Monday, October 03, 2005

the only way is out

Você acredita no que eu escrevo? Pois não acredite. A partir de agora eu não acredito mais no que digo e penso. Tudo de que tenho certeza absoluta sempre vai ter um ponto de interrogação no final, daqui para frente, até eu aprender a me entender, me conhecer, saber quem sou e não quem gostaria de ser. É muito fácil fingir que sou o que gostaria de ser o tempo todo. Eu visto uma máscara (minha preferida é a de nada-me-abala-a-vida-é-uma-festa) e ela só cai quando a vida anda na minha direção, quando trombo com fatos que, na teoria, nem chegariam a ser fatos, tão insignificantes. Várias coisas disputam meu pensamento agora. Eu fico meio perdida, porque são pensamentos genuínos, a partir de coisas reais. Minha máscara está caindo e não aprendi a viver sem ela ainda. Tenho medo de chorar e a lágrima furar minha cara. Tenho medo de abraçar e quebrar os ossos. Tenho medo. Sou, enfim, uma pessoa como você. Uma vez uma leitora me disse que sonhou comigo e eu era uma espécie de Angelina Jolie naquele filme que ela era heroína de não me lembro o quê. Eu achei uma graça, mas fiquei a pensar se é essa a imagem que passo: de uma super-heroína cuja vida é cool e cujos obstáculos fazem cócegas. Não fazem.

A partir de agora, não acreditem mais no que eu digo. Acreditem apenas no que questiono. A dúvida é minha única certeza.

***

Fim de semana agitado. Alucinada. Dormi quase nada, mas trabalhei. Me arrastei o dia inteiro. Já está virando hobby esse negócio de dormir no quartinho de primeiros-socorros. Nada como um bom cochilo na maca. Sábado foi o housewarming da Fru e da Bruna. Foi uma delícia rever tanta gente legal que acabei perdendo o contato porque sou uma anta de tetas workaholic. Tudo culpa minha. A Paulinha, por exemplo, é uma amiga da PUC que está aqui já faz três meses e sábado foi a primeira vez em que a vi. Claro que minha vida está uma correria e yadda yadda, mas eu podia ter dado um jeito. No final, combinamos de nos encontrar com mais freqüência, já que ela está morando em Bermondsey, não muito longe de mim. Também reencontrei a Camila, ex-flatmate do Ernesto, uma fofa que é a enxaqueca em pessoa, mas é fofa. Poucos sabem o quanto ela é doce.

Enfim, levei meus flatmates, Mr. Australia e Mr. Suécia, para a festa. Eles se divertiram. Bastante. Mas, sei lá, se pudesse voltar no tempo acho que não os teria levado, não. Mas xapralá. Eu me diverti, eles se divertiram, todos se divertiram e é isso que importa, ou que deveria importar. Se ficou um gosto amargo no final é porque eu precisava aprender - mais uma vez, mais uma vez - que não há doce absoluto. Até quindim tem seu lado perversamente amargo. Não há exceções. Um dia, um dia eu quero voltar a ser imaculada. Quero voltar a ser pura. Voltar a pensar que existe certo e errado e que eu saio ganhando fazendo o certo. Um dia quero escolher o Bem novamente, acreditar que há essa alternativa. Acreditar que uma porta quadrada, definida, iluminada, me espera em alguma ponta do labirinto. Chega de portas semi-abertas. Chega de portas semi-fechadas.

Thursday, September 29, 2005

depois do afeto

Apesar de ter metido o pé na jaca no meu regime, tenho me sentido linda. Gatinhos na área. Alguns mais, alguns menos, alguns novos e alguns velhos. O Chris, por exemplo, resolveu reaparecer. Combinamos de nos ver semana passada. Fomos num pub no final da tarde, depois do trabalho de ambos. Conversamos muito, tudo muito divertido, ele fofo, eu fofa, somos fofos afinal. Aí no final fomos nos despedir e, tchuf, o moço atola a mão na minha bunda. Ah, Chris, não é assim que se faz. Tudo errado.

Definitivamente passado.

Meu atual foco não é Manager, não é Malandro, não é Chris. É o Mr Austrália.

Tá. Pode ser a maior cagada dos últimos tempos (e olha que pra ser maior cagada nos últimos tempos tem que feder meeeesmo), mas, cara, tá foda. E se digo que está é porque está mesmo. Fruquinha amiga e leitora assídua não me deixa mentir e estava presente no digníssimo housewarming que fizemos aqui. Ela conheceu meus novos flatmates e aprovou o mocinho, claro, ele é todo aprovável. Provável, na conotação, ahn, gastronômica da palavra.

Mas pára, Bia, pára. Não bom. Ele mora com você e vai morar com você por sabe deus quanto tempo mais. Ele vai trazer menininhas para dormir no quarto dele. Eu pretendo muito decentemente trazer rapazinhos para dormir no meu quarto. Não vai ser legal ver olhos injetados de ciúmes de nenhuma parte. Não quero correr o risco de me sentir incomodada com a idéia de trazer algum carinha em casa, nem com a idéia de vê-lo chegar com uma sirigaita. Assim sendo, declaro e assino aqui que só darei o próximo passo (que promete ser deliciosamente cheio de beijos e amassos, ufff) se for para fazer direito. Brincar sério, se é que vocês me entendem.

Mudemos de assunto e só voltemos a este quando eu tiver NOTÍCIAS, e não POSSIBILIDADES.

Fui a uma entrevista na segunda-feira. Não gostei. Serviu para eu conhecer Kingston, ao sul de Wimbledon. Uma gracinha de vila. Mas não rolará ir todo dia para lá, ainda mais que não achei o lugar tão bacana assim. O negócio é que eles gostaram de mim, e querem me ver novamente, e eu não quero e não sei ainda o que vou fazer. Aí quarta tive outra entrevista, em Highgate Village, uma coooooisa de região, norte de Londres, próximo de Hampstead, ladeirinhas, casas vitorianas, praças de paralelepípedos, tudo pequeno, tudo lindo. Adorei o trampo. Tô na expectativa de que dê certo. Mesmo. Amanh㘘tenho outra entrevista, dessa vez para salva-vidas, para um trampo que paga bem melhor. Dinheiro é coisa do bem. Todo mundo merece.

E segunda-feira tem uma surpresa. Além do curso, que está indo muito bem, e que vocês poderão acompanhar mais de perto no meu blog recém-nascido. A surpresa fica para quando ela deixar de ser POSSIBILIDADE e virar FATO, ok? Cansei de me iludir e iludir vocês, fofos leitores.

E é isso. Minha vida está quase boa de novo. Nota 6.0. Falta bastante tempero, mas os ingredientes básicos já estão cozinhando.

Wednesday, September 28, 2005

o sétimo filho

Queridos, amados, conhecidos, desconhecidos: hoje pari meu sétimo filho eletrônico. Desta vez, nasceu nerd, de óculos e livro em punhos, com bafo de quem fica muito tempo sem falar, com teorias por trás de qualquer prática. Meu primeiro filho gringo, inclusive. Educadinho a falar inglês desde o nascimento. Meu filho acadêmico. Na verdade, nasceu como lição de casa do curso que comecei a fazer na University of London na última segunda-feira. Evitem morte prematura: visitem, leiam e comentem.

Ele está aqui, ó: Blame it on Media!

Friday, September 23, 2005

working my arse out

Basicamente sumi e basicamente serei breve agora porque estou trabalhando muito mais que um dia sonhei. E isso porque, entre outras coisas, não tenho dinheiro para comprar um iPod nano como o que comprei alguns dias atrás. Foi tão fácil... Entrei no site da Apple Store, nenhuma taxa de entrega, algumas AirMiles colecionáveis e a lembrança de como eu e meu iPod Shuffle nos dávamos bem antes de ser seqüestrado sem pedido de resgate.

Depois de mais uma semana de self-pity (juro que tentei evitar, mas aconteceu), resolvi me dar esse *treat*. E para me dar esse treat, tive que sacrificar dias de merecida bundação para trabalhar como ontem, por exemplo, das 6:30h às 21:30h, com meia hora de intervalo, o tempo de subir no metrô e ir de um trampo ao outro.

Ridículo, babaca, sem graça. Mas foi. Trabalho logo mais e o fim de semana inteiro e a semana inteira, claro. Esse iPod nano é bom ser a coisa mais *fofa* dos últimos tempos, porque me custou bem mais que £140 no final. Custou um tequinho da minha saúde.

Novamente, aquele blablablá: estou atrasada em meus emails, posts, escritos, falados, telefonemas, tudo. Não sei se um dia chegarei a ficar realmente em dia com tudo. Desconfio que não, mas tento não falar isso muito alto em caso de eu ouvir. O eu obsessivo-compulsivo que não agüenta nada pendente, nem mesmo uma vontade mínima de fazer xixi. Não muito longe do ódio de existir na forma humana, que permite estar consciente de que há uma vontade de fazer xixi; há, portanto, a necessidade de uma privada e, preferivelmente, um rolo de papel higiênico.

Ai, tô pirando demais. Mesmo meus leitores mais costumazes não devem estar entendendo nada. Não os culpo: eu também já não entendo mais.

Saturday, September 17, 2005

aonde foi parar minha casa ou a metáfora do ponto de ônibus

Outro dia estava saindo do trabalho, no ponto de ônibus, e um cara senta ao meu lado. Distraído, ele não viu o ônibus dele chegando e quase partindo. Levantou esbaforido e saiu correndo. Eu gritei, ei, moço, não esquece sua sacola! E ele respondeu "sorry". Tudo bem que inglês pede desculpas até por respirar mas a questão é que, em vez de agradecer, ele se desculpou. Como se fosse uma ofensa esquecer uma sacolinha, uma dessas small brown bags, no banco do ponto de ônibus. Como se, enfim, eu fosse achar que naquela sacolinha de papel estivesse uma bomba.

Aqui está assim. Uma neura sem tamanho, mas não sem fundamento. Agora Londres é parte do crescente número de cidades *com histórico*. Enquanto qualquer cidade for *sem histórico* de terrorismo, nenhuma precaução é justificada, qualquer alerta é alarde, uma ameaça é só uma ameaça e uma sacola esquecida e recuperada é agradecida, e não desculpada.

Claro que somado ao fato de morar numa cidade *com histórico* está minha desilusão com o rumo que minha vida tomou aqui. Não estou querendo soar fatalista; tudo pode mudar e as coisas podem parecer menos negras ou até coloridas dentro de alguns meses. Mas por enquanto meu gráfico está caminhando para a abcissa.

Essa semana, inclusive, bati meu recorde. Não consegui o mestrado, não consegui Reader's Digest, não consegui IMP, nem uma noite, er, quentinha ao lado do Malandro consegui. Ficamos assistindo devedê. Supimpa. Devedê my ass, meu filho.

Três da manhã e lá fui eu de volta para casa de táxi, pensando que de fato tudo o que realmente quero não tem acontecido. Onde eu errei? O que está faltando? O que está sobrando? Quantas voltas mais o mundo precisa dar para começar a girar para o lado contrário - o certo? Quando todos esses nãos vão fazer algum sentido? Estou esperando a hora em que vai me dar o tal do clique. Que vou entender por que, como todos dizem, tudo aconteceu de forma a me contrariar mas só porque lá na frente vai fazer sentido. Estou esperando para ligar os pontos. Estou há meses com o lápis na mão. Espero que na hora em que houver pontos a ser ligados *lá na frente* eu não tenha quebrado a ponta.

De repente me senti sozinha de novo. Bobbynha me mandando text messages de L.A., aquela fofa. Fruquinha me afofando o quanto pode, aquela fofa. Mas ainda assim me sinto sozinha. Todas as pessoas importantes na minha vida estão longe de mim. Não sobrou uma, UMA. Todas moram no meu coração, mas eu quero *tocá-las*. Beijar molhado a bochecha da minha mãe, arrancar o nariz da minha irmã, balançar a lela do meu pai,mordiscar a bochecha da Bathatha, passar a mão na testinha enrugada da minha avó, beijar a careca do meu avô (que saudade, que saudade), beijar o olho do Putão, apertar o queixo da Cá, esmagar o braço da Dé, e apertar tantos outros braços e testas de tantos fofos com braços e testas apertáveis. Minhas saudades começam a sair pelos poros, no suor, no movimento rápido dos olhos, nos suspiros mais e mais freqüentes, em lágrimas que inevitavelmente me escapam - já nem luto mais.

Que medo de desabar mesmo.

Thursday, September 15, 2005

babylon

Sem aviso a vida desaba. Um precipício raso, mas ainda assim precipício. Eu prometo não gritar quando chegar a hora de me atirar. Porque todas as decepções que eu podia ter esse ano não cabem num grito, nem o fazem valer a pena. Cair nem seria assim tão ruim, para quem se estatelou sem sair do lugar.

O mestrado não vai rolar. Basicamente, o diretor do curso acha meu inglês escrito fraco para um curso dentro do Departamento de Inglês. E, agora, looking back, concordo com ele. Não quero estudar aqui, investir tempo e dinheiro, para ser aluna nota 5.0. Nunca fui, nunca quero ser.

Agora é hora de repensar minha vida aqui. Não vim pra Londres pra ser salva-vidas. No matter how cool alguns acham, esse trabalho é bem entediante. Então, o negócio é tentar entender o que está me esperando aqui realmente. Quero ficar mais um tempo aqui. Minha hora ainda não chegou. Tenho alguns trabalhos esperando resposta. Reader's Digest obviamente não vai rolar, mas ainda não recebi resposta da outra empresa, IMP. E tem ainda outras coisas. Estou pensando em fazer short courses, para continuar pensando. Não quero parar de pensar, porque eu sem pensar, ou pensando para dentro, sou um perigo. Atestado por minha psiquiatra.

