Monday, October 31, 2005

amanhã é 23

Vinte e três dias exatos que trabalho sem um dia de descanso. Seria muito mais, não fosse minha assertividade mais que vital para dizer não, ao menos uma vez, para o pessoal do trabalho. Estou aprendendo. Não só falei não, como "possovelmente nunca mais" para St. George's. Já avisei Cannons que em breve abandonarei o barco por lá também. Ainda preciso de uma dose de assertividade para falar para o Imperial College que valeu, mas não vai rolar dessa vez. E assumir novamente minha confortável posição de mono-trampo, nine-to-five, de que só reclama quem nunca trabalhou five-to-nine, am-pm. Acreditem, eu já. E não é tão legal e ainda assim me esforço para conseguir pagar o aluguel e as contas e o maldito cartão de crédito, meu contrato com o diabo. Graças ao cartão de crédito comprei meu iPod que me quebrou as pernas. Adoro ele, meu nano, mas foi deveras irresponsável comprá-lo. Só eu sei. Meda, pânica, horrora, desespera, socorra quando vi minha conta baixar a marca dos £100 este mês.

Mas tudo passou. Passou mesmo. E meu novo emprego deve me deixar bem mais, ahn, confortável. Paga mais do que eu jamais ganhei.

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Estou aqui now and then; assino como Bee S.

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Estou realmente penando um tequinho para fazer esse primeiro essay do curso da facul. Nunca imaginei que isso fosse acontecer, mas hoje serei uma dessas que ficam segurando o professor depois da aula para pedir ajuda particular. Céus, como sou mala. Entendo todos os preceitos, teorias, estou feliz da vida ao notar o universo semiótico se abrindo num sorriso para mim. Mas não adianta, esse semiotas (semióticos + idiotas) falam de comunicação para lá, comunicação para cá, mas o que menos fazem é comunicar. Incrível pensar que essa é uma disciplina fundamental a quem estuda comunicação. Mas sempre há quem ache bela a língua alemã só porque faz parte do seleto grupo dos que a dominam também. Ah, o gozo do conhecimento partilhado por poucos. No worries, eu também já tive muitas alegriazinhas assim. Aí passou.

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Preciso encerrar este post em breve. Vou me encontrar com o glorioso Chris. Ontem, assistindo Betty Blue na Sky, lembrei muito de nós dois em algumas cenas crássicas (crassas + clássicas) e na mesma hora ele ligou. Vai se mudar para Canary Wharf em uma semana. Vamos morar alguns minutos um do outro. Tipo uns 20 andando. Não vai prestar.

Mas vai ser legal.

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E quarta-feira vou com a Marinella num workshop e sexta vou almoçar com meus queridos Marius e Steve da BMI e, ufff, viram só como sou popular? Saudade de tanta gente... Nada melhor que se enganar com dois ou três minutos longe de qualquer realidade.

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Estou pensando seriamente em investir um pouco do dinheiro que não tenho num colchão novo. Minhas costas estão cada dia pior. Merda de landlord muquirana que comprou o colchão mais barato DO MUNDO para pôr na minha cama. Mongolóide.

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Hoje eu deveria ter pesquisado hotéis na Escócia e na Irlanda para mim e Bruninha, mas vai ficar para outro dia. Quase não consegui escrever no blog como havia me prometido. Nem adiantei meu essay porque NAO SEI POR ONDE COMEÇAR. Isso só me acontece em inglês mesmo.

Ouvindo The Dancer da PJ Harvey no repeat. Isso só pode ser sinal de inspiração. Vou ali ver o Chris e seguir direto pro meu curso.

Uninspired.

