Thursday, May 26, 2005

bambole

Então vai ser assim. Semana que vem me mudo para Southampton, mas só por uma semana mesmo. Isso é, se eu arranjar lugar para ficar. Senão vou comutar todos os dias da semana que vem. Southampton fica no sul, na praia, 90km a oeste de Brighton, uns 120km ao sul de Londres. E é lá que farei meu curso de salva vidas. Eu disse que não estou para brincadeira, não disse? Pois liguei para a Dona Vaca que disse ter me mandado o formulario para o curso que estaria acontecendo em Londres, e ela disse que mandou e eu nunca recebi. E quando liguei para cobrar ela disse que agora não tinha mais vagas. Não pensei duas vezes. Abri o mapa da Inglaterra, vi as regiões ao redor e fui atrás de cursos nessas regiões. Southampton foi a escolhida. Começo segunda, me qualifico no sábado. E eu vou, porque se parar eu paro mesmo.

O emprego que eu queria já foi ocupado por outra pessoa.

Aiai.

Hoje fui em outra entrevista. Dessa vez menti um pouco. Tá difícil conseguir emprego falando a verdade. Disse que amaria fazer certas coisas que nem amaria. Disse que fico feliz com coisas que don’t move me at all.

Viram? Já virei rata de escritório. Eca. Isso nunca. Vou sempre voltar para casa e tentar lembrar de como eu realmente sou. Mesmo que só eu lembre.

Enfim.

Finalmente chegou aqui a caixa que babãe tinha mandado do Brasil em março, repito, março. Não, a culpa não foi dos correios. Minha mãezinha linda não pôs o número da minha casa no endereço. A caixa voltou e ela teve que mandar de novo. Não tinha mesmo que ser minha mãe?

Mas finalmente chegou. Abri e encontrei um cachecol lindo, branco, quentinho, acolhedor. Uma canga azul magavilhosa que estou usando agora porque, acreditem, faz calor. Um guia de turismo da Europa deeeeste tamanho que o Neal me mandou de aniversário. E um livro que eu queria muito, O Vendedor de Passados. Este foi presente de aniversário do meu avô. Ele ainda estava vivo quando minha mãe me mandou a caixa. A dedicatória, foi ele quem ditou para minha irmã escrever. E ele assinou. Com uma mão trêmula, mas forte. Posso imaginar sua carinha. Uma assinatura trêmula e forte. Porque mesmo esmorecendo ele não perde as forças. Um dia quero ser que nem ele.

E o Chris. Tivemos uma longa conversa ontem. Ele chorou. Eu não. Não tinha porquê. A dor era só dele, que tinha feito merda. Me pediu mil perdões, disse que está com mil problemas mas que em (mil) dias vai começar uma terapia, porque está fodido, porque a vida nese exato momenbto fede, porque, hoje, não é bom ser ele.

Só ouvi. E o abracei. E disse que é só não parar para não me perder. Porque qualquer bambolê cai sem a rebolada.

E eu repito isso a mim todos os dias, como um mantra: é só rebolar para ele continuar rodando. Mas se parar de rebolar, pode dançar twist que ele não sobe de novo.

Monday, May 23, 2005

desarmonia em si maior

Eu ainda não decidi o que sou hoje. Não sei se estou feliz ou triste. Não sei se estou ansiosa bom ou ansiosa ruim. Não sei se estou esperançosa ou cética demais. Não sei quem sou hoje. Na verdade, as entrevistas, principalmente a segunda, foram um sucesso. Ambas me garantiram que estou ultraqualificada e a segunda entrevistadora chegou a dizer que agora que ela me "pegou", sou "dela". Mas, meus caros, tratam-se de job agencies. Elas ganham para enfiar pessoas em empresas, então obviamente o interesse maior da simpatiquérrima Leslie era me pegar e ser dela para ela levar a comissão. Só comemoro quando estiver com contrato assinado.

