Wednesday, March 16, 2005

o tunel no fim da luz

Parece que finalmente estou entendendo que estou passando por um dos momentos mais delicados da minha vida. Já passei por zilhões de crises, fundadas e infundadas. Depressões, chiliques, you name it. Mas essa é a primeira vez que passo por uma crise em toda a sua complexidade. Uma crise que existe soberana. Apesar de muitos amados me lembrarem de que não estou sozinha o tempo todo, é difícil. É a primeira vez que minha vida está uma zona e eu tenho que arrumar a bagunça sozinha. E além de arrumar minha bagunça interna, tenho que arrumar a externa também. Toda uma vida que acontece dentro de mim, e outra fora de mim. E cismam em tentar me fazer entender de que são as mesmas, mas não me convencem, não me convencem.

A morte do meu avô, pelo incrível que pareça, ainda não está cimentada. Me pego de repente “lembrando” que realmente ele se foi e me dá uma vontade monstra de me jogar no chão e chorar. Aí passa uma criança loirinha, os cachinhos tonhonhoim, rebolando, bochechuda, na minha direção, e eu logo me esqueço, e lembro do quanto quero ter um filho, e o quanto preciso crescer ainda, e o quanto ao mesmo tempo já cresci. Gosto de pensar que meu avô, onde estiver, vai estar orgulhoso.

Mas voltando, estou passando por um dos momentos mais difíceis que já tive de encarar aqui. Claro que houve outros doídos, como o término do namoro, a sensação de urgência de sair da casa do meu tio por causa da bruxa, e mais um ou outro. Mas é a primeira vez que me bateu uma vontade quase instintiva de pegar um avião e voltar pro Brasil, nem que para me arrepender em uma semana. Aí lembro que estou sob contrato, que tenho contas a quitar, que, enfim, sou gente grande. E gosto de morar aqui.

O negócio é que, como sempre, as coisas embolaram. O término do namoro com o Chris teve um efeito maior do que eu esperava. Provavelmente porque estou fragilizada. Mas hoje me peguei ligando pra ele pra saber-como-vão-as-coisas e no final meio que podemos nos encontrar na sexta-feira. Ele tem uma entrevista de trabalho no Foreign Office, aliás, vaga que eu indiquei para ele. Ele tem chances. Já passou no primeiro pente-fino. Ele fala russo e francês fluentemente, e isso o coloca à frente de uma pá de candidatos. De qualquer forma, ele já está empregado e começa segunda-feira. Um trabalho semelhante ao que ele fazia na empresa em que trabalho – para quem pegou o bonde andando, foi ele quem me entrevistou para uma vaga na empresa.

O negócio é assim: não suporto a idéia de voltar a namorar com ele, mas também não suporto a idéia de ficar longe dele. Eu chamo isso de manha, mimo, ele me mimou, agora dependo um pouco disso. Eu, que aqui não recebo mimo algum. Antes do Chris, era mimada por outro cara fofésimo que durou alguns meses mas minguou – e hoje somos grandes amigos. E enquanto estive sozinha, tinha minhas doses de mimo com minhas amadas flatmates. Aliás, às vezes acho que essa crise só está sendo mesmo braba porque Bobbynha ainda está no Brasil. Esse tempo que não passa. Mas em uma semana ela volta (para viajar de novo, mas tuuuudo bem).

A única coisa que vai de vento em popa é o trabalho. Continuo curtindo muito, adoro minhas colegas e chefes, adoro o clima da empresa, adoro o que faço. Muitas vezes as jornadas são exaustivas, temos deadlines a cumprir, targets, além das tarefas diárias de praxe. Fora que estou aprendendo na marra (mesmo) a ser organizada. Não há a menor possibilidade de se dar bem no Marketing sem ser organizada. Eu tenho vários lapsos de memória, coisas como, puta merda, será que eu mandei o email pra fulana MESMO? Será que esqueci algo importantíssimo? Será que mudei as datas das cartas? Enfim, tudo vira um problema monstro quando temos mania de perfeição (não aquela que todo mundo tem; mania mesmo). Está sendo deveras importante passar por isso.

E a verdade é que, resumindo, não sobra oportunidade para ficar desesperada. Quando penso que a vida tá foda, que essa é a hora perfeita para me meter debaixo do cobertor em posição fetal, eu lembro que tem conta de luz, eletricidade, telefone, banda-larga, celular, gás, natação, council tax e, claro, o aluguel. Lembro que seres humanos também têm a estranha necessidade de se alimentar, de se limpar, de se dar um ou outro regalito. E que portanto viver é caro bagarái então preciso fazer valer meu ticket.

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