Então enterramos 2005, o pior ano que me fez melhor. Não estou querendo que esse ano seja de repente a realização de todos os não-feitos do ano passado. Tem que ser como regime. Esqueça o dia anterior para que hoje dê certo. E o que é a passagem de ano senão o simples dormir e acordar num novo dia? Inventamos que é importante, então vamos todos embarcar nisso. Virar o ano pode ser muito sem graça e muito especial. É como Deus.
Ainda no Brasil, já tendo que me despedir. Não gosto de iludir. “Mas ainda nos vemos, né?” “Olha, acho que não. Dê cá um abraço e até a próxima”. Porque brasileiro sempre diz “ainda nos vemos” mesmo na véspera do mundo acabar. E misturados à despedida, ainda estou marcando encontros pela primeira vez. Pessoas que ainda não vi e que vou ver já de saída.
E pessoas que conheci aqui. Algo que nem passou pela minha cabeça. Conhecer pessoas aqui. Eu vim para rever. Descobri que rever quase não existe. Existe ver. E conhecer. Nunca mais vou me iludir que sou capaz de deitar os olhos duas vezes sobre a mesma coisa, o mesmo lugar, a mesma pessoa. Meus olhos são olhos de primeira vez. O barulho dessa cidade me machuca. A luz me machuca. A proximidade me incomoda. E eu amo tudo o que machuca e incomoda aqui. Porque machuca e incomoda como eu gostaria que machucassem e incomodassem todas as coisas que machucam e incomodam.
Se tudo fosse assim, eu choraria de ver uma flor morrer, e nada mais sangraria. Saudades de um tempo de inércia que jamais vai voltar porque acostumei com a adrenalina. Acostumei com subir e descer e ter o estômago dançando numa cavidade que suporta dois estômagos.
Puta merda, não estou escrevendo nada com nada. É que minha cabeça está meio virada mesmo. Acordo cedo sem motivo. Fico pensando no que me espera em Londres e no que me deixa em Sampa – porque eu não estou deixando Sampa; Sampa é que me deixa ir, quase me cospe. Mr Austrália me mandou email agradecendo as fotos que mandei de uma festinha que demos. E falou que está com saudades. E eu também estou. Não só dele, claro. Dele e de tudo o que é minha vida lá. Das pessoas, da luta diária para não afundar no espiral da solidão, na luta diária para achar tempo e força para arrumar a casa, na luta diária para chegar a tempo de ter tempo.
Aqui a luta é outra. É luta para preencher vazios. De alguma forma sempre falta algo importante. De repente é algo que me faz falta e eu ainda nem sei. Algo que desconheço, mas que tenho em Londres. Lá, de alguma maneira, me sinto mais preenchida. Enquanto que aqui, me sinto amada. Vai ver é isso. Lá eu sei que posso pedir amor. Faz sentido pedir amor. Aqui, não. Aqui o amor transborda e ainda assim não é suficiente. Mas transborda, então nem dá para pedir mais. O amor que não acaba e que nunca é suficiente.
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Ubatuba foi tudo menos Ubachuva. Eu, minha Piu e minha Bathatha pegamos praia todos os dias. Nadei todos dias até a ponta das Toninhas. Vi tartarugas, arraias e, quase juro, um golfinho.
Pedi a benção do mar. Pedi para ele me lavar, me fazer mais pura, me fazer mais leve. Pedi para ele levar para os fundos tudo o que escorre e eu teimo em engolir de novo. Tudo o que escorre porque é desnecessário. O que transborda porque é excesso. E eu cismo em trazer de volta, eu cismo em recolher o que cai, na vã ilusão de que um dia o que sobra vai faltar. Pedi para o mar levar para os fundos tudo o que ele pode precisar e que exista em mim. Porque não quero só receber. Quero dar para abrir espaço para receber mais. Eu e o mar num escravos-de-jó eterno, é o que eu quero.
Chorei para ele. Devolvi com minha lágrima um pouco do sal que tirei. Prometi voltar mesmo que ele não lembre da minha cara. Mesmo que mais eu, menos eu, nada mude. O sol nasça e a maré desça e depois suba e o sol se ponha como em todos os dias. E a moça da fotótica continue a mesma, e a moça da loja azul também, agora com um filhinho, e a minha empregada também, igual, igual, totalmente diferente, meus olhos virgens desesperados para reter. Sei que quando for, metade fica, metade vai. Mas ainda assim eu vou inteira. Saudades não é a falta de algo. É o excesso desse algo em forma de pensamento.
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