Thursday, July 15, 2004

carta da Madeira

Queridos amores!!

Estou escrevendo neste momento aqui da Quinta do Palheiro. Não imaginei que fosse me tocar tanto a idéia de visitar o lugar onde uma parte da minha família cresceu e viveu, como minha avó paterna Rosemary. Segundo meu tio Adam, a casa praticamente não mudou nos últimos 100 anos.

Ainda não conheci todos os cômodos da casa. Estou hospedada no terceiro andar. A casa fica no topo do morro e minha janela dá para o mar. Dormir ou fazer qualquer outra coisa chega a parecer pecado quando se tem uma vista dessas da própria janela.

Mas vamos começar do começo. Cheguei aqui na Madeira anteontem, após um estresse do cão durante a viagem. Peguei um ônibus em Willesden Green (bairro em que estou morando em Londres), fui até Victoria Station, de lá peguei um trem para Gattwick, de onde saia meu vôo da Air Portugal. Fiquei amiga de uma advogada italiana, Carmela, que estava voltando para Nápoles após três meses estudando inglês em Londres. Meu avião foi lotado. E é óóóbvio que bem atrás de mim sentariam umas crianças infernais que socavam e chutavam minha poltrona, ignorando sumariamente meus olhares reprovadores. FOra que o jantar foi um sanduíche michuruca e eu tava morrendo de fome já que não tinha almoçado. Mas tudo bem. Cheguei na Madeira já amiga de dois madeirenses que conheci no avião. Um deles, Manuel (como não?) me deu o telefone para me levar para passear - o que logicamente não vai acontecer porque o que não me faltam são pessoas oferecendo-se para me levar para passear.

Um dia lindo estava morrendo. Eram 21h quando cheguei na Quinta do Palheiro, propriedade de titio Adam. Conheci sua mulher, Christina, e reencontrei o casal australiano que também se hospedara na casa do John em Londres.

Dormi menos do que gostaria, mas o suficiente para aproveitar o dia. Oito horas me gritaram "good morning". Não respondi. Depois de um tempo gritei de volta: "ok". Seria um longo e lindo dia. Fomos até o Pico do Arieiro, de onde comecei uma trilha sozinha, já que Adam e o casal australiano não são lá muito jovens. A trilha pelas montanhas levaria 2 horas, segundo meu tio. Ele estaria me esperando ao final da trilha. Só que a trilha era um "pouquinho" mais longa do que ele pensava. Foram 3 horas sem parar, subidas descidas, bichos estranhos me perseguindo, suor caindo no olhos, sol escaldante na cabeça (a trilha era numa altitude acima das nuvens), e eu sem um mísero mapa para me dizer onde eu estava e para onde deveria ir. Simplesmente fui. Sozinha. Até encontrar um casal belga que veio todo equipado com mapas e bússola. Aí fiquei na cola deles e chegamos ao Pico Ruivo, onde lembrei incessantemente de minha irmã linda. Pico Ruivo é o ponto mais alto da Ilha. E, numa metáfora justa, poderia dizer que a Ilha da Madeira é mais ou menos como o meu coração. Porque aqui também o pico é ruivo.

Do Pico Ruivo segui à Achada do Teixeira, onde meu tio estaria me esperando. Apesar de sair correndo desembestada no meio da trilha achando que em questão de minutos meu tio poria uma helicóptero para me resgatar, não tenho dúvidas de que foi a MELHOR (e uma das maiores também, acho que foram 12km) trilha que já fiz na minha vida. Cada curva que eu fazia, cada pedra que eu subia, cada lamaçal em que eu escorregava (e, acreditem, foram muitos), uma nova paisagem me deslumbrava. Em determinado momento, lágrimas me vieram aos olhos. Eu olhava à frente e só via o caminho que eu tinha de seguir, em volta apenas nuvens, inclusive na frente da montanha para onde eu rumava. A sensação que eu tinha era de que poderia sair correndo de olhos fechados e conseguiria andar sobre as nuvens.

