Thursday, August 11, 2005

um ano em um dia

Hoje cresci um ano. Acordei às 5:45h, sabendo que a vida já não me deixa em paz e cisma em me tirar de minha voluntária meia-morte. Mas não reclamei de ir trabalhar. Um cara muito especial, novíssimo na parada, estaria no trabalho hoje. Ele não é salva-vidas. Ele é apenas lindo. Com sua lovely evil face. Cara de mau, mas não tão mau. Um sorriso que em alguns anos lhe renderá belíssimas proto-rugas. Um cabelo cuidadosamente descabelado, um corpo de endoidecer amantes de corpos.

Só o sotaque que é meio foda. Ele nasceu em East London e morou por três anos na Escócia. Praticamente um estrangeiro para mim, tanto quanto eu. Ele fala e eu não entendo. mas ele sempre repete sorrindo, olhando através dos meus olhos, como se um varal de roupas nos ligasse e dependesse exclusivamente dele. Se ele deixar a corda cair, eu caio junto. Mas ele não deixa. Ele segura, e eu vou desmanchando, só meus olhos continuam inteiros, em pé, teimosos, nos dele.

Ele me chama de Bee. Bom, todo mundo no trabalho me chama de Bee. Mas com ele é mais especial. Apenas recentemente ele começou a me chamar de Bee. E eu adoro. E, olha, sinceramente, acho que há recíproca. É bom que eu esteja muito certa disso, porque ele, bom, ele é meu chefe. Não é legal excangalhar com o emprego, néam? Mas estou quase, quase certa. Ele me ama e eu o amo loucamente.

Aí estava saindo do trabalho e topo com L., o Malandro. Ele foi visitar o pessoal. De quebra, um eu-te-ligo-sabadanoite. Eu até queria que ele ligasse. Mas nosso amigo malandro sambou no lugar. Perdeu pontos na comissão de frente mesmo. O novo amor da minha vida dessa semana - dessa vez é sério - promete ser destaque da escola.

Desnecessário dizer que saí do trabalho carregada por borboletas. Tentei disfarçar para a Anna, a polonesa que trabalha comigo, mas achon que não consegui. Ela não comentou nada, mas sou um bebezão transparente e imagino que ela seja minimamente perspicaz. Oh well, foda-se. Tô nem aí.

E começou a grande mudança para a casa nova. Antes de sair de casa, claro, tinha que ser, um quebra-pau em terra amiga. Brigar tem sido tão fácil ultimamente... Acho que os ânimos estão em progressivo caos. Pela primeira vez em Londres, vou me separar das meninas. O dia está chegando. Já fechei contrato com o Mr Australia e Mr Suécia-Equador. A partir de domingo meu endereço oficial é em Mudchute, em Isle of Dogs, uma região nas docklands, zona leste, céito? Mas zona leste do bem. Muito verde, muita casa bonita, meu lar a 50m do Thames. Estou feliz demais com minha escolha. Meu quarto é um bibelô. Todo azul, mas não azul-calcinha. Um anil apastelado. Lindo. E armário com portas de espelho deveras interessante. E, porra, meu quarto, meu meu meu. No terceiro andar. Lindo, cheiroso, superficialmente bagunçado, como eu gosto.

Apesar das brigas por aqui, estou feliz. Um sentimento bom e adormecido voltou a cutucar meu coração, esse bolostrô preguiçoso e idoso, cansado de guerra. Uma casa nova. Bastante trabalho e, a última ótima notícia: fui chamada para uma entrevista na Reader's Digest. Sexta-feira que vem. Fingers crossed once again!

Em um dia, tanta coisa. Eu querendo meio-morrer porque não agüento mais correr tanto assim, e minha meia-vida querendo ser inteira, chacoalhando meu corpo fodido de tanto tentar escalar. Unhas sangrando de tanto tentar agarrar. Olhos ardendo de tanto querer enxergar. Braços doendo de tanto arrastar - coisas, pessoas, principalmente pessoas - e de ser arrastada - por coisas, pessoas, lugares também, mas principalmente pessoas.

Foi um dia e tanto. Meio-ressucitei com a força de um ano. Um ano para entender que cresci e que minha força é mais que nunca absurda. Absurda.

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