Thursday, March 31, 2016

para que meu filho entenda meu amor




A diferença que é você dentro e você fora, filho! Quando dentro eu não via a hora de te conhecer, e de me livrar de tanto peso e mal estar. Quando fora, eu queria te por de volta para dentro. Queria te proteger do mundo, queria te proteger de mim. Hoje, três anos depois, minha memória segmentada me poupa de alguns tropeços. Outros permanecem tão vívidos que me assustam e me perseguem, apesar do passar do tempo.

Ainda não consegui me perdoar. Talvez nunca consiga. Sempre fui assim, exagerada, dura demais comigo mesma. Continuo tentando, em vão, fazer meu oceano caber numa xícara de chá para que o mundo seja menos doído todos os dias. Mas a verdade é que quanto mais eu luto contra, mais vou de encontro. Todos os dias transbordo, e todos os dias me condeno por isso.

Hoje, filho, em especial, não foi um bom dia. Dormi mal. Sua irmã não tem nem três meses e ainda não dorme dessas coisas à noite. Você está numa fase difícil. Muito ciúmes que se traduz em um desespero de eu me esvair pelo ralo. De desaparecer na noite. De sair para pegar as cartas da caixa e não voltar mais. Por isso você não me deixa sair de vista. A não ser que não tenha jeito, e mesmo assim debaixo de muita luta e choro. Tenho dificuldade de lidar com isso, com esse desespero para me ter constantemente ao lado. Então juntamos hoje o cansaço de uma noite mal dormida e seu desespero particularmente exacerbado, sem nenhuma razão aparente. E no final do dia eu estava gritando. E você pediu para eu parar porque doía seu ouvido, e pediu um beijo para sarar. Desmoronei do cavalo que cavalgava furiosamente e me pus a te beijar em prantos. I'm sorry, baby, I'm sorry! Desculpa a mamãe?

Onde foi que parei de perceber que você só tem 3 anos? Em que armadilha da mente as mães cansadas conseguem esquecer quem é o pequeno ser à frente, e o quanto absorvem, o quanto refletem, o quanto mimetizam?

Você, meu loirinho, é extremamente sensível. Essa sua insegurança não é infundada. Você a sente constantemente e fico despedaçada querendo tirá-la do seu coraçãozinho acelerado, sabendo que será em vão, porque a insegurança tem sua razão de existir. Você sabe, de alguma maneira não óbvia, das sombras que dançam a minha volta quase todos os dias. Sabe que preciso me concentrar para tentar ser feliz. Que preciso prestar atenção para não deixar que momentos bonitos me machuquem por serem bonitos e fugazes. Que preciso deixar a tristeza me inundar às vezes para depois ir embora, maré baixa após a ressaca, seres encontrando seres que o mar revolto trouxe do fundo e que estão ali, expostos e desajeitados numa areia estranha, escura e cinza.

Hoje você viu tudo isso nos meus olhos. Evitei te encarar porque sabia que me afundaria um pouco mais. Seus olhos de súplica, de fica-aqui-porque-preciso-muito-de-você, tentando sem sucesso me puxar de volta, só me empurrariam mais para baixo. No desespero de estar comigo, eu ficaria mais distante. E isso, meu filho, é o que me mata em dias como hoje. É o peso que carrego de não ser quem eu gostaria de ser para você.

De qualquer maneira, já é de noite. Você dorme após pronunciar suas últimas palavras já embargadas: “mommy... mommy...” Me chamando e me lembrando, há três anos. Eu escrevo tensa, com medo de sua reação se um dia ler meus textos, este texto. Tento colocar a verdade em tudo que te passo, mas nem sempre quero te inundar com minhas sentenças pesadas. Só preciso dizer, antes de terminar, que daqui a pouco vou dormir também. E sei que amanhã tudo pode estar diferente. Torço para que esteja. Eu te devo isso, depois de hoje. Mas que mesmo em dias difíceis como hoje, dias em que as mãos se soltam para desespero de ambos, o amor continua a me tirar o ar, a me encher o pulmão, a me manter viva, doendo, lutando. Nesses dias, o amor fica fosforescente quando finalmente me vem a clareza. É assustador, mas é um amor sem fim, numa vida acostumada com tantos fins.

