Hoje eu caí no chão. Estava saindo do prédio onde moro com meu tênis novo, já que tenho que trabalhar de tênis branco, e, sabe deus como, virei o pe e caí mesmo, como há anos não acontecia. E foi daquelas clássicas, tipo cachorrinho, de ralar joelho e a palma da mão. Um cara de bicicleta passou e perguntou se eu estava bem. "Yeah, yeah." Eram 6.15h da manhã e meu saldo já era um tombo.
Mas a promessa não se fez profecia. O dia, afinal, foi bom. Desde ontem sou salva-vidas na St George's Pools. Todos já me conheciam, pois é lá que sempre nadei. Lá que sempre fui servida, e agora sirvo. Talvez alguns de vocês não entendam a poesia, quase beleza disso. Mas quero crer que se você é um leitor assíduo disso aqui, é porque vai entender minhas idiossincrasias.
Desde ontem faço turnos entre a piscina pequena e as duas posições da piscina grande. Desde ontem, também, preciso limpar a porra toda, com a ajuda de meus colegas salva-vidas. Eu. Limpeza. Coceira no nariz. Eca. Cabelo. Mais eca. Já estou me acostumando. Credo. Mas aqui no UK as coisas são assim. Aliás, aqui, nos EUA, na Europa toda, não tem essa história de faxineira. Todo mundo faz faxina e quem quer pagar para não fazer, paga caro. Então, entre as duties normais de uma salva-vidas, inclui-se a boa e velha faxina. Claro que não é a tarefa primordial. Das 8 horas que fico lá, no máximo duas são dedicadas a limpeza.
De qualquer forma, é annoying porque odeio limpar coisas.
Fora isso tem sido bem legal. Hoje pela primeira vez usei meu apito. Tinha um grupo de senhouras muçulmanas paradas no meio da raia dedicada para quem nada. Tive que fazê-las moverem as ancas, claro. Elas não gostaram. Fodam-se.
Também tive que gritar para uma pirralhada que estava correndo ao redor da piscina. A partir de hoje sou a tia do Mal e eles todos têm medo de mim. Não é bem o estigma que me cabe, but that will do.
E nem preciso dizer o ímpeto fofuro-genocídico que me assola quando tem aula dos babies e das molecadinhas de uns quatro anos. Hoje, por exemplo, tinha uma menininha idêntica à minha Piu quando era pequena. Bem, bem magrinha, toda branquinha, ruuuuuiva, e cheia de sim, em seu collant (não era maiô aquilo), touca e óculos, todos rosa e esses últimos fosforescentes. E toda metidinha. Adorable.
E tem os velhinhos, que se continuarem fofos do jeito que são eu ainda quebro costelas. Um deles, todo magrinho, cabelinho bem branco, em alguma coisa me lembra meu avô. Ele está lá todo dia. Senta no mesmo banquinho, tira os mesmos chinelinhos do pé, faz uma automassagem meia-boca na batata da perna, entra na piscina e faz suas chegadinhas, sempre com as mesmas caretas de esforço, nunca molhando as madeixas de neve. Vontade de pular na água e agarrar, pór no colo, fazer boiar, fazer feliz. Mas tento me conter e não demonstrar isso nem no olhar. Vai que sou mal interpretada.
**
Amanhã tenho entrevista em uma editora. Fingers crossed. Enquanto isso, tem mais luz no horizonte. Tem dinheiro entrando, então posso procurar meus sonhos mais em paz.
**
Em 18 dias estarei nos braços amados e aconchegantes de babái. A correria foi tanta nos últimos tempos que só agora está caindo a ficha. Tenho vontade de me desmanchar toda no seu abraço, papito. E sei que vou.Todo esse tempo e toda essa saudade só serviram para aguçar um sentimento forte e lindo que sempre esteve aqui, mas nunca foi tão óbvio. Amo minha família. Tenho certeza de que a escolhi, sim.
Thursday, June 16, 2005
Tuesday, June 14, 2005
spin it
E se a vida em geral é um carrossel, a minha é um peão. E a culpa é toda minha, que puxo incessantemente a cordinha e o faço dançar desvairado sobre qualquer superfície, em qualquer contexto, dentro ou fora do ritmo. A culpa é toda minha.
Esse fim de semana foi surreal do começo ao fim. Começou já sábado de manhã. Fui no centro esportivo implorar emprego como salva-vidas. Fui muito bem, senti. Ontem passei lá para deixar meu NPLQ (certificado de salva-vidas) e meu National Insurance Number e a manager me puxou de lado. Disse que a vaga é minha. A partir de amanhã, 7 da matina, sou lifeguard na mesma piscina em que costumo treinar, a cinco minutos de casa. Trabalho feito alucinada até sexta, quando já terei ganho quase o suficiente para sanar os gastos que tive com o curso de salva-vidas.
Aí depois disso fui encontrar com a Rô, uma brasileira que fundou o site www.BrazilianArtists.net e que me chamou para uma conversa a respeito de possível trabalho. O legal: a causa, que é linda. O não-legal: é voluntário. Convenhamos que não estou podendo me dar ao luxo. De qualquer forma, fui na casa dela ontem e passei a tarde trabalhando em cima de um release que mandamus para toda a imprensa local anunciando a vinda do MV Bill para o lançamento do livro Cabeça de Porco. Mas não tô podendo, não tô podendo. Preciso cuidar de mim e dos meus sonhos primeiro, para depois cuidar dos outros e de seus sonhos. Porque sou estúpida o bastante para sonhar os sonhos alheios.
E então fui para Oxford, encontrar com minhas primas, Jo e Lucia. No dia seguinte, triathlon. Elas estavam nervosíssimas. Eu não porque a distância da natação, que era a minha perna na comeptição, não era longa. Muito pelo contrário: a distância é o que costumo fazer para aquecer normalmente. Rolou bem legal. Fui a segunda mulher no geral, e a 19a pessoa, entre homens e mulheres, entre 150 competidores. Not too bad para quem parou de treinar há tanto tempo e hoje só nada para chacoalhar a pança mesmo.
Aí, terminou a premiação e voltei pra minha Londres. Cheguei em casa e em 15 minutos tinha que estar pronta para, bom, foda falar mas, pro meu date. Aquele, lembram? O tal bonitinho que conversou comigo no meu drink de despedida do trabalho; aquele que ligou semana passada. Finalmente nos encontramos. Não rolou nada. Ele tava todo ansioso porque tinha que terminar um trabalho. Mas já temos novo programinha: cinema no final dessa semana ou começo da semana que vem.
Hoje faz um ano que deixei meu país.
Hoje faço seis meses de namoro com o Chris.
A verdade é que não estou me sentindo culpada. Nem um pouco, actually. Ele precisa se esforçar um pouco mais, como eu já disse.
Um peão desequilibrado, que ameaça quedar pro lado, mas não queda. Não pára. Até quando?
**
Já assistiram Vera Drake? Se ainda não, não percam a oportunidade de ver o melhor diretor de cinema inglês em um de seus melhores momentos ever. Imperdivelíssimo, juro mesmo.
Esse fim de semana foi surreal do começo ao fim. Começou já sábado de manhã. Fui no centro esportivo implorar emprego como salva-vidas. Fui muito bem, senti. Ontem passei lá para deixar meu NPLQ (certificado de salva-vidas) e meu National Insurance Number e a manager me puxou de lado. Disse que a vaga é minha. A partir de amanhã, 7 da matina, sou lifeguard na mesma piscina em que costumo treinar, a cinco minutos de casa. Trabalho feito alucinada até sexta, quando já terei ganho quase o suficiente para sanar os gastos que tive com o curso de salva-vidas.
Aí depois disso fui encontrar com a Rô, uma brasileira que fundou o site www.BrazilianArtists.net e que me chamou para uma conversa a respeito de possível trabalho. O legal: a causa, que é linda. O não-legal: é voluntário. Convenhamos que não estou podendo me dar ao luxo. De qualquer forma, fui na casa dela ontem e passei a tarde trabalhando em cima de um release que mandamus para toda a imprensa local anunciando a vinda do MV Bill para o lançamento do livro Cabeça de Porco. Mas não tô podendo, não tô podendo. Preciso cuidar de mim e dos meus sonhos primeiro, para depois cuidar dos outros e de seus sonhos. Porque sou estúpida o bastante para sonhar os sonhos alheios.
E então fui para Oxford, encontrar com minhas primas, Jo e Lucia. No dia seguinte, triathlon. Elas estavam nervosíssimas. Eu não porque a distância da natação, que era a minha perna na comeptição, não era longa. Muito pelo contrário: a distância é o que costumo fazer para aquecer normalmente. Rolou bem legal. Fui a segunda mulher no geral, e a 19a pessoa, entre homens e mulheres, entre 150 competidores. Not too bad para quem parou de treinar há tanto tempo e hoje só nada para chacoalhar a pança mesmo.
Aí, terminou a premiação e voltei pra minha Londres. Cheguei em casa e em 15 minutos tinha que estar pronta para, bom, foda falar mas, pro meu date. Aquele, lembram? O tal bonitinho que conversou comigo no meu drink de despedida do trabalho; aquele que ligou semana passada. Finalmente nos encontramos. Não rolou nada. Ele tava todo ansioso porque tinha que terminar um trabalho. Mas já temos novo programinha: cinema no final dessa semana ou começo da semana que vem.
Hoje faz um ano que deixei meu país.
Hoje faço seis meses de namoro com o Chris.
A verdade é que não estou me sentindo culpada. Nem um pouco, actually. Ele precisa se esforçar um pouco mais, como eu já disse.
Um peão desequilibrado, que ameaça quedar pro lado, mas não queda. Não pára. Até quando?
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Já assistiram Vera Drake? Se ainda não, não percam a oportunidade de ver o melhor diretor de cinema inglês em um de seus melhores momentos ever. Imperdivelíssimo, juro mesmo.
Monday, June 13, 2005
Thursday, June 09, 2005
nada no bolso ou nas mãos
Estava comentando com a Bobby hoje que resolvi ficar desempregada na melhor época do ano. Dias lindos, solzão, temos nossa varanda que é grande o suficiente para três brasileirinhas banharem-se ao sol. Não consigo imaginar o que teria acontecido se tivesse ficado desempregada em dezembro. Dias amanhecendo às 8h e anoitecendo às 15:30h, e a casa em que eu morava antes era fria, mas friiiia, que nem conto o quanto sofri com ossos gelados porque vocês vão morrer de pena. Para terem uma idéia, nos últimos dias me dava desespero de pensar em entrar no Messenger para falar com meus amados porque minha mão doía muito se não estivesse debaixo de um edredon.
E hoje foi um dia de praia quase. Até o barulho da criançada aqui na escolinha do lado ajudou. era só fechar os olhos, imaginar uma maresia entrando pelas ventas e pôr uma voz virtual: "olha o bishcoito globo, bishcoito globo é um real. tem doce, tem salgado, é o bishcoito globo um real".
Tudo nas devidas proporções, claro.
Mas de qualquer maneira, dá prazer viver nessa cidade durante seus 05 dias de verão. Mesmo que não tenha nada no bolso ou nas mãos.
**
Novidades, perspectivas várias, uma hora rola um emprego. Tô sentindo que não vai tardar. Estou com uma intuição positivíssima, principalmente em relação a sábado. Como sempre, só conto se rolar. Mas por enquanto, não saí do lugar. É assim que quero pensar, é assim que se deve pensar. Porque se eu achar que já fiz tudo para o emprego aparecer, ele vai me escorrer pelas mãos. Então, todo dia acordo mentalizando que estou no zero. Não posso dizer que me dá ânimo isso; me dá desespero, muitas vezes o motor dos meus melhores feitos. É que nem depilação: dói mas funciona.
**
Daqui a cinco dias faz um ano que deixei terra brasilis. Dá para acreditar? Eu também não.
E hoje foi um dia de praia quase. Até o barulho da criançada aqui na escolinha do lado ajudou. era só fechar os olhos, imaginar uma maresia entrando pelas ventas e pôr uma voz virtual: "olha o bishcoito globo, bishcoito globo é um real. tem doce, tem salgado, é o bishcoito globo um real".
Tudo nas devidas proporções, claro.
Mas de qualquer maneira, dá prazer viver nessa cidade durante seus 05 dias de verão. Mesmo que não tenha nada no bolso ou nas mãos.
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Novidades, perspectivas várias, uma hora rola um emprego. Tô sentindo que não vai tardar. Estou com uma intuição positivíssima, principalmente em relação a sábado. Como sempre, só conto se rolar. Mas por enquanto, não saí do lugar. É assim que quero pensar, é assim que se deve pensar. Porque se eu achar que já fiz tudo para o emprego aparecer, ele vai me escorrer pelas mãos. Então, todo dia acordo mentalizando que estou no zero. Não posso dizer que me dá ânimo isso; me dá desespero, muitas vezes o motor dos meus melhores feitos. É que nem depilação: dói mas funciona.
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Daqui a cinco dias faz um ano que deixei terra brasilis. Dá para acreditar? Eu também não.
Tuesday, June 07, 2005
as coisas, assim, espremendo ombros
Uma semana em Southampton. Foi tudo muito estranho. Decidi que queria porque queria porque queria fazer o curso de salva-vidas. Quem me conhece sabe que querer por querer significa fazer nesta cabecinha dura. Nada é melhor justificativa para um feito que o querer por querer.
