Friday, December 30, 2005

fade in Brazil

Cheguei como se chegasse a uma reencarnação. Uma volta a uma vida que é minha e não me pertence. Essa foi a primeira impressão. Passados os primeiros sustos do passado, estou amando estar aqui. Estou amando o cheiro, as pessoas falando português a minha volta, até o calor, que costuma me irritar. Os pássaros que realmente cantam (lá, costumo dizer, eles são 'polite' demais para cantar), barulho de martelos - obras, obras, essa cidade nunca mais pára de crescer -, no começo tudo gritava. Agora estou me reacostumando. Os buracos no asfalto não são tão estarrecedores e as favelas não são mais outro mundo. É parte do meu mundo. Sempre foi. Muito foda chegar aqui com olhos virgens, olhos de bebê, desacostumado com o que é feio, pobre, sujo. Com o que é indecente mas se passa por decente. Como é que o brasileiro nem se abala mais? Como é que eu não me abalava? Será que vou ser para sempre uma sócio-chata se resolver voltar?

Estou amando tudo aqui. Amando as dores, até. Se sinto dor, é porque isso aqui ainda é meu. Se sinto dor, também sinto que eu ligo, sim, que é meu país que está fodido, apesar do futebol.

E tem todo mundo, né? As pessoas que vi. As pessoas com quem falei. Gente remota cuja voz reconheci. Gente próxima cuja voz desconheci - e doeu saber que um ano e meio é tempo suficiente para esquecer da voz de gente que eu amo. E toda aquela legião de amados querendo porque querendo me ver. E a legião de amados que decepcionam - olha, continuo amando vocês, mas amor não é eterno, não temos mais 15 anos, façavor de cultivar.

Foi especial ver tanta gente no happy hour queridamente organizado por minha irmã. Foi especial ver que cada rostinho mudou tanto e continua igual. Que as vidas mudaram tanto e continuam iguais. Que eu mesma, a seus olhos, mudei tanto e continuo igual.

Ainda não acabou. Estou no começo de tudo. Viajando, pegando uma cor. Combinando de encontrar e reencontrar pessoas que nem sei se vão realmente me ver. Eu quero encontrar todas.

Agora, puramente, um feliz 2006 para quem está por aqui. Celebremos a tragédia que foi 2005. Pior que esse ano não dá para ser. Que venha 2006, então, um ano que já chega mimado e cheio de expectativas. Um ano que traz consigo a obrigação de ser melhor. A obrigação de ser saudável e inesquecível. Vai ser.

Monday, December 19, 2005

esperando na janela

Que estranho... Eu jurava que tinha escrito outro post. Devo ter sonhado. Ultimamente meus sonhos tem invadido a realidade. Soh consigo descobrir quando algo assim acontece. Essa noite, sonhei que vomitava. Um vomito pequeno, que dava para segurar na boca. Acordei checando o travesseiro.

Estou ridiculamente ansiosa. Fico checando se lembrei de tudo o tempo todo. Sinto falta de ar de pensar nas coisinhas brasileiras que vou estar fazendo em breve. Amanha eu embarco, depois de amanha estou ai, a 12 horas de distancia, no sol, na poluicao, na pobreza, no biquini. Vou para ver se volto, tambem. Vou para testar. Vou para ver se eh possivel ser ainda mais feliz ou ainda mais triste. Vou para carregar coisas e recarregar baterias.

e depois volto. Mas agora nao eh hora de pensar nisso. Agora eh hora de pensar em nao perder o trem para o aeroporto, nao perder o check-in, nao perder a cabeca. Depois, cuidar para nao desmaiar, ou vomitar, ou panicar.

E depois cuidar do sol, que vai estar forte mesmo que esteja fraco, porque minha pele se acostumou com tudo o que eh cinza e frio. Mesmo apos a burrada de sabado, quando inventei de fazer bronzeamento artificial sem saber direito o que estava fazendo (como quase tudo o que faco). Me meti na cama, 12 minutos, nao passei nada. Resultado: fiquei roxa. Inteirinha, ja que a porra da sunbed eh para se ir pelada. Mas ja melhorou, quase passou.

Nao vejo a hora de estar com voces!

Monday, December 12, 2005

Menos um

Menos um. Foi a temperatura nessa madrugada. E a idiota saiu sem cachecol. Minha cabeca estah assim. Funciona em meia-fase. Lembro de coisas extremamente esqueciveis; esqueco as memoraveis. Ansiedade eh isso.

Ja comprei quase tudo que queria comprar, mas ainda falta. Acho que vai sempre faltar. Acho que vou chegar no Brasil e lembrar que tenho alguem muito especial de quem nao lembrei quando estava aqui.

Estah dificil fazer qualquer coisa e eu soh falto implorar pro meu chefe me passar trabalho para fazer o tempo passar. Mas no momento ele estah comentando comigo como o ceu perto da casa dele ficou preto com as cinzas do petroleo da explosao de ontem. Alias, nada mudou. Ninguem morreu, todo mundo foi trabalhar, nenhum drama, really. Estamos mais longe do protocolo de Kyoto talvez. Uma pena.