Friday, May 08, 2015

tocando o foda-se

Ser mãe requer uma superioridade em relação aos outros no quesito tocar o foda-se. Explico: estou aqui sentada, meio que sem fazer nada. Meu filho dorme, não trabalho hoje, acabo de sair de uma super virose avassaladora e não penso em me mexer. Acho ousada até digitar. Enfim, estou sem fazer nada. Nada, que era algo tão legal de se fazer no passado, virou preguiça. E com a preguiça, adivinhem?, a culpa. Daí que vem o lance de tocar o foda-se. Esse ciclo mental acontece algumas vezes por dia na minha cabeça. Algo mais ou menos assim:

Que bom que meu filho dormiu --> O que vou fazer? --> Tenho x, y e z na lista, mas não quero fazer nada --> se eu não fizer nada depois ele acorda e aí não dá mesmo --> mas eu também tenho que descansar, poxa! --> mas já fazem 3 horas que ele dorme --> me deixa! vá se foder

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Não sei se é assim com todos, mas a transição do Leo pro berço está sendo (já faz 2 meses) um verdadeiro inferno. Na verdade fizemos a transição antes de ir pro Brasil porque lá ele ia dormir numa caminha mesmo, então não queríamos que fosse um big deal.

Então tiramos a grade de um dos lados do berço. Ele achou engraçado. Ficou sentado olhando, maravilhado, aquele mundo de oportunidades agora que estava havia obtido seu habeas corpus. E dormiu. Mas dali pra frente, gente, passou a ser infernal. Chororô toda noite, medo de escuro, queria colo até cair no sono... Ou seja, achava e ainda acho que fizemos a transição muito cedo. Ele ama o bercinho. E resolvemos reverter, daquele jeito tosco: giramos o berço. Assim, a parte sem grade ficava voltada pra parede, e era como se ele continuasse no bercinho.

Em dois dias ele aprendeu a empurrar a parede e sair sozinho.

Agora as coisas melhoraram, claro. Mas ainda acho que fizemos a transição muito cedo. De qualquer forma, sinto saudades de ir buscá-lo de manhã, e vê-lo com aquele olhar apreensivo para que alguém o tire logo do berço e comece as atividades do dia. E acho lindo que hoje ele sai do quarto, abre a porta do meu, e vem me acordar com um sorriso imenso, se aninhando do meu lado. 

Monday, March 30, 2015

muita ira nessa hora

E o que fazer com a ira quando se tem uma criança de 2 anos? Uma criança toda boazinha que de repente resolveu se rebelar (o tempo todo, contra tudo, sem qualquer lógica aparente)? Uma criança que já tem idade para manipulações rebuscadas mas ainda não entende o que é castigo? E como fico eu, com tanta ira? Difícil é me por no lugar do meu filho. Eu tento fazer isso o tempo todo, pela minha sanidade. Mas nem sempre consigo me conter nesse patamar zen budista e acabo explodindo também. Eu, que não tenho pavio nem um pouco comprido (mas que ultimamente vinha exercendo um alongamento inimaginável entre o atear fogo e o explodir).

Hoje foi assim: cheguei no meu limite. Estava num dia já meio da pá virada, mas tudo piorou com o mau humor pós-soneca do meu filho no carro. E no carro não tem pra onde fugir. Então toca aguentar meia hora de choramingo porque a porra da naninha não estava lá. Já me conhecendo, fiquei na farmácia e deixei que os outros seguissem adiante. Eu ganharia tempo para que ele parasse de pentelhar e para que eu esfriasse também.

Chegando em casa, recebi o boletim informativo de que ele já havia batido duas vezes na "fofó". Depois bateu em mim também, e já com o saco na Lua, coloquei-o de castigo. Aparentemente não escolhi um local adequado para o castigo, pois meu marido resolveu tirá-lo de lá antes que eu julgasse apropriado. Totalmente castrada resolvi que mais uma frustração e ia tudo pelos ares. Para evitar, saí, levei meu livro. Tentei meditar. Li. Tentei meditar de novo. Não consegui. Quis chorar mas as lágrimas não saiam. Precocemente, voltei para casa. E o ciclo se repetiu: filho me bate, é posto de castigo, marido pergunta o que há de errado e o pega no colo para dar mais uma reforçadinha no comportamento errado. E eu, de novo, me sinto castrada. Ou, sei lá, uma má mãe. Alguém incapaz de tomar decisões pela educação do meu filho. Alguém intolerante, impaciente, estourado. Violento até (sem nunca ter agido com violência, ressalto). Enfim, alguém sem perfil pra maternidade, ou pro casamento, ou pra qualquer relação social que envolva convívio diário.