Wednesday, October 26, 2005

brainstorm

Vou tentar descrever para vocês como está meu cérebro, descivilizadamente:

Ai eu mereço essa viagem eu e Bru e talvez Paulinha e talvez outras pessoas mais sempre quis conhecer a Escócia e a Irlanda tickets comprados ainda bem será que vai dar tempo de tomar banho antes do trabalho acho bom dar porque ontem não tomei banho que medo de começar o novo trabalho será que vai rolar mesmo ou é mais uma pegadinha não posso esquecer de tomar Goody's enxaqueca bombando saco saco saco David Gray é mesmo muito legal amanhã é niver do meu Putão e eu estou aqui até convite pra festa o desgraçado me mandou ele me paga faltam menos de oito semanas para ir ao brasil sonhei que minha irmã também era salva-vidas essa noite e também que o Manager me agarrava coisa boa quisera eu ano novo vai ser em Duas Marias família sossego cheiro e comida de infância mami e Piu mato calor não sei se meeu coração agüenta tanta felicidade preciso lembrar de marcar dentista e ginecologista no Brasil o Chris ficou de me ligar no final dessa semana ele foi tão legal na última vez que nos falamos ele viu que eu não tava bem mas agora estou ele já devia ter se acostumado com a montanha russa que é estar ao meu lado tudo muda em uma semana e eu vou com a onda não tenho culpa o curso tá bem legal mas porra tenho que escrever um essay de 1,500 palavras para segunda-feira sem ser essa a outr 1,500 palavras é pouco para o tema que ele pediu análise semiótica dos jornais nunca pensei que fosse realmente REALMENTE entender semiótica sinto que aprendi uma nova língua ai quantos emails pra responder bobby me escreveu perguntado cadê eu mas eu escrevi perguntando cadê ela e mais uma vez não sabemos quem sumiu primeiro mas adorei mesmo o sonho com o Manager pena que vou abandoná-lo ou melhor falando abandonar a possibilidade eu certamente me divertiria com ele mas aquele lugar paga muito mal ninguém merece ainda preciso avisar o pessoal do Imperial College que o sim que eu disse é não não vou mais trabalhar com eles não vejo a hora de ganhar decentemente mas não vejo a hora de ter merecidos cinco dias de descanso na Escócia e Irlanda o que será que vou gostar mais Edimburgo Dublin sudoeste irlandês ou cork vai ser demais e sexta-feira trabalho num lugar em Covent Garden chamado The Sanctuary um spa todo posh e saio as três e de lá vou pra Cannons onde encontro com Bru e vamos nos esforçar merecidamente em nosso descanso ai spa sauna piscina ginástica uma aulinha de Pilates maybe qualquer coisa que quisermos é bom trabalhar lá também vou sentir falta se bem que quero continuar trabalhando ao menos uma vez por semana para poder usar a academia e a piscina depois do trabalho nem é fora de mão de repente eu trabalho de sábado e pronto caralho 11:22 se não for tomar banho agora não tomo mais não esquecer o goody's para enxaqueca pelo menos já me livrei de faxinar a cozinha.

Sunday, October 23, 2005

grito de dor feliz

Estou cansada. Dormi menos de sete horas nas últimas três noites; menos de oito nas últimas semanas. Estou cansada mas estou sorrindo. Meio xingando o mundo, mas eu sou assim, xinguenta, rabugenta. Ainda assim sorrindo. Um sorriso que é mais um rasgo na diagonal, mas ainda assim um sorriso. Torto de guerra. Sou uma puta guerreira, é isso que sou. Não paro porque não posso parar. Se parar, morro, tal qual uma guerreira. Nunca o termo foi tão bem aplicado. Me orgulho do peito ferido, do coração esmagado, das marcass de pneus nas minhas costas. Me orgulho das marcas de bota na bunda, das bolhas nesses pés que só fazem andar, dessas mãos que derrubam tudo, mas não desistem de levantar tudo o que derrubam.

Sinto-me perfeitamente confortável com olheiras e ombros duros. Meio assustador, porque se me pego sem fazer nada, a guerra começa na minha cabeça.

