Tuesday, November 30, 2004

bright mind

E aqui estou novamente, ainda arrotando o almoco e escrevendo freneticamente para aproveitar os 22 minutos que me faltam para voltar aa enxada. Voces que me conhecem sabe o quanto me irrita nao poder extravasar minhas palavras. Mas, sim, estou escrevendo e devo aproveitar o tempo porque agora ja faltam apenas 21 minutos.

O fim de semana em Brighton foi delicioso. Quase perfeito. Aqula casinha lindamente simples e empoeirada, em Ovingdean, chega a me emocionar. Tantas historias, cada cantinho da casa parece ter seus segredos, omitidos naquela sabedoria serena dos idosos. Aquele sorriso meigo e sabio, que esconde algo e que deixa escondido mesmo, porque eh assim que tem que ser.

Pudera, faz 30 anos que aquela casa pertence ao tio Hans, meu tio avo, que comemorou ontem 94 aninhos. A plenos pulmoes, porque ele apagou a vela e eu vi. E com uma cabeca impressionante. Todas as condecoracoes e premios que ele ja ganhou na vida ainda sao insuficientes para refletir o brilho vivido que ele traz nos olhos. O brilho de quem aproveitou cada segundo desses 94 anos para realmente mudar alguma coisa. O brilho transparente dos que fazem, nao dos que fingem. Os que fingem, essa grande maioria na qual me incluo, nunca trarao esse brilho tao verdadeiro nos olhos. Brilho de vitoria independentemente do quao reconhecida pelos outros ela foi. Tio Hans foi um desses. Chairman da ONU, uma paulada de livros publicados sobre economia em paises subdesenvolvidos (quando falar em "paises subdesenvolvidos" nao era o pecado moral que eh hoje), morou em paises estapafurdios (dois anos na Etiopia, just to mention one), indicacao ao Nobel da Economia... Ah, claro, tambem foi condecorado pela rainha e eh Sir aqui.

E a casa dele cisma em sustentar um ar de que o que realmente importou estah alem disso tudo. De que isso foi consequencia apenas de uma mente bem-usadamente brilhante. Porque de nada adianta apenas o brilho se ele for pro lado errado.

Depois de um sabado perfeito ao lado dos queridos Nickao e Frufru, em que passeamos na praia, fomos para o pier, almocamos fish & chips, visitamos o Pavilion (casa de praia da familia real ridiculamente grande e rica e intimidadora e bela e brega) e terminamos num bom e velho pub, o domingo foi aquele dia familia. Acordei cedo, fiquei preenchendo o rascunho do meu application form para o mestrado, e logo chegou Elaine, a senhoura simpatica que ateh hoje nao sei bem o que faz. Ela eh uma especie de empregada-agragada da familia.

Ela trouxe um batalhao de coisas, faixa de Happy Birthday, bolo enfeitado, velas etc. Mais adiante chegou o tio Hans com a Odile, viuva do filho do tio Hans. O velhinho veio segurando sua bengala, de chapeuzinho, bem devagar, olhando para o topo da escada de vez em quando, onde eu o esperava para dar um abraco. Naquela hora vi meu avo. A mesma expressao, o mesmo chapeu, ateh a mesma bengala. Tudo igual ("mas ele eh mais bonito", diria meu avo).

Mais adiante chegaram Lucia e Joanna, uma surpresa deliciosa. Sao netas do tio Hans; logo, minhas primas em algum grau. Eu achei que nao me daria muito bem com elas, nem sei bem porque. Aquelas coisas de crianca que vai conhecer amiguinho novo e fica ressabiado. Elas sao uns amores, e ja combinamos de montar um time de triatlo. O Singer Team. Eu nado, Jo pedala e Lucia corre. Elas sao assim tipo eu, gostam dessas doideiras. A Lucia, por exemplo, passou dois anos viajando o mundo de bicicleta, desde Paquistao, Turquia, India, Nova Zelandia, ateh coast-to-coast nos EUA. E a Jo decidiu que vai ser courrier. Ha dez anos ela pedala entregando encomendas em Londres. E ama. As duas ja correram maratona juntas vestidas de nao-entendi-o-que, mas pareceu engracado. Foram expulsas e soh puderam voltar a competir agora.

Uma familia normal.

Foi uma delicia me sentir mais perto de outro lado da familia tambem. Ateh agora, meu contato havia sido quase todo com o lado Blandy. Aos poucos vou descobrindo o quanto o lado Singer eh forte em mim. De alguma forma, em alguma sombra do olhar, achei que pareco um pouco com a Lucia. Foi estranho.

Mas a ideia do Singer Team brilha. Vamos levar adiante.

O almoco estava delicioso. Soh verduras e paes, porque Jo e Lucia sao vegan.

Depois muito, muito papo. Em parte regado pelo delicioso vinho do porto Blandy, de que tive de bebericar um teco, afinal estavamos celebrando e eu havia trazido o vinho. Tudo devidamente registrado nesta fotinha de Frufru.

E eu sei que tinha muita coisa acontecendo no mundo naquela hora. Mas para mim, eu estava satisfeita em pensar que era soh aquilo mesmo. Serenidade. Fim de semana revigorante para enfrentar mais uma semana pauleira.

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Ai, mais dois minutos.

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Pena que logo na segunda-feira, ontem mesmo, sofri uma decepcao. Daquelas pequenas e grandes ao mesmo tempo. Aquelas little things that kill. Mas xaprala. Ninguem mandou nascer sensivel e atravessar pessoas com o olhar e compreender o que eu nunca deveria precisar saber.

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Reveillon possivelmente mudando de rumos. Vamos ver. Essa historia ta comecando a me encher a paciencia. Capaz de pegar minha trouxa e ir sozinha para onde bem entender. E voces sabem que eu me divertiria, nao sabem?

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Acabou. Triiiiimmmmmmm, fim de recreio.

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