabeça.

É por essas e outras que não vejo a hora de Fru e Ti chegarem. Seria exponencialmente mais difícil sem eles. E sei que para eles também seria mais difícil sem mim. Nada como uma relação de mutualismo.

Mas chega de divagar. Desacostumei a pensar durante esses dias de torpor (uh!). Nadei quase todos os dias, dormi quase sempre muito bem, comi feito uma porca, pensei muito em babái e aprendi muito sobre sua família e sobre ele, descobri que família importa muito, me apaixonei pela Madeira, não me entediei em um só momento (juro, juro). É por tudo isso que essa foi só a primeira vez.

Thursday, July 15, 2004

carta da Madeira

Queridos amores!!

Estou escrevendo neste momento aqui da Quinta do Palheiro. Não imaginei que fosse me tocar tanto a idéia de visitar o lugar onde uma parte da minha família cresceu e viveu, como minha avó paterna Rosemary. Segundo meu tio Adam, a casa praticamente não mudou nos últimos 100 anos.

Ainda não conheci todos os cômodos da casa. Estou hospedada no terceiro andar. A casa fica no topo do morro e minha janela dá para o mar. Dormir ou fazer qualquer outra coisa chega a parecer pecado quando se tem uma vista dessas da própria janela.

Mas vamos começar do começo. Cheguei aqui na Madeira anteontem, após um estresse do cão durante a viagem. Peguei um ônibus em Willesden Green (bairro em que estou morando em Londres), fui até Victoria Station, de lá peguei um trem para Gattwick, de onde saia meu vôo da Air Portugal. Fiquei amiga de uma advogada italiana, Carmela, que estava voltando para Nápoles após três meses estudando inglês em Londres. Meu avião foi lotado. E é óóóbvio que bem atrás de mim sentariam umas crianças infernais que socavam e chutavam minha poltrona, ignorando sumariamente meus olhares reprovadores. FOra que o jantar foi um sanduíche michuruca e eu tava morrendo de fome já que não tinha almoçado. Mas tudo bem. Cheguei na Madeira já amiga de dois madeirenses que conheci no avião. Um deles, Manuel (como não?) me deu o telefone para me levar para passear - o que logicamente não vai acontecer porque o que não me faltam são pessoas oferecendo-se para me levar para passear.

Um dia lindo estava morrendo. Eram 21h quando cheguei na Quinta do Palheiro, propriedade de titio Adam. Conheci sua mulher, Christina, e reencontrei o casal australiano que também se hospedara na casa do John em Londres.

Dormi menos do que gostaria, mas o suficiente para aproveitar o dia. Oito horas me gritaram "good morning". Não respondi. Depois de um tempo gritei de volta: "ok". Seria um longo e lindo dia. Fomos até o Pico do Arieiro, de onde comecei uma trilha sozinha, já que Adam e o casal australiano não são lá muito jovens. A trilha pelas montanhas levaria 2 horas, segundo meu tio. Ele estaria me esperando ao final da trilha. Só que a trilha era um "pouquinho" mais longa do que ele pensava. Foram 3 horas sem parar, subidas descidas, bichos estranhos me perseguindo, suor caindo no olhos, sol escaldante na cabeça (a trilha era numa altitude acima das nuvens), e eu sem um mísero mapa para me dizer onde eu estava e para onde deveria ir. Simplesmente fui. Sozinha. Até encontrar um casal belga que veio todo equipado com mapas e bússola. Aí fiquei na cola deles e chegamos ao Pico Ruivo, onde lembrei incessantemente de minha irmã linda. Pico Ruivo é o ponto mais alto da Ilha. E, numa metáfora justa, poderia dizer que a Ilha da Madeira é mais ou menos como o meu coração. Porque aqui também o pico é ruivo.

Do Pico Ruivo segui à Achada do Teixeira, onde meu tio estaria me esperando. Apesar de sair correndo desembestada no meio da trilha achando que em questão de minutos meu tio poria uma helicóptero para me resgatar, não tenho dúvidas de que foi a MELHOR (e uma das maiores também, acho que foram 12km) trilha que já fiz na minha vida. Cada curva que eu fazia, cada pedra que eu subia, cada lamaçal em que eu escorregava (e, acreditem, foram muitos), uma nova paisagem me deslumbrava. Em determinado momento, lágrimas me vieram aos olhos. Eu olhava à frente e só via o caminho que eu tinha de seguir, em volta apenas nuvens, inclusive na frente da montanha para onde eu rumava. A sensação que eu tinha era de que poderia sair correndo de olhos fechados e conseguiria andar sobre as nuvens.

