Thursday, September 06, 2007

a senha do inbox dele - ou o passaporte para a merda


Aí um dia eu tive a oportunidade de ver a senha dele. Ele tapou meus olhos, mas eu vi por entre seus dedos. E eu tentei não decorar mas não consegui. E daí fui dormir, e quando acordar quis ter esquecido, mas não esqueci.

A senha. A senha do email. Descobrir senha é hoje o que ouvir na extensão do telefone era há 20 anos e o que procurar marcas de batom, arranhões ou perfumes pouco familiares eram há 30.

E eu “sem querer” memorizei. E fiquei com aquela informação pesando. Eu poderia ler todos os emails dele. Eu poderia escarafunchar cada mensagem enviada, cada mensagem recebida. Eu podia. A Verdade vem dos emails. As maiores Verdades do século 21 foram descobertas fuxicando emails alheios. E justo eu, curiosa, curiosíssima, mas orgulhosa demais para perguntar qualquer coisa, com aquela maldita informação preciosa.

Hoje está tudo bem, mas vai que um dia me bate aquela insegurançazinha, aquele deseperinho, aquele vaziozinho tão mulherzinha? Aí posso recorrer ao poço da Verdade, o inbox dele. Sim, posso! Posso descobrir coisas e passar horas me divertindo ou me flagelando. Até inventar eu posso, sob o pretexto de poder inferir. E ele nunca vai saber.

Mas eu vou. Vou sempre saber. Vou sempre hesitar. Vou sempre desconfiar. Por mais que não queira. E odeio não poder controlar sentimentos tão reptícios. Odeio saber que eles vão estar sempre a espreita.

E num impulso de boa índole, de quem quer que as coisas realmente funcionem, falei assim que lembrei que não havia esquecido: “eu memorizei sua senha”. Ele só acreditou quando eu falei. Franziu a testa meio bravo, mas acho que foi puro reflexo. É chato se sentir desmascarado mesmo quando nada aconteceu. Foi uma desmascarização em potencial. Mas eu fiz o que era certo, o que era direito. E eu sei que no fundo fiz um gesto respeitoso e respeitável.

Ele mudou a senha e eu continuo confortavelmente longe do que nem meu é.

Porque é assim: relacionamento tem sempre milhares de pontos prontos para encrespar, milhares de começos de fins. É muito fácil se deixar seduzir – quem não faria a festa com a senha de email do amado? Mas há conseqüências. Sempre há. E eu não estou a fim de encrespar linhas tão lisas. Com orgulho eu afastei um dos muitos começos de fins que assombram os relacionamentos.

Fui daquele melhor tipo de medroso: o que tem medo de foder com o que está muito, muito bom.

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