Hoje a Fru voltou para o Brasil, mas não sei se quero falar disso. Não sei se quero falar da pessoa que me foi mais importante aqui, junto com a Bobby. Não sei se quero lembrar o quanto rimos e choramos e ignoramos o silêncio juntas. Não sei se quero entender que estou mais sozinha ainda. Eu, que já vinha me sentindo cada vez mais sozinha. Não sei se quero guardar na memória nossos rosto contorcidos de choro de despedida. Sei que vou vê-la no Brasil em menos de dois meses, mas, ninguém vai entender, ela é parte de Londres para mim. Ela está aqui comigo desde meu terceiro mês por aqui. Ela indo embora equaliza Londres faltando um pedaço. Para mim, a vida aqui perdeu um pouquinho mais da graça. Que já não é mais a mesma anyway.

Olha, não me venham com papinho de que sou pessimista. Vem aqui pôr o cu na pimenta um tequinho para entender. Não tenho tempo para chorar.

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Estou querendo uns dias de luxo. Novidades mais concretas, quando a vontade se fizer concreta. E possível, for a change. Por enquanto, luxo é aquilo que posso ver sem tocar. Nem sempre foi assim. Sinal de que nem sempre será.

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Fui chamada para trabalho permanente no Imperial College. Eles estão inaugurando um novo centro esportivo do caralho, piscina semi-olímpica e pans, e eu faria um papel meio que de tudo: salva-vidas, recepcionista, supervisora esportiva, instrutora sabe deus do quê...

Eu disse sim.

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Então começo meu trampo novo no começo de dezembro. Até lá, muito trampo para pagar as contas. Quando o trampo novo começar, quero crer que minha vida vai entrar nos eixos. Vou ganhar relativamente bem.

De qualquer maneira, amanhã tenho entrevista em Kingston. A terceira. Palhaçada. Nem sei se quero mesmo. Vou por desencargo de consciência e para entender porque eles querem me ver pela terceira vez. Mas é isso. Não irei uma quarta vez, a não ser que seja para de fato trabalhar. Faz tempo que o mundo já não é mais uma criança carente pedindo dinheiro no farol e ganhando minha compaixão e meu bolso. Não dou nada de graça para o mundo se não houver a perspectiva de receber. E se recebo primeiro, dou um pouco de volta, e mais um pouco, e mais um pouco. De pouco em pouco, para me iludir com a idéia deliciosa de que o mundo sempre vai me dar e vez ou outra receber.

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Dia 18 foi aniversário do meu Hemingway. Ele me disse ao telefone, pouco antes de desligarmos: "Você escreve muito bem, né?" Acho que meu Hemingway não sabe o quanto isso significou para mim. Você, meu Hemingway, é uma das poucas pessoas para quem escrevo esse blog. A maioria apenas lê. Você, meu Hemingway, você recebe. Você sabe que é para você. Happy birthday, dear Hemingway. Quem sabe ano que vem não estarei na área para comemorarmos juntos?

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Sabem meu último post? Então. Na mesma noite sonhei com meu avô. Ele estava deitadinho, sereno, na cama do hospital. Eu, ao lado dele, segurando suas duas mãos com minhas duas mãos, um pavor de que qualquer parte dele escapasse por entre os dedos magros. Eu estava ali para me despedir. Dava um beijo em sua testa e saia. Ao lado de fora, uma excursão de crianças esperava para entrar no quarto também. Eu pensava, ufa, cheguei a tempo.

Obrigada, vovinho, por me deixar te dar adeus. Eu não sabia que você lia meu blog.

Sunday, October 16, 2005

floco de neve

Hoje meu avô faria 93 aninhos. Noventa e três aninhos se não tivesse partido alguns meses atrás, como leitores mais assíduos e mais memoriados hão de se lembrar.

