Tuesday, February 28, 2006

flocos de neve II

Ha pouco menos de um ano, postei um texto intitulado “floco de neve”. Ele comecava assim: “Lendo John Fante, outro dia, me emocionei. O avo do personagem de 1933 Was a Bad Year tinha morrido e ele tinha lido em algum lugar que quando uma pessoa morre, elas se transformam em flocos de neve. Uma imagem infantil, mas bonita. Uma imagem daquelas que mae conta para filho novo quando tem que se deparar com a morte pela primeira vez e precisa entender que a pessoa foi, mas continua no ar. Uma imagem daquelas para refletir as dores e tentar sentir menos dor. Principalmente porque nesse mesmo dia estava nevando aqui em Londres. E porque meu avo ja estava dormindo um dos seus ultimos sonos vivos.”

Aqui, hoje, novamente, neva. Hoje, em especial, houve sol e neve. Um frio e uma beleza que, juntos, fazem doer tudo.

E mais uma vez tive que me emocionar ao sentir os flocos caindo e derretendo sobre meu sobretudo quente. Nao era apenas neve. Era a despedida novamente. Dessa vez, meu tio avo se despedia. Quase um ano apos seu irmao. Enrugadinho, pequeno, sabio, muito mais sabio que eu e voce e todos nos juntos. Recebeu uma visita do medico no sabado. O medico desconfiou de infeccao urinaria e quis leva-lo para o hospital para fazer uns exames. Ele disse que nao. Nao queria. Se despediu do medico e foi dormir. Nao acordou mais.

Recebi o telefonema da Elaine, uma especie de governanta que viveu decadas cuidando da familia, quando saia do cinema. Ela deixou recado e liguei de volta. Meu coracao ja acelerado. Sentei para falar com ela porque sabia da potencial queda. Mais flocos de neve sobre meus ombros cansados. Uma das maiores dores do mundo sao de saudade. Mas dessa saudade. Uma saudade que ainda nem comecou. Uma saudade previa do que sera a vida sem quem partiu. E parece que cresce. A saudade que sinto de meu avo se acumula para quase dois anos. A ultima vez que o vi, ainda morava no Brasil. Mas era saudade boa de saber que ele ainda estava la, e que havia vida para viver e historia para contar e historia para ouvir.

Alem da saudade, ficou a dor de saber que minha irma nao pode conhecer uma das pessoas mais notaveis da nossa familia. Uma pessoa que em muito lembra nosso querido avo.

Mas ja quase nao consigo mais chorar se penso que eles estao juntos agora. Os dois irmaos, com historias tao diferentes. Historias que comecaram quase juntas e agora acabaram quase juntas. Eles foram para diferentes cantos, separados por uma Guerra nojenta, mas fizeram e viveram suas vidas, tiveram a delicadeza de trocar cartoes de aniversario ano apos ano.

Eles nao sabiam o quanto sao parecidos. Agora talvez saibam. E isso estranhamente me faz torcer para que quando eu va, tambem seja assim. Enquanto choramos aqui pelo desencontro, eles comemoram, la, o reencontro.

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