Quando terminei a trilha, um misto de alívio por ter terminado tudo e poder finalmente sentar, e de realização por estar carregando um pedaço tão precioso do mundo na minha retina e na minha memória. Jamais esquecerei essa experiência. Minha primeira trilha sozinha. Metafórico, não?

Depois da trilha fomos fazer um pic-nic na beira da estrada. Comi feito um leão, sem o mínimo esforço para disfarçar a fome. Depois fomos até a praia do Faial, onde tive meu primeiro reencontro com o Atlântico. O mar deveria estar uns 22 graus. Temperatura certa. Chão de pedras, mas não importa, o importante era flutuar e setir a brisa e o gosto do sal na boca e as ondas embalando. Ondas imensas, diga-se. Nessa parte da ilha, os surfistas fazem a festa.

Depois de eu e Adam nos refrescarmos, voltamos para o carro com os australianos (velhinhos ultrafofos, estou para apertar as bochechas da velhinha, preciso confessar). Fomos passear em Portela e depois em Quinta do Santo. Mais vistas espetaculares, mais flores, meus sentidos foram inundados por este lugar. Passamos no aeroporto para pegar Jessica, minha prima, filha do Adam. Voltamos para casa e tivemos um jantar com toda a família. Além de mim, Jessica, Adam, Christina e o casal de australianos, estavam minha prima Louisa, o marido Philip e os três filhos, meu primo Jonathan, a esposa (ooops, não lembro o nome) e a filha, meu primo Andrew, Michael (tio), Rosemary (tia) e mais gente que devo estar esquecendo.

Foi uma delícia. Ataquei o camembert e depois o brownie. Sem piedade. Eu tinha caminhado por três horas, estava no meu direito.

Depois disso fui direto para a cama, tonta de sono e com os ombros em chamas por causa do sol.

Acordei hoje às 10:30h. Passei o dia como merecia: lagarteando na piscina e na praia do Reids, hotel que no passado pertenceu à minha família. Almocei lá e dei umas braçadas de leve, já que meu ombro doía tanto por causa da queimadura que não conseguia rodar. Mas foi o suficiente para perceber o quanto um mês sem natação me deixou travada. Lebrei muito de babái. Tirei fotos pensando no meu Hemingway.

Cheguei em casa agora pouco. Não sei quão fácil vai ser caessar a net de novo, já que os dias têm sido bem cheios de atividade. Agora mesmo, Jessica passou por aqui perguntando se eu não quero ver o jardim antes de anoitecer.

Além disso, trouxe meu notebook mas a tomada daqui é diferente, então nada feito. Vou perguntar se eles têm algum adaptador.

Por enquanto, é isso! Amanhã chega outro primo, Christopher, e hoje chega outra prima, Emily. Estou me achando com essa família imensa. Nunca, nunca mesmo, pensei que fosse encontrar todo mundo. Daqui a pouco está na hora do jantar e depois devo ir com a primaiada em algum point em Funchal.

Estou roxa de saudades, penso em vocês direto. Acreditem: tem espaço na minha cabeça para pensar na maravilha que está sendo o presente, nas deliciosas lembranças do passado e no nebuloso mas promissor futuro.

Mas vocês estão sempre na minha memória, seja a Joaninha no Pico Ruivo ou nas infindáveis hortências (não sei porquê, mas sempre que vejo hortências, lembro da Piu), seja papai em todos os momentos de família e em quase todas os momentos em que estou em casa, seja na mamãe quando estou perdendo o juízo, seja no Ti quando estou nadando ou nas trilhas (preciso te trazer aqui aqui e fazer tudo isso de novo, com você, um dia), seja Frubinha, minha fotógrafa preferida, nas nuvens e paisagens e detalhes inexplicavelmente belos, seja Julinho, no samba e nos momentos em que babo a comida... enfim, não vou ficar listando todos, vocês sabem exatamente quem são porque levo vocês comigo.

Um beijo no coração e até a próxima oportunidade de usar a net!!!

AMO VOCÊS!!!!!!

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