**

E depois de chorar pra burro com a falha no mestrado, resolvi, no bom e velho estilo I'm-a-survivor, sacudir. Let go your heart, let go your head. O mundo continua desabando, eu continuo me estatelando sem sair do lugar, o precipício canta meu nome, mas eu não vou. Ainda não.

Hoje vou sair com o Malandro. Não sei aonde vamos, não sei sobre o que conversaremos, não sei se vou continuar curtindo a idéia de curti-lo, não sei. E estou adorando a idéia de não saber.

Depois conto do Manager. Estou atrasada e preciso tomar um banho caprichado hoje. Porque termino o trampo às 22h30 e de lá vou encontrar o Malandro e sei que a noite vai ser só uma criança.

Sunday, September 11, 2005

cyberlove

Não. Não é isso que vocês estão pensando. Não encontrei um amor virtual. É o mundo virtual que eu amo. Essa é uma declaração de amor à internet. Internet, obrigada por você existir e me manter tão próxima a um passado amado, aos amados de ontem e hoje e sempre. Aos leitores que nem me conhecem e mandam ondinhas de amor - eu sei, eu sinto.

Estou com internet em casa. No meu colo, para ser exata. Enquanto Mr Austrália e Mr Suécia assistem a Dogville no DVD, digito freneticamente.

Minha vida está em apnéia até amanhã, quando muita coisa vai ficar clara na minha vida. Amanhã sai a resposta do mestrado. Se rolar, começo a estudar já no mês que vem. Isso significa que tenho que ler, em um mês, uns 7 livros, entre eles Ulysses. Sim, sim. Se rolar o mestrado estarei pretty much fucked até sabe deus quando. De qualquer maneira, não quero que nada atrapalhe minha ida ao Brasil. Mesmo que tenha que levar livros & cia a tiracolo.

**[pausa para comentário urgente] Gente, o australiano deitou aqui do meu lado, a cabeça a uma régua escolar de distância. Puta vontade de fazer um cafuné. Ele é um fofo. [/pausa para comentário urgente]**

A entrevista de sexta, a segunda que fiz na Reader's Digest, foi uma bosta. Quer dizer, isso foi o que eu achei. Jamais me contrataria se tivesse assistido àquela apresentação. Tive brancos, ri de nervoso, troquei palavras, coisa mais difícil que é embromar em inglês. Não que eu tivesse a intenção de embromar, mas entrevista de emprego precisa ter uns floreamentos. Você não responde simplesmente "não". Responde "não, mas acho que se x e y colaborarem, ou se z não atrapalhar, e se o alfabeto inteiro estiver disposto, aí acho que pode ser. Mas, a priori, não".

Pois foi isso. Me enrolei no meu próprio nariz de cera. Maldição jornalística.

Mas esqueçamos. Passou, foi, zupt, sumiu. Agora é só esperar. Esperar a resposta do mestrado. Esperar a resposta da IMP. Esperar a resposta da Reader's Digest. Sabe que até estou começando a gostar de esperar. Porque quando todas as respostas chegarem, todas todas, aí sim vou ter que começar a tomar decisões. E não são das mais fáceis. E não são das mais superficiais. São decisões de gente grande saindo de uma cabeça que cisma em continuar bebê, sempre que possível. E o sempre que possível está se tornando quase impossível. Quanto mais o tempo passa aqui, mais me sinto uma senhora. Tantas responsabilidades, tantas preocupações, tanto a pensar, decidir, unir, excluir, telefonemas a fazer, coração para aquietar, minha saúde, compras, o aluguel, trabalho demais, e no entanto estou aqui, sentada na sala com dois rapazes deitados, assistindo a um filme quietinhos, enquanto digito e nada, nada além de digitar, nada além de vomitar pelos dedos, ocupa minha cabeça.

Uma senhora. Crescer é isso. Saber que o mundo desaba sobre seus ombros todos os dias, e nem por isso você deixa de regar sua planta, ou fazer seu café com calma, ou assistir a um programa favorito, ou escrever num blog que é mero engano de Google para tantos leitores.

Voltei.

Tuesday, September 06, 2005

a place called home

Desde ontem um bolo na garganta. Um medo de tanta coisa acontecer em tao pouco tempo e nao ter ninguem para olhar serenamente de fora. Sim, estou sozinha. Digo, me sentindo sozinha. Sozinha mesmo eu nunca estou. Minha casa estah sempre cheia, meu trabalho eh com pessoas o tempo todo, minhas viagens de trem sao regadas a mensagens e telefonemas. Mas estou meio sozinha.

Acabo de sair da Goldsmiths. Basicamente, preciso provar que sou capaz de escrever um trabalho academico em ingles. Se conseguir fazer isso, nos proximos dois dias estou dentro. Sim, eles me ofereceram a vaga de mestrado. Fui aceita. Claro, com a condicao de poder provar que sou capaz de escrever. Eu. Capaz de escrever. Vou arrebentar meu computador. Ele quer 6 paginas. Farei 12. E nao quero nenhum native speaker corrigindo meus desabafos. Eu e eu apenas. Eu e o desafio. Vou escrever. Dai, apenas continuem torcendo.

Tenho toda essa mistura de medo e felicidade tipica de novos tempos, e nao tenho com quem dividir. Bobby na Franca, Fru em Budapeste e eu aqui, meio perdida, meio achada, feliz e assustada, correndo parada.

Ainda sem internet em casa. Puta merda, minha gente, puta merda.

Respirem por mim, porque eu, nos proximos dias, estou prendendo o ar com medo de ele, tambem, me escapulir para sempre, perdido entre as coisas que vem e vao tao depressa na minha vida.

Saturday, August 27, 2005

worried eyes

Ainda sem internet em casa - desgraca. Estou tao cheia de palavras, mas nao tenho como da-las a voces agora. Estou escrevendo, sempre. Mas para mim. Ou para voces no futuro. Meus livrinhos. Em breve um terceiro comecarah a tomar forma. O esboco ja estah feito. A historia eh otima e besta ao mesmo tempo. Mas como sempre, boa literatura nao eh uma boa historia. Eh uma historia qualquer escrita com maestria. Os melhores livros que li nao tinham enredos inesqueciveis, mas estilos inesqueciveis.

Bom, nao vou comecar a filosofar porque soh tenho mais meia hora nesse cybercafe meio pulguento no Soho (pelo menos eh £1 a hora). Aas news:

* Finalmente fui a uma fisioterapia. Levei bronca por ter demorado tanto. Meu pescoco estah crunchy e meu tornozelo inchado. Sou toda elastica, tenho as malditas double joints que, por um lado, me permitem acrobacias e manobras deveras apreciaveis, mas, por outro, me causam dores porque tendo a compensar o peso nas pobres juntas. Terca-feira volto la, vou comecar a fazer uns exercicios de Pilates.

* Entrevista na Reader's Digest foi muito bem. Fui chamada para a segunda etapa, em que terei de fazer uma apresentacao (!) para o diretor de marketing (!!) e uma prova de matematica (!!!). Bom, todos sabemos que ainda tenho meu empreguinho humirde de lifeguard. Oh well, nao sei quanto tempo mais aguento.

* Application mandada para a Goldsmiths College. Agora eh esperar, esperar, esperar. Odeio esperar quando nao ha mais nada a fazer a nao ser esperar.

* Descobri que o amor da minha vida da semana passada eh casado e tem tres filhos. To fora. Perdeu a graca.

* Amanha vou sair com o Malandro. Resolvi reavivar a situacao depois que descobri a vida dupla (hahaha) do Manager, que por sinal ainda nao voltou de Cyprus e tenho certeza de que quando voltar vai gavianar minha vida bem agora que resolvi abandonar o jogo.

* Carnaval em Notting Hill - to fora tambem. Nada mais deprimente.

* Estou apaixonada pelo livro que comecei a ler esta semana. I am Charlotte Simmons, do Tom Wolfe. Santo Tom Wolfe, merece minha adoracao. Ele, que eh o pai do New Journalism. Leiam, leiam, leiam. Eh novo, mas ja deve estar no Brasil.

* A casa nova vai comecando a ficar confortavel. Ainda nao eh a *minha* casa, com *minhas* amadas Fru & Bobby Co Ltd. Mas eh interessante. Aos poucos estou conhecendo melhor a sul-africana, que eh gente boa, apesar de muito fechada. E estou conhecendo mais e mais Mr Australia. Hum.

Bom, nao consigo pensar em mais nada. 15 minutos para estourar meu tempo e uma tonelada de emails para responder, de voces, amados conhecidos e desconhecidos! Voces que me mantem menos saudosa quando as saudades me parecem insuportaveis. Ta ficando cada vez mais dificil pensar a vida longe de todos voces.

Wednesday, August 17, 2005

manha de sol

Estou num cybercafeh meio fedidim em Shadwell mesmo, perto de onde trabalho. Sem internet em casa fica faltando um pedaco. Once nerd always nerd.

De qualquer maneira, amigos, estou amando meu quarto. Ontem finalmente meus outros tres flatmates se mudaram. Mal os vi, jah que antes das 23h capotei. E a verdade eh que a menina que mudou eh ligeiramente chatonilda. Os dois caras sao bem legais, como havia dito. A menina eh uma sul-africana com um sotaque desgracaderrimo, nao sei, nao sei, sou chata pra burro, mas vou fazer o esforco para ir com a cara dela, afinal, agora moramos juntas. Pelo que entendi, ela nao era a primeira opcao dos meninos. Ela foi ver a casa algumas semanas atras e eles preferiram outras flatmates, euzinha por exemplo. Ai o tempo foi passando e nao achavamos ninguem para por no quarto quarto. Entao foi ela mesmo. Ainda teve o acinte de "reclamar de brincadeira" que eu peguei o quarto de cima, com espelhos na parede. Te foder, neh, fia?

No mais, tenho entrevista na Reader's Digest depois de amanha. E outra na quarta. Varias coisas.

E a application para meu mestrado, se deus for pai, chegara a tempo nas maos dos todo-poderosos assessores do curso.

No final, pelo menos, aqui faz sol. Ja eh motivo para comemorar.

Thursday, August 11, 2005

um ano em um dia

Hoje cresci um ano. Acordei às 5:45h, sabendo que a vida já não me deixa em paz e cisma em me tirar de minha voluntária meia-morte. Mas não reclamei de ir trabalhar. Um cara muito especial, novíssimo na parada, estaria no trabalho hoje. Ele não é salva-vidas. Ele é apenas lindo. Com sua lovely evil face. Cara de mau, mas não tão mau. Um sorriso que em alguns anos lhe renderá belíssimas proto-rugas. Um cabelo cuidadosamente descabelado, um corpo de endoidecer amantes de corpos.

Só o sotaque que é meio foda. Ele nasceu em East London e morou por três anos na Escócia. Praticamente um estrangeiro para mim, tanto quanto eu. Ele fala e eu não entendo. mas ele sempre repete sorrindo, olhando através dos meus olhos, como se um varal de roupas nos ligasse e dependesse exclusivamente dele. Se ele deixar a corda cair, eu caio junto. Mas ele não deixa. Ele segura, e eu vou desmanchando, só meus olhos continuam inteiros, em pé, teimosos, nos dele.

Ele me chama de Bee. Bom, todo mundo no trabalho me chama de Bee. Mas com ele é mais especial. Apenas recentemente ele começou a me chamar de Bee. E eu adoro. E, olha, sinceramente, acho que há recíproca. É bom que eu esteja muito certa disso, porque ele, bom, ele é meu chefe. Não é legal excangalhar com o emprego, néam? Mas estou quase, quase certa. Ele me ama e eu o amo loucamente.

Aí estava saindo do trabalho e topo com L., o Malandro. Ele foi visitar o pessoal. De quebra, um eu-te-ligo-sabadanoite. Eu até queria que ele ligasse. Mas nosso amigo malandro sambou no lugar. Perdeu pontos na comissão de frente mesmo. O novo amor da minha vida dessa semana - dessa vez é sério - promete ser destaque da escola.

Desnecessário dizer que saí do trabalho carregada por borboletas. Tentei disfarçar para a Anna, a polonesa que trabalha comigo, mas achon que não consegui. Ela não comentou nada, mas sou um bebezão transparente e imagino que ela seja minimamente perspicaz. Oh well, foda-se. Tô nem aí.

E começou a grande mudança para a casa nova. Antes de sair de casa, claro, tinha que ser, um quebra-pau em terra amiga. Brigar tem sido tão fácil ultimamente... Acho que os ânimos estão em progressivo caos. Pela primeira vez em Londres, vou me separar das meninas. O dia está chegando. Já fechei contrato com o Mr Australia e Mr Suécia-Equador. A partir de domingo meu endereço oficial é em Mudchute, em Isle of Dogs, uma região nas docklands, zona leste, céito? Mas zona leste do bem. Muito verde, muita casa bonita, meu lar a 50m do Thames. Estou feliz demais com minha escolha. Meu quarto é um bibelô. Todo azul, mas não azul-calcinha. Um anil apastelado. Lindo. E armário com portas de espelho deveras interessante. E, porra, meu quarto, meu meu meu. No terceiro andar. Lindo, cheiroso, superficialmente bagunçado, como eu gosto.