Então fui para lá, costa sudoeste da Inglaterra. Estava indo para um lugar desconhecido, fazer algo novo, com gente desconhecida e ia ficar hospedada na casa de gente que eu igualmente nunca havia visto mais gorda. Na cara-de-pau, fiz um amigo do meu ex-trabalho achar alguém que ele conhecesse morando por lá que pudesse me hospedar, na caruda, caruda mesmo. Sou bem mais cara-de-pau do que eu mesma acho. De qualquer forma, bateu aquela meda, pânica, horrora e desespera básica. No trem, saindo de Waterloo. Bateu aquele comecinho de pânico. O monstro do desconhecido comprimindo meu estômago e me gelando por baixo na pele. Mas consegui segurar o ataque com a respiração básica que minha terapeuta no Brasil me ensinou.
Em poucas horas me transformei de um bichinho assustado dentro do próprio casulo que construi invisivelmente para mim, em uma pessoa pronta para viver algo que tinha tudo para me engrandecer e me fazer mais feliz, mesmo que um pouquinho só. Logo no primeiro dia resolvi dar uma nadada de meia hora já que havia chegado mais cedo no The Quays, o complexo aquático em que eu faria o curso. O curso começou e foi tudo bem. Aí chegou a hora de encontrar com o Jon (short for Jonathan), cara que eu não conhecia mas em cuja casa ficaria pela próxima semana.
Sinceramente? Não podia ter sido melhor. Eles me adoraram e eu adorei eles. Até fui com o Jon jantar na casa do pai dele (os pais, presumivelmente, são separados). Fofo demais. Também conheci um amigo do Jon, chamado Chris (uh!) que fala português e ama o Brasil. E é gato. Deveras gato.
Mas não passou nada, não passou nada. A semana voou. O curso durava o dia inteiro. Nos almoços eu ia num cybercafé - quiçá o único da cidade - para checar novidades de emprego. Capotava às 21h, acordava às 7h, com luz, passarinhos, e despertador, tudo ao mesmo tempo. Precisava calcular o tempo do trem, já que o curso foi em Southampton e eu estava hospedada num bucólico sobrado em Eastleigh, cidade vizinha.
E também me engracei com o instrutor do curso de salva-vidas, e a engracice só não foi recíproca porque o gostosão é profissional demais. Foi tudo bom demais. Chegou sexta, day-off, fui passear em Winchester, a capital mais antiga da Inglaterra. Uma preciosidade. Cheia de construções medievais ainda, ruínas de castelos, uma catedral magavilhosa, uma vista inesquecível da St Gilles Hill. Perdi o fôlego e me perdi. Só pensei em me achar quando, claro, começou a chover. Peguei o trem, voltei pra Eastleigh e fiquei estudando para a prova do dia seguinte. Chegou o dia da prova, eu estava tranqüila. O pior já tinha passado - e só quem me conhece mesmo entendeu essa frase.
Passei no teste. Não foi fácil, porque aqui o que é mais elementar precisa ser tratado em todos os detalhes. Mas também não foi difícil. Fui para Southampton cabisbaixa e paniquenta, voltei para Londres salva-vidas e com mil perspectivas: a primeira, de um emprego, me ligaram na sexta chamando para uma entrevista a que, por sinal, fui hoje e que promete, mas não quero me precipitar.
Fora isso, lembram daquele gatinho da minha festa de despedida? Então. Ele ligou. Vamos sair. O Chris? Tá bem, obrigada. Mas sinceramente não está comendo arroz com feijão suficiente para garantir minha felicidade inner-conjugal (uh!). Assim sendo, não me avexarei se me aprouver aplicar um chifre por justa causa.
**
Fim de semana que vem vou para Oxford (Wantage, na verdade, que fica do lado), encontrar com minhas primas. Chego sábado, fico por lá à noite, provavelmente vamos a um folky concert. Dia seguinte cedo é nosso Triathlon Debut. Finalmente as Singers se aventurarão nas piscinas e caminhos do Reino Unido. Tudo indica que este é o primeiro de vários triathlons. Caio n'água às 9:30h no domingo. Torçam. Delícia sentir de novo aquele nervosinho pré-competição. Tratarei de treinar nos próximos dias. Tratarei de cuidar bem de mim as well.
Esse foi um resumo resumidíssimo de tudo o que foi e que está para vir. Queria ter o tempo e a disposição para detalhar cada sopro desses dias deliciosamente loucos que foram em Southampton e que vivem na minha memória. Cresci demais como pessoa. Mergulhei na escuridão e descobri que as coisas cuidam de si mesmas mesmo quando não conseguimos olhá-las, cuidá-las, dirigi-las. Amo um pouco mais o mundo em que vivo, for a change.
Então fui para lá, costa sudoeste da Inglaterra. Estava indo para um lugar desconhecido, fazer algo novo, com gente desconhecida e ia ficar hospedada na casa de gente que eu igualmente nunca havia visto mais gorda. Na cara-de-pau, fiz um amigo do meu ex-trabalho achar alguém que ele conhecesse morando por lá que pudesse me hospedar, na caruda, caruda mesmo. Sou bem mais cara-de-pau do que eu mesma acho. De qualquer forma, bateu aquela meda, pânica, horrora e desespera básica. No trem, saindo de Waterloo. Bateu aquele comecinho de pânico. O monstro do desconhecido comprimindo meu estômago e me gelando por baixo na pele. Mas consegui segurar o ataque com a respiração básica que minha terapeuta no Brasil me ensinou.
Em poucas horas me transformei de um bichinho assustado dentro do próprio casulo que construi invisivelmente para mim, em uma pessoa pronta para viver algo que tinha tudo para me engrandecer e me fazer mais feliz, mesmo que um pouquinho só. Logo no primeiro dia resolvi dar uma nadada de meia hora já que havia chegado mais cedo no The Quays, o complexo aquático em que eu faria o curso. O curso começou e foi tudo bem. Aí chegou a hora de encontrar com o Jon (short for Jonathan), cara que eu não conhecia mas em cuja casa ficaria pela próxima semana.
Sinceramente? Não podia ter sido melhor. Eles me adoraram e eu adorei eles. Até fui com o Jon jantar na casa do pai dele (os pais, presumivelmente, são separados). Fofo demais. Também conheci um amigo do Jon, chamado Chris (uh!) que fala português e ama o Brasil. E é gato. Deveras gato.
Mas não passou nada, não passou nada. A semana voou. O curso durava o dia inteiro. Nos almoços eu ia num cybercafé - quiçá o único da cidade - para checar novidades de emprego. Capotava às 21h, acordava às 7h, com luz, passarinhos, e despertador, tudo ao mesmo tempo. Precisava calcular o tempo do trem, já que o curso foi em Southampton e eu estava hospedada num bucólico sobrado em Eastleigh, cidade vizinha.
E também me engracei com o instrutor do curso de salva-vidas, e a engracice só não foi recíproca porque o gostosão é profissional demais. Foi tudo bom demais. Chegou sexta, day-off, fui passear em Winchester, a capital mais antiga da Inglaterra. Uma preciosidade. Cheia de construções medievais ainda, ruínas de castelos, uma catedral magavilhosa, uma vista inesquecível da St Gilles Hill. Perdi o fôlego e me perdi. Só pensei em me achar quando, claro, começou a chover. Peguei o trem, voltei pra Eastleigh e fiquei estudando para a prova do dia seguinte. Chegou o dia da prova, eu estava tranqüila. O pior já tinha passado - e só quem me conhece mesmo entendeu essa frase.
Passei no teste. Não foi fácil, porque aqui o que é mais elementar precisa ser tratado em todos os detalhes. Mas também não foi difícil. Fui para Southampton cabisbaixa e paniquenta, voltei para Londres salva-vidas e com mil perspectivas: a primeira, de um emprego, me ligaram na sexta chamando para uma entrevista a que, por sinal, fui hoje e que promete, mas não quero me precipitar.
Fora isso, lembram daquele gatinho da minha festa de despedida? Então. Ele ligou. Vamos sair. O Chris? Tá bem, obrigada. Mas sinceramente não está comendo arroz com feijão suficiente para garantir minha felicidade inner-conjugal (uh!). Assim sendo, não me avexarei se me aprouver aplicar um chifre por justa causa.
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Fim de semana que vem vou para Oxford (Wantage, na verdade, que fica do lado), encontrar com minhas primas. Chego sábado, fico por lá à noite, provavelmente vamos a um folky concert. Dia seguinte cedo é nosso Triathlon Debut. Finalmente as Singers se aventurarão nas piscinas e caminhos do Reino Unido. Tudo indica que este é o primeiro de vários triathlons. Caio n'água às 9:30h no domingo. Torçam. Delícia sentir de novo aquele nervosinho pré-competição. Tratarei de treinar nos próximos dias. Tratarei de cuidar bem de mim as well.
Esse foi um resumo resumidíssimo de tudo o que foi e que está para vir. Queria ter o tempo e a disposição para detalhar cada sopro desses dias deliciosamente loucos que foram em Southampton e que vivem na minha memória. Cresci demais como pessoa. Mergulhei na escuridão e descobri que as coisas cuidam de si mesmas mesmo quando não conseguimos olhá-las, cuidá-las, dirigi-las. Amo um pouco mais o mundo em que vivo, for a change.
Friday, May 27, 2005
Thursday, May 26, 2005
bambole
Então vai ser assim. Semana que vem me mudo para Southampton, mas só por uma semana mesmo. Isso é, se eu arranjar lugar para ficar. Senão vou comutar todos os dias da semana que vem. Southampton fica no sul, na praia, 90km a oeste de Brighton, uns 120km ao sul de Londres. E é lá que farei meu curso de salva vidas. Eu disse que não estou para brincadeira, não disse? Pois liguei para a Dona Vaca que disse ter me mandado o formulario para o curso que estaria acontecendo em Londres, e ela disse que mandou e eu nunca recebi. E quando liguei para cobrar ela disse que agora não tinha mais vagas. Não pensei duas vezes. Abri o mapa da Inglaterra, vi as regiões ao redor e fui atrás de cursos nessas regiões. Southampton foi a escolhida. Começo segunda, me qualifico no sábado. E eu vou, porque se parar eu paro mesmo.
O emprego que eu queria já foi ocupado por outra pessoa.
Aiai.
Hoje fui em outra entrevista. Dessa vez menti um pouco. Tá difícil conseguir emprego falando a verdade. Disse que amaria fazer certas coisas que nem amaria. Disse que fico feliz com coisas que don’t move me at all.
Viram? Já virei rata de escritório. Eca. Isso nunca. Vou sempre voltar para casa e tentar lembrar de como eu realmente sou. Mesmo que só eu lembre.
Enfim.
Finalmente chegou aqui a caixa que babãe tinha mandado do Brasil em março, repito, março. Não, a culpa não foi dos correios. Minha mãezinha linda não pôs o número da minha casa no endereço. A caixa voltou e ela teve que mandar de novo. Não tinha mesmo que ser minha mãe?
Mas finalmente chegou. Abri e encontrei um cachecol lindo, branco, quentinho, acolhedor. Uma canga azul magavilhosa que estou usando agora porque, acreditem, faz calor. Um guia de turismo da Europa deeeeste tamanho que o Neal me mandou de aniversário. E um livro que eu queria muito, O Vendedor de Passados. Este foi presente de aniversário do meu avô. Ele ainda estava vivo quando minha mãe me mandou a caixa. A dedicatória, foi ele quem ditou para minha irmã escrever. E ele assinou. Com uma mão trêmula, mas forte. Posso imaginar sua carinha. Uma assinatura trêmula e forte. Porque mesmo esmorecendo ele não perde as forças. Um dia quero ser que nem ele.
E o Chris. Tivemos uma longa conversa ontem. Ele chorou. Eu não. Não tinha porquê. A dor era só dele, que tinha feito merda. Me pediu mil perdões, disse que está com mil problemas mas que em (mil) dias vai começar uma terapia, porque está fodido, porque a vida nese exato momenbto fede, porque, hoje, não é bom ser ele.
Só ouvi. E o abracei. E disse que é só não parar para não me perder. Porque qualquer bambolê cai sem a rebolada.
E eu repito isso a mim todos os dias, como um mantra: é só rebolar para ele continuar rodando. Mas se parar de rebolar, pode dançar twist que ele não sobe de novo.
O emprego que eu queria já foi ocupado por outra pessoa.
Aiai.
Hoje fui em outra entrevista. Dessa vez menti um pouco. Tá difícil conseguir emprego falando a verdade. Disse que amaria fazer certas coisas que nem amaria. Disse que fico feliz com coisas que don’t move me at all.
Viram? Já virei rata de escritório. Eca. Isso nunca. Vou sempre voltar para casa e tentar lembrar de como eu realmente sou. Mesmo que só eu lembre.
Enfim.
Finalmente chegou aqui a caixa que babãe tinha mandado do Brasil em março, repito, março. Não, a culpa não foi dos correios. Minha mãezinha linda não pôs o número da minha casa no endereço. A caixa voltou e ela teve que mandar de novo. Não tinha mesmo que ser minha mãe?
Mas finalmente chegou. Abri e encontrei um cachecol lindo, branco, quentinho, acolhedor. Uma canga azul magavilhosa que estou usando agora porque, acreditem, faz calor. Um guia de turismo da Europa deeeeste tamanho que o Neal me mandou de aniversário. E um livro que eu queria muito, O Vendedor de Passados. Este foi presente de aniversário do meu avô. Ele ainda estava vivo quando minha mãe me mandou a caixa. A dedicatória, foi ele quem ditou para minha irmã escrever. E ele assinou. Com uma mão trêmula, mas forte. Posso imaginar sua carinha. Uma assinatura trêmula e forte. Porque mesmo esmorecendo ele não perde as forças. Um dia quero ser que nem ele.