por outro lado, estou extremamente emputecida com meu (pseudo-)namorado que simplesmente esqueceu que viria para cá ontem à noite depois de mais um desses fins de semana infudados que ele passa em treinamento no exército. Esqueceu. Liguei para o paspalho às 22h e ele, "whassup, beautiful?", nem aí. Estava num pub. NUM PUB. Cara, que raiva me deu. "Oh, you're in the pub? Wow, that's really interested as you said you were coming here and staying the night". Ele disse que não lembrava. E ter dito isso não melhorou em nada a situação dele. Na verdade, mais uma vez ele fex gol contra. Ele não tem noção do risco de me perder que está correndo desde que dei meu telefone para aquele carinha e não paro de pensar em quando ele vai me ligar para sairmos. Agindo assim, meu (pseudo-)namorado apenas ajuda para que um eventual (pseudo-)chifre ocorra sem grandes pesos na consciência.

**

Como um todo o fim de semana foi bem, beeeem legal. A começar com a saga de sexta do post anterior. Sábado fui almoçar com a Ana Luiza e um amigo dele. Foi bem legal e saí com contatos e perspectivas de quebra-galhos bastante bem vindos. De lá fui ao British Museum, dei uma girada mas estava muito cheio. Me irritei. Fui embora. Fui no cinema ver Machuca. Outro filme imperdível que eu sei que já tá passando aí no Brasil.

De lá para casa. Chegando aqui, mais filme com a Fru. Vi 21 Gramas finalmente. Atestei o que todos me diziam: é ótimo também.

Domingo foi dia de piquenique no parque com o pessoal do ex-trampo. Tava meio frio, meio vento demais, meio choveu até, mas foi legal mesmo assim. Principalmente depois que apareceram uns gatinhos na área e depois que a Erica chegou. Depois viemos para casa, a Eri não conhecia o nosso cafofo ainda. Conheceu e adorou.

Mais tarde ela foi embora e foi então que quebrei o pau com o Chris. Minha vontade era desligar e emendar o telefonema para o gatinho, o outro. Mas não. Agüentei firme até hoje, uma hora atrás, quando ele me ligou dizendo que estava podre e que não poderíamos nos ver hoje também. Eu só queria vê-lo para dar esporro mesmo, como combinado. Novamente ele deu o cano. Eu falei para ele: você sabe o risco que está correndo levando nosso relacionamento assim? Ele ficou mudo. Depois disse que estava cansado demais, que precisava dormir e comer, porque não dormia e nem comia mais, e eu disse, your choice, babe, your choice, e eu disse também que por mais que o problema não estivesse no relacionamento (e eu sei que não está), ele - o relacionamento - acaba sofrendo as conseqüências.

Ele ainda não entendeu que não sou só de palavras duras. Sou dura.

Saturday, May 21, 2005

turn over

Eu juro para vocês que poucas vezes estive tão feliz como ontem. Acho que, por mais lamentável que pareça, só sentimos a felicidade assim crua quando passamos por tristezas profundas antes. Se a vida é toda feliz ela acaba paradoxalmente não sendo feliz. Anestesia pura. Assim como tristeza constante não é tristeza, mas a perspectiva de ter mais felicidade com uma simples borrifada de esperança. Vai ver é por isso o povo brasileiro é tão feliz. Tristeza constante não é tristeza.

Mas eu ia dizendo. Estava eu extremamente mau humorada, irritadiça e, what the hell, deprê, chorosa, toda ardida por dentro na quinta-feira. Até nadar não deu certo porque tava tendo aula da pirralhada (ou cavocada, como diria meu ex-treinador Edu, porque criança não nada, cavoca) e eles tiveram o dom de pôr uma raia de assim, e não de assado, de forma que nnao tinha uma raia inteira para nadar e, logo, perdeu toda a graça (porque tudo corria o sério risco de a qualquer momento perder a graça na quinta-feira). Para ajudar, chuva, frio, cinza, vento, alô, primavera? Vai rolar ou tá difícil? Eu estava cursing e swearing e, you name it, todos os palavrões não cabiam em minha cabeça. E minha cabeça é grande.