Apesar das brigas por aqui, estou feliz. Um sentimento bom e adormecido voltou a cutucar meu coração, esse bolostrô preguiçoso e idoso, cansado de guerra. Uma casa nova. Bastante trabalho e, a última ótima notícia: fui chamada para uma entrevista na Reader's Digest. Sexta-feira que vem. Fingers crossed once again!

Em um dia, tanta coisa. Eu querendo meio-morrer porque não agüento mais correr tanto assim, e minha meia-vida querendo ser inteira, chacoalhando meu corpo fodido de tanto tentar escalar. Unhas sangrando de tanto tentar agarrar. Olhos ardendo de tanto querer enxergar. Braços doendo de tanto arrastar - coisas, pessoas, principalmente pessoas - e de ser arrastada - por coisas, pessoas, lugares também, mas principalmente pessoas.

Foi um dia e tanto. Meio-ressucitei com a força de um ano. Um ano para entender que cresci e que minha força é mais que nunca absurda. Absurda.

Friday, August 05, 2005

I don't believe in hell

Porque estou dançando entre as chamas que queimam minha alma. Dançando e rindo e cantando. Então não pode ser inferno. Inferno não existe. Liberte-se desse consolo chamado inferno. Liberte-se também do paraíso. Hoje conheci outro australiano com um quarto para alugar. O apê dele é de frente para o rio, todo decorado, muderno, a dois passos de London Bridge, a um do Borough Market. Ele queria me alugar um quarto de solteiro por £140 por semana. Escapou-me uma gargalhadinha. Falô então.

Mas ele estava infeliz. Tinha tido um péssimo dia no seu emprego nine-to-five. Uma reunião não saía bem. Ele tem um daqueles sorrisos bem largos de dentes amarelos, como todos eles.

Eu não quis ser ele, mesmo querendo ter sua casa.

E atinei então que não existe também paraíso. Foi então que percebi que estava livre para rir, dançar, me sujar nas cinzas do inferno. O inferno que é pura ilusão. O mundo está aí e não é inferno nem paraíso. É um eterno purgatório, te lança para cima para baixo, mas no final você morre sem saber realmente se usou a vida para provar alguma coisa. Para que provar, então?

Esquece isso. Preciso parar de ter vergonha do que sou hoje. Sempre me orgulho do passado. Preciso me preocupar mais com o presente. E esquecer um pouco essa história de futuro. Futuro, inferno, paraíso. Tudo a mesma merda, tudo a mesma ilusão. Não quero viver para morrer feliz. Quero viver feliz e depois morrer. Apenas morrer. Não quero morrer feliz. Morta, nem devo saber o que é felicidade. Não que eu saiba hoje. mas pelo menos ela, a puta da felicidade, hoje tem o dom de me deixar encafifada.

Be good to yourself 'cause nobody else has the power to make you happy.

Thursday, August 04, 2005

O encontro com o Mr Austrália

Foi quase todo smoothly. Pelo detalhe de que esqueci meu celular em casa e não sabia como o cara era e ele não sabia como eu era. Havíamos marcado de se encontrar nas escadas saindo da estação de Canary Wharf pela Docklands Light Railway. Combinamos meio nas coxas já imaginando que por celular nos acharíamos. E eu levo tudo, menos o celular.

Óquei. Encosto numa pilastra e sei que se a cagada foi minha, sou eu quem tenho que descobrir quem é o cara. Para facilitar um pouco, fiz minha mais genuína cara de perdida, olhando em volta, encarando os homens que estavam parados por ali. Olho à minha direita, um cara bonitinho parado na frente da escada. Olho para frente, um executivo cabeçudo mandando SMS freneticamente. À minha esquerda, um japonês parado com cara de nada. Alguns subindo escadas, andam, olham em volta e seguem. Fodeu, pensei. O cara é que vai ter que me achar. Só tem homem nesse lugar. Não vou sair feito uma louca perguntando quem é o Mr Austrália.

Mudei de idéia subitamente quando um colega de GANA resolveu puxar conversa. Ele vinha com um relógio na mão, para consertar ali do lado. Arrastava suas chinelas num ambiente bem pouco chinelento. Camisa pólo verde musgo, toda encardida. Uns fiapos brancos no pescoço e na cabeça que me deixou sem entender mesmo. Começou perguntando se eu era americana. Nope. Australiana? Nope. De onde então? Brasil. Ah, Brasil, era do Brasil o cara que foi assassinado no metrô, né? É. Triste, não? Muito.

Eu já estava perdendo a paciência porque queria ser vista pelo Mr. Australia sozinha. Com o Mr GANA do meu lado meu possível futuro housemate jamais viria conferir se eu sou eu.

Abri as ventas em desaprovação. Olha, moço, eu preciso ir porque tenho que encontrar alguém. Onde você vai encontrar esse alguém? Aqui mesmo. Então aonde você está indo? Olha, moço, prestenção: não conheço a pessoa que veio me encontrar e ela nunca vai me achar se me vir aqui conversando com você. Ponto de interrogação do tamanho do prédio do Citigroup. Me dá seu telefone então? Não. Por que não? Porque não lembro o número e esqueci o celular em casa. Ahn... peraí então, deixa eu pegar um papel, segura aqui meu relógio e...

Eu já estava freaking out. Olha, Mr. Gana, preciso ir, really. Olha, tá vendo aquele cara ali sentado? (Apontei para o bonitinho à direita) Então, tenho quase certeza de que é ele. Entreguei o relógio na mão dele e andei até o carinha. Oi. Qual é o seu nome? Ele disse. E era ele. O Mr. Austrália era o bonitinho. Uau. Uau. UAU. Nem parece a minha vida. Não dou essas sortes. O Mr. Austrália não só é gato como é bem legal. Dei um aceno para o Mr Gana sem olhar para ele. Não queria ver sua reação ao me ver walking away com outro cara. O cara que eu estava esperando.

Ele perguntou se eu conhecia aquele cara, referindo-se a Mr Gana. Não! (Aturdida demais) Quer dizer, não...(Mais mansa) Ele veio puxar papo, sei lá, gente estranha, daquelas bem Londres. Ele riu. Eu ri. E ele riu da minha risada. Estávamos entrando em sintonia.

Gostei. Vou conhecer o outro cara que morará nessa casa no sábado. Mr Suécia. Acho que não tiro dois 6 nos dados, mas vai que a sorte está virando?

Pelo menos defini que o Tony, um amigo da BMI, mudará comigo. Decidimos que vamos morar juntos. Ele é um amor, o mesmo que me arranjou onde ficar em Southampton. Em alguns meses estarei falando inglês com sotaque de Bristol.

E encerro esse post agora, já, porque vou encontrar Tony e ver uma casa em Maida Vale. Estamos considerando casas vazias para depois escolhermos, você sim, você não, pessoas para morar conosco.

Vai funcionar. Porque tem que funcionar. Na metade da semana que vem temos que mudar.

Wednesday, August 03, 2005

on my own - and I don't really care

Então aconteceu. Aquilo de it can't get any worse é puro bullshit. Estamos nos separando. As três. A Fru vai para oeste. De lá, um par de meses depois, voltará ao Brasil. A Bobby também vai embora. Ainda não sabe para onde, mas vai. Ainda não sabe para quê, mas vai. Ainda não sabe. Mas eu, que sou péssima nisso de não saber, preciso definir minha vida agora. E estou procurando um quarto, não importa o tamanho, não importa a região, não importa o número de pessoas que vai morar comigo. Só importa que eu possa, novamente, criar meu universo e pagar minhas contas. Meu quarto e apenas o suficiente no bolso, for now. Porque, ladies, gents, eu não paro de escrever, não. Um dos meus livros está gigante. O outro, começando a fermentar. Eu preciso acreditar que alguma coisa boa de toda a tragédia dos últimos meses vai germinar.

Sim, sim.

Vai.

Ontem visitei uma casa em Bethnal Green. Amo a região, mas a casa é lamentável. Hoje vou encontrar um Mr Australia em Canary Wharf. Um pouco mais promissor, I'd say. Um monte de coisas ameaçando encaixar. Não quero me iludir, for I've already eaten the bread the devil smashed (ok, foi fraca) por aqui.

Friday, July 29, 2005

the world spinning in front of my astonished eyes

Férias dos sonhos. Fechei os olhos e entrei nelas, nas férias. E só agora saí delas e abri os olhos para o mundo novamente. E os dias que passei de olhos fechados foram dos mais especiais este ano, junto com os dias movidos a tapas e paella com babãe. A Ilha da Madeira é um pequeno mundo de sonhos, um daqueles carrossel em que toda criança quer subir e nenhuma quer descer. O mar a cada canto dos olhos, peixes em cada canto dos mares, sol demais, sempre a brisa. Mordomia. Uma parte da minha família, como já devo ter citado no ano passado, quando também fui à Madeira, é dona de uma cacetada de coisas, entre elas quatro hotéis, um deles daqueles que já são o sonho em si. Um sonho dentro do sonho. Fiquei hospedada na casa de um de meus tios-primos preferidos, o Michael. Fora que ficar de papo pro ar, vendo as paisagens mais bonitas que meus olhos podem absorver, ao lado de alguém tão querido quanto minha Piu, chega a ser sacanagem de tão bom. Chega a doer, chega a congelar, apesar de o tempo voar. Chega a fazer me sentir uma idiota de passar por pequenas coisas ruins e me deixar abalar, se tenho a pessoa mais preciosa do mundo ao meu lado num dos lugares mais preciosos aqui já fui.

E ainda para ser arrebatada com um proto-convite para ir morar na Ilha da Madeira. Digo proto porque quem me convidou foi a esposa do Michael, que não manda muito no circo. Mas o Michael estava presente, assentindo. Mas calado. Calado não é bom. E também não sei se quero morar na Madeira. Acho que em alguns meses eu estaria correndo atrás do próprio rabo, com medo de pôr chinelas e ir à padaria do Joaquim porque obviamente em alguns meses já estaria "falada" num lugar tão provinciano.

Meninas traquinas como eu devem se conformar com a condição de encurraladas nas megalópoles. Ou livres para aprontar sem ser identificadas. Escolham a versão que parece menos ruim. Ambas estão corretas.

Voltando à família, uma das melhores sensações que tive foi a de ver meu pai, que chegou na Madeira três dias após eu e minha irmã, resgatando uma parte importante do passado dele. Primos que ele não via há 35 anos. Outros que ele nem conhecia. Os filhos, os netos, as casas e as vidas. As dores, as viúvas, tudo o que há numa família. A família do meu pai, a família No.2, depois de minha irmã e eu. Finalmente, a família de cujo reencontro ouso me sentir pivô. Babái não tinha contato com esse lado dele até que eu resolvi cutucar o vespeiro. Primeiro morando com meu tio-primo aqui em Londres nos primeiros meses. Depois, indo para a Madeira e desenterrando, inclusive para muitos que nem sabiam da minha existência, o lado Blandy que vem do Brasil. Um lado Blandy que é branquelo de olhos claros, mas que samba, joga futebol, ri pra cacete e abraça. Uma louca brasileira que ninguém lembrava que poderia um dia aparecer. Mas apareci e este ano voltei, com minha irmã a tiracolo e babái, uma mão dada a mim, outra a sua namorada, para rever o passado. Entender como tudo foi parar onde parou.

Foi precioso ver onde meu pai aprendeu a andar de bicicleta. Onde passava horas olhando os astros por um telescópio. Onde morou os primeiros anos de infância. Onde aprendeu a nadar, puta merda, onde APRENDEU a NADAR.

Foi delicioso revisitar o passado com babái. Não foi fácil dizer tchau. Mas nunca é. Acho que tô ficando profissional nesse negócio de despedida. Tô me acostumando à saudade. Tô me acostumando em deixar pedaços de mim com pessoas que deixam pedaços delas comigo também. Fui eu que escolhi.

Monday, July 18, 2005

Cardiff

Conheci uma das minhas cidades preferidas. Eu sabia que adoraria, tinha um good feeling sobre a capital do País de Gales. Estava certa. Eu e minha Piu aproveitamos cada segundo dessa viagem deliciosa. Mal chegamos no hotel - delicios, diga-se - fomos para o Cardiff Castle. Fizemos o tour completo. Maravilhoso. Ainda passeamos pelo centro da cidade e terminamos o dia em Cardiff Bay, o ponto de encontro de final da tarde, cerveja pros que são de cerveja, suco pros que são de suco. O sol se pondo às 10pm.

Dia seguinte acordamos cedo, nos esbaldamos no café-da-manhã do hotel e pegamos o busão para Barry Island, que fica a uns 50 minutos de Cardiff. Praia de areia (um adendo necessário nessa ilha chamada Grã-Bretanha), mar quentinho, crianças, muitas crianças, praia limpa e sol, sol, sol. Banho de sal para me livrar de qualquer coisa ruim que esteja me impregnando. Porque acredito muito que esteja.

Na praia fizemos um amigo, o Ethan. Ethan tem dois anos e a língua presa. Sorvete seco espalhado pela cara e areia por todos os lados. Sempre que saía para pegar um brinquedo, anunciava depois sua volta: "I come back". E cismava que tinha um barco, mas que não estava achando. Pegava pedrinhas na areia e dizia: "tiny!" e eu me controlava, ô se me controlava, porque aqui é meio estranho essa história de sacudir bochecha de bebês alheios.