E o Chris. Tivemos uma longa conversa ontem. Ele chorou. Eu não. Não tinha porquê. A dor era só dele, que tinha feito merda. Me pediu mil perdões, disse que está com mil problemas mas que em (mil) dias vai começar uma terapia, porque está fodido, porque a vida nese exato momenbto fede, porque, hoje, não é bom ser ele.
Só ouvi. E o abracei. E disse que é só não parar para não me perder. Porque qualquer bambolê cai sem a rebolada.
E eu repito isso a mim todos os dias, como um mantra: é só rebolar para ele continuar rodando. Mas se parar de rebolar, pode dançar twist que ele não sobe de novo.
Monday, May 23, 2005
desarmonia em si maior
Eu ainda não decidi o que sou hoje. Não sei se estou feliz ou triste. Não sei se estou ansiosa bom ou ansiosa ruim. Não sei se estou esperançosa ou cética demais. Não sei quem sou hoje. Na verdade, as entrevistas, principalmente a segunda, foram um sucesso. Ambas me garantiram que estou ultraqualificada e a segunda entrevistadora chegou a dizer que agora que ela me "pegou", sou "dela". Mas, meus caros, tratam-se de job agencies. Elas ganham para enfiar pessoas em empresas, então obviamente o interesse maior da simpatiquérrima Leslie era me pegar e ser dela para ela levar a comissão. Só comemoro quando estiver com contrato assinado.
por outro lado, estou extremamente emputecida com meu (pseudo-)namorado que simplesmente esqueceu que viria para cá ontem à noite depois de mais um desses fins de semana infudados que ele passa em treinamento no exército. Esqueceu. Liguei para o paspalho às 22h e ele, "whassup, beautiful?", nem aí. Estava num pub. NUM PUB. Cara, que raiva me deu. "Oh, you're in the pub? Wow, that's really interested as you said you were coming here and staying the night". Ele disse que não lembrava. E ter dito isso não melhorou em nada a situação dele. Na verdade, mais uma vez ele fex gol contra. Ele não tem noção do risco de me perder que está correndo desde que dei meu telefone para aquele carinha e não paro de pensar em quando ele vai me ligar para sairmos. Agindo assim, meu (pseudo-)namorado apenas ajuda para que um eventual (pseudo-)chifre ocorra sem grandes pesos na consciência.
**
Como um todo o fim de semana foi bem, beeeem legal. A começar com a saga de sexta do post anterior. Sábado fui almoçar com a Ana Luiza e um amigo dele. Foi bem legal e saí com contatos e perspectivas de quebra-galhos bastante bem vindos. De lá fui ao British Museum, dei uma girada mas estava muito cheio. Me irritei. Fui embora. Fui no cinema ver Machuca. Outro filme imperdível que eu sei que já tá passando aí no Brasil.
De lá para casa. Chegando aqui, mais filme com a Fru. Vi 21 Gramas finalmente. Atestei o que todos me diziam: é ótimo também.
Domingo foi dia de piquenique no parque com o pessoal do ex-trampo. Tava meio frio, meio vento demais, meio choveu até, mas foi legal mesmo assim. Principalmente depois que apareceram uns gatinhos na área e depois que a Erica chegou. Depois viemos para casa, a Eri não conhecia o nosso cafofo ainda. Conheceu e adorou.
Mais tarde ela foi embora e foi então que quebrei o pau com o Chris. Minha vontade era desligar e emendar o telefonema para o gatinho, o outro. Mas não. Agüentei firme até hoje, uma hora atrás, quando ele me ligou dizendo que estava podre e que não poderíamos nos ver hoje também. Eu só queria vê-lo para dar esporro mesmo, como combinado. Novamente ele deu o cano. Eu falei para ele: você sabe o risco que está correndo levando nosso relacionamento assim? Ele ficou mudo. Depois disse que estava cansado demais, que precisava dormir e comer, porque não dormia e nem comia mais, e eu disse, your choice, babe, your choice, e eu disse também que por mais que o problema não estivesse no relacionamento (e eu sei que não está), ele - o relacionamento - acaba sofrendo as conseqüências.
Ele ainda não entendeu que não sou só de palavras duras. Sou dura.
por outro lado, estou extremamente emputecida com meu (pseudo-)namorado que simplesmente esqueceu que viria para cá ontem à noite depois de mais um desses fins de semana infudados que ele passa em treinamento no exército. Esqueceu. Liguei para o paspalho às 22h e ele, "whassup, beautiful?", nem aí. Estava num pub. NUM PUB. Cara, que raiva me deu. "Oh, you're in the pub? Wow, that's really interested as you said you were coming here and staying the night". Ele disse que não lembrava. E ter dito isso não melhorou em nada a situação dele. Na verdade, mais uma vez ele fex gol contra. Ele não tem noção do risco de me perder que está correndo desde que dei meu telefone para aquele carinha e não paro de pensar em quando ele vai me ligar para sairmos. Agindo assim, meu (pseudo-)namorado apenas ajuda para que um eventual (pseudo-)chifre ocorra sem grandes pesos na consciência.
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Como um todo o fim de semana foi bem, beeeem legal. A começar com a saga de sexta do post anterior. Sábado fui almoçar com a Ana Luiza e um amigo dele. Foi bem legal e saí com contatos e perspectivas de quebra-galhos bastante bem vindos. De lá fui ao British Museum, dei uma girada mas estava muito cheio. Me irritei. Fui embora. Fui no cinema ver Machuca. Outro filme imperdível que eu sei que já tá passando aí no Brasil.
De lá para casa. Chegando aqui, mais filme com a Fru. Vi 21 Gramas finalmente. Atestei o que todos me diziam: é ótimo também.
Domingo foi dia de piquenique no parque com o pessoal do ex-trampo. Tava meio frio, meio vento demais, meio choveu até, mas foi legal mesmo assim. Principalmente depois que apareceram uns gatinhos na área e depois que a Erica chegou. Depois viemos para casa, a Eri não conhecia o nosso cafofo ainda. Conheceu e adorou.
Mais tarde ela foi embora e foi então que quebrei o pau com o Chris. Minha vontade era desligar e emendar o telefonema para o gatinho, o outro. Mas não. Agüentei firme até hoje, uma hora atrás, quando ele me ligou dizendo que estava podre e que não poderíamos nos ver hoje também. Eu só queria vê-lo para dar esporro mesmo, como combinado. Novamente ele deu o cano. Eu falei para ele: você sabe o risco que está correndo levando nosso relacionamento assim? Ele ficou mudo. Depois disse que estava cansado demais, que precisava dormir e comer, porque não dormia e nem comia mais, e eu disse, your choice, babe, your choice, e eu disse também que por mais que o problema não estivesse no relacionamento (e eu sei que não está), ele - o relacionamento - acaba sofrendo as conseqüências.
Ele ainda não entendeu que não sou só de palavras duras. Sou dura.
Saturday, May 21, 2005
turn over
Eu juro para vocês que poucas vezes estive tão feliz como ontem. Acho que, por mais lamentável que pareça, só sentimos a felicidade assim crua quando passamos por tristezas profundas antes. Se a vida é toda feliz ela acaba paradoxalmente não sendo feliz. Anestesia pura. Assim como tristeza constante não é tristeza, mas a perspectiva de ter mais felicidade com uma simples borrifada de esperança. Vai ver é por isso o povo brasileiro é tão feliz. Tristeza constante não é tristeza.
Mas eu ia dizendo. Estava eu extremamente mau humorada, irritadiça e, what the hell, deprê, chorosa, toda ardida por dentro na quinta-feira. Até nadar não deu certo porque tava tendo aula da pirralhada (ou cavocada, como diria meu ex-treinador Edu, porque criança não nada, cavoca) e eles tiveram o dom de pôr uma raia de assim, e não de assado, de forma que nnao tinha uma raia inteira para nadar e, logo, perdeu toda a graça (porque tudo corria o sério risco de a qualquer momento perder a graça na quinta-feira). Para ajudar, chuva, frio, cinza, vento, alô, primavera? Vai rolar ou tá difícil? Eu estava cursing e swearing e, you name it, todos os palavrões não cabiam em minha cabeça. E minha cabeça é grande.
Aí resolvi acabar com a palhaçada e fui dormir às 11h da noite. Sexta o dia já amanheceu todo diferente. Quer dizer, naquelas, estava chovendo ainda, cinza, frio, vento, oh well, eu vim pra Londres, não vim? Agora que agüente sem reclamar. Mas acordei depois de uma noite bem dormida. 8:30h em pé. Fui até Poplar, um bairro aqui no leste, mas mais leste ainda. Meio dodgy, mas encarei. Fui a uma agência de empregos lá, especializada em jobs na região leste de Londres. Eu percebi que aquele seria um bom dia porque dei gargalhada numa situação que deveria me fazer abrir as ventas de emputecimento. Estava com meu iPod tentando achar a maldita entrada da job agency e um segurança bem invocadinho me pára e pergunta o que estou procurando. Responde e ele começa a falar tudo enrolado, com aquele sotaque cockney maldito, e eu toda enrolada nos fios do iPod, tentando achar o botãozinho de desliga. Foi o suficiente para ele se enfezar e dizer "tira essa coisa do ouvido para falar comigo senão você não entende nada mesmo". Ele estava bravo. E eu achei engraçado porque ele foi extremamente grosso e invasivo como poucos ingleses são (obviamente ele não era inglês, mas, morando aqui, favor se adaptar à cultura local). E foi então que comecei a rir. Mais de surpresa que de qualquer outra coisa. Anyway, o jeito que ele olha me faz desconfiar de que há algo meio errado na cachola.
Preenchi um cadastro e fui m'embora. De lá passei em casa e depois fui pro meu ex-trabalho, encontrar o pessoal pro almoço. Foi bem divertido ver todo mundo. Apesar de toda a sacanagem, apesar de todo o sofrimento da última semana, gosto muito de toda aquela gente, inclusive de minhas ex-chefes. E ontem pude ter um "glance" de como sou amada lá também.
Depois fui ao escritório. Sentei na minha antiga mesa, ao lado de Tatyana, na frente de minhas chefes. Minha chefe mais próxima disse que era para eu imprimir tudo o que tinha feito, para montar uma espécie de portfolio. Também sentou comigo e reformulou meu CV com o que fiz durante os nove meses em que trabalhei lá. Quando bateu 4:30pm, metade do escritório - isso dá umas 30 pessoas - se reuniu em frente a minha mesa para me dar presentes de despedida e um cartão lindo, com mensagens lindas, todas elas me convencendo de que meu sorriso é capaz de iluminar um dia inteiro. Os presentes, todos preciosos, porque foram pensados com carinho: um óculos e uma touca de natação, uma cafeteira de filtro, um kit de coisinhas de banho, uma apple pie (porque minha irmã me chama de tortinha de maçã e eles lembraram desse estranho detalhe), biscoitinhos para comer com o café, 10 libras para gastar com livros numa livraria e, claro, o cartão. Muita, muita coisa. Bem mais do que eu esperava. E toda aquela gente me olhando, e eu roxa de vergonha, sem saber o que falar, meio, "really, guys, I loved it and I'll miss you so much, but I know we'll keep in touch, oh, look, this is really lovely, thanks for being so nice". Toda a raiva que eu havia acumulado de repente adentrou ralo e eu percebi que a merda toda não era culpa de ninguém. Que não tinha como alguém querer me foder tanto (no mau sentido) gostando tanto de mim. Ou então toda aquela demonstração de carinho era extravasamento de culpa. Não sei. Não importa. Recebi um quentinho tão bom no peito que não senti at all na última semana em que estive sentada naquela cadeira. E a simples assimilação disso me deu vontade de chorar, but I held back the tears, fir I've already cried a river. Desnecessário.
Do escritório fomos ao happy hour. Um monte de gente foi lá para se despedir de mim. Entre os mais fofos, Steve (claro), Nick (um cara com quem troquei poucas palavras mas que ama a língua portuguesa), minhas chefes que adoraram me ver sorrindo de novo e, bom, um carinha. Mas isso é história para se algo acontecer. Um carinha que saiu da BMI há uma semana e apareceu no pub. Um carinha que sempre passava pelo corredor me olhando, mas cujo nome eu nem sabia. Finalmente, ontem, eu soube. Após meia hora de conversa, "sorry, what's your name?" Engraçado. Trocamos telefone. E ontem mesmo, quando fui embora, ele me ligou. O Chris? Olha, estamos bem. Logo mais fazemos 6 meses juntos, mas eu sei e ele sabe que não é um relacionamento que vai, assim, prosperar numa esfera mais elevada. Não vai. É ótimo tê-lo por perto agora, mas ele não me dá frios no estômago. Não mais.
E, para terminar a noite, mais uma entrevista na segunda-feira. Para duas empresas de PR. Para ganhar mais (bem mais) do que eu estava ganhando na BMI. Ontem foi um dia certo do começo ao fim. Um dos melhores dias aqui. Obrigada todos pelas vibrações positivas. Estou novamente pensando mais alto que o chão, mas sem tirar meu pé dele. Sou feliz de novo.
