Thursday, June 16, 2005

happy and bleeding

Hoje eu caí no chão. Estava saindo do prédio onde moro com meu tênis novo, já que tenho que trabalhar de tênis branco, e, sabe deus como, virei o pe e caí mesmo, como há anos não acontecia. E foi daquelas clássicas, tipo cachorrinho, de ralar joelho e a palma da mão. Um cara de bicicleta passou e perguntou se eu estava bem. "Yeah, yeah." Eram 6.15h da manhã e meu saldo já era um tombo.

Mas a promessa não se fez profecia. O dia, afinal, foi bom. Desde ontem sou salva-vidas na St George's Pools. Todos já me conheciam, pois é lá que sempre nadei. Lá que sempre fui servida, e agora sirvo. Talvez alguns de vocês não entendam a poesia, quase beleza disso. Mas quero crer que se você é um leitor assíduo disso aqui, é porque vai entender minhas idiossincrasias.

Desde ontem faço turnos entre a piscina pequena e as duas posições da piscina grande. Desde ontem, também, preciso limpar a porra toda, com a ajuda de meus colegas salva-vidas. Eu. Limpeza. Coceira no nariz. Eca. Cabelo. Mais eca. Já estou me acostumando. Credo. Mas aqui no UK as coisas são assim. Aliás, aqui, nos EUA, na Europa toda, não tem essa história de faxineira. Todo mundo faz faxina e quem quer pagar para não fazer, paga caro. Então, entre as duties normais de uma salva-vidas, inclui-se a boa e velha faxina. Claro que não é a tarefa primordial. Das 8 horas que fico lá, no máximo duas são dedicadas a limpeza.

De qualquer forma, é annoying porque odeio limpar coisas.

Fora isso tem sido bem legal. Hoje pela primeira vez usei meu apito. Tinha um grupo de senhouras muçulmanas paradas no meio da raia dedicada para quem nada. Tive que fazê-las moverem as ancas, claro. Elas não gostaram. Fodam-se.

Também tive que gritar para uma pirralhada que estava correndo ao redor da piscina. A partir de hoje sou a tia do Mal e eles todos têm medo de mim. Não é bem o estigma que me cabe, but that will do.

E nem preciso dizer o ímpeto fofuro-genocídico que me assola quando tem aula dos babies e das molecadinhas de uns quatro anos. Hoje, por exemplo, tinha uma menininha idêntica à minha Piu quando era pequena. Bem, bem magrinha, toda branquinha, ruuuuuiva, e cheia de sim, em seu collant (não era maiô aquilo), touca e óculos, todos rosa e esses últimos fosforescentes. E toda metidinha. Adorable.

E tem os velhinhos, que se continuarem fofos do jeito que são eu ainda quebro costelas. Um deles, todo magrinho, cabelinho bem branco, em alguma coisa me lembra meu avô. Ele está lá todo dia. Senta no mesmo banquinho, tira os mesmos chinelinhos do pé, faz uma automassagem meia-boca na batata da perna, entra na piscina e faz suas chegadinhas, sempre com as mesmas caretas de esforço, nunca molhando as madeixas de neve. Vontade de pular na água e agarrar, pór no colo, fazer boiar, fazer feliz. Mas tento me conter e não demonstrar isso nem no olhar. Vai que sou mal interpretada.

**

Amanhã tenho entrevista em uma editora. Fingers crossed. Enquanto isso, tem mais luz no horizonte. Tem dinheiro entrando, então posso procurar meus sonhos mais em paz.

**

Em 18 dias estarei nos braços amados e aconchegantes de babái. A correria foi tanta nos últimos tempos que só agora está caindo a ficha. Tenho vontade de me desmanchar toda no seu abraço, papito. E sei que vou.Todo esse tempo e toda essa saudade só serviram para aguçar um sentimento forte e lindo que sempre esteve aqui, mas nunca foi tão óbvio. Amo minha família. Tenho certeza de que a escolhi, sim.

No comments: