Thursday, September 28, 2006

plumas e chumbo

Engraçado é que eu fiz toda uma festa porque finalmente estaria com nova medicação, aí ontem fui no médico e peguei a receita, fui na farmácia e peguei o remédio e, hoje de manhã, na hora de tomar, por algum motivo não tive coragem. Tomei o velho de guerra.

Será que estou mais louca do que pensava?

Sei lá, não é a minha psiquiatra falando e ouvindo por uma hora para depois decidir se os prós superam os contras na troca dos remédios. É uma clínica geral do NHS (o sistema público de saúde daqui) que eu nem escolhi, mas me foi designada, que em cinco minutos de consulta, contando tirar minha pressão e ouvir outras lamúrias (eg tiróide, pílula etc) decide que devo tentar um novo remédio.

Não, não estou louca. Mas vou tentar. Tô com medo porque minha Piu disse que no começo eu vou piorar. Cara, se piorar explode. Sou uma bomba relógio ambulante. Preciso de um nada para estourar. Não, não pode piorar. Ainda não decidi o que vou fazer.

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Os adjetivos que meu técnico usa para se dirigir a mim valem uma listagem. Não sei de onde ele tira. Outro dia ele perguntou para a Flá, que pacientemente assistia ao meu treino, se eu era famosa no Brasil. Mas hein?! Que pergunta é essa, minha gente?

Ontem ele me fala, na saída da piscina: Beatrice, you’re a gift from heaven!

Arregalei os olhos incrédula. Ele não me conhece. I can well be a gift from hell.

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Mais um fim de semana todo agitado. Amanhã tem festa, sábado tem festa, a Broo vem pra Londres, vai ter um “chazinho” lá em casa, só para a mulherada. Esses são os planos. Na real, só deus sabe.

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Voltando a enxergar tons, nada como cores pastéis depois de se ofuscar e só ver preto e branco. A começar pela beleza monótona do cinza, que me mostra que existe vida entre o oito e o oitenta. Repara só que eu não saio mais tanto da linha. Não fico semanas muito bem e semanas muito mal. Não. Minha vida vem se acinzentando e, juro, dou graças a deus. Só depois de uma vida que oscila entre preto e branco é que somos capaz de admirar a monotonia do cinza. Bem vindo. Inunde-me de imensidão imparcial. Ajude-me a não sorrir e nem franzir. Não no espaço de um segundo, pelo menos. Tenho certeza de que ser cinza não é perder o brilho.

E se eu paro e penso em um rosto qualquer, não é no seu rosto que eu penso. Não consigo me reter por muito tempo nas lembranças que você me emprestou. O problema, meu caro, é que tenho tantas lembranças, vivi minha curta vida com tanta riqueza, que é realmente um mérito estar entre as mais remotas. Não é o seu caso (I wish I could say otherwise). Então, toma de volta, eu tenho mais palavras e imagens para ocupar minha cabeça. Na verdade não sei o que fazer com um ou outro respingo de alegria. Penso em jogar para cima e dar a quem primeiro pegar. Penso em rasgar e jogar no lixo reciclável. Penso em mandar empalhar porque um dia vai valer uma fortuna – antigüidades, você sabe, respingos de alegria empoeirados.

Nem sei se essa idéia de confrontar vai dar certo. Você quer ouvir e eu também. Ninguém quer falar. Vai ser um diálogo bastante silencioso. Vamos ouvir a chuva cair e afundar em melancolia e aí sim será o fim. O fim das nossas poucas lembranças. O laço que fecha o embrulho. Pequeno embrulho. De conteúdo frágil e embalagem forte. Plumas numa caixa de chumbo. É assim que vejo o que houve. A bela história poderia flutuar, viajar mundos, papéis e cabeças (inclusive a minha, mil vezes), mas dentro do caixão de chumbo que você escolheu para nossas lembranças, baby, elas vão afundar.

Dê apenas algumas semanas e não se falará mais nisso.

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