Mas eu ia dizendo. Estava eu extremamente mau humorada, irritadiça e, what the hell, deprê, chorosa, toda ardida por dentro na quinta-feira. Até nadar não deu certo porque tava tendo aula da pirralhada (ou cavocada, como diria meu ex-treinador Edu, porque criança não nada, cavoca) e eles tiveram o dom de pôr uma raia de assim, e não de assado, de forma que nnao tinha uma raia inteira para nadar e, logo, perdeu toda a graça (porque tudo corria o sério risco de a qualquer momento perder a graça na quinta-feira). Para ajudar, chuva, frio, cinza, vento, alô, primavera? Vai rolar ou tá difícil? Eu estava cursing e swearing e, you name it, todos os palavrões não cabiam em minha cabeça. E minha cabeça é grande.
Aí resolvi acabar com a palhaçada e fui dormir às 11h da noite. Sexta o dia já amanheceu todo diferente. Quer dizer, naquelas, estava chovendo ainda, cinza, frio, vento, oh well, eu vim pra Londres, não vim? Agora que agüente sem reclamar. Mas acordei depois de uma noite bem dormida. 8:30h em pé. Fui até Poplar, um bairro aqui no leste, mas mais leste ainda. Meio dodgy, mas encarei. Fui a uma agência de empregos lá, especializada em jobs na região leste de Londres. Eu percebi que aquele seria um bom dia porque dei gargalhada numa situação que deveria me fazer abrir as ventas de emputecimento. Estava com meu iPod tentando achar a maldita entrada da job agency e um segurança bem invocadinho me pára e pergunta o que estou procurando. Responde e ele começa a falar tudo enrolado, com aquele sotaque cockney maldito, e eu toda enrolada nos fios do iPod, tentando achar o botãozinho de desliga. Foi o suficiente para ele se enfezar e dizer "tira essa coisa do ouvido para falar comigo senão você não entende nada mesmo". Ele estava bravo. E eu achei engraçado porque ele foi extremamente grosso e invasivo como poucos ingleses são (obviamente ele não era inglês, mas, morando aqui, favor se adaptar à cultura local). E foi então que comecei a rir. Mais de surpresa que de qualquer outra coisa. Anyway, o jeito que ele olha me faz desconfiar de que há algo meio errado na cachola.
Preenchi um cadastro e fui m'embora. De lá passei em casa e depois fui pro meu ex-trabalho, encontrar o pessoal pro almoço. Foi bem divertido ver todo mundo. Apesar de toda a sacanagem, apesar de todo o sofrimento da última semana, gosto muito de toda aquela gente, inclusive de minhas ex-chefes. E ontem pude ter um "glance" de como sou amada lá também.
Depois fui ao escritório. Sentei na minha antiga mesa, ao lado de Tatyana, na frente de minhas chefes. Minha chefe mais próxima disse que era para eu imprimir tudo o que tinha feito, para montar uma espécie de portfolio. Também sentou comigo e reformulou meu CV com o que fiz durante os nove meses em que trabalhei lá. Quando bateu 4:30pm, metade do escritório - isso dá umas 30 pessoas - se reuniu em frente a minha mesa para me dar presentes de despedida e um cartão lindo, com mensagens lindas, todas elas me convencendo de que meu sorriso é capaz de iluminar um dia inteiro. Os presentes, todos preciosos, porque foram pensados com carinho: um óculos e uma touca de natação, uma cafeteira de filtro, um kit de coisinhas de banho, uma apple pie (porque minha irmã me chama de tortinha de maçã e eles lembraram desse estranho detalhe), biscoitinhos para comer com o café, 10 libras para gastar com livros numa livraria e, claro, o cartão. Muita, muita coisa. Bem mais do que eu esperava. E toda aquela gente me olhando, e eu roxa de vergonha, sem saber o que falar, meio, "really, guys, I loved it and I'll miss you so much, but I know we'll keep in touch, oh, look, this is really lovely, thanks for being so nice". Toda a raiva que eu havia acumulado de repente adentrou ralo e eu percebi que a merda toda não era culpa de ninguém. Que não tinha como alguém querer me foder tanto (no mau sentido) gostando tanto de mim. Ou então toda aquela demonstração de carinho era extravasamento de culpa. Não sei. Não importa. Recebi um quentinho tão bom no peito que não senti at all na última semana em que estive sentada naquela cadeira. E a simples assimilação disso me deu vontade de chorar, but I held back the tears, fir I've already cried a river. Desnecessário.
Do escritório fomos ao happy hour. Um monte de gente foi lá para se despedir de mim. Entre os mais fofos, Steve (claro), Nick (um cara com quem troquei poucas palavras mas que ama a língua portuguesa), minhas chefes que adoraram me ver sorrindo de novo e, bom, um carinha. Mas isso é história para se algo acontecer. Um carinha que saiu da BMI há uma semana e apareceu no pub. Um carinha que sempre passava pelo corredor me olhando, mas cujo nome eu nem sabia. Finalmente, ontem, eu soube. Após meia hora de conversa, "sorry, what's your name?" Engraçado. Trocamos telefone. E ontem mesmo, quando fui embora, ele me ligou. O Chris? Olha, estamos bem. Logo mais fazemos 6 meses juntos, mas eu sei e ele sabe que não é um relacionamento que vai, assim, prosperar numa esfera mais elevada. Não vai. É ótimo tê-lo por perto agora, mas ele não me dá frios no estômago. Não mais.
E, para terminar a noite, mais uma entrevista na segunda-feira. Para duas empresas de PR. Para ganhar mais (bem mais) do que eu estava ganhando na BMI. Ontem foi um dia certo do começo ao fim. Um dos melhores dias aqui. Obrigada todos pelas vibrações positivas. Estou novamente pensando mais alto que o chão, mas sem tirar meu pé dele. Sou feliz de novo.
Thursday, May 19, 2005
the ground is the limit
Às vezes eu quero chorar, mas o dia nasce e eu esqueço. Apesar de que nada deixou de ter o ritmo alucinado que minha vida costuma ter, é horrível estar desesperada com a possibilidade de sentar e chorar.
Eu já me conheço o suficiente para saber que não sei dançar tão devagar para acompanhar o ritmo do mundo. Tanto que uma hora tudo pára em uma explosão que não posso evitar. Mas se não sei dançar no ritmo do mundo, o que fazer para evitar a dor? Nada. Não há o que fazer. Há que se sentir a dor apenas. Aprender que ela vem e eu não posso evitar. Senti-la em sua forma mais profunda para conseguir me separar dela. Talvez.
Em dias como esse tudo o que não posso é me entregar. Em dias como esse eu brigaria com uma freira, eu bateria num mendigo, eu xingaria uma amiga, eu daria um tiro em qualquer coração. Qualquer, inclusive no meu. Em dias assim eu não me perdôo de todas as merdas que possa ter feito, de tudo o que poderia ter ditto mas silenciei para ouvir outros sons – já que o que eu acho está sempre comigo.
Tenho que tomar cuidado para não cair. De novo. De novo para não cair, de novo tomar cuidado. Cansa um pouco, mas, novamente, não há o que fazer senão concordar com os livros de auto-ajuda que só são uma bosta porque mentem. Senão seriam ótimas comédias britânicas.
Atualizações, porque não sou só lamento: tenho uma entrevista segunda-feira. Veremos. Não quero me animar demais para não despencar demais também. Uma entrevista como qualquer outra. Só torçam.
Eu já me conheço o suficiente para saber que não sei dançar tão devagar para acompanhar o ritmo do mundo. Tanto que uma hora tudo pára em uma explosão que não posso evitar. Mas se não sei dançar no ritmo do mundo, o que fazer para evitar a dor? Nada. Não há o que fazer. Há que se sentir a dor apenas. Aprender que ela vem e eu não posso evitar. Senti-la em sua forma mais profunda para conseguir me separar dela. Talvez.
Em dias como esse tudo o que não posso é me entregar. Em dias como esse eu brigaria com uma freira, eu bateria num mendigo, eu xingaria uma amiga, eu daria um tiro em qualquer coração. Qualquer, inclusive no meu. Em dias assim eu não me perdôo de todas as merdas que possa ter feito, de tudo o que poderia ter ditto mas silenciei para ouvir outros sons – já que o que eu acho está sempre comigo.
Tenho que tomar cuidado para não cair. De novo. De novo para não cair, de novo tomar cuidado. Cansa um pouco, mas, novamente, não há o que fazer senão concordar com os livros de auto-ajuda que só são uma bosta porque mentem. Senão seriam ótimas comédias britânicas.
Atualizações, porque não sou só lamento: tenho uma entrevista segunda-feira. Veremos. Não quero me animar demais para não despencar demais também. Uma entrevista como qualquer outra. Só torçam.
Tuesday, May 17, 2005
redemoinho
Asneiras. Um mundo de asneiras. Às vezes quero ser uma folha, às vezes dou graças a deus por não ser. Tudo o que é leve gira alucinadamente atrás de um vento que apenas, bom, apenas gira.
Não quero uma vida mais ou menos. Não quero ter que beber leite puro antes de dormir, abraçar árvores ao acordar, alongar de hora em hora. Não quero. Nunca quis. Quero um trabalho que me faça trincar os dentes. Que me seque os olhos de atenção. Quero porque posso. Ninguém vai me convencer do contrário. Nem um tufão vai me fazer girar como uma folha ao mais fraco sopro. Estou fora da curva normal.
Algumas oportunidades de trampo estão começando a despontar. Nada concreto, nem perto disso. E eu também estou achando bom poder parar e olhar pela janela. Entender que o sol que bate nas árvores é outro. Que o latido do cachorro é o mesmo, que houve um acidente fatal na avenida aqui do lado e que antes isso não me comoveu. E agora comove. Me senti Carlitos em Tempos Modernos. Me senti máquina. Me senti folha que roda ao mais tênue vento.
Não quero isso para mim nunca mais.
**
Em tempo: estou seguindo os passos do meu personagem no livro que estou escrevendo. E isso não é bom. Fantástico como a vida imita a arte. Mas assustador também, se conhecessem meu personagem. Besteira minha, mas que tá parecido, tá.
**
Fui ver Maria Cheia de Graça no domingo. Não percam esse filme nem por uma diarréia. É muito bom. Fazia tempo que eu não ficava tão presa num filme. Imperdível mesmo.
Não quero uma vida mais ou menos. Não quero ter que beber leite puro antes de dormir, abraçar árvores ao acordar, alongar de hora em hora. Não quero. Nunca quis. Quero um trabalho que me faça trincar os dentes. Que me seque os olhos de atenção. Quero porque posso. Ninguém vai me convencer do contrário. Nem um tufão vai me fazer girar como uma folha ao mais fraco sopro. Estou fora da curva normal.
Algumas oportunidades de trampo estão começando a despontar. Nada concreto, nem perto disso. E eu também estou achando bom poder parar e olhar pela janela. Entender que o sol que bate nas árvores é outro. Que o latido do cachorro é o mesmo, que houve um acidente fatal na avenida aqui do lado e que antes isso não me comoveu. E agora comove. Me senti Carlitos em Tempos Modernos. Me senti máquina. Me senti folha que roda ao mais tênue vento.
Não quero isso para mim nunca mais.
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Em tempo: estou seguindo os passos do meu personagem no livro que estou escrevendo. E isso não é bom. Fantástico como a vida imita a arte. Mas assustador também, se conhecessem meu personagem. Besteira minha, mas que tá parecido, tá.
**
Fui ver Maria Cheia de Graça no domingo. Não percam esse filme nem por uma diarréia. É muito bom. Fazia tempo que eu não ficava tão presa num filme. Imperdível mesmo.
Monday, May 16, 2005
Sunday, May 15, 2005
no white flag above my door
Acho que já está na hora de colocar algo de novo aqui. Essa semana foi ridiculamente surreal. Eu não entendi nada. Ainda estou meio sem entender. E, se fosse uma dessas punhetadoras mentais, ficaria o resto dos meus dias tentando entender. A verdade é que, tal como a morte, eu nunca vou entender. Não em vida.
Pedi demissão.
Na verdade, fui obrigada a pedir demissão.
Sexta foi meu último dia e segunda vou lá entregar a resignation letter e me despedir de todos. Foi assim, de repente. Antes de ir para a Espanha, eu era um a estrela. Star mesmo, minha chefe usava essa palavra. Agora, de repente, virei uma decepção, não correspondo às expectativas de minhas chefes e não sou uma pessoa commercial-driven. Mas, duh, isso eles já deviam saber. Ninguém se forma jornalista para escrever em números.
Não queiram entender, também. Fiquei tão chocada quanto qualquer um dentro daquela empresa. Inclusive a ucraniana que senta ao meu lado e que acompanhou tudo. O fato é o seguinte: eu não consegui meet the target por um motivo simples, eu estava viajando. Das 3,5 semanas de campanha, duas eu estava na Espanha. Como fazer para meet the target? Imnpossível. Se minha chefe fosse um pouco mais assertiva, não teria me deixado viajar.
Agora, meus amigos, estou vivendo de reservas. E reservas não duram para sempre. No meu caso, duram por uns 2 ou 3 meses. Eu ainda vou receber o salário por mais um mês sem precisar dar as caras no trabalho, segundo o generoso chefão. Se depois desse período de um mês eu ainda estiver desempregada, esse mesmo generoso chefão me passará uns freelas e uns trabalhos temporaries. Aí você vai dizer, puxa, Bia, que chefe mais legal, e eu vou te responder, enfia essa legaleza no cu e roda.
Amanhã ainda é dia. Depois disso, estou de novo com um mundo de possibilidades, e é só isso que me motiva. Saber que tenho um currículo recheado de coisas factíveis nas mais diversas áreas.