Ainda tentei negociar com o pai, já que uma hora em que estava indo dar uma nadada no mar o Ethan quis vir junto. Disse ao pai que sou salva-vidas e que não teria problema levá-lo para um mergulho. Ainda assim não quis. Entendo.

Piu e eu ainda tentamos, nesse mesmo dia, visitar St Fagan's, uma vilazinha ao lado de Cardiff que possui o maior museu aberto da ilha, o Welsh Folk Museum. Mas o último ônibus partia às 18h (!). Nada feito.

Passeamos mais por Cardiff, exploramos o Bute Park (acho que é esse o nome, not sure, not sure) e voltamos cedo para o hotel. No dia seguinte, hoje, era o dia de empacotar tudo e voltar. Ainda deu tempo de passear pelo parque, mas fomos pega por uma chuva pentelha - já era esperado, ninguém tem a sorte de só pegar sol na Inglaterra; com minha Piu não seria diferente.

Na hora do almoço arribamos no trem. Para nossa surpresa, nos puseram na primeira classe. Não reclamamos. Eu até consegui dormir, já que, em troca de um gole da minha coca-light, minha irmã prometeu não cantar as músicas que ia ouvindo no discman.

Agora estou resolvendo todos os pepinos a serem resolvidos antes da esperada viagem para a Ilha da Madeira. Novo telefonema para a polícia, nova constatação de que polícia é incompetente em qualquer lugar.

Minha pequena ruiva deve estar perdida em Oxford Street, comprando lembrancinhas inglesas para seus brasileirinhos. Estou sozinha em casa. Faz tempo que não fico sozinha. Um vento delicioso entrando pela janela. Um sol brilhando apesar de estar meio nublado. Um sossego de que tudo dará certo, sempre, mesmo que certo não signifique perfeito.

retrolavagem e purificação

Começo a desconfiar que este blog está amaldiçoado. Gente demais lendo, nem todas de boa energia. Infelizmente ainda não inventaram um recurso para banir de acesso a esta página essa gente pequena, cujas grandes alegrias são encher o saco da vida alheia. Um recado: eu sei que esse blog é legal, que vocês não conseguem não vir aqui ler, que minha vida é mesmo muito interessante. Mesmo não concordando com vocês entendo que, em tendo uma vidinha bem mais ou menos, vocês achem a minha excitante. Óquei, sem problemas. Mas leia e vá embora. Não deixe aqui seu fedor

Friday, July 15, 2005

aftermaths ou two steps away from losing it

Estou ao lado da pessoa que mais amo no mundo exatamente agora que o mundo resolveu desabar e eu não sei no que me seguro, na raiz ou na nuvem. Nenhum apetitoso. Só consigo agarrar minha irmã, e morro de medo de levá-la comigo para o caminho errado.

Antes dos ataques terroristas, antes de babái me dar o deleite de sua visita, muita merda fedeu. Duas noites após terminar o namoro, encontrei aquele gatinho, o Certinho, que a partir de agora, se é que há algum partir que não seja partida em minha vida, chamarei de D. Fui assistir Bonbón com ele, um filme argentino que julgo eu deve estar fazendo sucesso pela terrinha. Resolvemos esticar depois para um pub. Coisa rápida já que ambos acordavam cedo no dia seguinte, mesmo sendo domingo. Levantei para ir embora, virei para alcançar minha bolsa e não havia mais bolsa. Fui roubada pelo mais malandro dos trombadinhas. Não percebi nada, e não deixei a cadeira nem para ir ao banheiro - vantagens de não beber.

Eu não acreditava. Na hora me veio um gelado na espinha, daqueles que todo mundo tem, de desespero. Mas comigo sempre é mais dramático. Associei as sensações a um ataque de pânico e quase o tive ali, em frente ao D., que me olhava com cara de "fuck!", e em frente às garçonetes do pub, que estavam tentando partilhar da minha dor, mas que na hora, aos meus olhos ranzinzas, apenas regozijavam internamente por não ter acontecido com elas.

Sem carteira, sem cartões, sem dinheiro, sem iPod, sem telefone celular, sem chave de casa, o desespero foi crescendo porque o quebra-cabeça foi fechando e parecia que as peças não iam mais se encaixar. Foi nessa hora que me deu um clique, naquela hora em que a vista começa a escurecer. Essa é minha hora preferida de ter cliques. Nunca antes de tudo parecer perdido. Sempre segundos antes de eu apagar.

O único celular que eu sabia de cor era o do Ernesto. Liguei para ele depois de cancelar celular e cartões de banco e pedi o número do telefone da Bobby. Mais uma longa jornada até encontrá-la. Cheguei em casa detonada, chorando, mal mesmo, achando que não conseguiria levantar no dia seguinte para trabalhar. Eu estava certa. Eu não conseguiria levantar, mas alguma força maior que eu andou por mim, comeu por mim e me levou ao trabalho.

Daí para frente vocês já conhecem. Fui me reerguendo, resolvendo todas as dores de cabeça que uma perda desse gênero gera, yadda yadda yadda. A verdade é que cansei do meu próprio discurso de eu-me-fodo-mas-levanto-pois-sou-foda. Cansei do gesto de bumbar no peito estufado. Cansei de ficar serena, esperando a hora certa para levantar e levar outro bofetão, mesmo depois de juiz ter decretado nocaute. É isso. Alô deus, rolou um nocaute aqui, já. Fim de jogo. Esquece os próximos rounds porque, really, I can't cope.

E babái aqui e minha Piu aqui, e todos os elementos que deveriam me deixar explodindo de alegria, ainda não estão conseguindo. Não quero saber de D. ou de L. (L. agora é o Malandro). Não quero saber. Preciso mudar de casa com a Bobby e ao mesmo tempo I don't give a shit. Moro em qualquer canto, jogada, durmo em qualquer esquina, em posição fetal, economizo no arroz. Tudo o que eu nunca quis para mim.

Estar com a minha irmã aqui faz com que tudo seja menos insuportável. Só não quero levá-la comigo para a merda. Eu jamais me perdoaria. Jamais.

**

Em tempo, amanhã começam minhas férias. Vou para o País de Gales, volto na segunda e na quata vou para a Ilha da Madeira novamente. Eu pretendo muito acordar outra. Férias merecidas. Férias de mim mesma.

Thursday, July 07, 2005

estou bem

Aparentemente. Nada aconteceu comigo ou com alguém que eu conheça. Até agora, que eu saiba, apenas uma amiga estava num metrô que foi evacuado. Parece pouco, mas é traumático demais. Por aqui, no Eastend, o barulho das ambulâncias está começando a ser uma extensão de meu ouvido. Melhor assim, porque passo a não ouvir de tanto ouvir. Não a ser humano que agüente a certeza a todo segundo de que tem alguém morrendo ou sofrendo aqui do lado.

Londres está quieta. Depois de um dia de chuva intermitente, finalmente o sol saiu. Mas não tem ninguém lá fora para aproveitar. Os que estão na rua, estão tentando ter uma idéia de como vão voltar para casa.

Meu peito está apertado, medo fodido de passar pelo que passei no 11 de setembro. Meu pai na cidade, depois de mais de ano sem vê-lo, e não posso encontrá-lo porque simplesmente não há como. Não há meio.

Se deus quiser amanhã será um dia de reerguimento. Não dá para parar.

Quando achamos que chegamos no inferno, ainda estamos aptos a achar, então ainda não chegamos lá. Agora que tudo começa a perder as margens é que desconfio de que o verdadeiro inferno está próximo.

Nada não. Amanhã estou melhor. Por ora, eu e Schopenhauer dançamos o mais triste dos tangos.

Friday, July 01, 2005

o fim da primeira metade

Acabou a primeira metade de 2005 e, com o fim, minha esperança de que esse ano não será um fiasco completo, afinal ainda temos meio ano pela frente para fazê-lo um semi-fiasco: é só tudo dar certo a partir de HOJE. Já que até hoje, convenhamos, conto nos dedos de uma mão as coisas boas que me acontecerm. 2004 foi ridiculamente bom. vai ver é isso. Alguém reclamou lá em cima que era meio mancada me deixar tão feliz. Aí deu no que deu: fechei os seis primeiros meses do ano em grande classe: eu e o Chris terminamos.

Já era esperado, claro, vide post abaixo, vide antigos posts, vide minha vida. Mas o fim de um namoro é sempre um fim. O Chris esteve comigo durante a metade do tempo em que estou na Inglaterra. E eu o conheci apenas dois meses após ter aqui me ancorado. Ele é importante. É especial. Uma das três pessoas que me fazem ou fizeram não desistir de tudo e voltar.

Mas nosso tempo passou. Na verdade, passou do ponto do passou. Mais um pouco e a gente nem se olharia mais na cara. Foi um término civilizado. Mãos agarradas, olhos nos olhos, umas e outras lagriminhas saindo dos olhos nos olhos. Alívio. A certeza, para ele, de que é só um tempo e que provavelmente vamos voltar. A certeza, para mim, de que é o fim definitivo.

Mas ele não precisa saber.

Fechei o primeiro semestre com mais uma perda. Nesses seis meses perdi meu avô, perdi meu emprego, perdi meu namorado, perdi dinheiro e, finalmente, me perdi. Fiquei meio abirutada no meio de campo. Mas depois me achei um pouco. Sempre vão faltar alguns parafusos porque sou um quebra-cabeça infinito. Tive momentos de serenidade. A viagem com babãe para a Espanha foi, sem dúvida, o cume de minha felicidade nesses tempos difíceis.

E hoje é dia primeiro de julho e eu não quero sentar para ver o resto do ano me foder. Hoje dormi como há muitas semanas não conseguia. 10 horas de sono sem parar. Acordei depois de sonhos estranhos. Pesadelos, as usual. Mas o sono em si foi bom. Tenho um freela dos muito bem apessoados para fazer na sexta-feira que vem, de intérprete num evento bem dos chiques. Dei meu valor, £30 por hora. Acabo de pegar a resposta: valor aceito.

Também recebi telefonema do meu chefe na academia em que trabalho aos fins de semana e ele quer me pôr em mais shifts a partir dessa semana.

Amanhã devo ver pelo menos um dos gatinhos, o Certinho. Finalmente, se deus for mesmo pai, dessa vez rola.

E ainda há chances de ver o Malandro. Sob o pretexto dele deixar o CV dele na academia em que trabalho. Vai ser bom entrar nos olhos dele de novo.

Sem falar na vinda eminente de babái, que está me deixando bastante apreensiva. Não parei de voltar na sala do meu manager na St George's para lembrá-lo que farei small shifts nas próximas duas semanas, e no shift at all nas duas seguintes.

Foi-se o primeiro dia da melhor metade de ano que posso ter, já que foi-se a pior metade que já passei as well. Tenho que acreditar em algo nessa vida, nem que seja na matemática.

**

Minha pessoa favorita criou uma comunidade no Orkut para moi! Se estiverem no embalo, vão lá.

Thursday, June 30, 2005

meus olhos se escondem onde explodem paixões

Mão fria, coração quente. O verão na Inglaterra é patético. Estou de agasalho e ainda assim com frio. Mas pelo menos aqui dentro as coisas estão bem. Na verdade, as coisas estão estranhas. Tenho ups muito upds e downs muito downs. Desacredito que vou ver meu pai em 4 dias e minha irmã, sim, ela, a toda poderosa, capaz de ser minha pessoa favorita, primeira entre as primeiras. Vai ser foda. Altas emoções nos dias vindouros.

E também tem os gatinhos. Nesse exato momento aguardo o Malandro me ligar. Ele ligou quando estava bufando, carregando sacolas do supermercado, pronta para subir dezenas de lances de escada. Não ia rolar ser simpática, ainda mais depois de ter pego uma chuva desnecessária nessa época do ano. Disse que ligaria de novo. Se for o canalha que eu estou pensando, vai demorar bastante para ligar. De repente só amanhã. Mas tá valendo, faz parte da malandragem, eu conheço o tipo. Conheço bem.

E tem o Certinho, o da despedida do trabalho. Combinamos de ir no cinema ontem. Marcamos às 6:20pm (ingleses, meus caros, ingleses…), o filme começava às 6:35pm (Inglaterra, meus caros, Inglaterra…). O negócio é que na hora marcada estávamos lá (mentira, ele atrasou MENOS DE DOIS MINUTOS e ligou para pedir desculpas porque estava atrasado. Depois me perguntam o que eu vejo nos ingleses. Eles são tudo de bom. O negócio é que a 15 minutos do início do filme, não sabíamos muito bem onde ficava o cinema. Acabamos desencanando e fomos a um pub, conversar e ver o jogo do Brasil e Argentina. Fiquei com vergonha dos berros que soltei, mas ele fazia cara de ternurinha, então, na pior das hipóteses, achou fofo. Fofo não é ótimo, mas tá legal.

Jogamos o cinema para sábado à noite. Todos nós sabemos o que significa saída de sabadanoite, então fico um pouco mais animadinha. O negócio é que o Certinho é muito tímido. Esse é nosso segundo date e até agora ele nem pegou na minha mão. A verdade é que estou gostando, curtindo o regresso à quarta-série, porque, como disse a Bobby, faz bastante tempo que isso aconteceu a última vez, desde a quarta-série!

E enquanto tudo isso de bom adoça meu coração, tem mais um monte de coisinhas beliscando. Não deixando que tudo sossegue por aqui. Preciso na verdade de mais um estômago para digerir tanta coisa.