E o fim de semana foi bom. Sexta fui a Wimbledon depois do trabalho. Comprei um sobretudo vermelho e deixei o cartao de credito na loja (tipico). Babai, babae, sem panica: estah lah, guardadinho, no cofre. Vou buscar hoje, exatamente na hora em que estiver me atrasando para ir ao curso da Birkbeck.

Na sexta mesmo fui a Greenwich com Mr Australia e uma amiga do trabalho que eu queria que encaixasse com ele. Acabou que nao rolou. Sim, juro, nao tem mais nada a ver, eu e ele. Ele continua um fofo. Mas nada a ver. Mesmo. Passou.

E depois foi casa e cama. Dormi ateh meio-dia de sabado. Fui encontrar Broo, Re e o Ma (que eh o alguma coisa da Broo) para fazer compras de natal. O inferno, o inferno. Primeiro, a patetica ideia de ir a Harrods. O inferno. Logo desistimos. Andamos, andamos, acabei comprando muito do que queria, mas nao do jeito que queria. Foi uma coisa meio deixa-eu-comprar-logo-para-me-livrar, em vez de compras com carinho. Sad but true. Devia ter me prevenido e feito compras antes.

Aih sabadanoite fomos para casa de Broo, onde a festa ficou por conta das calories: pizza e Banoffee pie (torta de banana e toffee, ouch!). E la se foi, lancado ao espaco, mais uma tentative de chegar ao Brasil um cheirinho mais fina.

Domingo trabalhei. Trabalhei, trabalhei, trabalhei. Cheguei em casa e cozinhei. Assisti a um filme que ja havia assistido. Um domingo igual aos outros.

E estou aqui, agora, esperando meu chefe revisar meu ingles para uma propaganda que eu quero mandar ainda essa semana. Enquanto isso ele fala de quao feliz estah porque a BBC vai reprisar a serie preferida dele.

Eu deveria ficar feliz, nao? Todo mundo fica feliz quando tem um chefe assim, que trabalha um ‘cadim, conversa um ‘cadim. Acho que estou de fato ansiosa demais.

Thursday, December 08, 2005

a farsa

Eu estou evitando de todas as maneiras me considerer uma farsa. Anoto tudo o que aprendo, faco tudo o que me pedem, estou sempre alerta e solicita. Aprendo rapido, faco perguntas inteligentes, respondo o que o chefe quer ouvir. Voce nao quer um funcionario assim? Essa sou eu. Eu e minha tentative de nao me achar uma farsa. Mas acho que ela eh inerente ao ser humano (ou “cerumano”, como li uma vez). Ja se passaram mais de tres horas do meu dia no trabalho e nao fiz absolutamente nada porque nao ha nada a fazzer. Preciso esperar meu chefe terminar o que for que ele tenha que terminar para poder seguir com explicacoes sobre minha campanha. Ja fiz tudo o que podia fazer, agora ele precisa me pegar pela mao e ir.

Enquanto isso nao acontece, fico navegando, lendo artigos de todo o genero, atualizando um ou outro email, indo ao banheiro, tomando café. E ai fica bem dificil nao ser inundada pela pesarosa sensacao de ser uma farsa.

Voltemos aos meus impulsos ansioliticos. Eu nao estou mais me aguentando para ir ao Brasil. Nao penso em outra coisa. Uma pentelha. Vira e mexe recebo um convite para uma festa no dia 20/12 e abro aquele sorrisao: “Oh, sorry, I’m not gonna make it, I’ll be flying by then!” Ou para o Natal ou para o Ano Novo. Varios convites. Minha prima Emily me convidou par air para o sulo ds Franca. Meu tio me chamou para a Madeira. Fora os convites de festinha em Londres. Mas nenhum deles me deu agua na boca. Nada como ir pra minha terrinha, onde la em casa eh la em casa mesmo.

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Falando em ansiedade, uma outra agitacao foi aliviada. Ontem fui conhecer a casa nova do Chris. E, er, conheci a casa do Chris. Foi bom.

Tuesday, December 06, 2005

tudo de novo no front

O sumico tem explicacao obvia: trabalho, trabalho, trabalho. Animo zero de chegar em casa e ligar o computador depois de oito horas com olhos grudados na tela. Mas ca estou, sorrateiramente escrevendo no meu lunch break. Para voces terem uma ideia do quanto valem. Parte do meu lunch break vale muito.

Estah tudo bem aqui na WK. A responsabilidade que tenho que assumir eh grande, bem maior do que estava acostumada em meu antigo emprego, onde era apenas uma assistente de Marketing. Agora, tenho meus produtos, um budget, um target. Tudo dependendo de mim. Nao faco ideia do que esteja fazendo mas estou gostando mesmo assim. Ganho bem, as pessoas aqui sao legais e quero aprender a fazer essa coisa direito. Precisa mais?

Faltam 15 dias para eu chegar na terrinha. Duas semanas e um dia. Todo mundo disse que passaria rapido. Ateh agora, parece que o tempo se arrasta, tenta segurar nas paredes, luta contra passer, luta para ficar. Mas me disseram que a ultima semana passa ventando e voce acaba nao fazendo tudo o que tem que fazer. Tomara.

E agora vou la comer. Essa semana deve ser toda agitadinha. Drinks, jantares, Xmas Parties. Vamos ver se eu aguento.