Minha cabeça não pára. Preciso arranjar um jeito de me sustentar senão vou ter que voltar pro Brasil do jeito que menos quero: com uma mão na frente e outra atrás. Mas vou virar essa merda. Aquele não era o único emprego do mundo. Na verdade, é apenas um cocozinho perto do que sei que ainda vou viver. Dias inteiros para escolher o que deve ser ou não parte do meu futuro. Vou começar a me divertir. Atualizações aqui. Naquele ritmo de Brasil grande, quase-sempre, não-me-cobrem.
Pedi demissão.
Na verdade, fui obrigada a pedir demissão.
Sexta foi meu último dia e segunda vou lá entregar a resignation letter e me despedir de todos. Foi assim, de repente. Antes de ir para a Espanha, eu era um a estrela. Star mesmo, minha chefe usava essa palavra. Agora, de repente, virei uma decepção, não correspondo às expectativas de minhas chefes e não sou uma pessoa commercial-driven. Mas, duh, isso eles já deviam saber. Ninguém se forma jornalista para escrever em números.
Não queiram entender, também. Fiquei tão chocada quanto qualquer um dentro daquela empresa. Inclusive a ucraniana que senta ao meu lado e que acompanhou tudo. O fato é o seguinte: eu não consegui meet the target por um motivo simples, eu estava viajando. Das 3,5 semanas de campanha, duas eu estava na Espanha. Como fazer para meet the target? Imnpossível. Se minha chefe fosse um pouco mais assertiva, não teria me deixado viajar.
Agora, meus amigos, estou vivendo de reservas. E reservas não duram para sempre. No meu caso, duram por uns 2 ou 3 meses. Eu ainda vou receber o salário por mais um mês sem precisar dar as caras no trabalho, segundo o generoso chefão. Se depois desse período de um mês eu ainda estiver desempregada, esse mesmo generoso chefão me passará uns freelas e uns trabalhos temporaries. Aí você vai dizer, puxa, Bia, que chefe mais legal, e eu vou te responder, enfia essa legaleza no cu e roda.
Amanhã ainda é dia. Depois disso, estou de novo com um mundo de possibilidades, e é só isso que me motiva. Saber que tenho um currículo recheado de coisas factíveis nas mais diversas áreas.
Minha cabeça não pára. Preciso arranjar um jeito de me sustentar senão vou ter que voltar pro Brasil do jeito que menos quero: com uma mão na frente e outra atrás. Mas vou virar essa merda. Aquele não era o único emprego do mundo. Na verdade, é apenas um cocozinho perto do que sei que ainda vou viver. Dias inteiros para escolher o que deve ser ou não parte do meu futuro. Vou começar a me divertir. Atualizações aqui. Naquele ritmo de Brasil grande, quase-sempre, não-me-cobrem.
Wednesday, May 11, 2005
oleeeee
Eu sei que fui uma bad bad girl. Voltei sexta-feira da Espanha, hoje já é quarta e só agora resolvi pôr o focinho para for a. A viagem foi Linda, meus caros. Escrevi mais de 15 páginas todos os dias. Não vou colocar tudo aqui porque perde a graça. Se quiserem, espere a publicação e compre meu livro depois. Por enquanto, um tira-gosto:
25/4
All my life is changing every day, every possible way. Estou no avião, me encolhendo entre babãe e a parede do avião, ouvindo Dreams, porque tem tudo a ver, apesar de não ser exatamente o ambiente perfeito para uma escritora de prima como eu. Mas meu dia vai chegar. Enquanto isso, meu nariz está mais sêco que panetone velho. Meus olhos ardem e estou baxtant inquieta. Talvez pela falta de espaço, talvez por estar voando – apesar de eu nunca ter tido viadagens para voar. O negócio é que agora, pelo menos, tenho meu notebook. Ligo e encontro parte do meu mundo onde quer que eu esteja. Você pode não achar isso importante, mas não preciso de garantias alheias. Morar longe de onde nasci e cresci já é desenraizamento demais para alguém que ainda não morreu, como eu.
26/4
Parecia que não ia rolar, mas conseguimos. Chegamos em Málaga às 10h da noite sem lugar para ficar. Depois de a malar rodar duas vezes na alfândega em nossa frente para só então babãe resolver reconhecer sua própria mala (que, “gozado, está mais clara…”), mais um parto para descobrir onde comprar tarjetas telefônicas. E mais outro parto para descobrir como fazer uso delas. Primeiro hotel que ligamos: lotado. Meda, pânica, horrora, desespera. Segunto hotel: transferiram tanto a ligação que babãe se enfezou e desligou. Terceiro hotel: caro. Quarto e último: cá estamos. Não podia ter dado mais certo. Saímos correndo feito vacas no cio quando soubemos que o último trem para Torremolinos, onde estaria nosso HOTEL MIAMI, sairia em cinco minutos. Só que o trajeto do aeroporto à estação de trem foi estrategicamente construído para que se perca o trem. Você tem que tipo correr com o trolley, uma coisa assim meio Jamaica Abaixo de Zero, só que com subidas e descidas, pontes, escadas, mãe fazendo embaixada com seu agasalho que ela não viu despencar. Coisas assim. Quando chegamos no trem, o maquinista esperando claramente por piedade, minha testa era toda suor. Minha mão ficou toda estourada de tanto carregar o trolley e a mala. Tudo isso acompanhado da interminente ladainha de babãe: “ai, não, filha, não vou correr, já passei da idade” ou da variável: “ai, não, filha, não vou correr, meu joelho está doendo”. Meu amém era “vem, caceta!”
Depois de quase um ano longe da areia, finalmente afundei meus dedinhos todos naquele monte de pontinhos quentes. Uma massagem na alma. A praia de Torremolinos é uma delicia, não muito cheia, fofa, adorei ter ficado hospedada aqui. Depois de catar conchinha e pedrinhas, resolvemos pegar um AUTOBUS e ir até Marbella, que fica a uns 40km de Torremolinos. Chegamos lá, mais praia. Até me aventurei a vestir meu maiô, sacar minha touca e meus óculos. Vesti e tudo mais, mas a primeira mergulhada que dei senti um demônio apertando o punho com toda a força contra meu crânio. O inferno, my friends, é um dia pelando com água gelada. Você escolhe morrer queimado ou congelado, tendo a outra alternativa ao alcance das mãos. Mas nada tinha de inferno, Bia, que exagero. Só estava de fato baxtant fria a água. Dei duas, três, quatro braçadas e tive de parar porque o ar não vinha por mais que eu puxasse. Fiquei até com medo. Saí rapidinho do mar. Quem sabe amanhã?
27/4
Hoje foi dia de Málaga. Málaga mesmo, cidade grande. Não a Great Málaga, dentro da qual está Torremolinos. A cidade é bem grande, mas linda. Primeiro fomos para a Playa Malagueta – aliás, anotem, pimenta malagueta vem de Málaga, daí no nome – com muito, muito filtro solar. Depoius visitamos todos os pontos turísticos da cidade, já que compramos um daqueles tickets de sightseeing bus e nos deixamos levar. Visitamos uma arena de touros, um forte de um século bem remoto do qual não me alembro, chamado Castillo de Gibralfaro, o pico do dia, na minha opinião. Paisagens maravilhosas, o forte totalmente conservado por centenas de anos e, o melhor de tudo, não tinha aquela frescurite que muitos locais turísticos tem: podíamos andar por todo o forte, nos perder sem plaquinhas pentelhas ensinando como nos achar, mecher, balançar, cheirar, sentar, lamber, não havia cordas separando nada de nada. Inclusive, se você quisesse se matar, também podia. O Castillo fica no ponto mais alto da cidade, e das beiradas pode-se entender bem o conceito de VERTIGEM. Penhascos aos montes. Penhascos de gente grande mesmo. Penhascos rock n’ roll.
28/4
O inferno. Eu e uma mala com mais de 25 kilos. O inferno em sua nova variável. Claro que lá tinham coisas minhas e de babãe. Eu diria 1/4 minhas, 3/4 de babãe. Mas como sou jovem e forte e touro da família e tenho as costas boas (ao contrário do resto da família), sempre sobra para eu “provar” essa força. Quer dizer, antes era prova, hoje é vergonha na cara mesmo. Não faria babãe, cheia de ai minhas costas, ai meu joelho, carregar aquele peso todo nem que fosse por um segundo. Mas talvez se ela tivesse que passar pela experiência de carregar a mala por um doído segundo, teria feito sua parte da malinha um ‘cadim mais modesta.
Oh well, reclamar para quê? Já foi. Arrumamos tudo, demos mais uma volta na praia para dar tchau a Málaga, lugar apaixonante a que pretendo um dia voltar muitíssimo bem acompanhada, preferivelmente. Um povo caloroso, sorridente, chavequeiro na medida certa “solo ayudé porque mucho me gusto su hija” disse um bravo espanholinho que levou a mala e seus 25 quilos escada acima na estação de trem em Málaga. Vejam que fofo, além de ter levado minha mala, conseguiu me elogiar e de um jeito dulcíssimo, approaching babãe. Eles são assim lá. Não há como não sorrir em dobro. Além do mais, com aquele cheiro, que pulmão não respiraria feliz? Málaga, especialmente Marbella, é o lugar mais cheiroso a que fui. Cheiroso de cheiro natural. Intrínseco, estranho mesmo, o vento tem cheiro, e nnao o cheiro vem com o vento, entende? Não te culpo; é difícil explicar.
29/4
O mundo é pequeno demais ou o tempo é tão curto que nos permite viajar em idéias. Provavelmente se tivesse um mês inteiro pela frente eu acharia pouco e sentiria por não ter um mês e um dia. Ah, um dia a mais é sempre o dia a mais que falta para visitar AQUELE lugar, numa viagem como a nossa, sem destino, só a passagem de ida e a de volta. Hoje, depois do jantar, ficamos a elucubrar sobre o que faremos de nossa próxima e última semana. Nossa reserva em Sevilla vai até domingo, depois de amanhã. Amanhã ligaremos para os hotéis em Granada com uma certa dose de desespero, já que só hoje “realizamos” que terça-feira é feriado nacional e, logo, Granada-Alhambra-Generalife – nossos planos para os três dias seguintes a Sevilla – correm um certo risco de morte em nossa trajetória. Amanhã a viagem tomará um rumo mais definido, já que ligaremos manhosas para todos os hotéis de Granada que nos foi recomendados. Caso não haja vagas nem para dormir no quarto das camareiras, aí teremos que abrir mão de Granada e ir a Alicante. MAS, como nada em uma viagem é tragédia, se não formos a Granada, as chances de irmos a Ibiza crescem. É aí que entra a primeira sentença que escrevi hoje. Se tivéssemos mais um, talvez dois diazinhos a mais, poderíamos fazer tudo: Granada (e Alhambra-Generalife – alias, pausa infame, só decoro o nome Generalife porque imagino uma companhia de seguros), Alicante, Ibiza e um gostinho de Valência.
30/4
O dia hoje foi o pior da viagem até agora. Nada de muito ruim aconteceu, mas, sinceramente, acho que ficamos tempo demais em Sevilla. Em um dia inteiro poderíamos ter varrido isso tudo. Hoje ficamos até três da tarde resolvendo nossa ida a Granada. Só depois das três fomos até o centro velho terminar de ver o que faltava e, surprise, surprise, era só uma atração, a Plaza de Toros de la Maestranza. Muito legal a visita. Mas durou meia hora. Era visita guiada e acabou, cuspiram-nos à rua. É sério. O dia começou mesmo às 15h e terminou de render às 15:30h. Depois disso almoçamos num restaurante que nem era lá dessas coisas e voltamos para o hotel porque estava quente demais, de novo. Aliás, minto. Antes de voltarmos entramos num café que servia os malditos churros. Eu cismei com os churros e agora já os comi. Gorda.
1/5
De qualquer maneira, a temperatura está mais aceitável. Chegamos na estação de trem e fomos comprar a passagem de trem para Alicante direto. Não há viagem direto para Alicante. Decidimos ir de ônibus então; deixaríamos para procurar a rodoviária depois. O primeiro parto do dia foi achar um taxi da estação de ônibus para o hotel. Domingo, feriado, hora da siesta. Tudo junto. Claro que não tinha taxi. Uma fila imensa e nenhum. No final das contas, depois de meia hora, conseguimos pegar um, meio que acotovelando os outros. Chegamos no hotel, uma graça, mas eu não poderia perder tempo novamente. O dia anterior em Sevilla tinha sido meio fiasco. Eu tinha que make it up to it hoje. Largamos as malas no quarto e saímos, rumo a Alhambra.
A cidade está cheia. Terça-feira é o maldito feriado nacional. Mil festas acontecendo – religiosas, as far as I’m concerned. Está tudo apinhado. Mesmo sabendo que os ingressos estavam todos esgotados, resolvemos tentar a sorte. Logicamente não conseguimos. Mas a viagem valeu a pena de qualquer jeito. Mesmo sem poder entrar no negócio propriamente dito, pudemos visitar parte das ruínas, ter uma vista linda da cidade, cheirar todo aquele cheiro que entorpece meus pulmões. Fomos até o lugar de venda de tickets, mas não tinha mais nenhum para aquele dia e, se quiséssemos ir amanhã, teríamos que ESTAR LÁ às 7 da matina, sem garantia de ingresso. Decidimos que não. Ficamos por lá, passeando, vendo o que podia ser visto sem ingresso, e voltamos à cidade.
