A diferença que é você dentro e você
fora, filho! Quando dentro eu não via a hora de te conhecer, e de me
livrar de tanto peso e mal estar. Quando fora, eu queria te por de
volta para dentro. Queria te proteger do mundo, queria te proteger de
mim. Hoje, três anos depois, minha memória segmentada me poupa de
alguns tropeços. Outros permanecem tão vívidos que me assustam e
me perseguem, apesar do passar do tempo.
Ainda não consegui me perdoar. Talvez
nunca consiga. Sempre fui assim, exagerada, dura demais comigo mesma.
Continuo tentando, em vão, fazer meu oceano caber numa xícara de
chá para que o mundo seja menos doído todos os dias. Mas a verdade
é que quanto mais eu luto contra, mais vou de encontro. Todos os dias transbordo, e todos os dias me condeno por isso.
Hoje, filho, em especial, não foi um bom
dia. Dormi mal. Sua irmã não tem nem três
meses e ainda não dorme dessas coisas à noite. Você está numa
fase difícil. Muito ciúmes que se traduz em um desespero de eu me
esvair pelo ralo. De desaparecer na noite. De sair para pegar as
cartas da caixa e não voltar mais. Por isso você não me deixa sair
de vista. A não ser que não tenha jeito, e mesmo assim debaixo de muita luta e choro. Tenho dificuldade de lidar
com isso, com esse desespero para me ter constantemente ao lado.
Então juntamos hoje o cansaço de uma noite mal dormida e seu
desespero particularmente exacerbado, sem nenhuma razão aparente. E
no final do dia eu estava gritando. E você pediu para eu parar
porque doía seu ouvido, e pediu um beijo para sarar. Desmoronei do
cavalo que cavalgava furiosamente e me pus a te beijar em prantos.
I'm sorry, baby, I'm sorry! Desculpa a mamãe?
Onde
foi que parei de perceber que você só tem 3 anos? Em que armadilha
da mente as mães cansadas conseguem esquecer quem é o pequeno ser à
frente, e o quanto absorvem, o quanto refletem, o quanto mimetizam?
Você,
meu loirinho, é extremamente sensível. Essa sua insegurança não é
infundada. Você a sente constantemente e fico despedaçada querendo
tirá-la do seu coraçãozinho acelerado, sabendo que será em vão,
porque a insegurança tem sua razão de existir. Você sabe, de
alguma maneira não óbvia, das sombras que dançam a minha volta
quase todos os dias. Sabe que preciso me concentrar para tentar ser
feliz. Que preciso prestar atenção para não deixar que momentos
bonitos me machuquem por serem bonitos e fugazes. Que preciso deixar
a tristeza me inundar às vezes para depois ir embora, maré baixa
após a ressaca, seres encontrando seres que o mar revolto trouxe do
fundo e que estão ali, expostos e desajeitados numa areia estranha,
escura e cinza.
Hoje
você viu tudo isso nos meus olhos. Evitei te encarar porque sabia
que me afundaria um pouco mais. Seus olhos de súplica, de
fica-aqui-porque-preciso-muito-de-você, tentando sem sucesso me
puxar de volta, só me empurrariam mais para baixo. No desespero de
estar comigo, eu ficaria mais distante. E isso, meu filho, é o que
me mata em dias como hoje. É o peso que carrego de não ser quem eu
gostaria de ser para você.
De
qualquer maneira, já é de noite. Você dorme após pronunciar suas
últimas palavras já embargadas: “mommy... mommy...” Me chamando
e me lembrando, há três anos. Eu escrevo tensa, com medo de sua
reação se um dia ler meus textos, este texto. Tento colocar a
verdade em tudo que te passo, mas nem sempre quero te inundar com
minhas sentenças pesadas. Só preciso dizer, antes de terminar, que
daqui a pouco vou dormir também. E sei que amanhã tudo pode estar
diferente. Torço para que esteja. Eu te devo isso, depois de hoje.
Mas que mesmo em dias difíceis como hoje, dias em que as mãos se
soltam para desespero de ambos, o amor continua a me tirar o ar, a me
encher o pulmão, a me manter viva, doendo, lutando. Nesses dias, o
amor fica fosforescente quando finalmente me vem a clareza. É
assustador, mas é um amor sem fim, numa vida acostumada com tantos
fins.