Aí resolvi acabar com a palhaçada e fui dormir às 11h da noite. Sexta o dia já amanheceu todo diferente. Quer dizer, naquelas, estava chovendo ainda, cinza, frio, vento, oh well, eu vim pra Londres, não vim? Agora que agüente sem reclamar. Mas acordei depois de uma noite bem dormida. 8:30h em pé. Fui até Poplar, um bairro aqui no leste, mas mais leste ainda. Meio dodgy, mas encarei. Fui a uma agência de empregos lá, especializada em jobs na região leste de Londres. Eu percebi que aquele seria um bom dia porque dei gargalhada numa situação que deveria me fazer abrir as ventas de emputecimento. Estava com meu iPod tentando achar a maldita entrada da job agency e um segurança bem invocadinho me pára e pergunta o que estou procurando. Responde e ele começa a falar tudo enrolado, com aquele sotaque cockney maldito, e eu toda enrolada nos fios do iPod, tentando achar o botãozinho de desliga. Foi o suficiente para ele se enfezar e dizer "tira essa coisa do ouvido para falar comigo senão você não entende nada mesmo". Ele estava bravo. E eu achei engraçado porque ele foi extremamente grosso e invasivo como poucos ingleses são (obviamente ele não era inglês, mas, morando aqui, favor se adaptar à cultura local). E foi então que comecei a rir. Mais de surpresa que de qualquer outra coisa. Anyway, o jeito que ele olha me faz desconfiar de que há algo meio errado na cachola.

Preenchi um cadastro e fui m'embora. De lá passei em casa e depois fui pro meu ex-trabalho, encontrar o pessoal pro almoço. Foi bem divertido ver todo mundo. Apesar de toda a sacanagem, apesar de todo o sofrimento da última semana, gosto muito de toda aquela gente, inclusive de minhas ex-chefes. E ontem pude ter um "glance" de como sou amada lá também.

Depois fui ao escritório. Sentei na minha antiga mesa, ao lado de Tatyana, na frente de minhas chefes. Minha chefe mais próxima disse que era para eu imprimir tudo o que tinha feito, para montar uma espécie de portfolio. Também sentou comigo e reformulou meu CV com o que fiz durante os nove meses em que trabalhei lá. Quando bateu 4:30pm, metade do escritório - isso dá umas 30 pessoas - se reuniu em frente a minha mesa para me dar presentes de despedida e um cartão lindo, com mensagens lindas, todas elas me convencendo de que meu sorriso é capaz de iluminar um dia inteiro. Os presentes, todos preciosos, porque foram pensados com carinho: um óculos e uma touca de natação, uma cafeteira de filtro, um kit de coisinhas de banho, uma apple pie (porque minha irmã me chama de tortinha de maçã e eles lembraram desse estranho detalhe), biscoitinhos para comer com o café, 10 libras para gastar com livros numa livraria e, claro, o cartão. Muita, muita coisa. Bem mais do que eu esperava. E toda aquela gente me olhando, e eu roxa de vergonha, sem saber o que falar, meio, "really, guys, I loved it and I'll miss you so much, but I know we'll keep in touch, oh, look, this is really lovely, thanks for being so nice". Toda a raiva que eu havia acumulado de repente adentrou ralo e eu percebi que a merda toda não era culpa de ninguém. Que não tinha como alguém querer me foder tanto (no mau sentido) gostando tanto de mim. Ou então toda aquela demonstração de carinho era extravasamento de culpa. Não sei. Não importa. Recebi um quentinho tão bom no peito que não senti at all na última semana em que estive sentada naquela cadeira. E a simples assimilação disso me deu vontade de chorar, but I held back the tears, fir I've already cried a river. Desnecessário.

Do escritório fomos ao happy hour. Um monte de gente foi lá para se despedir de mim. Entre os mais fofos, Steve (claro), Nick (um cara com quem troquei poucas palavras mas que ama a língua portuguesa), minhas chefes que adoraram me ver sorrindo de novo e, bom, um carinha. Mas isso é história para se algo acontecer. Um carinha que saiu da BMI há uma semana e apareceu no pub. Um carinha que sempre passava pelo corredor me olhando, mas cujo nome eu nem sabia. Finalmente, ontem, eu soube. Após meia hora de conversa, "sorry, what's your name?" Engraçado. Trocamos telefone. E ontem mesmo, quando fui embora, ele me ligou. O Chris? Olha, estamos bem. Logo mais fazemos 6 meses juntos, mas eu sei e ele sabe que não é um relacionamento que vai, assim, prosperar numa esfera mais elevada. Não vai. É ótimo tê-lo por perto agora, mas ele não me dá frios no estômago. Não mais.

