Olha soh, as coisas aos poucos melhoram. Aos poucos. Segunda-feira começou toda trocada, toda errada. Para começar, cai no chao. Assim mesmo, como nao acontecia a, sei la, quatro anos. Cai no chao. Na verdade rolei a escada. Dois degraus, o suficiente para estrupiar uma perna ja deveras estrupiada. Um tombo esquisito e desnecessario. Dois minutos para me recuperar. Ja estava atrasada para o trabalho quando, tudo pronto, nao acho meu ticket de onibus. Começo a escarafunchar a bolsa e em pouco tempo ja passo para o criado-mudo, bolso dos agasalhos, mesinha central da sala, cozinha, nada. Volto para a bolsa e ei-lo la, soberado, rindo malicioso. Saio ventando – dentro do possivel, mancando mais que compasso – para o ponto de onibus. Demora, demora, demora. Primeiro onibus passa reto. Lotado. Aqui tambem tem dessas coisas. Inacreditavel como uma manha pode ser tao cagada. Espera mais, mais, mais, outro onibus, dessa vez subivel.
Mas sabe-se la porque, Londres resolveu parar. Mandei um text message pra minha chefe, dizendo que atrasaria um pouco. No worries, ela disse. Cheguei no trabalho e entao finalmente as coisas começaram a normalizar.
Aa noite sai finalmente para conversar com o Chris. Foi outro parto para encontra-lo. Liguei dizendo que estava em Holborn Station esperando por ele. Ele saiu do trabalho ao meu encontro, mas me liga dez minutos depois dizendo que tinha se enganado e em vez de Holborn Station, tinha ido para Chancery Lane Station. Em seu power walk brit style, foi ate Holborn. Disse que estava na frente do Sainsbury. Fui ateh o Sainsbury e nao o achei. Liguei pra ele de novo, cheguei a trocar Sainsbury com Seinfeld (Eh serio. Eu disse: “no, no, I am in front of Seinfeld, where are you?”, para o qual ele soh respondeu: “what?!” naquele very british indeed way). De qualquer maneira, nao conseguia ve-lo. Combinamos de nos encontrar na saida 1 de Holborn Station entao. Quando chego la, descubro o que rolou... EU estava em Chancery Lane Station desde o começo, achando que estava em Holborn. Depois de rir sem parar – os britanicos nao entendem muito bem o que eh isso – combinei de ficar na saida 1 de Chancery Lane Station sem me mexer, quietinha.
Depois de uma hora do combinado, conseguimos nos encontrar. O desencontro todo na verdade ajudou a quebrar o gelo. Um desencontro que tornou bem melhor o encontro. Nao consegui fechar o livro. Ele foi extremamente doce, extremamente atencioso, extremamente namorado. E eu decidi que nao preciso decidir nada agora. Posso me dar esse luxo. Simplesmente desdecidir. Eu tinha dito que terminaria tudo e agora nao sei mais. Ainda quero terminar, acho que nao temos futuro juntos. Mas isso nao significa que tudo tem que terminar agora, se agora nao eh a melhor hora.
Ontem, um pouco melhor. Nao cai, nao perdi meu ticket, nao perdi o onibus. Encontrei Marinella depois do trabalho para mais um cineminha baaaasico. Dessa vez, Somersault, um filme aussie meio clichezento demais, mas bonitinho. Uma coisa meio modelo drogada revoltada adolescente foge de casa e vira hippie. Nao, ne?
Depois do filme fomos no Mac (porque eh o que ta dando pra gastar nesse fim de mes). Marinella eh uma companhia deliciosa.
No onibus de volta para casa, telefonema do Chris e da Fru. Nao estou tao sozinha afinal.
Mas hoje o dia promete ser lindo. Usei oculos escuros pela primeira vez em meses. Almocei com uma amiga de babae que me faz lembrar babae. E hoje, claro, chega minha amada Bobby. Como demorou! Vou enche-la de apertoes e mordidas. Nao vejo a hora de ouvir aquela matraquinha falar ateh eu adormecer.
A mareh baixando faz com que as coisas todas ja nao gritem tanto para mim. Antes, qualquer buzina era ensurdecedora, qualquer cor era fosforescente, qualquer tempero era forte demais, qualquer temperatura era a errada. Eu estava toda perola recem-saida da ostra. Cansou. Agora as coisas estao com um contorno mais real. A vida grita muito de qualquer maneira e isso foge ao nosso controle; se o ser humano nao fosse adaptavel, ja estariamos extintos.
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