Quando terminei a trilha, um misto de alívio por ter terminado tudo e poder finalmente sentar, e de realização por estar carregando um pedaço tão precioso do mundo na minha retina e na minha memória. Jamais esquecerei essa experiência. Minha primeira trilha sozinha. Metafórico, não?

Depois da trilha fomos fazer um pic-nic na beira da estrada. Comi feito um leão, sem o mínimo esforço para disfarçar a fome. Depois fomos até a praia do Faial, onde tive meu primeiro reencontro com o Atlântico. O mar deveria estar uns 22 graus. Temperatura certa. Chão de pedras, mas não importa, o importante era flutuar e setir a brisa e o gosto do sal na boca e as ondas embalando. Ondas imensas, diga-se. Nessa parte da ilha, os surfistas fazem a festa.

Depois de eu e Adam nos refrescarmos, voltamos para o carro com os australianos (velhinhos ultrafofos, estou para apertar as bochechas da velhinha, preciso confessar). Fomos passear em Portela e depois em Quinta do Santo. Mais vistas espetaculares, mais flores, meus sentidos foram inundados por este lugar. Passamos no aeroporto para pegar Jessica, minha prima, filha do Adam. Voltamos para casa e tivemos um jantar com toda a família. Além de mim, Jessica, Adam, Christina e o casal de australianos, estavam minha prima Louisa, o marido Philip e os três filhos, meu primo Jonathan, a esposa (ooops, não lembro o nome) e a filha, meu primo Andrew, Michael (tio), Rosemary (tia) e mais gente que devo estar esquecendo.

Foi uma delícia. Ataquei o camembert e depois o brownie. Sem piedade. Eu tinha caminhado por três horas, estava no meu direito.

Depois disso fui direto para a cama, tonta de sono e com os ombros em chamas por causa do sol.

Acordei hoje às 10:30h. Passei o dia como merecia: lagarteando na piscina e na praia do Reids, hotel que no passado pertenceu à minha família. Almocei lá e dei umas braçadas de leve, já que meu ombro doía tanto por causa da queimadura que não conseguia rodar. Mas foi o suficiente para perceber o quanto um mês sem natação me deixou travada. Lebrei muito de babái. Tirei fotos pensando no meu Hemingway.

Cheguei em casa agora pouco. Não sei quão fácil vai ser caessar a net de novo, já que os dias têm sido bem cheios de atividade. Agora mesmo, Jessica passou por aqui perguntando se eu não quero ver o jardim antes de anoitecer.

Além disso, trouxe meu notebook mas a tomada daqui é diferente, então nada feito. Vou perguntar se eles têm algum adaptador.

Por enquanto, é isso! Amanhã chega outro primo, Christopher, e hoje chega outra prima, Emily. Estou me achando com essa família imensa. Nunca, nunca mesmo, pensei que fosse encontrar todo mundo. Daqui a pouco está na hora do jantar e depois devo ir com a primaiada em algum point em Funchal.

Estou roxa de saudades, penso em vocês direto. Acreditem: tem espaço na minha cabeça para pensar na maravilha que está sendo o presente, nas deliciosas lembranças do passado e no nebuloso mas promissor futuro.

Mas vocês estão sempre na minha memória, seja a Joaninha no Pico Ruivo ou nas infindáveis hortências (não sei porquê, mas sempre que vejo hortências, lembro da Piu), seja papai em todos os momentos de família e em quase todas os momentos em que estou em casa, seja na mamãe quando estou perdendo o juízo, seja no Ti quando estou nadando ou nas trilhas (preciso te trazer aqui aqui e fazer tudo isso de novo, com você, um dia), seja Frubinha, minha fotógrafa preferida, nas nuvens e paisagens e detalhes inexplicavelmente belos, seja Julinho, no samba e nos momentos em que babo a comida... enfim, não vou ficar listando todos, vocês sabem exatamente quem são porque levo vocês comigo.

Um beijo no coração e até a próxima oportunidade de usar a net!!!

AMO VOCÊS!!!!!!

Monday, July 12, 2004

Notting Hill é o lugar, BBC é o emprego

Hoje foi dia de arrumar as malas, amanha estarei na Ilha da Madeira, de onde possivelmente nao serah tao facil acessar a internet e, naturalmente, atualizar o blog. Um briefing dos ultimos dias, pois.