Hoje estou assim. Todas as mães passam por dias assim, certo? Fazia muito tempo que não acontecia de sentir esse aperto no peito de não querer mais brincar. Esse desespero de se descobrir mãe para sempre, e incapaz de sê-lo. De se descobrir esposa e querer sair pra comprar cigarro e não voltar mais. Essa vontade de gritar e correr livre até ser atropelada.

Já estive assim antes. Não é novidade. Novidade é tudo isso voltar agora com tanta força, depois de tanto tempo dormente. Mas é isso, esses sentimentos são como vulcões. Eles adormecem mas estão lá. Imprevisíveis e mortais.

Enfim, torço para que tudo isso morra com o fim do dia. Estou cansada demais.

Thursday, March 26, 2015

De como é bom VISITAR o Brasil

Estar aqui por pouco tempo no Brasil é a melhor coisa do mundo. Tenho família, amigos, comida boa e muito mimo. Tenho clima bom, cheiros familiares, lugares saudosos a visitar e programas bacaninhas.

Foi essa lembrança que me fez achar legal voltar a morar no Brasil quando morava em Londres. E, gente, que decepção que foi. A vida normal no Brasil é completamente outra. Agora passo por essa ilusão boba de que a vida aqui é boa. Não é. Eu sofria. Eu queria sair desesperadamente. E eu gosto de morar em NY. E gosto mais ainda de vir ao Brasil sentir esses cheiros, gostos e familiaridades com pessoas e lugares queridos. E só.

A vida está boa. Mudar para quê? Vejam, eu que sempre reclamei tanto aqui, falando que está tudo bem. Raridade a ser preservada.

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Mas que eu voltaria a morar em Londres num piscar de olhos, isso eu voltaria.

Saturday, February 21, 2015

Ivy (dis)League Feelings

Empaquei neste blog, comecei outro com outro propósito e resolvi voltar aqui  hoje para falar um pouco das preocupações da vez. Sempre vão haver preocupações, certo?

No início é o ganho de peso, como e quanto está mamando, quanto está dormindo. Depois passa a ser os milestones de desenvolvimento: já engatinha? Anda? Fala? Conta? Corre? Pula?

E depois as preocupações começam a ficar mais complexas, e é por isso que voltei aqui. Estou começando a passar por uma crise. Não em relação a meu filho, mas ao mundo a qual ele está prestes a ser exposto.

Ano que vem será o ano em que ele completa 4 anos. Portanto, aqui nos EUA já é elegível ao Pre-K. Eu e meu marido sempre fomos a favor de educação pública aqui nos EUA. Escolhendo bem, é possível uma educação bacana. Certo? Hum, mais ou menos. Depende de onde você mora. E mesmo assim, ranking oficial de escolas não diz muita coisa para mim. Basta lembrar que o último episódio de tiroteio juvenil aconteceu numa escola pública muito bem posicionada neste ranking.

Então, quando falo de escolas boas, não falo em escolas com notas altas nos testes oficiais. Estou falando do que, desde já, quero para meu filho. Não estou pensando no currículo per se, ou em quantas cambalhotas ele vai estar conseguindo virar e se aos 3.48 anos já vai estar escrevendo o próprio nome. Não faço a menor questão de ter um filho precoce. Para falar a verdade, prefiro que ele não seja! Eu fui uma criança precoce, e isso não me trouxe benefícios. Muito pelo contrário, estou convencida, após anos de terapia e auto-reflexões, que a disparidade do meu desenvolvimento emocional e do meu desenvolvimento intelectual me trouxe muitos problemas na escola, e acho que resquícios dessa disparidade me atrapalham até hoje.

Estou falando de fundamentos de uma pessoa feliz e pronta para o mundo que ela escolher trilhar. Não pronta pro mundo que temos hoje. Azamiga e uzamigo hão de concordar que o mundo as we know it não é e não será exatamente um benchmark de felicidade. Então comecei a me perguntar se se encaixar no *sistema* é tão importante quanto sempre achei que fosse.