2/5
Ok. Sem Alhambra, sem Sierra Nevada, o que há para fazer em Granada? Simples: Granada! Resolvemos explorar a cidade e foi bem gostoso. Começamos pela capela real, em que estão os sarcófagos de Felipe, o Belo, e Juana, a Louca (hahaha). Maravilhosa. Meu apreço por igrejas tem me surpreendido. Embora eu tenha ficado um pouco impressionada demais com as imagens de San Juan Batista sendo decapitado e San Juan Evangelista sendo queimado dentro de um caldeirão, uma espécie de sopa santa. Assustador. Eu diria até de um certo mau gosto. Fiquei imaginando se eu fosse uma criança que morasse lá e fosse obrigada a assistir à missa naquela capela todo domingo - partindo do pressuposto de que eu era uma criança da famíloia real, já que a capela era de uso exclusivo da realeza. Eu teria acessos de choro antes e pesadelos terríveis depois. Ficaria hipnotizada nas duas imagens esculpidas na parede do altar, entre outras dez imagens. Eu não conseguiria prestar atenção em nenhuma palavra do padre.
3/5
Chegamos em Alicante após seis horas de viagem. Legal, nosso destino final, Dênia, fica há 100km de Alicante. Havia um ônibus saindo de Alicante meia hora após nossa chegada na rodoviária. Tudo muito tranqüilo para o padrão Singer de contratempos. No final das contas, 100km foram percorridos em exatas três (3) horas. A porra do busão foi pingando, entrando em cada vilinha para deixar e recolher formiguinhas. Não acabava mais. Eu já não via mais graça alguma em paisagens, escritinhos em catalão, escarpas, praias. Tudo o que eu queria era sair daquele ônibus cheio de pessoas tossindo, espirrando, umas até catarrando, juro. Ficar em pé no chão novamente, caminhar, respirar, me afundar na areia da praia. Não é pedir muito.
4/5
Do hotel fomos à praia. Andamos até um ponto que parecia mais habitado. A praia de Denia não é maravilhosa, mas é calma, e tudo de que precisávamos era paz. Claro que 100% paz nunca acontece na minha vida. Apareceu um tarado, que ficava fazendo gestos para mim de longe, mudando de posição na praia para pegar o “melhor ângulo” de visão, não parava de fazer gestos do tipo “vamoali?” ou “faz um topless, faz?” – como vocês devem saber, topless é comum na Europa. Várias tiazonas de maminhas aos aires, como se diz em Portugal. O ápice da taradice foi quando ele começou a pôr a mão para dentro da calça e ao mesmo tempo fazer um “venhaqui” com o indicador. Como homem é bobo.
And that’s all for now, folks. Muita merda tem acontecido e a cas ameaça cair pro meu lado. De novo. Mas eu agüento, até quando não der para agüentar mais. Depois explico melhor. Agora, fiquem com o que aconteceu de bom.
25/4
All my life is changing every day, every possible way. Estou no avião, me encolhendo entre babãe e a parede do avião, ouvindo Dreams, porque tem tudo a ver, apesar de não ser exatamente o ambiente perfeito para uma escritora de prima como eu. Mas meu dia vai chegar. Enquanto isso, meu nariz está mais sêco que panetone velho. Meus olhos ardem e estou baxtant inquieta. Talvez pela falta de espaço, talvez por estar voando – apesar de eu nunca ter tido viadagens para voar. O negócio é que agora, pelo menos, tenho meu notebook. Ligo e encontro parte do meu mundo onde quer que eu esteja. Você pode não achar isso importante, mas não preciso de garantias alheias. Morar longe de onde nasci e cresci já é desenraizamento demais para alguém que ainda não morreu, como eu.
26/4
Parecia que não ia rolar, mas conseguimos. Chegamos em Málaga às 10h da noite sem lugar para ficar. Depois de a malar rodar duas vezes na alfândega em nossa frente para só então babãe resolver reconhecer sua própria mala (que, “gozado, está mais clara…”), mais um parto para descobrir onde comprar tarjetas telefônicas. E mais outro parto para descobrir como fazer uso delas. Primeiro hotel que ligamos: lotado. Meda, pânica, horrora, desespera. Segunto hotel: transferiram tanto a ligação que babãe se enfezou e desligou. Terceiro hotel: caro. Quarto e último: cá estamos. Não podia ter dado mais certo. Saímos correndo feito vacas no cio quando soubemos que o último trem para Torremolinos, onde estaria nosso HOTEL MIAMI, sairia em cinco minutos. Só que o trajeto do aeroporto à estação de trem foi estrategicamente construído para que se perca o trem. Você tem que tipo correr com o trolley, uma coisa assim meio Jamaica Abaixo de Zero, só que com subidas e descidas, pontes, escadas, mãe fazendo embaixada com seu agasalho que ela não viu despencar. Coisas assim. Quando chegamos no trem, o maquinista esperando claramente por piedade, minha testa era toda suor. Minha mão ficou toda estourada de tanto carregar o trolley e a mala. Tudo isso acompanhado da interminente ladainha de babãe: “ai, não, filha, não vou correr, já passei da idade” ou da variável: “ai, não, filha, não vou correr, meu joelho está doendo”. Meu amém era “vem, caceta!”
Depois de quase um ano longe da areia, finalmente afundei meus dedinhos todos naquele monte de pontinhos quentes. Uma massagem na alma. A praia de Torremolinos é uma delicia, não muito cheia, fofa, adorei ter ficado hospedada aqui. Depois de catar conchinha e pedrinhas, resolvemos pegar um AUTOBUS e ir até Marbella, que fica a uns 40km de Torremolinos. Chegamos lá, mais praia. Até me aventurei a vestir meu maiô, sacar minha touca e meus óculos. Vesti e tudo mais, mas a primeira mergulhada que dei senti um demônio apertando o punho com toda a força contra meu crânio. O inferno, my friends, é um dia pelando com água gelada. Você escolhe morrer queimado ou congelado, tendo a outra alternativa ao alcance das mãos. Mas nada tinha de inferno, Bia, que exagero. Só estava de fato baxtant fria a água. Dei duas, três, quatro braçadas e tive de parar porque o ar não vinha por mais que eu puxasse. Fiquei até com medo. Saí rapidinho do mar. Quem sabe amanhã?
27/4
Hoje foi dia de Málaga. Málaga mesmo, cidade grande. Não a Great Málaga, dentro da qual está Torremolinos. A cidade é bem grande, mas linda. Primeiro fomos para a Playa Malagueta – aliás, anotem, pimenta malagueta vem de Málaga, daí no nome – com muito, muito filtro solar. Depoius visitamos todos os pontos turísticos da cidade, já que compramos um daqueles tickets de sightseeing bus e nos deixamos levar. Visitamos uma arena de touros, um forte de um século bem remoto do qual não me alembro, chamado Castillo de Gibralfaro, o pico do dia, na minha opinião. Paisagens maravilhosas, o forte totalmente conservado por centenas de anos e, o melhor de tudo, não tinha aquela frescurite que muitos locais turísticos tem: podíamos andar por todo o forte, nos perder sem plaquinhas pentelhas ensinando como nos achar, mecher, balançar, cheirar, sentar, lamber, não havia cordas separando nada de nada. Inclusive, se você quisesse se matar, também podia. O Castillo fica no ponto mais alto da cidade, e das beiradas pode-se entender bem o conceito de VERTIGEM. Penhascos aos montes. Penhascos de gente grande mesmo. Penhascos rock n’ roll.
28/4
O inferno. Eu e uma mala com mais de 25 kilos. O inferno em sua nova variável. Claro que lá tinham coisas minhas e de babãe. Eu diria 1/4 minhas, 3/4 de babãe. Mas como sou jovem e forte e touro da família e tenho as costas boas (ao contrário do resto da família), sempre sobra para eu “provar” essa força. Quer dizer, antes era prova, hoje é vergonha na cara mesmo. Não faria babãe, cheia de ai minhas costas, ai meu joelho, carregar aquele peso todo nem que fosse por um segundo. Mas talvez se ela tivesse que passar pela experiência de carregar a mala por um doído segundo, teria feito sua parte da malinha um ‘cadim mais modesta.
Oh well, reclamar para quê? Já foi. Arrumamos tudo, demos mais uma volta na praia para dar tchau a Málaga, lugar apaixonante a que pretendo um dia voltar muitíssimo bem acompanhada, preferivelmente. Um povo caloroso, sorridente, chavequeiro na medida certa “solo ayudé porque mucho me gusto su hija” disse um bravo espanholinho que levou a mala e seus 25 quilos escada acima na estação de trem em Málaga. Vejam que fofo, além de ter levado minha mala, conseguiu me elogiar e de um jeito dulcíssimo, approaching babãe. Eles são assim lá. Não há como não sorrir em dobro. Além do mais, com aquele cheiro, que pulmão não respiraria feliz? Málaga, especialmente Marbella, é o lugar mais cheiroso a que fui. Cheiroso de cheiro natural. Intrínseco, estranho mesmo, o vento tem cheiro, e nnao o cheiro vem com o vento, entende? Não te culpo; é difícil explicar.
29/4
O mundo é pequeno demais ou o tempo é tão curto que nos permite viajar em idéias. Provavelmente se tivesse um mês inteiro pela frente eu acharia pouco e sentiria por não ter um mês e um dia. Ah, um dia a mais é sempre o dia a mais que falta para visitar AQUELE lugar, numa viagem como a nossa, sem destino, só a passagem de ida e a de volta. Hoje, depois do jantar, ficamos a elucubrar sobre o que faremos de nossa próxima e última semana. Nossa reserva em Sevilla vai até domingo, depois de amanhã. Amanhã ligaremos para os hotéis em Granada com uma certa dose de desespero, já que só hoje “realizamos” que terça-feira é feriado nacional e, logo, Granada-Alhambra-Generalife – nossos planos para os três dias seguintes a Sevilla – correm um certo risco de morte em nossa trajetória. Amanhã a viagem tomará um rumo mais definido, já que ligaremos manhosas para todos os hotéis de Granada que nos foi recomendados. Caso não haja vagas nem para dormir no quarto das camareiras, aí teremos que abrir mão de Granada e ir a Alicante. MAS, como nada em uma viagem é tragédia, se não formos a Granada, as chances de irmos a Ibiza crescem. É aí que entra a primeira sentença que escrevi hoje. Se tivéssemos mais um, talvez dois diazinhos a mais, poderíamos fazer tudo: Granada (e Alhambra-Generalife – alias, pausa infame, só decoro o nome Generalife porque imagino uma companhia de seguros), Alicante, Ibiza e um gostinho de Valência.
30/4
O dia hoje foi o pior da viagem até agora. Nada de muito ruim aconteceu, mas, sinceramente, acho que ficamos tempo demais em Sevilla. Em um dia inteiro poderíamos ter varrido isso tudo. Hoje ficamos até três da tarde resolvendo nossa ida a Granada. Só depois das três fomos até o centro velho terminar de ver o que faltava e, surprise, surprise, era só uma atração, a Plaza de Toros de la Maestranza. Muito legal a visita. Mas durou meia hora. Era visita guiada e acabou, cuspiram-nos à rua. É sério. O dia começou mesmo às 15h e terminou de render às 15:30h. Depois disso almoçamos num restaurante que nem era lá dessas coisas e voltamos para o hotel porque estava quente demais, de novo. Aliás, minto. Antes de voltarmos entramos num café que servia os malditos churros. Eu cismei com os churros e agora já os comi. Gorda.
1/5
De qualquer maneira, a temperatura está mais aceitável. Chegamos na estação de trem e fomos comprar a passagem de trem para Alicante direto. Não há viagem direto para Alicante. Decidimos ir de ônibus então; deixaríamos para procurar a rodoviária depois. O primeiro parto do dia foi achar um taxi da estação de ônibus para o hotel. Domingo, feriado, hora da siesta. Tudo junto. Claro que não tinha taxi. Uma fila imensa e nenhum. No final das contas, depois de meia hora, conseguimos pegar um, meio que acotovelando os outros. Chegamos no hotel, uma graça, mas eu não poderia perder tempo novamente. O dia anterior em Sevilla tinha sido meio fiasco. Eu tinha que make it up to it hoje. Largamos as malas no quarto e saímos, rumo a Alhambra.
A cidade está cheia. Terça-feira é o maldito feriado nacional. Mil festas acontecendo – religiosas, as far as I’m concerned. Está tudo apinhado. Mesmo sabendo que os ingressos estavam todos esgotados, resolvemos tentar a sorte. Logicamente não conseguimos. Mas a viagem valeu a pena de qualquer jeito. Mesmo sem poder entrar no negócio propriamente dito, pudemos visitar parte das ruínas, ter uma vista linda da cidade, cheirar todo aquele cheiro que entorpece meus pulmões. Fomos até o lugar de venda de tickets, mas não tinha mais nenhum para aquele dia e, se quiséssemos ir amanhã, teríamos que ESTAR LÁ às 7 da matina, sem garantia de ingresso. Decidimos que não. Ficamos por lá, passeando, vendo o que podia ser visto sem ingresso, e voltamos à cidade.
2/5
Ok. Sem Alhambra, sem Sierra Nevada, o que há para fazer em Granada? Simples: Granada! Resolvemos explorar a cidade e foi bem gostoso. Começamos pela capela real, em que estão os sarcófagos de Felipe, o Belo, e Juana, a Louca (hahaha). Maravilhosa. Meu apreço por igrejas tem me surpreendido. Embora eu tenha ficado um pouco impressionada demais com as imagens de San Juan Batista sendo decapitado e San Juan Evangelista sendo queimado dentro de um caldeirão, uma espécie de sopa santa. Assustador. Eu diria até de um certo mau gosto. Fiquei imaginando se eu fosse uma criança que morasse lá e fosse obrigada a assistir à missa naquela capela todo domingo - partindo do pressuposto de que eu era uma criança da famíloia real, já que a capela era de uso exclusivo da realeza. Eu teria acessos de choro antes e pesadelos terríveis depois. Ficaria hipnotizada nas duas imagens esculpidas na parede do altar, entre outras dez imagens. Eu não conseguiria prestar atenção em nenhuma palavra do padre.