Tenho dois anúncios a fazer: o primeiro é que vou morar em Notting Hill. O segundo, que vou trabalhar na BBC.

Claro que não sei se a BBC me quer lá, só sei que eu vou trabalhar lá, queiram eles ou não.
E também decidi que Notting Hill é uma região bastante morável. Fica ao oeste, numa região central, mas não chique a ponto de ser um absurdo o aluguel. As casas são uma delícia e é mais ou menos o equivalente à Vila Madalena de Sampa.

Os anúncios foram feitos justamente para que possam me cobrar. Notting Hill não garanto, já que há outras regiões legais em Londres e possivelmente mais baratas. Ainda não sei porque não pesquisei. Mas que vou trabalhar na BBC, isso eu vou. Fui lá na sexta-feira, encontrar com a Fiona. Almoçamos e depois fizemos um tour pela BBC. E foi paixão a primeira vista. Por isso eu digo que vou trabalhar lá, custe (ou pague) o que custar (pagar). Voltando da Madeira focarei nisso.

fantasma onipresente

Aconteceu. Uma tristeza profunda, é claro, mas uma ponta de inexplicável alegria por ter acontecido – já que era para ser alguma hora – e passado sem me abalar completamente.

Hoje foi um dia normal. Acordei pesada, tomei café, fui encontrar amigos no Hyde Park, fiz pic-nic, fiquei passeando até anoitecer e voltei para casa. Ninguém saberia dizer que naquela mesma madrugada eu tive um ataque de pânico.

Meu primeiro ataque de pânico londrino, com tudo a que dá direito. Corpo gelado, dor no peito, nada entra pela boca, nem água, suor, palpitação, uma corrida desesperada ao banheiro, o corpo desfalecendo a ponto de eu não conseguir trancar a porta. E um grito para dentro, já que não havia ninguém para me abraçar. Um grito mudo, dos mais agoniantes que já dei. Como é ruim ouvir o próprio arfar no meio de um ataque. Todas as outras vezes, tive alguém do meu lado para me abraçar, jogar água na minha cara (???) ou ao menos me entupir de perguntas idiotas, o que eu considerava o nível máximo do não saber o que fazer, já que a pior coisa numa hora dessas é ficar fazendo perguntas. Agora eu sei que a pior coisa, na verdade é o silêncio. O silêncio exalta o estado do desespero. Parece que cada suspiro tem a potência de um tambor.

Fazia mais de um ano que eu não tinha um ataque de pânico do começo ao fim.

Depois veio o choro. Aquele choro dos cansados. O mesmo choro, imagino, de quem chega de uma guerra perdida, mas pelo menos chega vivo. Passei meia hora com a luz acesa e os olhos fechados, aproveitando a letargia de voltar a mim. Como se eu tivesse de agradecer todos os dias por estar no meu corpo e não desesperadoramente fora dele. Depois de meia hora, o Rivotril começou a fazer efeito e meu peito foi ficando quentinho.

Mas o bolo na garganta continua. Preciso muito de um abraço.

Wednesday, July 07, 2004

ontem

Nada como encontrar amigos por aqui. Agora foi a vez do Rô e do Gu. O Rô é namorado da Camila, mais conhecida como MILÃO, e está morando na França mas veio passar 10 dias em Londres com o Gu, seu irmão. É mais ou menos óbvio que eu me perdi com os dois em todos os passeios a que me propus a “guiar”. No final das contas, eram eles quem estavam me levando e eu só ia, vencida, ciente de que um lanche no Burguer King nunca lhes custou tão caro (pelo menos nas solas do sapato).

Não importa. Levei-os a Hampstead Heath e ficamos horas num papo ora divertido, ora sério, ora inflamado, ora curioso. Só saímos porque realmente o frio nos expulsou. Após a saga para chegar no famigerado (fomegerado) Burguer King em Piccadilly Circus, nem comer foi tão bom quanto ficar observando a habilidade humana de não entender onde é a saída de uma catraca – o banheiro lá tinha catraca e para um mísero xixi, 20p a menos – ou da tentativa de surrupiar o sistema ,nem que seja por 20p, em várias tentativas vãs de enganar as grades de ferro. Foi divertido e, como levantamos do alto de nossos olhos de científicos observadores, valeria um curta. E valeria mesmo. Preciso começar a anotar essas idéias.

Ainda lavei minha roupa e fiz um café brasileiríssimo. Dois alívios numa tacada só.

anteontem

Acordar com o telefone tocando com uma proposta de catering já para este sábado. Proposta deferida.