Afinal, vamos lá, o que é o *sistema*?

O sistema aqui em Nova York funciona mais ou menos assim:

Você participa de uma loteria para conseguir fazer a application para seu filho entrar na escola que você escolheu. A maioria vai escolher escolas de nome, com ranking alto. Por quê? Porque depois do Pre-K e Kindergarten, vem outros anos da Elementary School. Você só vai conseguir colocar seu filho numa elementary school *conceituada* se ele passou por um kindergarten *conceituado*. E ele só vai para uma middle school *conceituada* se tiver vindo de uma middle school *conceituada*. E ele só vai para uma high school *conceituada* se vier de uma middle school *conceituada*. E ele só vai conseguir entrar numa faculdade *conceituada*, uma Ivy League da vida, se vier de todo um histórico de escolas *conceituadas* (quase sempre privadas) e se, claro, passar em testes que avaliam coisas que se ensinam em escolas *conceituadas*. A ex-criança entra na faculdade *conceituada* e sai de lá com a maior empregabilidade possível na face da Terra. Toda a família, menos a ex-criança, viveu feliz para sempre. Cai a cortina, The End.

Há excessões à regras? Sempre. Mas estou querendo dar um panorama bem geral. Pense numa pessoa com preguiça de elaborar. Lógico que o esquema não é tão simples, mas dá para dar uma ideia de como o ciclo costuma se fechar.

Eu segui esta trilha. Não nos EUA, no Brasil. Me formei numa faculdade conceituada após estudar em escolas conceituadas. Hoje minha empregabilidade é alta mesmo nos EUA, mesmo em Nova York. Todo mês sou contactada por concorrentes da minha empresa ou headhunters. Puxa, parabéns, que bacana, né? Nem um pouco. Enquanto minha empregabilidade permanece alta, minha vontade de fazer uma CARREIRA BRILHANTE cai. Hoje minha vontade está canalizada para a educação, alimentação e desenvolvimento emocional do meu filho. Está canalizada para o sonho que sempre tive de viver da escrita. Está canalizada para aumentar a qualidade de vida da minha família. Está canalizada para fora do *sistema*. E levei 35 anos para chegar lá. No final do ano passado pedi demissão da empresa onde trabalhava para ser "recontratada" num esquema flexível, e num cargo mais baixo. Hoje trabalho 3 vezes por semana, sendo apenas 1 delas fisicamente no escritório. Hoje não tenho equipe, fator que sempre me estressou muito mas que eu me recusava a abandonar por orgulho de não querer dar "um passo para trás" (exatamente como o *sistema* me ensinou). Hoje tenho um dia inteiro na semana para mim e para por a casa em ordem, e outro dia para ficar exclusivamente com meu filho. Apenas hoje eu realmente tomei as rédeas da minha rotina. Até então, o *sistema* ditava as regras e eu, infeliz, seguia.

 Foto tirada hoje

Decorrência de 35 anos no *sistema*? Ansiedade, depressão, estresse, dor de coluna, obesidade, retração social. Como estou hoje em relação a um ano atrás? 16 quilos mais magra, sem depressão e com ansiedade controlada, mais sociável e, de forma geral, mais risonha, paciente e disposta. Tomo uma dose alta de anti-depressivos, é verdade. Mas há um ano os remédios não estavam adiantando. E, quem sabe?, em breve poderei começar a diminuir.

Imagino que hajam pessoas naturalmente felizes dentro do *sistema*. Mas algo me diz que esse número é bem baixo.

Então não, não quero preparar meu filho pro *sistema*. Não quero alguém repetindo meus erros e seus efeitos. Quero que ele crie seu próprio caminho, e que este caminho seja tão tortuoso quanto necessário para que ele se sinta completo.

A teoria está show. E a prática?

Pois é. Eu pergunto também, todos os dias: e a prática? Eu bem que queria ter as resposta. Queria saber fazer as escolhas certas para que meu filho se desenvolva da forma mais prazerosa e inteira possível. Mas não tendo eu vivido uma vida assim, fora da caixa, é difícil enxergar com outros olhos. É difícil fazer as melhores escolhas. Assim como também é difícil não ficar obcecada em acertar sempre nas escolhas (outro efeito colateral do *sistema* sobre mim, e 99% das mães que conheço).