Essa indefinição profissional está bem estranha. Nunca trabalhei tanto na minha vida – way beyond the amount allowed by law. Sério mesmo. Mas a causa é justíssima. De qualquer forma, me irrita um pouco estar trabalhando com algo que não contribui, pelo menos não diretamente, com o futuro profissional que quero pra mim. A verdade é que sempre fui tão abençoada profissionalmente, sempre tive facilidade para ser empregada, que quando me deparo com uma situação de rejeição, é extremamente difícil lidar. Estou passando agora pelo que muita gente passa no primeiro ou segundo ano no mercado de trabalho.

E, obviamente, toda essa situação faz com que eu repense minhas estratégias, perspectivas e planos futuros aqui em Londres. Não vou ficar aqui se não for para fazer o que mais feliz. Se é para ser infeliz, prefiro o ser do lado de pessoas que me fazem feliz no Brasil. Mas calma que ainda tem muita água por rolar.

Hoje, mais tarde, devo ver o Chris. Grand-finale, tudo indica.

Tuesday, June 28, 2005

give peace to my black and empty heart

I can’t believe life is so complex, when I just want to sit here and watch you undress.

Não tem como não se inspirar com PJ Harvey. Novamente tudo virado por aqui. Uma coisa assim meio mar do triângulo das Bermudas. Entenderam?

Domingo eu estava em luto. Anna, uma das duty managers da St George’s, piscina onde trabalho, ligou para falar, entre outras coisas, que meu gatinho salva-vidas pediu demissão e largou o shift, assim, no meio. Num desses acessos fuck-offs moleques em que eu tenho que me segurar bravamente para não achar lindo.

Se encheu e saiu. A chefona dessa piscina é um carrasco mesmo, não o culpo. Mas fiquei com aquele gosto de cinza na boca. E agora? Ele era um dos grandes estímulos para ir trabalhar todo dia. Perdeu boa parte da graça. Obviamente, it’s not about graça – I need the money. Mas que ficou mais penoso vigiar uma piscina, não importa o quanto eu goste do ambiente, isso ficou.

E o gosto de cinza ficou ainda mais empapucento quanto mais eu fosse pensando que nunca mais o veria. Nunca mais, a não ser que ele me procurasse por meio de alguém da St George’s, ou que aparecesse por lá. Enfim, queria manter minhas expectativas no nunca mais mesmo, para não me iludir. Um luto rápido, afinal tivemos pouco tempo juntos para nutrir qualquer coisa especial. Mas ainda assim um luto desconfortável. De um vazio que nunca deixou de ser vazio. Que nunca chegou a ser preenchido com nada. Uma tela vazia jogada no lixo antes do primeiro traço. Praticamente um aborto. Considero luto tudo o que era para ser e não foi por força maior. Nesse caso, eu e ele era para ser.

Ontem resolvo fazer o shift mais inumano do mundo. 7 às 11h, depois 15:30h às 22:30h. Ridículo, eu sei. Mas por uma boa causa: babái está chegando em menos de uma semana e, enquanto ele estiver por aqui, quero aproveitá-lo até a última gota. Isso significa trabalhar shifts de 4 horas, façavô, porque eu não nasci pra sofrer.

E aí é que aconteceu. Estava chegando no trabalho para o segundo turno da jornada inumana, a cara amassada do travesseiro ainda, meio correndo e mal humorada por ter esquecido os óculos escuros com tanta luz lá fora. Entro na St George’s e quem está lá, lindo, sacana, canalha? O gatinho. Meus olhos brilharam, os dele também. Parecia que ele só estava esperando eu chegar para poder ir embora.

Naturalmente, trocamos telefone. Naturalmente, trocamos mensagens naquele mesmo dia, algumas poucas horas depois. Obviamente ele disse que gostaria de me ver: Give me a call when you get a chance. It doesn’t have to be about work. It would be nice to here from you when you got some free time, maybe go out for a drink. E algumas células nervosas morreram dentro de mim nesse momento. Fiquei toda formigando, quentinha, babaca, não posso me envolver com MAIS UM CANALHA. Eu estava melhorando. No último ano só tive caras legais, de família, fiéis, companheiros, de sorriso de boca inteira. Não posso me deixar regredir para o mulher-das-cavernas mode-on. Não posso pensar em voltar a ser aquela mulher volúvel que, no mesmo dia em que quer morrer, quer também viver para sempre.

Não se assustem. O Chris continua presente. Meio como sombra, mas continua. Fazendo tudo errado, como sempre. Me provando o quanto mudei: se fosse alguns meses ou anos atrás, ele teria rodado em um mês. E lá se vão mais de seis. Céus. Isso tem que acabar.

E tem o que acabou virando a segunda opção. O gatinho da festa de despedida. Vamos no cinema amanhã. Ver Bonbón. Estou planejando dormir em seus braços se estiver muito cansada.

Mas quem tem ocupado mais espaço nas minhas viajadas ao longo do dia, quem tem evitado que eu me entupa de chocolate, é o canalha charmoso que me derrete em meio sorriso. Aqueles meios sorrisos que ficam irresistíveis nos verdadeiros cafas e patéticos nos que tentam agir como tal mas nunca serão.

Não sossego enquanto não conseguir o que quero. Sempre fui assim. You’re the only story that I never told, you’re my dirty little secret – wanna keep you so.

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Enquanto as novidades estão entre o inspirar e o expirar, um aviso aos navegantes intrometidos (vocês sabem quem são) dessa humilde página: não tente cuidar da minha vida, amigo. Você não me conhece. Não sabe dos meus sonhos, taras, vontades, idéias, convicções, condenações. Você, acredite, é um mero leitor cuja existência eu, do fundo do coração, ignoro. Então desencana de tentar me julgar porque suas palavras têm sobre mim o efeito que um tiro tem no corpo de um morto. Mesmo.

Wednesday, June 22, 2005

eu preciso dizer que não te amo, eventually

Como o trem da minha vida não pára por mais que eu apite – e muitas vezes o faço com força – cá estou, após alguns dias apenas, com novidades que cabem num livro. Na verdade, um dia cabe num livro se o escritor for bom. James Joyce é o primeiro e melhor exemplo.

Hoje completei uma semana trabalhando como salva-vidas. O saldo já está de bom tamanho: um sangramento de nariz intenso, duas cãimbras, uma vomitada no capricho no meio da piscina, várias apitadas para a molecada não correr, não se empurrar, enfim, não se afogar porque não tenho camisa reserva se tiver que pular para salvar algum mané. Hoje mesmo quase rolou uma operação First Aid Room: um gorduchinho começou a correr no deck da piscine, todas as banhinhas sacolejando, gritei “no running pleeeease”, o viado não parou de correr, dois segundos, catapoft, homem ao chão. I hate to say I told you so.

E aqui estou agora, assistindo a um programa da BBC sobre por quê os pingüins africanos evitam a presença humana. Eu, se fosse pingüim, evitariam também.

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Hoje o dia foi melhor que o esperado. Passei calor demais, resolvi mergulhar depois do meu shift. E, claro, o gatinho em que já estou de olho estava lá. Ele é salva-vidas também. Malandro, canalha, um daqueles Good Old Biba’s Day. Só para farra, claro. O Chris? Ai, na boa, vou começar a ignorar esse tipo de pergunta se nela vier embutido um tom acusatório.

Ontem, o outro gatinho, o da festa de despedida do meu ex-trabalho, ligou. Para combinar um cinema nesse fim de semana. Eu, claro, topei. Porque não quero passar minha vida pensando que alguém que não conseguiu me fazer feliz, como se não bastasse, teve o poder de evitar outras felicidades. Pequenas, grandes, de diferentes cheiros e formatos, travestidas de infelicidade, whichever. Qualquer uma serve. Desde que eu sinta sempre.

Thursday, June 16, 2005

happy and bleeding

Hoje eu caí no chão. Estava saindo do prédio onde moro com meu tênis novo, já que tenho que trabalhar de tênis branco, e, sabe deus como, virei o pe e caí mesmo, como há anos não acontecia. E foi daquelas clássicas, tipo cachorrinho, de ralar joelho e a palma da mão. Um cara de bicicleta passou e perguntou se eu estava bem. "Yeah, yeah." Eram 6.15h da manhã e meu saldo já era um tombo.

Mas a promessa não se fez profecia. O dia, afinal, foi bom. Desde ontem sou salva-vidas na St George's Pools. Todos já me conheciam, pois é lá que sempre nadei. Lá que sempre fui servida, e agora sirvo. Talvez alguns de vocês não entendam a poesia, quase beleza disso. Mas quero crer que se você é um leitor assíduo disso aqui, é porque vai entender minhas idiossincrasias.

Desde ontem faço turnos entre a piscina pequena e as duas posições da piscina grande. Desde ontem, também, preciso limpar a porra toda, com a ajuda de meus colegas salva-vidas. Eu. Limpeza. Coceira no nariz. Eca. Cabelo. Mais eca. Já estou me acostumando. Credo. Mas aqui no UK as coisas são assim. Aliás, aqui, nos EUA, na Europa toda, não tem essa história de faxineira. Todo mundo faz faxina e quem quer pagar para não fazer, paga caro. Então, entre as duties normais de uma salva-vidas, inclui-se a boa e velha faxina. Claro que não é a tarefa primordial. Das 8 horas que fico lá, no máximo duas são dedicadas a limpeza.

De qualquer forma, é annoying porque odeio limpar coisas.

Fora isso tem sido bem legal. Hoje pela primeira vez usei meu apito. Tinha um grupo de senhouras muçulmanas paradas no meio da raia dedicada para quem nada. Tive que fazê-las moverem as ancas, claro. Elas não gostaram. Fodam-se.

Também tive que gritar para uma pirralhada que estava correndo ao redor da piscina. A partir de hoje sou a tia do Mal e eles todos têm medo de mim. Não é bem o estigma que me cabe, but that will do.

E nem preciso dizer o ímpeto fofuro-genocídico que me assola quando tem aula dos babies e das molecadinhas de uns quatro anos. Hoje, por exemplo, tinha uma menininha idêntica à minha Piu quando era pequena. Bem, bem magrinha, toda branquinha, ruuuuuiva, e cheia de sim, em seu collant (não era maiô aquilo), touca e óculos, todos rosa e esses últimos fosforescentes. E toda metidinha. Adorable.

E tem os velhinhos, que se continuarem fofos do jeito que são eu ainda quebro costelas. Um deles, todo magrinho, cabelinho bem branco, em alguma coisa me lembra meu avô. Ele está lá todo dia. Senta no mesmo banquinho, tira os mesmos chinelinhos do pé, faz uma automassagem meia-boca na batata da perna, entra na piscina e faz suas chegadinhas, sempre com as mesmas caretas de esforço, nunca molhando as madeixas de neve. Vontade de pular na água e agarrar, pór no colo, fazer boiar, fazer feliz. Mas tento me conter e não demonstrar isso nem no olhar. Vai que sou mal interpretada.

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Amanhã tenho entrevista em uma editora. Fingers crossed. Enquanto isso, tem mais luz no horizonte. Tem dinheiro entrando, então posso procurar meus sonhos mais em paz.

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Em 18 dias estarei nos braços amados e aconchegantes de babái. A correria foi tanta nos últimos tempos que só agora está caindo a ficha. Tenho vontade de me desmanchar toda no seu abraço, papito. E sei que vou.Todo esse tempo e toda essa saudade só serviram para aguçar um sentimento forte e lindo que sempre esteve aqui, mas nunca foi tão óbvio. Amo minha família. Tenho certeza de que a escolhi, sim.

Tuesday, June 14, 2005

spin it

E se a vida em geral é um carrossel, a minha é um peão. E a culpa é toda minha, que puxo incessantemente a cordinha e o faço dançar desvairado sobre qualquer superfície, em qualquer contexto, dentro ou fora do ritmo. A culpa é toda minha.

Esse fim de semana foi surreal do começo ao fim. Começou já sábado de manhã. Fui no centro esportivo implorar emprego como salva-vidas. Fui muito bem, senti. Ontem passei lá para deixar meu NPLQ (certificado de salva-vidas) e meu National Insurance Number e a manager me puxou de lado. Disse que a vaga é minha. A partir de amanhã, 7 da matina, sou lifeguard na mesma piscina em que costumo treinar, a cinco minutos de casa. Trabalho feito alucinada até sexta, quando já terei ganho quase o suficiente para sanar os gastos que tive com o curso de salva-vidas.

Aí depois disso fui encontrar com a Rô, uma brasileira que fundou o site www.BrazilianArtists.net e que me chamou para uma conversa a respeito de possível trabalho. O legal: a causa, que é linda. O não-legal: é voluntário. Convenhamos que não estou podendo me dar ao luxo. De qualquer forma, fui na casa dela ontem e passei a tarde trabalhando em cima de um release que mandamus para toda a imprensa local anunciando a vinda do MV Bill para o lançamento do livro Cabeça de Porco. Mas não tô podendo, não tô podendo. Preciso cuidar de mim e dos meus sonhos primeiro, para depois cuidar dos outros e de seus sonhos. Porque sou estúpida o bastante para sonhar os sonhos alheios.

E então fui para Oxford, encontrar com minhas primas, Jo e Lucia. No dia seguinte, triathlon. Elas estavam nervosíssimas. Eu não porque a distância da natação, que era a minha perna na comeptição, não era longa. Muito pelo contrário: a distância é o que costumo fazer para aquecer normalmente. Rolou bem legal. Fui a segunda mulher no geral, e a 19a pessoa, entre homens e mulheres, entre 150 competidores. Not too bad para quem parou de treinar há tanto tempo e hoje só nada para chacoalhar a pança mesmo.

