Saturday, September 17, 2005

aonde foi parar minha casa ou a metáfora do ponto de ônibus

Outro dia estava saindo do trabalho, no ponto de ônibus, e um cara senta ao meu lado. Distraído, ele não viu o ônibus dele chegando e quase partindo. Levantou esbaforido e saiu correndo. Eu gritei, ei, moço, não esquece sua sacola! E ele respondeu "sorry". Tudo bem que inglês pede desculpas até por respirar mas a questão é que, em vez de agradecer, ele se desculpou. Como se fosse uma ofensa esquecer uma sacolinha, uma dessas small brown bags, no banco do ponto de ônibus. Como se, enfim, eu fosse achar que naquela sacolinha de papel estivesse uma bomba.

Aqui está assim. Uma neura sem tamanho, mas não sem fundamento. Agora Londres é parte do crescente número de cidades *com histórico*. Enquanto qualquer cidade for *sem histórico* de terrorismo, nenhuma precaução é justificada, qualquer alerta é alarde, uma ameaça é só uma ameaça e uma sacola esquecida e recuperada é agradecida, e não desculpada.

Claro que somado ao fato de morar numa cidade *com histórico* está minha desilusão com o rumo que minha vida tomou aqui. Não estou querendo soar fatalista; tudo pode mudar e as coisas podem parecer menos negras ou até coloridas dentro de alguns meses. Mas por enquanto meu gráfico está caminhando para a abcissa.

Essa semana, inclusive, bati meu recorde. Não consegui o mestrado, não consegui Reader's Digest, não consegui IMP, nem uma noite, er, quentinha ao lado do Malandro consegui. Ficamos assistindo devedê. Supimpa. Devedê my ass, meu filho.

Três da manhã e lá fui eu de volta para casa de táxi, pensando que de fato tudo o que realmente quero não tem acontecido. Onde eu errei? O que está faltando? O que está sobrando? Quantas voltas mais o mundo precisa dar para começar a girar para o lado contrário - o certo? Quando todos esses nãos vão fazer algum sentido? Estou esperando a hora em que vai me dar o tal do clique. Que vou entender por que, como todos dizem, tudo aconteceu de forma a me contrariar mas só porque lá na frente vai fazer sentido. Estou esperando para ligar os pontos. Estou há meses com o lápis na mão. Espero que na hora em que houver pontos a ser ligados *lá na frente* eu não tenha quebrado a ponta.

De repente me senti sozinha de novo. Bobbynha me mandando text messages de L.A., aquela fofa. Fruquinha me afofando o quanto pode, aquela fofa. Mas ainda assim me sinto sozinha. Todas as pessoas importantes na minha vida estão longe de mim. Não sobrou uma, UMA. Todas moram no meu coração, mas eu quero *tocá-las*. Beijar molhado a bochecha da minha mãe, arrancar o nariz da minha irmã, balançar a lela do meu pai,mordiscar a bochecha da Bathatha, passar a mão na testinha enrugada da minha avó, beijar a careca do meu avô (que saudade, que saudade), beijar o olho do Putão, apertar o queixo da Cá, esmagar o braço da Dé, e apertar tantos outros braços e testas de tantos fofos com braços e testas apertáveis. Minhas saudades começam a sair pelos poros, no suor, no movimento rápido dos olhos, nos suspiros mais e mais freqüentes, em lágrimas que inevitavelmente me escapam - já nem luto mais.

Que medo de desabar mesmo.

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