Empaquei neste blog, comecei outro com outro propósito e resolvi
voltar aqui hoje para falar um pouco das preocupações da vez. Sempre
vão haver preocupações, certo?
No início é o ganho de
peso, como e quanto está mamando, quanto está dormindo. Depois passa a
ser os milestones de desenvolvimento: já engatinha? Anda? Fala? Conta?
Corre? Pula?
E depois as preocupações começam a ficar
mais complexas, e é por isso que voltei aqui. Estou começando a passar
por uma crise. Não em relação a meu filho, mas ao mundo a qual ele está
prestes a ser exposto.
Ano que vem será o ano em que
ele completa 4 anos. Portanto, aqui nos EUA já é elegível ao Pre-K. Eu e
meu marido sempre fomos a favor de educação pública aqui nos EUA.
Escolhendo bem, é possível uma educação bacana. Certo? Hum, mais ou
menos. Depende de onde você mora. E mesmo assim, ranking oficial de
escolas não diz muita coisa para mim. Basta lembrar que o último
episódio de tiroteio juvenil aconteceu numa escola pública muito bem
posicionada neste ranking.
Então, quando falo de
escolas boas, não falo em escolas com notas altas nos testes oficiais.
Estou falando do que, desde já, quero para meu filho. Não estou pensando
no currículo per se, ou em quantas cambalhotas ele vai estar
conseguindo virar e se aos 3.48 anos já vai estar escrevendo o próprio
nome. Não faço a menor questão de ter um filho precoce. Para falar a
verdade, prefiro que ele não seja! Eu fui uma criança precoce, e isso
não me trouxe benefícios. Muito pelo contrário, estou convencida, após
anos de terapia e auto-reflexões, que a disparidade do meu
desenvolvimento emocional e do meu desenvolvimento intelectual me trouxe
muitos problemas na escola, e acho que resquícios dessa disparidade me
atrapalham até hoje.
Estou falando de fundamentos de
uma pessoa feliz e pronta para o mundo que ela escolher trilhar. Não
pronta pro mundo que temos hoje. Azamiga e uzamigo hão de concordar que o
mundo as we know it não é e não será exatamente um benchmark de
felicidade. Então comecei a me perguntar se se encaixar no *sistema* é
tão importante quanto sempre achei que fosse.
Afinal, vamos lá, o que é o *sistema*?
O sistema aqui em Nova York funciona mais ou menos assim:
Você
participa de uma loteria para conseguir fazer a application para seu
filho entrar na escola que você escolheu. A maioria vai escolher escolas
de nome, com ranking alto. Por quê? Porque depois do Pre-K e
Kindergarten, vem outros anos da Elementary School. Você só vai
conseguir colocar seu filho numa elementary school *conceituada* se ele
passou por um kindergarten *conceituado*. E ele só vai para uma middle
school *conceituada* se tiver vindo de uma middle school *conceituada*. E
ele só vai para uma high school *conceituada* se vier de uma middle
school *conceituada*. E ele só vai conseguir entrar numa faculdade
*conceituada*, uma Ivy League da vida, se vier de todo um histórico de
escolas *conceituadas* (quase sempre privadas) e se, claro, passar em
testes que avaliam coisas que se ensinam em escolas *conceituadas*. A
ex-criança entra na faculdade *conceituada* e sai de lá com a maior
empregabilidade possível na face da Terra. Toda a família, menos a
ex-criança, viveu feliz para sempre. Cai a cortina, The End.
Há
excessões à regras? Sempre. Mas estou querendo dar um panorama bem
geral. Pense numa pessoa com preguiça de elaborar. Lógico que o esquema
não é tão simples, mas dá para dar uma ideia de como o ciclo costuma se
fechar.
Eu segui esta trilha. Não nos EUA, no Brasil.
Me formei numa faculdade conceituada após estudar em escolas
conceituadas. Hoje minha empregabilidade é alta mesmo nos EUA, mesmo em
Nova York. Todo mês sou contactada por concorrentes da minha empresa ou
headhunters. Puxa, parabéns, que bacana, né? Nem um pouco. Enquanto
minha empregabilidade permanece alta, minha vontade de fazer uma
CARREIRA BRILHANTE cai. Hoje minha vontade está canalizada para a
educação, alimentação e desenvolvimento emocional do meu filho. Está
canalizada para o sonho que sempre tive de viver da escrita. Está
canalizada para aumentar a qualidade de vida da minha família. Está
canalizada para fora do *sistema*. E levei 35 anos para chegar lá. No
final do ano passado pedi demissão da empresa onde trabalhava para ser
"recontratada" num esquema flexível, e num cargo mais baixo. Hoje
trabalho 3 vezes por semana, sendo apenas 1 delas fisicamente no
escritório. Hoje não tenho equipe, fator que sempre me estressou muito
mas que eu me recusava a abandonar por orgulho de não querer dar "um
passo para trás" (exatamente como o *sistema* me ensinou). Hoje tenho um
dia inteiro na semana para mim e para por a casa em ordem, e outro dia
para ficar exclusivamente com meu filho. Apenas hoje eu realmente tomei
as rédeas da minha rotina. Até então, o *sistema* ditava as regras e eu,
infeliz, seguia.

Foto tirada hoje
Decorrência de 35 anos no *sistema*?
Ansiedade, depressão, estresse, dor de coluna, obesidade, retração
social. Como estou hoje em relação a um ano atrás? 16 quilos mais magra,
sem depressão e com ansiedade controlada, mais sociável e, de forma
geral, mais risonha, paciente e disposta. Tomo uma dose alta de
anti-depressivos, é verdade. Mas há um ano os remédios não estavam
adiantando. E, quem sabe?, em breve poderei começar a diminuir.
Imagino que hajam pessoas naturalmente felizes dentro do *sistema*. Mas algo me diz que esse número é bem baixo.
Então
não, não quero preparar meu filho pro *sistema*. Não quero alguém
repetindo meus erros e seus efeitos. Quero que ele crie seu próprio
caminho, e que este caminho seja tão tortuoso quanto necessário para que
ele se sinta completo.
A teoria está show. E a prática?
Pois
é. Eu pergunto também, todos os dias: e a prática? Eu bem que queria
ter as resposta. Queria saber fazer as escolhas certas para que meu
filho se desenvolva da forma mais prazerosa e inteira possível. Mas não
tendo eu vivido uma vida assim, fora da caixa, é difícil enxergar com
outros olhos. É difícil fazer as melhores escolhas. Assim como também é
difícil não ficar obcecada em acertar sempre nas escolhas (outro efeito
colateral do *sistema* sobre mim, e 99% das mães que conheço).
Hoje,
o que sei é que além de tomar decisões conscientes próprias (levando em
conta a opinião dos outros, sim, mas não me baseando nela), preciso ter em
mente que se minha decisão foi errada, posso voltar atrás e tentar outra
trilha - e não tem problema. Que o mundo de hoje não é um exemplo de
mundo para ninguém e que, portanto, questionar constantemente o
protocolo tem que ser tão natural quanto não questionar foi no passado.
Dedico
este post a minha mentora e irmã, Bobby, que tem me influenciado muito,
e positivamente, nessa trilha tortuosa que é a "maternidade fora da
matrix", como ela diz.