Aí, terminou a premiação e voltei pra minha Londres. Cheguei em casa e em 15 minutos tinha que estar pronta para, bom, foda falar mas, pro meu date. Aquele, lembram? O tal bonitinho que conversou comigo no meu drink de despedida do trabalho; aquele que ligou semana passada. Finalmente nos encontramos. Não rolou nada. Ele tava todo ansioso porque tinha que terminar um trabalho. Mas já temos novo programinha: cinema no final dessa semana ou começo da semana que vem.

Hoje faz um ano que deixei meu país.

Hoje faço seis meses de namoro com o Chris.

A verdade é que não estou me sentindo culpada. Nem um pouco, actually. Ele precisa se esforçar um pouco mais, como eu já disse.

Um peão desequilibrado, que ameaça quedar pro lado, mas não queda. Não pára. Até quando?

**

Já assistiram Vera Drake? Se ainda não, não percam a oportunidade de ver o melhor diretor de cinema inglês em um de seus melhores momentos ever. Imperdivelíssimo, juro mesmo.

Monday, June 13, 2005

fotos do triathlon

Divirtam-se!

E eu escrevo logo, bem logo, com novidades!

Thursday, June 09, 2005

nada no bolso ou nas mãos

Estava comentando com a Bobby hoje que resolvi ficar desempregada na melhor época do ano. Dias lindos, solzão, temos nossa varanda que é grande o suficiente para três brasileirinhas banharem-se ao sol. Não consigo imaginar o que teria acontecido se tivesse ficado desempregada em dezembro. Dias amanhecendo às 8h e anoitecendo às 15:30h, e a casa em que eu morava antes era fria, mas friiiia, que nem conto o quanto sofri com ossos gelados porque vocês vão morrer de pena. Para terem uma idéia, nos últimos dias me dava desespero de pensar em entrar no Messenger para falar com meus amados porque minha mão doía muito se não estivesse debaixo de um edredon.

E hoje foi um dia de praia quase. Até o barulho da criançada aqui na escolinha do lado ajudou. era só fechar os olhos, imaginar uma maresia entrando pelas ventas e pôr uma voz virtual: "olha o bishcoito globo, bishcoito globo é um real. tem doce, tem salgado, é o bishcoito globo um real".

Tudo nas devidas proporções, claro.

Mas de qualquer maneira, dá prazer viver nessa cidade durante seus 05 dias de verão. Mesmo que não tenha nada no bolso ou nas mãos.

**

Novidades, perspectivas várias, uma hora rola um emprego. Tô sentindo que não vai tardar. Estou com uma intuição positivíssima, principalmente em relação a sábado. Como sempre, só conto se rolar. Mas por enquanto, não saí do lugar. É assim que quero pensar, é assim que se deve pensar. Porque se eu achar que já fiz tudo para o emprego aparecer, ele vai me escorrer pelas mãos. Então, todo dia acordo mentalizando que estou no zero. Não posso dizer que me dá ânimo isso; me dá desespero, muitas vezes o motor dos meus melhores feitos. É que nem depilação: dói mas funciona.

**

Daqui a cinco dias faz um ano que deixei terra brasilis. Dá para acreditar? Eu também não.

Tuesday, June 07, 2005

as coisas, assim, espremendo ombros

Uma semana em Southampton. Foi tudo muito estranho. Decidi que queria porque queria porque queria fazer o curso de salva-vidas. Quem me conhece sabe que querer por querer significa fazer nesta cabecinha dura. Nada é melhor justificativa para um feito que o querer por querer.

Então fui para lá, costa sudoeste da Inglaterra. Estava indo para um lugar desconhecido, fazer algo novo, com gente desconhecida e ia ficar hospedada na casa de gente que eu igualmente nunca havia visto mais gorda. Na cara-de-pau, fiz um amigo do meu ex-trabalho achar alguém que ele conhecesse morando por lá que pudesse me hospedar, na caruda, caruda mesmo. Sou bem mais cara-de-pau do que eu mesma acho. De qualquer forma, bateu aquela meda, pânica, horrora e desespera básica. No trem, saindo de Waterloo. Bateu aquele comecinho de pânico. O monstro do desconhecido comprimindo meu estômago e me gelando por baixo na pele. Mas consegui segurar o ataque com a respiração básica que minha terapeuta no Brasil me ensinou.

Em poucas horas me transformei de um bichinho assustado dentro do próprio casulo que construi invisivelmente para mim, em uma pessoa pronta para viver algo que tinha tudo para me engrandecer e me fazer mais feliz, mesmo que um pouquinho só. Logo no primeiro dia resolvi dar uma nadada de meia hora já que havia chegado mais cedo no The Quays, o complexo aquático em que eu faria o curso. O curso começou e foi tudo bem. Aí chegou a hora de encontrar com o Jon (short for Jonathan), cara que eu não conhecia mas em cuja casa ficaria pela próxima semana.

Sinceramente? Não podia ter sido melhor. Eles me adoraram e eu adorei eles. Até fui com o Jon jantar na casa do pai dele (os pais, presumivelmente, são separados). Fofo demais. Também conheci um amigo do Jon, chamado Chris (uh!) que fala português e ama o Brasil. E é gato. Deveras gato.

Mas não passou nada, não passou nada. A semana voou. O curso durava o dia inteiro. Nos almoços eu ia num cybercafé - quiçá o único da cidade - para checar novidades de emprego. Capotava às 21h, acordava às 7h, com luz, passarinhos, e despertador, tudo ao mesmo tempo. Precisava calcular o tempo do trem, já que o curso foi em Southampton e eu estava hospedada num bucólico sobrado em Eastleigh, cidade vizinha.

E também me engracei com o instrutor do curso de salva-vidas, e a engracice só não foi recíproca porque o gostosão é profissional demais. Foi tudo bom demais. Chegou sexta, day-off, fui passear em Winchester, a capital mais antiga da Inglaterra. Uma preciosidade. Cheia de construções medievais ainda, ruínas de castelos, uma catedral magavilhosa, uma vista inesquecível da St Gilles Hill. Perdi o fôlego e me perdi. Só pensei em me achar quando, claro, começou a chover. Peguei o trem, voltei pra Eastleigh e fiquei estudando para a prova do dia seguinte. Chegou o dia da prova, eu estava tranqüila. O pior já tinha passado - e só quem me conhece mesmo entendeu essa frase.

Passei no teste. Não foi fácil, porque aqui o que é mais elementar precisa ser tratado em todos os detalhes. Mas também não foi difícil. Fui para Southampton cabisbaixa e paniquenta, voltei para Londres salva-vidas e com mil perspectivas: a primeira, de um emprego, me ligaram na sexta chamando para uma entrevista a que, por sinal, fui hoje e que promete, mas não quero me precipitar.

Fora isso, lembram daquele gatinho da minha festa de despedida? Então. Ele ligou. Vamos sair. O Chris? Tá bem, obrigada. Mas sinceramente não está comendo arroz com feijão suficiente para garantir minha felicidade inner-conjugal (uh!). Assim sendo, não me avexarei se me aprouver aplicar um chifre por justa causa.

**

Fim de semana que vem vou para Oxford (Wantage, na verdade, que fica do lado), encontrar com minhas primas. Chego sábado, fico por lá à noite, provavelmente vamos a um folky concert. Dia seguinte cedo é nosso Triathlon Debut. Finalmente as Singers se aventurarão nas piscinas e caminhos do Reino Unido. Tudo indica que este é o primeiro de vários triathlons. Caio n'água às 9:30h no domingo. Torçam. Delícia sentir de novo aquele nervosinho pré-competição. Tratarei de treinar nos próximos dias. Tratarei de cuidar bem de mim as well.

Esse foi um resumo resumidíssimo de tudo o que foi e que está para vir. Queria ter o tempo e a disposição para detalhar cada sopro desses dias deliciosamente loucos que foram em Southampton e que vivem na minha memória. Cresci demais como pessoa. Mergulhei na escuridão e descobri que as coisas cuidam de si mesmas mesmo quando não conseguimos olhá-las, cuidá-las, dirigi-las. Amo um pouco mais o mundo em que vivo, for a change.

Friday, May 27, 2005

Thursday, May 26, 2005

bambole

Então vai ser assim. Semana que vem me mudo para Southampton, mas só por uma semana mesmo. Isso é, se eu arranjar lugar para ficar. Senão vou comutar todos os dias da semana que vem. Southampton fica no sul, na praia, 90km a oeste de Brighton, uns 120km ao sul de Londres. E é lá que farei meu curso de salva vidas. Eu disse que não estou para brincadeira, não disse? Pois liguei para a Dona Vaca que disse ter me mandado o formulario para o curso que estaria acontecendo em Londres, e ela disse que mandou e eu nunca recebi. E quando liguei para cobrar ela disse que agora não tinha mais vagas. Não pensei duas vezes. Abri o mapa da Inglaterra, vi as regiões ao redor e fui atrás de cursos nessas regiões. Southampton foi a escolhida. Começo segunda, me qualifico no sábado. E eu vou, porque se parar eu paro mesmo.

O emprego que eu queria já foi ocupado por outra pessoa.

Aiai.

Hoje fui em outra entrevista. Dessa vez menti um pouco. Tá difícil conseguir emprego falando a verdade. Disse que amaria fazer certas coisas que nem amaria. Disse que fico feliz com coisas que don’t move me at all.

Viram? Já virei rata de escritório. Eca. Isso nunca. Vou sempre voltar para casa e tentar lembrar de como eu realmente sou. Mesmo que só eu lembre.

Enfim.

Finalmente chegou aqui a caixa que babãe tinha mandado do Brasil em março, repito, março. Não, a culpa não foi dos correios. Minha mãezinha linda não pôs o número da minha casa no endereço. A caixa voltou e ela teve que mandar de novo. Não tinha mesmo que ser minha mãe?

Mas finalmente chegou. Abri e encontrei um cachecol lindo, branco, quentinho, acolhedor. Uma canga azul magavilhosa que estou usando agora porque, acreditem, faz calor. Um guia de turismo da Europa deeeeste tamanho que o Neal me mandou de aniversário. E um livro que eu queria muito, O Vendedor de Passados. Este foi presente de aniversário do meu avô. Ele ainda estava vivo quando minha mãe me mandou a caixa. A dedicatória, foi ele quem ditou para minha irmã escrever. E ele assinou. Com uma mão trêmula, mas forte. Posso imaginar sua carinha. Uma assinatura trêmula e forte. Porque mesmo esmorecendo ele não perde as forças. Um dia quero ser que nem ele.

E o Chris. Tivemos uma longa conversa ontem. Ele chorou. Eu não. Não tinha porquê. A dor era só dele, que tinha feito merda. Me pediu mil perdões, disse que está com mil problemas mas que em (mil) dias vai começar uma terapia, porque está fodido, porque a vida nese exato momenbto fede, porque, hoje, não é bom ser ele.

Só ouvi. E o abracei. E disse que é só não parar para não me perder. Porque qualquer bambolê cai sem a rebolada.

E eu repito isso a mim todos os dias, como um mantra: é só rebolar para ele continuar rodando. Mas se parar de rebolar, pode dançar twist que ele não sobe de novo.

Monday, May 23, 2005

desarmonia em si maior

Eu ainda não decidi o que sou hoje. Não sei se estou feliz ou triste. Não sei se estou ansiosa bom ou ansiosa ruim. Não sei se estou esperançosa ou cética demais. Não sei quem sou hoje. Na verdade, as entrevistas, principalmente a segunda, foram um sucesso. Ambas me garantiram que estou ultraqualificada e a segunda entrevistadora chegou a dizer que agora que ela me "pegou", sou "dela". Mas, meus caros, tratam-se de job agencies. Elas ganham para enfiar pessoas em empresas, então obviamente o interesse maior da simpatiquérrima Leslie era me pegar e ser dela para ela levar a comissão. Só comemoro quando estiver com contrato assinado.

por outro lado, estou extremamente emputecida com meu (pseudo-)namorado que simplesmente esqueceu que viria para cá ontem à noite depois de mais um desses fins de semana infudados que ele passa em treinamento no exército. Esqueceu. Liguei para o paspalho às 22h e ele, "whassup, beautiful?", nem aí. Estava num pub. NUM PUB. Cara, que raiva me deu. "Oh, you're in the pub? Wow, that's really interested as you said you were coming here and staying the night". Ele disse que não lembrava. E ter dito isso não melhorou em nada a situação dele. Na verdade, mais uma vez ele fex gol contra. Ele não tem noção do risco de me perder que está correndo desde que dei meu telefone para aquele carinha e não paro de pensar em quando ele vai me ligar para sairmos. Agindo assim, meu (pseudo-)namorado apenas ajuda para que um eventual (pseudo-)chifre ocorra sem grandes pesos na consciência.

**

Como um todo o fim de semana foi bem, beeeem legal. A começar com a saga de sexta do post anterior. Sábado fui almoçar com a Ana Luiza e um amigo dele. Foi bem legal e saí com contatos e perspectivas de quebra-galhos bastante bem vindos. De lá fui ao British Museum, dei uma girada mas estava muito cheio. Me irritei. Fui embora. Fui no cinema ver Machuca. Outro filme imperdível que eu sei que já tá passando aí no Brasil.

De lá para casa. Chegando aqui, mais filme com a Fru. Vi 21 Gramas finalmente. Atestei o que todos me diziam: é ótimo também.