Hoje tentei não pensar nisso para não deixar o dia pesado, mas todo mundo quis me lembrar. Todo mundo me perguntou que dia era hoje. Sixteenth of October. Eu tentava dizer da maneira mais vazia possível. Como se fosse apenas mais um dia como a maioria, mais um dia para carregar nas costas. Mas não é. Esse é o primeiro dia 16 de outubro em que não falo "feliz aniversário" para ninguém. É o primeiro 16 de outubro que me vem em gotas de saudade, uma saudade que sei que nunca irei saciar, por isso uma saudade serena e doída, saudade

Hoje meu velhinho faria noventa e três anos. Onde ele estiver, aqueles olhinhos cheios de história continuarão morando em mim. Quer ele queira, quer não. Eu só sinto muito e continuo sentindo muito por não ter podido me despedir. Sem a despedida, ainda fico meio perdida. Algumas vezes na última semana me deparei com a dúvida do que minha irmã poderia comprar para dar para meu avô em meu nome. Preciso entender de uma vez por todas que o que posso dar a ele não se compra e é bem mais precioso. Hoje, vovinho, te entrego meu pensamento. Todo ele foi seu. Todas as linhas que meus olhos correram lendo, vendo, piscando, não distraíram meu cérebro de você. Te dei minha saudade doce e doída de aniversário. Aceite, é de coração.

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Fim de semana besta, gripe besta. Em menos de uma semana a Fru volta pro Brasil. Acho que ainda não caiu a ficha. Não sei se quero que caia também. Dói. Cansei de doer.

Provavelmente nos veremos algumas vezes essa semana, antes do tchau derradeiro. E nem é um tchau tão sofrido por que nos veremos de novo em dois meses, no Brasil. Mas mesmo assim, ela sabe o papel importante que tem aqui dentro. Amiga que mora com a gente e continua amiga, é amiga pra vida inteira! Eu não tenho dúvidas de que minha pequena, apesar de todos os encalços, obstáculos, pedras no sapato e chiliques, é a minha pequena para sempre. Agora fodeu. Você sabe que pode cometer a maior cagada que uma amiga pode cometer e eu vou continuar te amando da mesma forma. Puta da vida, te xingando, chorando ou triste. Mas o amor é o mesmo. Sempre. Amo você. Amo tudo o que vivemos e passaria por tudo quantas vezes mais forem necessárias. E pediria desculpas mil vezes e aceitaria mil desculpas suas. Vale a pena passar pelo que for para te ter ao lado, all the way, ocupando o pódio do meu coração.

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Ontem assisti “Lucia e o Sexo” na TV. Na verdade, eu ia assistir “A Excêntrica Família de Antonia”, que havia gravado no Sky. Mas acabei deletando o filme sem saber direito porquê. De qualquer forma, valeu. “Lucia e o Sexo” é fabuloso. Roteiro incrível, diálogos bem bolados, trama contagiante e, claro, tema que nunca se esgota: sexo. Ou melhor, amor. Apesar de tantas cenas de sexo, esse é um filme, acima de tudo, sobre o amor.

Ontem, também, tive o primeiro encontro com um novo morador da casa: um rato. Ele me saudou passando correndo sobre meus pés descalços. Era um rato gelado. Fiquei apavorada. Não gritei nem nada, mas senti a adrenalina subindo minha espinha e meu pé se fechou numa bola que nem bailarina seria capaz. Subi correndo as escadas e me enfiei debaixo do meu edredon. Custei a dormir e pedi a Morfeu que me poupasse de sonhar com ratos, porque seria uma brincadeira de deveras mau gosto. Batizei o novo inquilino de Little Izac.

Tuesday, October 11, 2005

eu e o gato

Eu queria, juro que queria, poder dividir com vocês todos, amados leitores, lurkers e escancarados, conhecidos e desconhecidos, tudo o que se passa ao meu redor. Eu queria. Só para vocês verem que de fato minha vida é inundada por filmes. Geralmente os filmes são inundados por vidas, quero crer.

Mas eu não posso. Não posso expor tanta gente. Eu optei por ter um blog, não as pessoas que convivem comigo. Então não posso, não quero, não vou. Por isso uso pseudônimos, iniciais, nacionalidades, mil artimanhas. E por isso muitas vezes sou toda abstrata, um quadro de Miró. Você não entende nada, mas sabe que a Lua e a estrela estão lá, então só pode ser um quadro de Miró.