Hoje, o que sei é que além de tomar decisões conscientes próprias (levando em conta a opinião dos outros, sim, mas não me baseando nela), preciso ter em mente que se minha decisão foi errada, posso voltar atrás e tentar outra trilha - e não tem problema. Que o mundo de hoje não é um exemplo de mundo para ninguém e que, portanto, questionar constantemente o protocolo tem que ser tão natural quanto não questionar foi no passado.

Dedico este post a minha mentora e irmã, Bobby, que tem me influenciado muito, e positivamente, nessa trilha tortuosa que é a "maternidade fora da matrix", como ela diz. 

Tuesday, June 24, 2014

sobre cavalgar leões

Hoje é um dia memorável. Talvez amanhã eu já nem lembre mais disso. Mas hoje, hoje é memorável. Hoje eu percebi que escolhi a minha vida, e que escolhi errado, provavelmente porque ponho outras pessoas à minha frente. Hoje entendi o desconforto que me causa quando alguém sugere que eu mude quando reclamo, simplesmente porque tenho essa opção. Hoje eu achei que talvez, só talvez seja possível me apoderar de minha própria vida, e realmente segurar com força as rédeas do futuro. Porque se eu soltar de novo posso não achar mais.

Mas com tranquilidade, que chega de correria e choro por uma vida. Porque meu filho está crescendo rápido demais, porque não vou aceitar perder esse período de tempo ínfimo que é minha vida a partir de agora até quando acabar.

Cansar, cansa. Muito. Tenho ímpetos de dormir para sempre, só porque dormir é bom demais e não escolho mais quando posso. E isso também é passageiro. Assim como meu filho querer meu colo. Pensar que isso vai acabar é uma tortura diária a que me submeto.

Falei, falei, e ainda não falei porque hoje é um dia memorável. Hoje eu decidi que vou desacelerar. Percebi que não quero estar na posição que estou no meu trabalho. Quero descer de degrau. Quero trabalhar menos. Quero menos pressão, mesmo que por menos dinheiro. Quando percebi que todos os meus melhores esforços estavam direcionados para um trabalho que não estava exatamente motivante, decidi que era hora de pisar no freio. Porque eu breco, sim, e evito capotar. Estou descobrindo isso agora, depois de muitos acidentes. Mas até alguém cabeça dura como eu uma hora aprende, não?

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Sobre amizades. Aqui está difícil, vou confessar. Mais que quando cheguei em Londres, 10 anos atrás claro.

Aí que fui lá, fiz uma amizade super gostosa e leve com uma pessoa cujo marido se deu bem com meu marido e cuja filha tem praticamente a idade do Leo. Show! Aí a família amiga resolve mudar pra Miami. Fim da história.

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Mas pra não ficar só no lamento, um casal de amigos muito querido vai se mudar de Londres para cá. Será fim do rótulo de família que chuta pedrinhas?

Tuesday, May 20, 2014

shift

Amanhã meu filho completa 17 meses. E só depois de 17 meses começo (vejam bem, começo) a pensar que preciso cuidar mais de mim, do meu marido, enfim, de uma vida além-nenê. Não é fácil. Há 17 meses tenho uma relação simbiótica com meu filho. melhorou um pouco quando voltei a trabalhar, mas parece que por causa disso, nas horas que consigo passar com ele, quero espremer tudo, não perder um segundo. É sofrido.

O lado bom disso tudo é que minha relação com meu filho é extremamente sincronizada. Entendo ele muito bem. O lado ruim é sacrificar todo o resto.

Sei lá. Amanhã tenho médica. Da cabeça. Vamos ver o que ela diz. Estou querendo fazer o "shift" mas não sei se sozinha consigo. 

Monday, May 19, 2014

Go, go, go!

Há quase dezessete meses que sou mãe. Ficou mais fácil. Todo mundo que vira mãe fala que vai ficando mais difícil com o passar do tempo porque os problemas vão ficando mais complexo. Bom, eu acho que vai ficando mais fácil. Pra começar, gosto de problemas mais complexos. E para arrebatar, não há problema tão catastrófico para mim quanto a privação de sono. Além da Depressão Pós Parto, que hoje é passado, mas que ainda me arranca lágrimas quando lembro do que aconteceu comigo.