Domingo foi dia de piquenique no parque com o pessoal do ex-trampo. Tava meio frio, meio vento demais, meio choveu até, mas foi legal mesmo assim. Principalmente depois que apareceram uns gatinhos na área e depois que a Erica chegou. Depois viemos para casa, a Eri não conhecia o nosso cafofo ainda. Conheceu e adorou.

Mais tarde ela foi embora e foi então que quebrei o pau com o Chris. Minha vontade era desligar e emendar o telefonema para o gatinho, o outro. Mas não. Agüentei firme até hoje, uma hora atrás, quando ele me ligou dizendo que estava podre e que não poderíamos nos ver hoje também. Eu só queria vê-lo para dar esporro mesmo, como combinado. Novamente ele deu o cano. Eu falei para ele: você sabe o risco que está correndo levando nosso relacionamento assim? Ele ficou mudo. Depois disse que estava cansado demais, que precisava dormir e comer, porque não dormia e nem comia mais, e eu disse, your choice, babe, your choice, e eu disse também que por mais que o problema não estivesse no relacionamento (e eu sei que não está), ele - o relacionamento - acaba sofrendo as conseqüências.

Ele ainda não entendeu que não sou só de palavras duras. Sou dura.

Saturday, May 21, 2005

turn over

Eu juro para vocês que poucas vezes estive tão feliz como ontem. Acho que, por mais lamentável que pareça, só sentimos a felicidade assim crua quando passamos por tristezas profundas antes. Se a vida é toda feliz ela acaba paradoxalmente não sendo feliz. Anestesia pura. Assim como tristeza constante não é tristeza, mas a perspectiva de ter mais felicidade com uma simples borrifada de esperança. Vai ver é por isso o povo brasileiro é tão feliz. Tristeza constante não é tristeza.

Mas eu ia dizendo. Estava eu extremamente mau humorada, irritadiça e, what the hell, deprê, chorosa, toda ardida por dentro na quinta-feira. Até nadar não deu certo porque tava tendo aula da pirralhada (ou cavocada, como diria meu ex-treinador Edu, porque criança não nada, cavoca) e eles tiveram o dom de pôr uma raia de assim, e não de assado, de forma que nnao tinha uma raia inteira para nadar e, logo, perdeu toda a graça (porque tudo corria o sério risco de a qualquer momento perder a graça na quinta-feira). Para ajudar, chuva, frio, cinza, vento, alô, primavera? Vai rolar ou tá difícil? Eu estava cursing e swearing e, you name it, todos os palavrões não cabiam em minha cabeça. E minha cabeça é grande.

Aí resolvi acabar com a palhaçada e fui dormir às 11h da noite. Sexta o dia já amanheceu todo diferente. Quer dizer, naquelas, estava chovendo ainda, cinza, frio, vento, oh well, eu vim pra Londres, não vim? Agora que agüente sem reclamar. Mas acordei depois de uma noite bem dormida. 8:30h em pé. Fui até Poplar, um bairro aqui no leste, mas mais leste ainda. Meio dodgy, mas encarei. Fui a uma agência de empregos lá, especializada em jobs na região leste de Londres. Eu percebi que aquele seria um bom dia porque dei gargalhada numa situação que deveria me fazer abrir as ventas de emputecimento. Estava com meu iPod tentando achar a maldita entrada da job agency e um segurança bem invocadinho me pára e pergunta o que estou procurando. Responde e ele começa a falar tudo enrolado, com aquele sotaque cockney maldito, e eu toda enrolada nos fios do iPod, tentando achar o botãozinho de desliga. Foi o suficiente para ele se enfezar e dizer "tira essa coisa do ouvido para falar comigo senão você não entende nada mesmo". Ele estava bravo. E eu achei engraçado porque ele foi extremamente grosso e invasivo como poucos ingleses são (obviamente ele não era inglês, mas, morando aqui, favor se adaptar à cultura local). E foi então que comecei a rir. Mais de surpresa que de qualquer outra coisa. Anyway, o jeito que ele olha me faz desconfiar de que há algo meio errado na cachola.

Preenchi um cadastro e fui m'embora. De lá passei em casa e depois fui pro meu ex-trabalho, encontrar o pessoal pro almoço. Foi bem divertido ver todo mundo. Apesar de toda a sacanagem, apesar de todo o sofrimento da última semana, gosto muito de toda aquela gente, inclusive de minhas ex-chefes. E ontem pude ter um "glance" de como sou amada lá também.

Depois fui ao escritório. Sentei na minha antiga mesa, ao lado de Tatyana, na frente de minhas chefes. Minha chefe mais próxima disse que era para eu imprimir tudo o que tinha feito, para montar uma espécie de portfolio. Também sentou comigo e reformulou meu CV com o que fiz durante os nove meses em que trabalhei lá. Quando bateu 4:30pm, metade do escritório - isso dá umas 30 pessoas - se reuniu em frente a minha mesa para me dar presentes de despedida e um cartão lindo, com mensagens lindas, todas elas me convencendo de que meu sorriso é capaz de iluminar um dia inteiro. Os presentes, todos preciosos, porque foram pensados com carinho: um óculos e uma touca de natação, uma cafeteira de filtro, um kit de coisinhas de banho, uma apple pie (porque minha irmã me chama de tortinha de maçã e eles lembraram desse estranho detalhe), biscoitinhos para comer com o café, 10 libras para gastar com livros numa livraria e, claro, o cartão. Muita, muita coisa. Bem mais do que eu esperava. E toda aquela gente me olhando, e eu roxa de vergonha, sem saber o que falar, meio, "really, guys, I loved it and I'll miss you so much, but I know we'll keep in touch, oh, look, this is really lovely, thanks for being so nice". Toda a raiva que eu havia acumulado de repente adentrou ralo e eu percebi que a merda toda não era culpa de ninguém. Que não tinha como alguém querer me foder tanto (no mau sentido) gostando tanto de mim. Ou então toda aquela demonstração de carinho era extravasamento de culpa. Não sei. Não importa. Recebi um quentinho tão bom no peito que não senti at all na última semana em que estive sentada naquela cadeira. E a simples assimilação disso me deu vontade de chorar, but I held back the tears, fir I've already cried a river. Desnecessário.

Do escritório fomos ao happy hour. Um monte de gente foi lá para se despedir de mim. Entre os mais fofos, Steve (claro), Nick (um cara com quem troquei poucas palavras mas que ama a língua portuguesa), minhas chefes que adoraram me ver sorrindo de novo e, bom, um carinha. Mas isso é história para se algo acontecer. Um carinha que saiu da BMI há uma semana e apareceu no pub. Um carinha que sempre passava pelo corredor me olhando, mas cujo nome eu nem sabia. Finalmente, ontem, eu soube. Após meia hora de conversa, "sorry, what's your name?" Engraçado. Trocamos telefone. E ontem mesmo, quando fui embora, ele me ligou. O Chris? Olha, estamos bem. Logo mais fazemos 6 meses juntos, mas eu sei e ele sabe que não é um relacionamento que vai, assim, prosperar numa esfera mais elevada. Não vai. É ótimo tê-lo por perto agora, mas ele não me dá frios no estômago. Não mais.

E, para terminar a noite, mais uma entrevista na segunda-feira. Para duas empresas de PR. Para ganhar mais (bem mais) do que eu estava ganhando na BMI. Ontem foi um dia certo do começo ao fim. Um dos melhores dias aqui. Obrigada todos pelas vibrações positivas. Estou novamente pensando mais alto que o chão, mas sem tirar meu pé dele. Sou feliz de novo.

Thursday, May 19, 2005

the ground is the limit

Às vezes eu quero chorar, mas o dia nasce e eu esqueço. Apesar de que nada deixou de ter o ritmo alucinado que minha vida costuma ter, é horrível estar desesperada com a possibilidade de sentar e chorar.

Eu já me conheço o suficiente para saber que não sei dançar tão devagar para acompanhar o ritmo do mundo. Tanto que uma hora tudo pára em uma explosão que não posso evitar. Mas se não sei dançar no ritmo do mundo, o que fazer para evitar a dor? Nada. Não há o que fazer. Há que se sentir a dor apenas. Aprender que ela vem e eu não posso evitar. Senti-la em sua forma mais profunda para conseguir me separar dela. Talvez.

Em dias como esse tudo o que não posso é me entregar. Em dias como esse eu brigaria com uma freira, eu bateria num mendigo, eu xingaria uma amiga, eu daria um tiro em qualquer coração. Qualquer, inclusive no meu. Em dias assim eu não me perdôo de todas as merdas que possa ter feito, de tudo o que poderia ter ditto mas silenciei para ouvir outros sons – já que o que eu acho está sempre comigo.

Tenho que tomar cuidado para não cair. De novo. De novo para não cair, de novo tomar cuidado. Cansa um pouco, mas, novamente, não há o que fazer senão concordar com os livros de auto-ajuda que só são uma bosta porque mentem. Senão seriam ótimas comédias britânicas.

Atualizações, porque não sou só lamento: tenho uma entrevista segunda-feira. Veremos. Não quero me animar demais para não despencar demais também. Uma entrevista como qualquer outra. Só torçam.

Tuesday, May 17, 2005

redemoinho

Asneiras. Um mundo de asneiras. Às vezes quero ser uma folha, às vezes dou graças a deus por não ser. Tudo o que é leve gira alucinadamente atrás de um vento que apenas, bom, apenas gira.

Não quero uma vida mais ou menos. Não quero ter que beber leite puro antes de dormir, abraçar árvores ao acordar, alongar de hora em hora. Não quero. Nunca quis. Quero um trabalho que me faça trincar os dentes. Que me seque os olhos de atenção. Quero porque posso. Ninguém vai me convencer do contrário. Nem um tufão vai me fazer girar como uma folha ao mais fraco sopro. Estou fora da curva normal.

Algumas oportunidades de trampo estão começando a despontar. Nada concreto, nem perto disso. E eu também estou achando bom poder parar e olhar pela janela. Entender que o sol que bate nas árvores é outro. Que o latido do cachorro é o mesmo, que houve um acidente fatal na avenida aqui do lado e que antes isso não me comoveu. E agora comove. Me senti Carlitos em Tempos Modernos. Me senti máquina. Me senti folha que roda ao mais tênue vento.

Não quero isso para mim nunca mais.

**

Em tempo: estou seguindo os passos do meu personagem no livro que estou escrevendo. E isso não é bom. Fantástico como a vida imita a arte. Mas assustador também, se conhecessem meu personagem. Besteira minha, mas que tá parecido, tá.

**

Fui ver Maria Cheia de Graça no domingo. Não percam esse filme nem por uma diarréia. É muito bom. Fazia tempo que eu não ficava tão presa num filme. Imperdível mesmo.

Monday, May 16, 2005

fotas

As primeiras. Mais seguem despues.

Estou bem, queridos, estou bem...

Sunday, May 15, 2005

no white flag above my door

Acho que já está na hora de colocar algo de novo aqui. Essa semana foi ridiculamente surreal. Eu não entendi nada. Ainda estou meio sem entender. E, se fosse uma dessas punhetadoras mentais, ficaria o resto dos meus dias tentando entender. A verdade é que, tal como a morte, eu nunca vou entender. Não em vida.

Pedi demissão.

Na verdade, fui obrigada a pedir demissão.

Sexta foi meu último dia e segunda vou lá entregar a resignation letter e me despedir de todos. Foi assim, de repente. Antes de ir para a Espanha, eu era um a estrela. Star mesmo, minha chefe usava essa palavra. Agora, de repente, virei uma decepção, não correspondo às expectativas de minhas chefes e não sou uma pessoa commercial-driven. Mas, duh, isso eles já deviam saber. Ninguém se forma jornalista para escrever em números.

Não queiram entender, também. Fiquei tão chocada quanto qualquer um dentro daquela empresa. Inclusive a ucraniana que senta ao meu lado e que acompanhou tudo. O fato é o seguinte: eu não consegui meet the target por um motivo simples, eu estava viajando. Das 3,5 semanas de campanha, duas eu estava na Espanha. Como fazer para meet the target? Imnpossível. Se minha chefe fosse um pouco mais assertiva, não teria me deixado viajar.

Agora, meus amigos, estou vivendo de reservas. E reservas não duram para sempre. No meu caso, duram por uns 2 ou 3 meses. Eu ainda vou receber o salário por mais um mês sem precisar dar as caras no trabalho, segundo o generoso chefão. Se depois desse período de um mês eu ainda estiver desempregada, esse mesmo generoso chefão me passará uns freelas e uns trabalhos temporaries. Aí você vai dizer, puxa, Bia, que chefe mais legal, e eu vou te responder, enfia essa legaleza no cu e roda.

Amanhã ainda é dia. Depois disso, estou de novo com um mundo de possibilidades, e é só isso que me motiva. Saber que tenho um currículo recheado de coisas factíveis nas mais diversas áreas.

Minha cabeça não pára. Preciso arranjar um jeito de me sustentar senão vou ter que voltar pro Brasil do jeito que menos quero: com uma mão na frente e outra atrás. Mas vou virar essa merda. Aquele não era o único emprego do mundo. Na verdade, é apenas um cocozinho perto do que sei que ainda vou viver. Dias inteiros para escolher o que deve ser ou não parte do meu futuro. Vou começar a me divertir. Atualizações aqui. Naquele ritmo de Brasil grande, quase-sempre, não-me-cobrem.