Abrir a janela e desconfiar que não haveria uma única nuvem no céu até a hora de eu ir dormir novamente – prognóstico devidamente incorreto, apesar de não ter chovido.

Falar deliciosamente ao telefone com meu Hemingway (babái para não-íntimos).

Ir ao banco para abrir uma conta e conseguir abrir a conta.

Ir a uma agência de emprego e quase conseguir um emprego (*bom*), ainda pendente, não se ouricem.

Sentir que a bronca que a Jane me deu por ter gritado ao telefone enquanto ela dormia (eu não sabia, juro, mas naturalmente tive de gritar porque afinal falava com minha irmã poucas horas antes da estréia de sua peça) só serviu para me deixar ainda mais à vontade aqui.

Zanzar em boa companhia por Piccadilly Circus (ainda me perco encantadoramente em qualquer lugar de Londres).

Mandar um bêbado no ônibus shut the fuck up e ganhar a benção do motorista.

Chegar em casa e encontrar Rols e Kelsye acordados para uns biscoitos digestivos e aquela última conversa (odeio ser a última a dormir, desde pequena. Sempre me deu uma sensação de abandono).

O dia perfeito quase chegou, só que eu soube cumprir a maldita profecia e estragar no final.

fim de semana

Sei que estou em falta com meus amados leitores, mas vocês precisam entender. Por quê? Ora, porque isso aqui é meu e eu escrevo quando quero.

Fim de semana novamente a mil. Sexta me despedi do Times com a esperança deum dia voltar, já que meu editor pediu meu celular porque “podemos realmente precisar de você no futuro”. Nessa noite, fui ao teatro com Auriol e Jane, ver Anything Goes. Muito, muito bom. Cheguei em casa e mal entrei, já saí. Fui com Rols e Kelsye, uma amiga dele de Filadélfia muito gente boa, que tem o curioso hábito de procurar comida nos lixos das ruas (sim, procurar e *comer*), para a casa do Jamie, amigo do Rols. Puta casa legal em West Hampstead.

Sábado acordei cedo, ainda com o jet lag do Times. Aproveitei para passear com John, Jane e Biggles (o pretexto do passeio) em Hampstead Heath. Andando para cá e para lá, vendo Biggles rosnar para os esquilos, eis que cruza uma mulher madura e meio disfarçada. Era a Emma Thompson e seu segurança. Emma (Emminha) mora em Hampstead e costuma passear nesse parque. Não é bucólico? É.

À tarde encontrei a Sophia, finalmente. Fomos ao St. James’s Park, outra das jóias de Londres. Após virem cobrar um pound por cada cadeira em que estávamos sentadas, levantamo-nos indignadas e fomos ao Hyde Park, encontrar amigos brazucas. De lá para um inevitável pub em South Kesington, e deste para casa.

Domingo, dia de festa da rua (???) que, olha só que coincidência tragicômica, seria na casa dos Blandy. Dezessete senhoras, senhores e seus respectivos pirralhos (netos, desconfio) azucrinando pela casa. Não me incomodei, a comida estava uma delícia e eu logo fiquei a fuxicar com a Kelsye, que, como eu, não fazia a menor idéia de como se comportar num evento como este.

A festa ainda nem tinha acabado quando resolvi tirar minha merecida soneca pós-balada da terceira idade. E a balada na minha cama ainda nem tinha começado quando o Rols foi bater à porta me chamando para um irrecusável passeio à Speaker’s Corner. Era agora ou nunca (tá, exagero, mas eu tava louca pra ver isso). E valeu a pena. Muito. Foi divertidíssimo ver todo mundo gritando, se xingando, mas pelo menos prestando atenção à idéia alheia. No Brasil algo assim jamais faria sucesso por falta de público interessado em ouvir o que o cidadão comum tem para dizer, mesmo que seja merda e que deva ser contestado (o que acontece de fato na Speaker’s Corner, o lance não é unilateral).

De lá, fomos eu, Rols, Kylsie - e um fim de brownie que ela achou no banco do ônibus (não adianta pedir para ela parar, aparentemente é incontrolável) e comia com prazer genuíno, bem maior que o que sentiria se tivesse comprado o brownie – a Stockwell, bairro também conhecido como Little Portugal, assistir à final da Eurocopa. Foi triste. Portugal merecia o título, apesar de que nem sei se jogou bem ou não porque tinha tanta gente que achei melhor ficar falando com a Fruba ao telefone (siiiiim, minha foFRUra me ligou!) e depois conversando com quem mais estivesse achando, tal como eu, que a relação custo benefício (benefício = assistir ao jogo; custo = ter um ataque de pânico e não consegui sair do meio da multidão) não era muito atraente e ficasse na rua. Lá, conforme combinado, encontrei com a Adri (aquela do avião, sabem? Não lembro se contei aqui ou não). Foi delicioso e ainda saí com a esperança de um trabalho sussa de catering (garçonete em festas) que pode me render uma grana extra em fins de semana.