Não vou dizer que minha rotina é fácil. Moro em Nova York com marido e filho, trabalho o dia todo (opção) e meu filho fica a maior parte dos dias no daycare, de onde já voltou mordido, para aguçar bem minha culpa. Chego em casa e mal tenho tempo de brincar com ele. Jantar banho, mamar, dormir. E aí é a hora de se preocupar com os outros dias - o que meu filho vai comer? tem roupa limpa? estou dando verdura o suficiente? Sim, a rotina é exaustiva. Mas foi uma escolha. Não troco pela vida que tinha no Brasil, not for a minute. Novs York é perfeita? Longe, bem longe disso. As pessoas são grossas, há uma tensão constante para que as coisas aconteçam sempre com muita eficiência sem nenhuma razão. Às vezes estou num café sem nenhum cliente na fila, mas as atendentes querem me atender voando, querem que chegue lá já sabendo o que quero. É assim em todo lugar. MAS, again, não troco pelos problemas que tinha que encarar no Brasil. Antes impaciência do que malandragem.

Ainda não achei a vida que me satisfaz. Não sei nem se isso realmente existe. Pelo menos para mim. Mas sei que ainda há mudanças possíveis para que a vida seja melhor. Por ora, vamos tentando terminar cada dia como se fosse um milagre quando tudo dá tempo, e tudo dá certo.

Sunday, December 22, 2013

1 ano e 1 dia

Ontem foi o aniversário de 1 aninho do Léo. Eu tive aquele ímpeto que me acompanha há muito tempo: o ímpeto de não fazer nada. Mas sucumbi aos pedidos do meu marido, e foi bom ter sucumbido. Uma delícia vê-lo em seu quartinho cheio de crianças brincando junto, um roubando brinquedo do outro. E quando a festa terminou e pus meu filho pra dormir, fiquei pensando que é inacreditável isso tudo que estou vivendo. Que parece uma outra vida aquela pré-filho. Cantei parabéns pro meu bebê, mas senti que cantava para mim. Há um ano eu morri e renasci. O processo foi doloroso e lindo, desesperador e doce. Ainda há luto em mim, mas há mais vida. Dentro e fora do peito.

Friday, December 13, 2013

quase um ano

Difícil dizer quem mudou mais nesse ano, eu ou você, meu filho.

Você era aquele serzinho que não respondia a nada que não fosse desagradável. Só sabia chorar (e eu sei que foi um bebê bonzinho mesmo assim). E o tempo passou e com um mês você sorriu. E depois disso, mais dois meses e gargalhou. E logo virou uma pessoinha mais decifrável e extremamente agradável, feliz e tranquilo. Aí foi passando o tempo e foi crescendo sua curiosidade e sua estatura. Seu peso quase triplicou e sua altura aumentou em 50%. Seu sorriso se encheu de dentes e a careca, bem, a careca continua bem aparente, mas os fiozinhos dourados começam a cobrir sua cabecinha linda.

Eu passei pelo período mais difícil da minha vida, o ano mais difícil. Fui a um poço tão profundo que jamais imaginei existir lugar tão desesperador. Vi as horas se arrastarem enquanto o mundo me dizia que elas passavam rápido. Me senti um ET e mais sozinha do que nunca. E neste mesmo ano, devagar, consegui florescer, e virar mãe. E perceber a doçura que é ser a pessoa mais importante na vida de alguém para sempre. E a dor imensurável que é o mais curto dos choros, e a alegria descontrolada que é uma gargalhada de bebê. Tudo absurdamente extremado. Ainda não me acostumei com essa montanha russa, confesso. Acho que vai mais um tempinho. Mas o que importa é que agora eu sei que vale a pena. Só de imaginar meu filho dormindo, ou brincando, rindo ou chorando, eu já sinto fisicamente as reações químicas acontecendo em mim. Aquele chavão de virar bicho, enfim, é verdade.

Então acho que foi isso, meu filhinho: em um ano, de bicho você virou gente. Eu, de gente virei bicho. E em algum lugar no meio do caminho a gente se encontrou. E foi aí que eu entendi tudo o que poderia entender. E que tudo mais que eu não entendesse, é porque realmente não tinha como. E que vou ter que me acostumar com essa coisa de não entender porque agora vai fazer parte da minha vida. E isso dói mas faz crescer. Quase tanto quanto meu amor por você, meu titico.