E, para terminar a noite, mais uma entrevista na segunda-feira. Para duas empresas de PR. Para ganhar mais (bem mais) do que eu estava ganhando na BMI. Ontem foi um dia certo do começo ao fim. Um dos melhores dias aqui. Obrigada todos pelas vibrações positivas. Estou novamente pensando mais alto que o chão, mas sem tirar meu pé dele. Sou feliz de novo.

Thursday, May 19, 2005

the ground is the limit

Às vezes eu quero chorar, mas o dia nasce e eu esqueço. Apesar de que nada deixou de ter o ritmo alucinado que minha vida costuma ter, é horrível estar desesperada com a possibilidade de sentar e chorar.

Eu já me conheço o suficiente para saber que não sei dançar tão devagar para acompanhar o ritmo do mundo. Tanto que uma hora tudo pára em uma explosão que não posso evitar. Mas se não sei dançar no ritmo do mundo, o que fazer para evitar a dor? Nada. Não há o que fazer. Há que se sentir a dor apenas. Aprender que ela vem e eu não posso evitar. Senti-la em sua forma mais profunda para conseguir me separar dela. Talvez.

Em dias como esse tudo o que não posso é me entregar. Em dias como esse eu brigaria com uma freira, eu bateria num mendigo, eu xingaria uma amiga, eu daria um tiro em qualquer coração. Qualquer, inclusive no meu. Em dias assim eu não me perdôo de todas as merdas que possa ter feito, de tudo o que poderia ter ditto mas silenciei para ouvir outros sons – já que o que eu acho está sempre comigo.

Tenho que tomar cuidado para não cair. De novo. De novo para não cair, de novo tomar cuidado. Cansa um pouco, mas, novamente, não há o que fazer senão concordar com os livros de auto-ajuda que só são uma bosta porque mentem. Senão seriam ótimas comédias britânicas.

Atualizações, porque não sou só lamento: tenho uma entrevista segunda-feira. Veremos. Não quero me animar demais para não despencar demais também. Uma entrevista como qualquer outra. Só torçam.

Tuesday, May 17, 2005

redemoinho

Asneiras. Um mundo de asneiras. Às vezes quero ser uma folha, às vezes dou graças a deus por não ser. Tudo o que é leve gira alucinadamente atrás de um vento que apenas, bom, apenas gira.

Não quero uma vida mais ou menos. Não quero ter que beber leite puro antes de dormir, abraçar árvores ao acordar, alongar de hora em hora. Não quero. Nunca quis. Quero um trabalho que me faça trincar os dentes. Que me seque os olhos de atenção. Quero porque posso. Ninguém vai me convencer do contrário. Nem um tufão vai me fazer girar como uma folha ao mais fraco sopro. Estou fora da curva normal.

Algumas oportunidades de trampo estão começando a despontar. Nada concreto, nem perto disso. E eu também estou achando bom poder parar e olhar pela janela. Entender que o sol que bate nas árvores é outro. Que o latido do cachorro é o mesmo, que houve um acidente fatal na avenida aqui do lado e que antes isso não me comoveu. E agora comove. Me senti Carlitos em Tempos Modernos. Me senti máquina. Me senti folha que roda ao mais tênue vento.

Não quero isso para mim nunca mais.

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Em tempo: estou seguindo os passos do meu personagem no livro que estou escrevendo. E isso não é bom. Fantástico como a vida imita a arte. Mas assustador também, se conhecessem meu personagem. Besteira minha, mas que tá parecido, tá.

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Fui ver Maria Cheia de Graça no domingo. Não percam esse filme nem por uma diarréia. É muito bom. Fazia tempo que eu não ficava tão presa num filme. Imperdível mesmo.

Monday, May 16, 2005

fotas

As primeiras. Mais seguem despues.

Estou bem, queridos, estou bem...

