Sunday, November 13, 2005

shadow boxer

Tenho por princípio nunca fechar portas, mas como mantê-las abertas o tempo todo se em certos dias o vento quer derrubar tudo?

Está ficando muito frio. Hoje senti falta de gorro, minha orelha quase congelou quando resolvi passear por Leicester Square depois do trabalho. Eu até queria estar com alguém ao lado, mas tenho certeza de que não seria boa companhia. Aliás, não seria companhia. Não tava a fim de falar, de sorrir, de interjeitar. Nem de ouvir, o mais inofensivo dos atos. Nem isso. Mas aí, andando em meio àquele mundo de gente, fui parar no Soho, a única parte de Londres, ao lado de Brixton, que realmente nunca dorme. Entrei numa loja, experimentei uma bota linda, mas só tinha tamanho grande demais ou pequeno demais. Saí, entrei na Soho Books, livraria de precinhos camaradas e artigos alternativos e uma loja de DVDs pornográficos no subsolo. Mas nada me chamou a atenção. Saí, ainda sem querer parar. Resolvi que precisava comer. Ali no Soho era meio complicado; mais capaz de eu ser comida.

Voltei para a civilização. Parei num pub que adoro. Aí pensei que era deprimente demais sentar sozinha e comer sozinha e olhar para o nada ou fingir que lia. Resolvi não entrar. E fiquei pensando, puta merda, como sou normal. Sou como qualquer outra dessas meninas que não querem ser vistas sozinhas, que não agüentam um olhar de piedade alheia mesmo quando sabem que não há nada de que sentir pena nelas. Apenas volúveis aos olhares de fora, de pessoas que nunca mais farão parte da sua vida a não ser naquele instante. Por que querer parecer algo para pessoas que jamais vão me ver de novo e, pior, na verdade nem estão prestando tanta atenção assim na minha condição de sozinha?

Continuei andando. Outro restaurante. Um vietnamita. Vontade de entrar. Passo reto. Vai que não é bom. Uma volta por fora em Leicester Square. Quanta gente andando na rua nesse frio. Será que as facas vêm de dentro mesmo? Eu achava que estava sendo furada pelo vento, mas talvez não. Quando minhas três camadas de roupas não são mais suficientes para me manterem nas condições normais de temperatura e pressão, e meu estômago ronca e minha bexiga aperta, resolvo parar. Um italiano ali, um rice and noodles, um Subway, um Pizza Hut. Rice and noodles. Arroz misto e frango agridoce numa caixa de papelão. “Eat in or take away?” Take away, respondi, quase ofendida. “No, no, sorry, eat in. Yes, eat in”. A atendente sorriu, quase complacente. Ela entende. Ou estava apenas sendo educada quando na verdade queria me chamar de stupid cow. Sentei num banquinho e comi. Peguei o celular. Ligo para a Piu. Nada. A Broo está com o papi dela que vai embora amanhã. Ernesto em Barcelona, Marinella em Amsterdã. Myriam sempre cheia das baladas. Chris. Ficamos de nos ver nesse fim de semana, certo? Certo. Liguei, chama e ninguém atende. Caixa postal. Não deixo recado. Acabo de comer, só então percebendo o rombo que havia no meu estômago. Mais um passeio pela praça. Paro no All Bar One para fazer xixi. Uma vontade imensa de ser segura o suficiente para ficar lá sozinha sem fechar a cara e o coração. Mas não consigo, pelo jeito. Não sou tão cool assim.

Faço xixi e vou embora. Minha Piu me liga. Falo com ela um tequinho, um tequinho antes de dar uma leve desmoronada em meu regime e comprar um waffle com sorvete do Ben & Jerry. Malditos todos os fabricantes de açúcar foda do planeta. Eu estava indo tão bem. Mas amanhã eu volto, prometo. Fui para casa para constatar, um ‘cadim mais, que meus queridos flatmates têm me irritado. Não sei explicar bem porquê. Irritaram sem fazer nada demais. Agora escrevo, fone nos ouvidos, eles estão deitados às minhas costas, vendo TV, inofensivos, cansados também, porque todos nós estamos sempre cansados mesmo quando acabamos de descansar. O fracasso do ser humano é deixar que o cansaço dite quando se deve descansar.

E me imaginando terminando de escrever isso aqui e indo ler meu livro na cama, ou respondendo um email, ou qualquer outra coisa que seja minha e só minha e que me deixe nesse meu autismo que tanto cultivo para depois escrever, aqui, reclamando.

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