Monday, July 12, 2004

fantasma onipresente

Aconteceu. Uma tristeza profunda, é claro, mas uma ponta de inexplicável alegria por ter acontecido – já que era para ser alguma hora – e passado sem me abalar completamente.

Hoje foi um dia normal. Acordei pesada, tomei café, fui encontrar amigos no Hyde Park, fiz pic-nic, fiquei passeando até anoitecer e voltei para casa. Ninguém saberia dizer que naquela mesma madrugada eu tive um ataque de pânico.

Meu primeiro ataque de pânico londrino, com tudo a que dá direito. Corpo gelado, dor no peito, nada entra pela boca, nem água, suor, palpitação, uma corrida desesperada ao banheiro, o corpo desfalecendo a ponto de eu não conseguir trancar a porta. E um grito para dentro, já que não havia ninguém para me abraçar. Um grito mudo, dos mais agoniantes que já dei. Como é ruim ouvir o próprio arfar no meio de um ataque. Todas as outras vezes, tive alguém do meu lado para me abraçar, jogar água na minha cara (???) ou ao menos me entupir de perguntas idiotas, o que eu considerava o nível máximo do não saber o que fazer, já que a pior coisa numa hora dessas é ficar fazendo perguntas. Agora eu sei que a pior coisa, na verdade é o silêncio. O silêncio exalta o estado do desespero. Parece que cada suspiro tem a potência de um tambor.

Fazia mais de um ano que eu não tinha um ataque de pânico do começo ao fim.

Depois veio o choro. Aquele choro dos cansados. O mesmo choro, imagino, de quem chega de uma guerra perdida, mas pelo menos chega vivo. Passei meia hora com a luz acesa e os olhos fechados, aproveitando a letargia de voltar a mim. Como se eu tivesse de agradecer todos os dias por estar no meu corpo e não desesperadoramente fora dele. Depois de meia hora, o Rivotril começou a fazer efeito e meu peito foi ficando quentinho.

Mas o bolo na garganta continua. Preciso muito de um abraço.

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