Sunday, May 15, 2005

no white flag above my door

Acho que já está na hora de colocar algo de novo aqui. Essa semana foi ridiculamente surreal. Eu não entendi nada. Ainda estou meio sem entender. E, se fosse uma dessas punhetadoras mentais, ficaria o resto dos meus dias tentando entender. A verdade é que, tal como a morte, eu nunca vou entender. Não em vida.

Pedi demissão.

Na verdade, fui obrigada a pedir demissão.

Sexta foi meu último dia e segunda vou lá entregar a resignation letter e me despedir de todos. Foi assim, de repente. Antes de ir para a Espanha, eu era um a estrela. Star mesmo, minha chefe usava essa palavra. Agora, de repente, virei uma decepção, não correspondo às expectativas de minhas chefes e não sou uma pessoa commercial-driven. Mas, duh, isso eles já deviam saber. Ninguém se forma jornalista para escrever em números.

Não queiram entender, também. Fiquei tão chocada quanto qualquer um dentro daquela empresa. Inclusive a ucraniana que senta ao meu lado e que acompanhou tudo. O fato é o seguinte: eu não consegui meet the target por um motivo simples, eu estava viajando. Das 3,5 semanas de campanha, duas eu estava na Espanha. Como fazer para meet the target? Imnpossível. Se minha chefe fosse um pouco mais assertiva, não teria me deixado viajar.

Agora, meus amigos, estou vivendo de reservas. E reservas não duram para sempre. No meu caso, duram por uns 2 ou 3 meses. Eu ainda vou receber o salário por mais um mês sem precisar dar as caras no trabalho, segundo o generoso chefão. Se depois desse período de um mês eu ainda estiver desempregada, esse mesmo generoso chefão me passará uns freelas e uns trabalhos temporaries. Aí você vai dizer, puxa, Bia, que chefe mais legal, e eu vou te responder, enfia essa legaleza no cu e roda.

Amanhã ainda é dia. Depois disso, estou de novo com um mundo de possibilidades, e é só isso que me motiva. Saber que tenho um currículo recheado de coisas factíveis nas mais diversas áreas.

Minha cabeça não pára. Preciso arranjar um jeito de me sustentar senão vou ter que voltar pro Brasil do jeito que menos quero: com uma mão na frente e outra atrás. Mas vou virar essa merda. Aquele não era o único emprego do mundo. Na verdade, é apenas um cocozinho perto do que sei que ainda vou viver. Dias inteiros para escolher o que deve ser ou não parte do meu futuro. Vou começar a me divertir. Atualizações aqui. Naquele ritmo de Brasil grande, quase-sempre, não-me-cobrem.

Wednesday, May 11, 2005

oleeeee

Eu sei que fui uma bad bad girl. Voltei sexta-feira da Espanha, hoje já é quarta e só agora resolvi pôr o focinho para for a. A viagem foi Linda, meus caros. Escrevi mais de 15 páginas todos os dias. Não vou colocar tudo aqui porque perde a graça. Se quiserem, espere a publicação e compre meu livro depois. Por enquanto, um tira-gosto:

25/4

All my life is changing every day, every possible way. Estou no avião, me encolhendo entre babãe e a parede do avião, ouvindo Dreams, porque tem tudo a ver, apesar de não ser exatamente o ambiente perfeito para uma escritora de prima como eu. Mas meu dia vai chegar. Enquanto isso, meu nariz está mais sêco que panetone velho. Meus olhos ardem e estou baxtant inquieta. Talvez pela falta de espaço, talvez por estar voando – apesar de eu nunca ter tido viadagens para voar. O negócio é que agora, pelo menos, tenho meu notebook. Ligo e encontro parte do meu mundo onde quer que eu esteja. Você pode não achar isso importante, mas não preciso de garantias alheias. Morar longe de onde nasci e cresci já é desenraizamento demais para alguém que ainda não morreu, como eu.