Thursday, July 01, 2004

pequenices

** As torneiras daqui sao base para um estudo antropologico. Sinceramente. Eh assim: Vc tem uma pia, agua quente e agua fria e DUAS torneiras. Soh que de uma, SOH SAI AGUA GELADA e da outra SOH AGUA FERVENDO. E eh assim num monte de lugares e eu nao faco ideia do porque. Deve ser para economizar agua, nao sei. Pq assim vc teria que usar a tampa do ralo e fazer um escalda-mao ou escalda-cara.

** No comeco voce ateh acha bonitinho, depois comeca a fechar a cara para cada “sorry” que se ouve. Se eles encostam em voce, “sorry”. Se eles estao no seu caminho, “sorry”. Se eles sorriem para voce, “sorry, sorry, sorry”. Geralmente o (bem vindo) “excuse me” traz na cacamba o “sorry”.

** Eu nao sabia que o povo ingles era tao apressado. Serio. Paulistanos ficam no chinelo. Eles estao sempre se atropelando (e entoando o mantra “sorry”) e muitas vezes nao porque estao com pressa, mas porque estao acostumados a ter pressa. Outro dia voltava com meu tio do Times. Ele saiu correndo feito um destrambelhado achando que estava prestes a partir o metro. Nao entendi nada. Oras, o metro aparece de dois em dois minutos! Pra que corer se nao temos nenhum compromisso e a tarde estah bela e ensolarada? Vai ver que eh por isso que nao faz tanto sol por aqui: os ingleses nao dao muita atencao a ele. A maioria, pelo menos.

** A comida daqui pode nao ser tao boa quanto a brasileira, mas o iogurte e o chocolate deixa os nossos a ver navios. Alem disso, ainda nao vi o TERROR, ou seja, a cozinha britanica tao temida e que tanto me foi recordada nas vas (vans) tentativas de me convencer a mudar de ideia sobre a viagem. A comida nao eh tao ruim, tudo ficou bem internacional e pode-se, sim, comer muito bem.

** Cada vez que conheco mais essa cidade, mais me apaixono e mais me pergunto o que foi dar errado no Brasil. Desculpem-me os ultranacionalistas e afins. Nao ha a MENOR chance de nosso querido pais ter alguma cidade que se compare, ainda que muito chulamente, a Londres.

shove it up your ass

Aqui estou, num dos meus momentos mau humor que me persegue esteja eu na Conchichina ou no Brasil. Na verdade, estou no trabalho fazendo mais ou menos NADA, jah que terminei o que tinha que fazer. A work experience do Times acaba amanha e eu jah to comecando a me descabelar para arranjar um emprego. Ainda estou armando o circo, mas soh falo mais depois que os palhacos entrarem no picadeiro.

Ontem o metro ficou em greve, entao nao fui trabalhar, apos conselho bastante sabio de meu chefe ao telefone: enjoy your day, take a nap after luch. No final das contas, tirei o cochilo antes disso e fui acordada para almocar. Depois do almoco fui com Roland, Jamie (um dos melhores amigos do Roland) e um casal de amigos do Roland de Manchester, num pub. Fazendo nada, o que eh uma delicia. Mais tarde, jah em casa, comi muito. Saudade de comer sem precisar, sabe? Tenho comido pouco.

Amanha vou ao National Theatre, ver um musical cujo nome exato nao recordo. Vai ter que ser bom. Senao eu durmo (e muitos jah testemunharam a minha facilidade de ignorar sumariamente os classicos e imperdiveis de qualquer forma de arte).

Falei com Sophia ao telefone, finalmente. Vamos nos ver no sabado. Ainda ontem, ia assistir ao jogo de Portugal num pub e tive que dar meia-volta na entrada do metro, ainda de greve. Ainda nao sei o que fazer hoje, mas preciso dar um jeito nesse mau humor. Saudade dos tempos nada longinquos em que alguem tinha que me aturar birrenta. Agora nao tem dessas. Eu que enfie meu mau humor no rabo e continue sorrindo como quem peida perfume.