Aiai. Eu me comparando com Miró. O acinte. O fim.

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E outro dia estava andando pelas ruas de Mudchute. Devia ser 5:30h da manhã, eu estava indo pro trabalho - sim, sinta-se mal por reclamar do SEU trabalho - e no meio do delírio onírico que costumo ter a essa hora, vejo um gato. Não um gato qualquer. Um gato belo. Caramelo com um splash branco no focinho. Rabo bem peludo, empinado. Gato limpo. Coleira e tal. Na hora pensei que podia ser um gato perdido, sim, provavelmente era. Mas pensei que poderia ser apenas um gato tão domesticado que já ganhou a confiança do dono para deixá-lo passear por aí. Ou, mesmo que estivesse perdido, o que eu poderia fazer? Levar o gato para o trabalho? Deixá-lo afinado as garras na sauna seca? Pô-lo para correr na esteira? Desencanei.

Dia seguinte, num horário igualmente indigno, começo a caminhada de oito minutos até a estação de metrô e o que eu vejo? Não, não foi o gato. Foi uma placa pregada na árvore: Gato perdido, yadda yadda, dona sensível, yadda yadda, atende por Mr P., yadda yadda, é caramelo com splashes brancos, coleira e microchip. Me enfureci. Por que não puseram as placas no dia anterior? Se foderam, eu poderia ter feito a vida da dona sensível cor-de-rosa de novo. Segui andando para o metrô e pensando na ironia da história, na inversão temporal das coisas. Não fazia sentido. Chegando no metrô, o que eu vejo? Não, não foi o gato. Foi a dona pregando plaquinhas desesperadamente em tudo o que se projeto do chão. Caminhei até ela, uma senhora gorda, redonda mesmo, óculos, calça de moleton, nariz assado de gente deprimida. "Olha, minha senhora, eu vi seu gato passeando ontem por aquelas bandas ali, ó". Ela me olhou com um misto de esperança e ceticismo. Acho que não estava convencida de que eu tinha realmente visto o gato dela.

Aí fui embora. A história não saía da minha cabeça. Como pode? Apenas um dia e o gato que eu vi solto poderia estar de volta aos aconchegantes e gordos braços de quem lhe dava comida, bebida e cafuné.

Mais um dia se passa e na manhã seguinte lá vou eu, já na espera de ver a placa do gato, olhos atentos aos canteiros e arbustos, vai que eu via o gato de novo? Não tem gente que ganha mais de uma vez na lotto? Deve ter.

Eis que a placa não está lá. Foi arrancada. Todas as outras também. Para mim estava claro: haviam achado o gato. De fato, devem tê-lo achado. Fiquei feliz. Ao mesmo tempo, um vazio disputava espaço com a felicidade. Aquela era a MINHA história. EEEEU tinha visto o gato, EEEEU tinha encontrado a dona, EEEEU fui falar com ela. Como é que outra pessoa rouba o meu papel de anjo nessa história? Incrível. Eu e meu egoísmo. Mas acho que somos todos assim. Caridade nunca é só caridade. Se dando não se recebesse, seríamos cofres ancorados ao mar. Nada entra, nada sai. Eu, louca para fazer parte, louca para ser a agente da ativa dessa história, e por quê? Só para ser eu. Só para me redimir de tudo o que recebi sem autorização e resolvi não dar em troca.

Não funcionou. Quantos gatos precisam se perder para eu entender que o problema é que não é recebendo que se dá, mas é dando que se recebe? A verdade é que tenho medo de nunca receber. Acho que a vida me fez assim. Odeio esperar.

Friday, October 07, 2005

o fantástico mundo de Bobby

Qual a chance do dia ser uma merda quando a primeira coisa que leio é um email amado, amado, amado, de uma pessoa que eu levaria no bolso ou empoleirada no meu ombro para sempre se pudesse?