Wednesday, May 11, 2005

oleeeee

Eu sei que fui uma bad bad girl. Voltei sexta-feira da Espanha, hoje já é quarta e só agora resolvi pôr o focinho para for a. A viagem foi Linda, meus caros. Escrevi mais de 15 páginas todos os dias. Não vou colocar tudo aqui porque perde a graça. Se quiserem, espere a publicação e compre meu livro depois. Por enquanto, um tira-gosto:

25/4

All my life is changing every day, every possible way. Estou no avião, me encolhendo entre babãe e a parede do avião, ouvindo Dreams, porque tem tudo a ver, apesar de não ser exatamente o ambiente perfeito para uma escritora de prima como eu. Mas meu dia vai chegar. Enquanto isso, meu nariz está mais sêco que panetone velho. Meus olhos ardem e estou baxtant inquieta. Talvez pela falta de espaço, talvez por estar voando – apesar de eu nunca ter tido viadagens para voar. O negócio é que agora, pelo menos, tenho meu notebook. Ligo e encontro parte do meu mundo onde quer que eu esteja. Você pode não achar isso importante, mas não preciso de garantias alheias. Morar longe de onde nasci e cresci já é desenraizamento demais para alguém que ainda não morreu, como eu.

26/4

Parecia que não ia rolar, mas conseguimos. Chegamos em Málaga às 10h da noite sem lugar para ficar. Depois de a malar rodar duas vezes na alfândega em nossa frente para só então babãe resolver reconhecer sua própria mala (que, “gozado, está mais clara…”), mais um parto para descobrir onde comprar tarjetas telefônicas. E mais outro parto para descobrir como fazer uso delas. Primeiro hotel que ligamos: lotado. Meda, pânica, horrora, desespera. Segunto hotel: transferiram tanto a ligação que babãe se enfezou e desligou. Terceiro hotel: caro. Quarto e último: cá estamos. Não podia ter dado mais certo. Saímos correndo feito vacas no cio quando soubemos que o último trem para Torremolinos, onde estaria nosso HOTEL MIAMI, sairia em cinco minutos. Só que o trajeto do aeroporto à estação de trem foi estrategicamente construído para que se perca o trem. Você tem que tipo correr com o trolley, uma coisa assim meio Jamaica Abaixo de Zero, só que com subidas e descidas, pontes, escadas, mãe fazendo embaixada com seu agasalho que ela não viu despencar. Coisas assim. Quando chegamos no trem, o maquinista esperando claramente por piedade, minha testa era toda suor. Minha mão ficou toda estourada de tanto carregar o trolley e a mala. Tudo isso acompanhado da interminente ladainha de babãe: “ai, não, filha, não vou correr, já passei da idade” ou da variável: “ai, não, filha, não vou correr, meu joelho está doendo”. Meu amém era “vem, caceta!”

Depois de quase um ano longe da areia, finalmente afundei meus dedinhos todos naquele monte de pontinhos quentes. Uma massagem na alma. A praia de Torremolinos é uma delicia, não muito cheia, fofa, adorei ter ficado hospedada aqui. Depois de catar conchinha e pedrinhas, resolvemos pegar um AUTOBUS e ir até Marbella, que fica a uns 40km de Torremolinos. Chegamos lá, mais praia. Até me aventurei a vestir meu maiô, sacar minha touca e meus óculos. Vesti e tudo mais, mas a primeira mergulhada que dei senti um demônio apertando o punho com toda a força contra meu crânio. O inferno, my friends, é um dia pelando com água gelada. Você escolhe morrer queimado ou congelado, tendo a outra alternativa ao alcance das mãos. Mas nada tinha de inferno, Bia, que exagero. Só estava de fato baxtant fria a água. Dei duas, três, quatro braçadas e tive de parar porque o ar não vinha por mais que eu puxasse. Fiquei até com medo. Saí rapidinho do mar. Quem sabe amanhã?

27/4

Hoje foi dia de Málaga. Málaga mesmo, cidade grande. Não a Great Málaga, dentro da qual está Torremolinos. A cidade é bem grande, mas linda. Primeiro fomos para a Playa Malagueta – aliás, anotem, pimenta malagueta vem de Málaga, daí no nome – com muito, muito filtro solar. Depoius visitamos todos os pontos turísticos da cidade, já que compramos um daqueles tickets de sightseeing bus e nos deixamos levar. Visitamos uma arena de touros, um forte de um século bem remoto do qual não me alembro, chamado Castillo de Gibralfaro, o pico do dia, na minha opinião. Paisagens maravilhosas, o forte totalmente conservado por centenas de anos e, o melhor de tudo, não tinha aquela frescurite que muitos locais turísticos tem: podíamos andar por todo o forte, nos perder sem plaquinhas pentelhas ensinando como nos achar, mecher, balançar, cheirar, sentar, lamber, não havia cordas separando nada de nada. Inclusive, se você quisesse se matar, também podia. O Castillo fica no ponto mais alto da cidade, e das beiradas pode-se entender bem o conceito de VERTIGEM. Penhascos aos montes. Penhascos de gente grande mesmo. Penhascos rock n’ roll.

28/4

O inferno. Eu e uma mala com mais de 25 kilos. O inferno em sua nova variável. Claro que lá tinham coisas minhas e de babãe. Eu diria 1/4 minhas, 3/4 de babãe. Mas como sou jovem e forte e touro da família e tenho as costas boas (ao contrário do resto da família), sempre sobra para eu “provar” essa força. Quer dizer, antes era prova, hoje é vergonha na cara mesmo. Não faria babãe, cheia de ai minhas costas, ai meu joelho, carregar aquele peso todo nem que fosse por um segundo. Mas talvez se ela tivesse que passar pela experiência de carregar a mala por um doído segundo, teria feito sua parte da malinha um ‘cadim mais modesta.

Oh well, reclamar para quê? Já foi. Arrumamos tudo, demos mais uma volta na praia para dar tchau a Málaga, lugar apaixonante a que pretendo um dia voltar muitíssimo bem acompanhada, preferivelmente. Um povo caloroso, sorridente, chavequeiro na medida certa “solo ayudé porque mucho me gusto su hija” disse um bravo espanholinho que levou a mala e seus 25 quilos escada acima na estação de trem em Málaga. Vejam que fofo, além de ter levado minha mala, conseguiu me elogiar e de um jeito dulcíssimo, approaching babãe. Eles são assim lá. Não há como não sorrir em dobro. Além do mais, com aquele cheiro, que pulmão não respiraria feliz? Málaga, especialmente Marbella, é o lugar mais cheiroso a que fui. Cheiroso de cheiro natural. Intrínseco, estranho mesmo, o vento tem cheiro, e nnao o cheiro vem com o vento, entende? Não te culpo; é difícil explicar.

29/4

O mundo é pequeno demais ou o tempo é tão curto que nos permite viajar em idéias. Provavelmente se tivesse um mês inteiro pela frente eu acharia pouco e sentiria por não ter um mês e um dia. Ah, um dia a mais é sempre o dia a mais que falta para visitar AQUELE lugar, numa viagem como a nossa, sem destino, só a passagem de ida e a de volta. Hoje, depois do jantar, ficamos a elucubrar sobre o que faremos de nossa próxima e última semana. Nossa reserva em Sevilla vai até domingo, depois de amanhã. Amanhã ligaremos para os hotéis em Granada com uma certa dose de desespero, já que só hoje “realizamos” que terça-feira é feriado nacional e, logo, Granada-Alhambra-Generalife – nossos planos para os três dias seguintes a Sevilla – correm um certo risco de morte em nossa trajetória. Amanhã a viagem tomará um rumo mais definido, já que ligaremos manhosas para todos os hotéis de Granada que nos foi recomendados. Caso não haja vagas nem para dormir no quarto das camareiras, aí teremos que abrir mão de Granada e ir a Alicante. MAS, como nada em uma viagem é tragédia, se não formos a Granada, as chances de irmos a Ibiza crescem. É aí que entra a primeira sentença que escrevi hoje. Se tivéssemos mais um, talvez dois diazinhos a mais, poderíamos fazer tudo: Granada (e Alhambra-Generalife – alias, pausa infame, só decoro o nome Generalife porque imagino uma companhia de seguros), Alicante, Ibiza e um gostinho de Valência.

30/4

O dia hoje foi o pior da viagem até agora. Nada de muito ruim aconteceu, mas, sinceramente, acho que ficamos tempo demais em Sevilla. Em um dia inteiro poderíamos ter varrido isso tudo. Hoje ficamos até três da tarde resolvendo nossa ida a Granada. Só depois das três fomos até o centro velho terminar de ver o que faltava e, surprise, surprise, era só uma atração, a Plaza de Toros de la Maestranza. Muito legal a visita. Mas durou meia hora. Era visita guiada e acabou, cuspiram-nos à rua. É sério. O dia começou mesmo às 15h e terminou de render às 15:30h. Depois disso almoçamos num restaurante que nem era lá dessas coisas e voltamos para o hotel porque estava quente demais, de novo. Aliás, minto. Antes de voltarmos entramos num café que servia os malditos churros. Eu cismei com os churros e agora já os comi. Gorda.

1/5

De qualquer maneira, a temperatura está mais aceitável. Chegamos na estação de trem e fomos comprar a passagem de trem para Alicante direto. Não há viagem direto para Alicante. Decidimos ir de ônibus então; deixaríamos para procurar a rodoviária depois. O primeiro parto do dia foi achar um taxi da estação de ônibus para o hotel. Domingo, feriado, hora da siesta. Tudo junto. Claro que não tinha taxi. Uma fila imensa e nenhum. No final das contas, depois de meia hora, conseguimos pegar um, meio que acotovelando os outros. Chegamos no hotel, uma graça, mas eu não poderia perder tempo novamente. O dia anterior em Sevilla tinha sido meio fiasco. Eu tinha que make it up to it hoje. Largamos as malas no quarto e saímos, rumo a Alhambra.

A cidade está cheia. Terça-feira é o maldito feriado nacional. Mil festas acontecendo – religiosas, as far as I’m concerned. Está tudo apinhado. Mesmo sabendo que os ingressos estavam todos esgotados, resolvemos tentar a sorte. Logicamente não conseguimos. Mas a viagem valeu a pena de qualquer jeito. Mesmo sem poder entrar no negócio propriamente dito, pudemos visitar parte das ruínas, ter uma vista linda da cidade, cheirar todo aquele cheiro que entorpece meus pulmões. Fomos até o lugar de venda de tickets, mas não tinha mais nenhum para aquele dia e, se quiséssemos ir amanhã, teríamos que ESTAR LÁ às 7 da matina, sem garantia de ingresso. Decidimos que não. Ficamos por lá, passeando, vendo o que podia ser visto sem ingresso, e voltamos à cidade.

2/5

Ok. Sem Alhambra, sem Sierra Nevada, o que há para fazer em Granada? Simples: Granada! Resolvemos explorar a cidade e foi bem gostoso. Começamos pela capela real, em que estão os sarcófagos de Felipe, o Belo, e Juana, a Louca (hahaha). Maravilhosa. Meu apreço por igrejas tem me surpreendido. Embora eu tenha ficado um pouco impressionada demais com as imagens de San Juan Batista sendo decapitado e San Juan Evangelista sendo queimado dentro de um caldeirão, uma espécie de sopa santa. Assustador. Eu diria até de um certo mau gosto. Fiquei imaginando se eu fosse uma criança que morasse lá e fosse obrigada a assistir à missa naquela capela todo domingo - partindo do pressuposto de que eu era uma criança da famíloia real, já que a capela era de uso exclusivo da realeza. Eu teria acessos de choro antes e pesadelos terríveis depois. Ficaria hipnotizada nas duas imagens esculpidas na parede do altar, entre outras dez imagens. Eu não conseguiria prestar atenção em nenhuma palavra do padre.

3/5

Chegamos em Alicante após seis horas de viagem. Legal, nosso destino final, Dênia, fica há 100km de Alicante. Havia um ônibus saindo de Alicante meia hora após nossa chegada na rodoviária. Tudo muito tranqüilo para o padrão Singer de contratempos. No final das contas, 100km foram percorridos em exatas três (3) horas. A porra do busão foi pingando, entrando em cada vilinha para deixar e recolher formiguinhas. Não acabava mais. Eu já não via mais graça alguma em paisagens, escritinhos em catalão, escarpas, praias. Tudo o que eu queria era sair daquele ônibus cheio de pessoas tossindo, espirrando, umas até catarrando, juro. Ficar em pé no chão novamente, caminhar, respirar, me afundar na areia da praia. Não é pedir muito.

4/5

Do hotel fomos à praia. Andamos até um ponto que parecia mais habitado. A praia de Denia não é maravilhosa, mas é calma, e tudo de que precisávamos era paz. Claro que 100% paz nunca acontece na minha vida. Apareceu um tarado, que ficava fazendo gestos para mim de longe, mudando de posição na praia para pegar o “melhor ângulo” de visão, não parava de fazer gestos do tipo “vamoali?” ou “faz um topless, faz?” – como vocês devem saber, topless é comum na Europa. Várias tiazonas de maminhas aos aires, como se diz em Portugal. O ápice da taradice foi quando ele começou a pôr a mão para dentro da calça e ao mesmo tempo fazer um “venhaqui” com o indicador. Como homem é bobo.


And that’s all for now, folks. Muita merda tem acontecido e a cas ameaça cair pro meu lado. De novo. Mas eu agüento, até quando não der para agüentar mais. Depois explico melhor. Agora, fiquem com o que aconteceu de bom.