26/4

Parecia que não ia rolar, mas conseguimos. Chegamos em Málaga às 10h da noite sem lugar para ficar. Depois de a malar rodar duas vezes na alfândega em nossa frente para só então babãe resolver reconhecer sua própria mala (que, “gozado, está mais clara…”), mais um parto para descobrir onde comprar tarjetas telefônicas. E mais outro parto para descobrir como fazer uso delas. Primeiro hotel que ligamos: lotado. Meda, pânica, horrora, desespera. Segunto hotel: transferiram tanto a ligação que babãe se enfezou e desligou. Terceiro hotel: caro. Quarto e último: cá estamos. Não podia ter dado mais certo. Saímos correndo feito vacas no cio quando soubemos que o último trem para Torremolinos, onde estaria nosso HOTEL MIAMI, sairia em cinco minutos. Só que o trajeto do aeroporto à estação de trem foi estrategicamente construído para que se perca o trem. Você tem que tipo correr com o trolley, uma coisa assim meio Jamaica Abaixo de Zero, só que com subidas e descidas, pontes, escadas, mãe fazendo embaixada com seu agasalho que ela não viu despencar. Coisas assim. Quando chegamos no trem, o maquinista esperando claramente por piedade, minha testa era toda suor. Minha mão ficou toda estourada de tanto carregar o trolley e a mala. Tudo isso acompanhado da interminente ladainha de babãe: “ai, não, filha, não vou correr, já passei da idade” ou da variável: “ai, não, filha, não vou correr, meu joelho está doendo”. Meu amém era “vem, caceta!”

Depois de quase um ano longe da areia, finalmente afundei meus dedinhos todos naquele monte de pontinhos quentes. Uma massagem na alma. A praia de Torremolinos é uma delicia, não muito cheia, fofa, adorei ter ficado hospedada aqui. Depois de catar conchinha e pedrinhas, resolvemos pegar um AUTOBUS e ir até Marbella, que fica a uns 40km de Torremolinos. Chegamos lá, mais praia. Até me aventurei a vestir meu maiô, sacar minha touca e meus óculos. Vesti e tudo mais, mas a primeira mergulhada que dei senti um demônio apertando o punho com toda a força contra meu crânio. O inferno, my friends, é um dia pelando com água gelada. Você escolhe morrer queimado ou congelado, tendo a outra alternativa ao alcance das mãos. Mas nada tinha de inferno, Bia, que exagero. Só estava de fato baxtant fria a água. Dei duas, três, quatro braçadas e tive de parar porque o ar não vinha por mais que eu puxasse. Fiquei até com medo. Saí rapidinho do mar. Quem sabe amanhã?

27/4

Hoje foi dia de Málaga. Málaga mesmo, cidade grande. Não a Great Málaga, dentro da qual está Torremolinos. A cidade é bem grande, mas linda. Primeiro fomos para a Playa Malagueta – aliás, anotem, pimenta malagueta vem de Málaga, daí no nome – com muito, muito filtro solar. Depoius visitamos todos os pontos turísticos da cidade, já que compramos um daqueles tickets de sightseeing bus e nos deixamos levar. Visitamos uma arena de touros, um forte de um século bem remoto do qual não me alembro, chamado Castillo de Gibralfaro, o pico do dia, na minha opinião. Paisagens maravilhosas, o forte totalmente conservado por centenas de anos e, o melhor de tudo, não tinha aquela frescurite que muitos locais turísticos tem: podíamos andar por todo o forte, nos perder sem plaquinhas pentelhas ensinando como nos achar, mecher, balançar, cheirar, sentar, lamber, não havia cordas separando nada de nada. Inclusive, se você quisesse se matar, também podia. O Castillo fica no ponto mais alto da cidade, e das beiradas pode-se entender bem o conceito de VERTIGEM. Penhascos aos montes. Penhascos de gente grande mesmo. Penhascos rock n’ roll.

28/4

O inferno. Eu e uma mala com mais de 25 kilos. O inferno em sua nova variável. Claro que lá tinham coisas minhas e de babãe. Eu diria 1/4 minhas, 3/4 de babãe. Mas como sou jovem e forte e touro da família e tenho as costas boas (ao contrário do resto da família), sempre sobra para eu “provar” essa força. Quer dizer, antes era prova, hoje é vergonha na cara mesmo. Não faria babãe, cheia de ai minhas costas, ai meu joelho, carregar aquele peso todo nem que fosse por um segundo. Mas talvez se ela tivesse que passar pela experiência de carregar a mala por um doído segundo, teria feito sua parte da malinha um ‘cadim mais modesta.