Oh, meu xuxu, se prepara pro abraco que eu vou te dar qdo nos vermos. Ontem eu contei pro John da briga que tivemos, e eu tentando ir pra cima da Bibi e ela me olhando quase rindo com uma cara de "fofa, voce ta delirando, eh so eu levantar meu braco que voce voa..."Ele quase chorou de rir. Eu disse que Bia eh Bia e sempre sera Bia. E que eu gosto da Bia, muito Bia, sempre Bia. Foi mais ou menos o que eu disse. Ele morreu de fofura e eu chorei.


Chance zero.

Monday, October 03, 2005

the only way is out

Você acredita no que eu escrevo? Pois não acredite. A partir de agora eu não acredito mais no que digo e penso. Tudo de que tenho certeza absoluta sempre vai ter um ponto de interrogação no final, daqui para frente, até eu aprender a me entender, me conhecer, saber quem sou e não quem gostaria de ser. É muito fácil fingir que sou o que gostaria de ser o tempo todo. Eu visto uma máscara (minha preferida é a de nada-me-abala-a-vida-é-uma-festa) e ela só cai quando a vida anda na minha direção, quando trombo com fatos que, na teoria, nem chegariam a ser fatos, tão insignificantes. Várias coisas disputam meu pensamento agora. Eu fico meio perdida, porque são pensamentos genuínos, a partir de coisas reais. Minha máscara está caindo e não aprendi a viver sem ela ainda. Tenho medo de chorar e a lágrima furar minha cara. Tenho medo de abraçar e quebrar os ossos. Tenho medo. Sou, enfim, uma pessoa como você. Uma vez uma leitora me disse que sonhou comigo e eu era uma espécie de Angelina Jolie naquele filme que ela era heroína de não me lembro o quê. Eu achei uma graça, mas fiquei a pensar se é essa a imagem que passo: de uma super-heroína cuja vida é cool e cujos obstáculos fazem cócegas. Não fazem.

A partir de agora, não acreditem mais no que eu digo. Acreditem apenas no que questiono. A dúvida é minha única certeza.

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Fim de semana agitado. Alucinada. Dormi quase nada, mas trabalhei. Me arrastei o dia inteiro. Já está virando hobby esse negócio de dormir no quartinho de primeiros-socorros. Nada como um bom cochilo na maca. Sábado foi o housewarming da Fru e da Bruna. Foi uma delícia rever tanta gente legal que acabei perdendo o contato porque sou uma anta de tetas workaholic. Tudo culpa minha. A Paulinha, por exemplo, é uma amiga da PUC que está aqui já faz três meses e sábado foi a primeira vez em que a vi. Claro que minha vida está uma correria e yadda yadda, mas eu podia ter dado um jeito. No final, combinamos de nos encontrar com mais freqüência, já que ela está morando em Bermondsey, não muito longe de mim. Também reencontrei a Camila, ex-flatmate do Ernesto, uma fofa que é a enxaqueca em pessoa, mas é fofa. Poucos sabem o quanto ela é doce.

Enfim, levei meus flatmates, Mr. Australia e Mr. Suécia, para a festa. Eles se divertiram. Bastante. Mas, sei lá, se pudesse voltar no tempo acho que não os teria levado, não. Mas xapralá. Eu me diverti, eles se divertiram, todos se divertiram e é isso que importa, ou que deveria importar. Se ficou um gosto amargo no final é porque eu precisava aprender - mais uma vez, mais uma vez - que não há doce absoluto. Até quindim tem seu lado perversamente amargo. Não há exceções. Um dia, um dia eu quero voltar a ser imaculada. Quero voltar a ser pura. Voltar a pensar que existe certo e errado e que eu saio ganhando fazendo o certo. Um dia quero escolher o Bem novamente, acreditar que há essa alternativa. Acreditar que uma porta quadrada, definida, iluminada, me espera em alguma ponta do labirinto. Chega de portas semi-abertas. Chega de portas semi-fechadas.