3/5
Chegamos em Alicante após seis horas de viagem. Legal, nosso destino final, Dênia, fica há 100km de Alicante. Havia um ônibus saindo de Alicante meia hora após nossa chegada na rodoviária. Tudo muito tranqüilo para o padrão Singer de contratempos. No final das contas, 100km foram percorridos em exatas três (3) horas. A porra do busão foi pingando, entrando em cada vilinha para deixar e recolher formiguinhas. Não acabava mais. Eu já não via mais graça alguma em paisagens, escritinhos em catalão, escarpas, praias. Tudo o que eu queria era sair daquele ônibus cheio de pessoas tossindo, espirrando, umas até catarrando, juro. Ficar em pé no chão novamente, caminhar, respirar, me afundar na areia da praia. Não é pedir muito.
4/5
Do hotel fomos à praia. Andamos até um ponto que parecia mais habitado. A praia de Denia não é maravilhosa, mas é calma, e tudo de que precisávamos era paz. Claro que 100% paz nunca acontece na minha vida. Apareceu um tarado, que ficava fazendo gestos para mim de longe, mudando de posição na praia para pegar o “melhor ângulo” de visão, não parava de fazer gestos do tipo “vamoali?” ou “faz um topless, faz?” – como vocês devem saber, topless é comum na Europa. Várias tiazonas de maminhas aos aires, como se diz em Portugal. O ápice da taradice foi quando ele começou a pôr a mão para dentro da calça e ao mesmo tempo fazer um “venhaqui” com o indicador. Como homem é bobo.
And that’s all for now, folks. Muita merda tem acontecido e a cas ameaça cair pro meu lado. De novo. Mas eu agüento, até quando não der para agüentar mais. Depois explico melhor. Agora, fiquem com o que aconteceu de bom.
Saturday, April 23, 2005
euphoria
Não preciso explicar o sumiço, preciso? Babãe is inda house. E estou tentando, mas não consigo desgrudar dela. Nem estou tentando real hard, mas já sei que vai ser difícil dizedr adeus – e eu dispenso comentários do tipo, pô, Bi, não pensa nisso agora, aproveite o presente, curta o momento. Enfiem o carpe diem do rabo e rodem.
Amanhã passaremos o dia em Brighton e segunda voamos para Málaga, na Espanha. À frente a árdua tarefa de desbravar a costa sul da Espanha e Sevilha e Granada. Quem sabe Córdoba, e, quem sabe ainda, Ibiza.
Também ignorarei sumariamente pedidos de atualização do blog enquanto estiver na Espanha, though levarei meu notebook para batucar se me aprouver. Então não esperem grandes coisas aqui até 8 de maio (depois disso, claro, esperem).
Ah, sim, E amanhã, maybe maybe, babãe conhecerá o famigerado Chris.
Me desejem tudo de bom? Brigada!
Amanhã passaremos o dia em Brighton e segunda voamos para Málaga, na Espanha. À frente a árdua tarefa de desbravar a costa sul da Espanha e Sevilha e Granada. Quem sabe Córdoba, e, quem sabe ainda, Ibiza.
Também ignorarei sumariamente pedidos de atualização do blog enquanto estiver na Espanha, though levarei meu notebook para batucar se me aprouver. Então não esperem grandes coisas aqui até 8 de maio (depois disso, claro, esperem).
Ah, sim, E amanhã, maybe maybe, babãe conhecerá o famigerado Chris.
Me desejem tudo de bom? Brigada!
Monday, April 18, 2005
raindrops stop falling on my head - little by little
Depois de amanhã eu saio ao meio-dia do trabalho, pego o *tubo*, desço em Hammersmith, onde uncle John estará me esperando de carro. De lá vamos a Heathrow. Preciso continuar?
Meu coração acelera só de pensar. Estarei cuddling babãe em menos de 48 horas. Vocês sabem o que são 48 horas para quem está longe há 10 meses? Pois erraram. 48 horas é muito tempo. Tanto tempo que a chegada da minha mãe parece estar muito longe ainda. Só vou entender quando sentar no carro do uncle John a caminho de Heathrow. O mesmo banco e o mesmo caminho de quando aqui cheguei há 10 meses. Céus, como tudo mudou. Tenho até medo de ter mudado demais. De estar madura demais, vivida demais, mundana demais. Medo de estar mais massa, menos grão.
Medo bobo. Não importa quanto tempo eu viva, e quantas coisas eu viva, e quantos sonhos realize e realizo todo dia, e quandas decepções enfrente; nada vai conseguir um dia realmente varrer meu medo. Ultimamente é medo de enlouquecer. De sair dançando tango sozinha pelas ruas. De chorar ao tropeçar, de rir ao me esfacelar. Não precisa ter medo, eu sei. Mas quem disse que minha cabeça segue a lógica precisa? Vocês não sabem, mas há foguetes de energia saindo da minha cabeça e me impedindo de ir junto além. Para algum lugar tem que ir essa energia. Para algum lugar que não meu estômago. Porque energia no estômago só infla, só dói, só panica.
Isso tudo é o que estou deixando escapulir por entre meus dedos agora, sem o menor controle, sem a menor censura, sem medo de realmente enlouquecer, pelo menos uma vez em todo esse dia, em todos os dias um pouquinho. Isso tudo porque sei que logo mais não preciso ser sã o tempo todo. Não preciso ter o equilíbrio que não tenho; não preciso ter a coerência que não tenho; não preciso ter a mente serena que não tenho. Posso ser o que sou – algo novo para todo mundo: para mim, para minha mãe, para meus amigos. Eu mudei e ainda não sei no que me transformei. Fiz um corte de cabelo de olhos fechados e descobri que não tem espelho na sala. Então melhor assim. Se eu não consigo ver meu cabelo, que ele pareça uma galinha d’angola sobre minha cabeça - já não ligo. Viram só? É aí que começa a loucura. Quando acabam-se os espelhos e nada mais importa. O mundo te vê mas você não percebe. E sai dançando tango na chuva, chorando nos tropeços; rindo nas quedas duras.
Agora que ela está chegando, a saudade parece uma faca cortando aos poucos um dedo já cortado. Agora estou me permitindo sentir um mundo de sentimentos. Estava tudo aqui. Eu é que, na falta de espelhos, não pude ver.
**
Fim de semana muito bom. Sexta aquele happy hour básico com o pessoal do trabalho. Sábado dia molenga com Chris. Foi bom. Estamos bem. Dia 14, aniversário do ser mais amado desse mundo cujo nome é desnecessário citar, completei 4 meses de namoro. Ele me veio discreto, quase tímido, quase sapeca, me puxou num canto quanto estávamos no happy hour e falou, babe, yesterday, four months ago I was holding you for the first time. E sorriu, e eu nem lembrei da data, afinal era o aniversário do ser mais amado desse mundo cujo nome é desnecessário citar. Mas ele lembrou, e me lembrou, todo tímido. E me lembrou também que estamos bem. Um namoro que começou morno, esfriou e finalmente esquentou. Acho que nunca estivemos tão bem. Acho que nunca tive um namoro assim. Não apostava minha calcinha mais encardida nesse relacionamento. Continuo meio arredia, um pé na frente e outro atrás, mas aos poucos estou deixando ele me mostrar seus encantos. E os estou descobrindo mais numerosos do que pensei. Apostei no azarão achando que a perda era inevitável. Por enquanto, meu cavalo loiro continua firme na disputa. Não em primeiro, mas não em último. And that's enough for the time being.
**
Sábado à noite fui na Lover Lounge com Frufru. Uma das casas noturnas mais bonitinhas a que já fui. Endereço marcado no lado mais gostoso da minha cabeça para levar Piupiu.
Domingo acordei com um barulho de torcida e lembrei, ah, sim, a maratona. A maratona de Londres. Ela passou aqui do lado de casa. O trio parada dura, claro, saiu para marcar presença. Entre as muitas cenas cômicas, essa que vos fala deu um tapão num balão e este bateu com tudo na cara de um gatinho. Para melhorar, acesso de riso, daqueles bem eu, boca bem aberta, todos os dentes querendo aparecer. O horror, o horror.
À tarde fomos a Camdem Town, encontramos as fofas da Bru e da Fla (irmã da Bru), coisinhazinhas fofas demais, pouco conhecidas mas muy queridas já. Passeamos, comprei apetrechos fashion, e terminamos a noite no Cubans, um bar no coração de Camdemlock. Fiquei pouco, mas o suficiente para conhecer o novo namorado de Bobby. Em alguns minutos, talvez segundos, já tinha feito meu juízo. Ele é um amor. Bondade genuina. Ele não vai decepcionar minha amiga, tão decepcionada já.
E s’embora porque dia seguinte, hoje, foi labuta braba. 8-18 com um pit stop para o almoço, em que dei mais uma das minhas aulas de “espanhol”. Acho melhor eu começar a estudar, preparar umas aulas, não sei. Algo tem que ser feito, senão bem em breve ele descobre. Enquanto isso, almuerzo de gratis na companhia de um guapo. Reclamo não.
Meu coração acelera só de pensar. Estarei cuddling babãe em menos de 48 horas. Vocês sabem o que são 48 horas para quem está longe há 10 meses? Pois erraram. 48 horas é muito tempo. Tanto tempo que a chegada da minha mãe parece estar muito longe ainda. Só vou entender quando sentar no carro do uncle John a caminho de Heathrow. O mesmo banco e o mesmo caminho de quando aqui cheguei há 10 meses. Céus, como tudo mudou. Tenho até medo de ter mudado demais. De estar madura demais, vivida demais, mundana demais. Medo de estar mais massa, menos grão.
Medo bobo. Não importa quanto tempo eu viva, e quantas coisas eu viva, e quantos sonhos realize e realizo todo dia, e quandas decepções enfrente; nada vai conseguir um dia realmente varrer meu medo. Ultimamente é medo de enlouquecer. De sair dançando tango sozinha pelas ruas. De chorar ao tropeçar, de rir ao me esfacelar. Não precisa ter medo, eu sei. Mas quem disse que minha cabeça segue a lógica precisa? Vocês não sabem, mas há foguetes de energia saindo da minha cabeça e me impedindo de ir junto além. Para algum lugar tem que ir essa energia. Para algum lugar que não meu estômago. Porque energia no estômago só infla, só dói, só panica.
Isso tudo é o que estou deixando escapulir por entre meus dedos agora, sem o menor controle, sem a menor censura, sem medo de realmente enlouquecer, pelo menos uma vez em todo esse dia, em todos os dias um pouquinho. Isso tudo porque sei que logo mais não preciso ser sã o tempo todo. Não preciso ter o equilíbrio que não tenho; não preciso ter a coerência que não tenho; não preciso ter a mente serena que não tenho. Posso ser o que sou – algo novo para todo mundo: para mim, para minha mãe, para meus amigos. Eu mudei e ainda não sei no que me transformei. Fiz um corte de cabelo de olhos fechados e descobri que não tem espelho na sala. Então melhor assim. Se eu não consigo ver meu cabelo, que ele pareça uma galinha d’angola sobre minha cabeça - já não ligo. Viram só? É aí que começa a loucura. Quando acabam-se os espelhos e nada mais importa. O mundo te vê mas você não percebe. E sai dançando tango na chuva, chorando nos tropeços; rindo nas quedas duras.
Agora que ela está chegando, a saudade parece uma faca cortando aos poucos um dedo já cortado. Agora estou me permitindo sentir um mundo de sentimentos. Estava tudo aqui. Eu é que, na falta de espelhos, não pude ver.
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Fim de semana muito bom. Sexta aquele happy hour básico com o pessoal do trabalho. Sábado dia molenga com Chris. Foi bom. Estamos bem. Dia 14, aniversário do ser mais amado desse mundo cujo nome é desnecessário citar, completei 4 meses de namoro. Ele me veio discreto, quase tímido, quase sapeca, me puxou num canto quanto estávamos no happy hour e falou, babe, yesterday, four months ago I was holding you for the first time. E sorriu, e eu nem lembrei da data, afinal era o aniversário do ser mais amado desse mundo cujo nome é desnecessário citar. Mas ele lembrou, e me lembrou, todo tímido. E me lembrou também que estamos bem. Um namoro que começou morno, esfriou e finalmente esquentou. Acho que nunca estivemos tão bem. Acho que nunca tive um namoro assim. Não apostava minha calcinha mais encardida nesse relacionamento. Continuo meio arredia, um pé na frente e outro atrás, mas aos poucos estou deixando ele me mostrar seus encantos. E os estou descobrindo mais numerosos do que pensei. Apostei no azarão achando que a perda era inevitável. Por enquanto, meu cavalo loiro continua firme na disputa. Não em primeiro, mas não em último. And that's enough for the time being.
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Sábado à noite fui na Lover Lounge com Frufru. Uma das casas noturnas mais bonitinhas a que já fui. Endereço marcado no lado mais gostoso da minha cabeça para levar Piupiu.