Oh well, reclamar para quê? Já foi. Arrumamos tudo, demos mais uma volta na praia para dar tchau a Málaga, lugar apaixonante a que pretendo um dia voltar muitíssimo bem acompanhada, preferivelmente. Um povo caloroso, sorridente, chavequeiro na medida certa “solo ayudé porque mucho me gusto su hija” disse um bravo espanholinho que levou a mala e seus 25 quilos escada acima na estação de trem em Málaga. Vejam que fofo, além de ter levado minha mala, conseguiu me elogiar e de um jeito dulcíssimo, approaching babãe. Eles são assim lá. Não há como não sorrir em dobro. Além do mais, com aquele cheiro, que pulmão não respiraria feliz? Málaga, especialmente Marbella, é o lugar mais cheiroso a que fui. Cheiroso de cheiro natural. Intrínseco, estranho mesmo, o vento tem cheiro, e nnao o cheiro vem com o vento, entende? Não te culpo; é difícil explicar.

29/4

O mundo é pequeno demais ou o tempo é tão curto que nos permite viajar em idéias. Provavelmente se tivesse um mês inteiro pela frente eu acharia pouco e sentiria por não ter um mês e um dia. Ah, um dia a mais é sempre o dia a mais que falta para visitar AQUELE lugar, numa viagem como a nossa, sem destino, só a passagem de ida e a de volta. Hoje, depois do jantar, ficamos a elucubrar sobre o que faremos de nossa próxima e última semana. Nossa reserva em Sevilla vai até domingo, depois de amanhã. Amanhã ligaremos para os hotéis em Granada com uma certa dose de desespero, já que só hoje “realizamos” que terça-feira é feriado nacional e, logo, Granada-Alhambra-Generalife – nossos planos para os três dias seguintes a Sevilla – correm um certo risco de morte em nossa trajetória. Amanhã a viagem tomará um rumo mais definido, já que ligaremos manhosas para todos os hotéis de Granada que nos foi recomendados. Caso não haja vagas nem para dormir no quarto das camareiras, aí teremos que abrir mão de Granada e ir a Alicante. MAS, como nada em uma viagem é tragédia, se não formos a Granada, as chances de irmos a Ibiza crescem. É aí que entra a primeira sentença que escrevi hoje. Se tivéssemos mais um, talvez dois diazinhos a mais, poderíamos fazer tudo: Granada (e Alhambra-Generalife – alias, pausa infame, só decoro o nome Generalife porque imagino uma companhia de seguros), Alicante, Ibiza e um gostinho de Valência.

30/4

O dia hoje foi o pior da viagem até agora. Nada de muito ruim aconteceu, mas, sinceramente, acho que ficamos tempo demais em Sevilla. Em um dia inteiro poderíamos ter varrido isso tudo. Hoje ficamos até três da tarde resolvendo nossa ida a Granada. Só depois das três fomos até o centro velho terminar de ver o que faltava e, surprise, surprise, era só uma atração, a Plaza de Toros de la Maestranza. Muito legal a visita. Mas durou meia hora. Era visita guiada e acabou, cuspiram-nos à rua. É sério. O dia começou mesmo às 15h e terminou de render às 15:30h. Depois disso almoçamos num restaurante que nem era lá dessas coisas e voltamos para o hotel porque estava quente demais, de novo. Aliás, minto. Antes de voltarmos entramos num café que servia os malditos churros. Eu cismei com os churros e agora já os comi. Gorda.

1/5

De qualquer maneira, a temperatura está mais aceitável. Chegamos na estação de trem e fomos comprar a passagem de trem para Alicante direto. Não há viagem direto para Alicante. Decidimos ir de ônibus então; deixaríamos para procurar a rodoviária depois. O primeiro parto do dia foi achar um taxi da estação de ônibus para o hotel. Domingo, feriado, hora da siesta. Tudo junto. Claro que não tinha taxi. Uma fila imensa e nenhum. No final das contas, depois de meia hora, conseguimos pegar um, meio que acotovelando os outros. Chegamos no hotel, uma graça, mas eu não poderia perder tempo novamente. O dia anterior em Sevilla tinha sido meio fiasco. Eu tinha que make it up to it hoje. Largamos as malas no quarto e saímos, rumo a Alhambra.

A cidade está cheia. Terça-feira é o maldito feriado nacional. Mil festas acontecendo – religiosas, as far as I’m concerned. Está tudo apinhado. Mesmo sabendo que os ingressos estavam todos esgotados, resolvemos tentar a sorte. Logicamente não conseguimos. Mas a viagem valeu a pena de qualquer jeito. Mesmo sem poder entrar no negócio propriamente dito, pudemos visitar parte das ruínas, ter uma vista linda da cidade, cheirar todo aquele cheiro que entorpece meus pulmões. Fomos até o lugar de venda de tickets, mas não tinha mais nenhum para aquele dia e, se quiséssemos ir amanhã, teríamos que ESTAR LÁ às 7 da matina, sem garantia de ingresso. Decidimos que não. Ficamos por lá, passeando, vendo o que podia ser visto sem ingresso, e voltamos à cidade.

2/5

Ok. Sem Alhambra, sem Sierra Nevada, o que há para fazer em Granada? Simples: Granada! Resolvemos explorar a cidade e foi bem gostoso. Começamos pela capela real, em que estão os sarcófagos de Felipe, o Belo, e Juana, a Louca (hahaha). Maravilhosa. Meu apreço por igrejas tem me surpreendido. Embora eu tenha ficado um pouco impressionada demais com as imagens de San Juan Batista sendo decapitado e San Juan Evangelista sendo queimado dentro de um caldeirão, uma espécie de sopa santa. Assustador. Eu diria até de um certo mau gosto. Fiquei imaginando se eu fosse uma criança que morasse lá e fosse obrigada a assistir à missa naquela capela todo domingo - partindo do pressuposto de que eu era uma criança da famíloia real, já que a capela era de uso exclusivo da realeza. Eu teria acessos de choro antes e pesadelos terríveis depois. Ficaria hipnotizada nas duas imagens esculpidas na parede do altar, entre outras dez imagens. Eu não conseguiria prestar atenção em nenhuma palavra do padre.

3/5

Chegamos em Alicante após seis horas de viagem. Legal, nosso destino final, Dênia, fica há 100km de Alicante. Havia um ônibus saindo de Alicante meia hora após nossa chegada na rodoviária. Tudo muito tranqüilo para o padrão Singer de contratempos. No final das contas, 100km foram percorridos em exatas três (3) horas. A porra do busão foi pingando, entrando em cada vilinha para deixar e recolher formiguinhas. Não acabava mais. Eu já não via mais graça alguma em paisagens, escritinhos em catalão, escarpas, praias. Tudo o que eu queria era sair daquele ônibus cheio de pessoas tossindo, espirrando, umas até catarrando, juro. Ficar em pé no chão novamente, caminhar, respirar, me afundar na areia da praia. Não é pedir muito.

4/5

Do hotel fomos à praia. Andamos até um ponto que parecia mais habitado. A praia de Denia não é maravilhosa, mas é calma, e tudo de que precisávamos era paz. Claro que 100% paz nunca acontece na minha vida. Apareceu um tarado, que ficava fazendo gestos para mim de longe, mudando de posição na praia para pegar o “melhor ângulo” de visão, não parava de fazer gestos do tipo “vamoali?” ou “faz um topless, faz?” – como vocês devem saber, topless é comum na Europa. Várias tiazonas de maminhas aos aires, como se diz em Portugal. O ápice da taradice foi quando ele começou a pôr a mão para dentro da calça e ao mesmo tempo fazer um “venhaqui” com o indicador. Como homem é bobo.


And that’s all for now, folks. Muita merda tem acontecido e a cas ameaça cair pro meu lado. De novo. Mas eu agüento, até quando não der para agüentar mais. Depois explico melhor. Agora, fiquem com o que aconteceu de bom.