Domingo acordei com um barulho de torcida e lembrei, ah, sim, a maratona. A maratona de Londres. Ela passou aqui do lado de casa. O trio parada dura, claro, saiu para marcar presença. Entre as muitas cenas cômicas, essa que vos fala deu um tapão num balão e este bateu com tudo na cara de um gatinho. Para melhorar, acesso de riso, daqueles bem eu, boca bem aberta, todos os dentes querendo aparecer. O horror, o horror.
À tarde fomos a Camdem Town, encontramos as fofas da Bru e da Fla (irmã da Bru), coisinhazinhas fofas demais, pouco conhecidas mas muy queridas já. Passeamos, comprei apetrechos fashion, e terminamos a noite no Cubans, um bar no coração de Camdemlock. Fiquei pouco, mas o suficiente para conhecer o novo namorado de Bobby. Em alguns minutos, talvez segundos, já tinha feito meu juízo. Ele é um amor. Bondade genuina. Ele não vai decepcionar minha amiga, tão decepcionada já.
E s’embora porque dia seguinte, hoje, foi labuta braba. 8-18 com um pit stop para o almoço, em que dei mais uma das minhas aulas de “espanhol”. Acho melhor eu começar a estudar, preparar umas aulas, não sei. Algo tem que ser feito, senão bem em breve ele descobre. Enquanto isso, almuerzo de gratis na companhia de um guapo. Reclamo não.
Wednesday, April 13, 2005
hola, que tal?
Se eu disser que o Tony Blair foi hoje no prédio em que trabalho vocês acreditam? Vai procurar nos jornais. Mermaid House. Foi lá que rolou a convenção do Labour Party. E é lá que fica meu glorioso trampo.
**
Estranho o que tem acontecido. Depois que terminei meia-bocamente o namoro com o Chris – e fui sumariamente ignorada em minha decisão de terminar – comecei a, de leve, curti-lo novamente. Nada de me derreter de amor. Mas tá bem gostoso. Chegou no equilíbrio que eu queria. Só não sei se é o que ele queria. Mas chegar ao meu ideal já é difícil, imagina se eu for tentar coordenar os dois. Não, né?
Falando em equilíbrio, quase que deixo cair a máscara na aula de “espanhol” que estou dando. Me enrolei numa ou noutra palavrinha. Mas acho que o gatinho não percebeu. Como diz meu amigo Marius, quem sabe até o final do mês não estou ensinando o besa me mucho?
**
Ba-nhê, vem logo, caçamba! Uma semaninha só.
**
Estranho o que tem acontecido. Depois que terminei meia-bocamente o namoro com o Chris – e fui sumariamente ignorada em minha decisão de terminar – comecei a, de leve, curti-lo novamente. Nada de me derreter de amor. Mas tá bem gostoso. Chegou no equilíbrio que eu queria. Só não sei se é o que ele queria. Mas chegar ao meu ideal já é difícil, imagina se eu for tentar coordenar os dois. Não, né?
Falando em equilíbrio, quase que deixo cair a máscara na aula de “espanhol” que estou dando. Me enrolei numa ou noutra palavrinha. Mas acho que o gatinho não percebeu. Como diz meu amigo Marius, quem sabe até o final do mês não estou ensinando o besa me mucho?
**
Ba-nhê, vem logo, caçamba! Uma semaninha só.
Monday, April 11, 2005
on my way up
E, against all odds, meu cavalo pegou segundo lugar e embolsei £10. Incrivel. Eu, que nem ia me incomodar em apostar em nada e soh fui levada a faze-lo por minhas colegas de trabalho, de repente tive uma sorte, assim, pequena, secreta, que nao vai me deixar mais rica, mas foi uma sortinhazinha. Que mais que qualquer outra coisa, mostrou que quando todos os odds apontam para a descida, voce pode, justamente indo contra esses mesmos odds, subir. De leve. Porque nada que se faz rapido eh bem aproveitado.
Fim de semana paz. Daqueles bem Biba. Sexta foi mais agitada. Sai do trabalho e fui no Booksellers, um pub do lado do trabalho, comemorar a chegada de um cara novo (deveras gato) e aniversario de uma menina. Fru foi para la depois e Chris tambem, mas ficou pouco porque tinha as “army stuff” aa frente.
O que na verdade me fez ainda mais serelepe. Nao adianto nada, nem dou falsos statements. Soh digo uma coisa: hoje na hora do almoço vou dar aula de espanhol (!) para um gatinho. Soh eu e ele. Ele paga o almoço como retribuiçao aa “aula”.
**
O passado estah cada vez mais passado na minha vida. Apos 10 meses de Inglaterra consigo ver claramente quais montanhas continuam visiveis acima das nuvens. Nao sao muitas, mas sao as que eu achei que estariam la. Eu sempre fui uma pessoa muito ligada aos meus amigos e aos namorados que tive. Muitas vezes sacrificava programas de familia para farrear com amigos, namorado, ou ateh para fazer outros programas que me soassem mais atraentes – uma travessia, um dia num sitio, coisas assim.
Claro que todos os momentos que ESCOLHI viver foram especiais. Mas aqui, 10 meses longe de casa, uma das conclusoes mais obvias, mais gritantes, eh do quanto sinto falta da minha familia. Mais que qualquer outra coisa. Mais que qualquer situaçao, penso nas que passei com quem me viu crescer. Uma conclusao linda para se chegar aos 25 anos de idade.
**
Sabado fui para meu primeiro pic-nic do ano com a Fru. Saimos de casa umas 11h da manha, cangas e kit pic-nic na mala, entramos no metro e fomos ateeeeeeeh Richmond Park, que fica na PQP, zona 4, longe, muito longe. A area eh linda, posh ateh o pescoço. Familias felizes, cachorros comportados e cheirosos, mocinhas de bunda e nariz empinados, tudo muito filme. Escolhemos um cantinho bem bucolico para nos estarracarmos. Sacamos nossos lanchinhos, tudo comprado do posh Waitrose, e em poucos minutos começamos a nos arrepiar. A principio secreta, em seguida, abertamente. “Poxa, ta esfriando, neh?” “Eh, eh essa porra de vento” “Eh, mas olha, o sol ta com cara de que vai voltar” “Tah sim, olha la, voltou… e ja foi embora”
Aceleramos o passo da mastigaçao. Logo engoliamos nacos inteiros de sanduiche natural. Desencanamos da sobremesa. Arrumamos tudo e fomos correndo para o Coffee Shop. E la ficamos por horas a fio, conversando, coladas num aquecedor, degustando os docinhos que deveriam ter sido apreciados ao ar livre. Primeiro pic-nic do ano, um fracasso. Mas o proximo ja promete. O tempo estah esquentando. Ha que se ter feh.
**
Nove dias apenas. Babae, to te esperando… Eu, Londres e o sol. E depois Brighton e depois a Espanha. Todo o sul, toda a costa, toda com babae.
**
Lendo Oracle Night, do Paul Auster. PUTA livro.
Fim de semana paz. Daqueles bem Biba. Sexta foi mais agitada. Sai do trabalho e fui no Booksellers, um pub do lado do trabalho, comemorar a chegada de um cara novo (deveras gato) e aniversario de uma menina. Fru foi para la depois e Chris tambem, mas ficou pouco porque tinha as “army stuff” aa frente.
O que na verdade me fez ainda mais serelepe. Nao adianto nada, nem dou falsos statements. Soh digo uma coisa: hoje na hora do almoço vou dar aula de espanhol (!) para um gatinho. Soh eu e ele. Ele paga o almoço como retribuiçao aa “aula”.
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O passado estah cada vez mais passado na minha vida. Apos 10 meses de Inglaterra consigo ver claramente quais montanhas continuam visiveis acima das nuvens. Nao sao muitas, mas sao as que eu achei que estariam la. Eu sempre fui uma pessoa muito ligada aos meus amigos e aos namorados que tive. Muitas vezes sacrificava programas de familia para farrear com amigos, namorado, ou ateh para fazer outros programas que me soassem mais atraentes – uma travessia, um dia num sitio, coisas assim.
Claro que todos os momentos que ESCOLHI viver foram especiais. Mas aqui, 10 meses longe de casa, uma das conclusoes mais obvias, mais gritantes, eh do quanto sinto falta da minha familia. Mais que qualquer outra coisa. Mais que qualquer situaçao, penso nas que passei com quem me viu crescer. Uma conclusao linda para se chegar aos 25 anos de idade.
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Sabado fui para meu primeiro pic-nic do ano com a Fru. Saimos de casa umas 11h da manha, cangas e kit pic-nic na mala, entramos no metro e fomos ateeeeeeeh Richmond Park, que fica na PQP, zona 4, longe, muito longe. A area eh linda, posh ateh o pescoço. Familias felizes, cachorros comportados e cheirosos, mocinhas de bunda e nariz empinados, tudo muito filme. Escolhemos um cantinho bem bucolico para nos estarracarmos. Sacamos nossos lanchinhos, tudo comprado do posh Waitrose, e em poucos minutos começamos a nos arrepiar. A principio secreta, em seguida, abertamente. “Poxa, ta esfriando, neh?” “Eh, eh essa porra de vento” “Eh, mas olha, o sol ta com cara de que vai voltar” “Tah sim, olha la, voltou… e ja foi embora”
Aceleramos o passo da mastigaçao. Logo engoliamos nacos inteiros de sanduiche natural. Desencanamos da sobremesa. Arrumamos tudo e fomos correndo para o Coffee Shop. E la ficamos por horas a fio, conversando, coladas num aquecedor, degustando os docinhos que deveriam ter sido apreciados ao ar livre. Primeiro pic-nic do ano, um fracasso. Mas o proximo ja promete. O tempo estah esquentando. Ha que se ter feh.
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Nove dias apenas. Babae, to te esperando… Eu, Londres e o sol. E depois Brighton e depois a Espanha. Todo o sul, toda a costa, toda com babae.
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Lendo Oracle Night, do Paul Auster. PUTA livro.
Friday, April 08, 2005
against all odds
Sim, eu sei. Nao precisa reclamar. A verdade eh que fiquei sem computador essa semana toda. Por que? Porque, bom, porque quando estou no Brasil tenho minha Piu pra derrubar tudo em tudo. E para quando estou aqui, Deus, aquele ser fofo e traquinas, colocou minha Bobby. Ela derramou cha no meu laptop. Ela diz que foram 10mL. Eu desconfio de sua precisao matematica. Porque 10mL nao causaria o estrago que causou. De qualquer forma, o computer estah de volta, inteiro, apos uma apanhada de £150 para consertar uma peça ligada aa tela. Uma bosta grande e fedida, porque odeio ver alguem sem dinheiro como a Bobby ter que consertar algo caro (que me fez virar alguem sem dinheiro tambem, pelo menos ateh o fim desse mes).
**
Alias, façavor, seu deus, de melhorar um pouco as coisas aqui pro meu lado. Deu, neh? Ta perdendo a graça.
**
12 dias apenas. 12 dias para eu estar jogada nos braços de babae. Rapaz, achei que nao fosse chegar nunca.
**
Pedi upgrade da minha conta bancaria e ganhei. Fazia algum tempo que as coisas nao transcorriam tao smoothly. Foi rapido, facil e indolor. Quer dizer, agora toca transferir todas as minhas contas que estao em deposito automatico para a nova conta. Mas pelo menos meu novo gerente eh um bibelo (apesar de se chamar Lee, nome com formosura inversamente proporcional aa pessoa).
**
Para o fim de semana os planos eram: passar o dia em Oxford com Bobby e Fru ou passar o dia em Stone Henge com Bobby e Fru ou passar o dia em Cambridge com Bobby e Fru ou passar o dia em Richmond com Bobby e Fru. Agora, olhando pela janela e vendo a previsao para amanha, os planos passaram a ser: passar o dia em Londres com Bobby e Fru. Em casa. Ou enfurnada em algum lugar fechado. Porque a temperatura maxima pode ser de generosos 7C, mas a sensaçao termica eh de 0C. Agradabilissimo.
**
Acabo de apostar no Grand National Sweepstake, a maior corrida de cavalos que acontece todo ano na Inglaterra. Meu cavalo eh o Royal Auclair, numero 2, e as odds sao de 1/25. Nao eh o melhor, mas as chances sao grandes. Apostei £1 e, se meu cavalo pegar primeiro lugar, recebo £24. Amanha, na BBC1, aas 15h locais. Porque, apesar de tanto sangue ultimamente, eu ainda nao desisti de me dar bem.
**
Serias chances de aprontarmos algo para o feriado que vai ter no fim de maio. Algo bem aprontado. Mas soh revelo aqui quando de fato acontecer. To cansada de uruca virtual.
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Alias, façavor, seu deus, de melhorar um pouco as coisas aqui pro meu lado. Deu, neh? Ta perdendo a graça.
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12 dias apenas. 12 dias para eu estar jogada nos braços de babae. Rapaz, achei que nao fosse chegar nunca.
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Pedi upgrade da minha conta bancaria e ganhei. Fazia algum tempo que as coisas nao transcorriam tao smoothly. Foi rapido, facil e indolor. Quer dizer, agora toca transferir todas as minhas contas que estao em deposito automatico para a nova conta. Mas pelo menos meu novo gerente eh um bibelo (apesar de se chamar Lee, nome com formosura inversamente proporcional aa pessoa).
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Para o fim de semana os planos eram: passar o dia em Oxford com Bobby e Fru ou passar o dia em Stone Henge com Bobby e Fru ou passar o dia em Cambridge com Bobby e Fru ou passar o dia em Richmond com Bobby e Fru. Agora, olhando pela janela e vendo a previsao para amanha, os planos passaram a ser: passar o dia em Londres com Bobby e Fru. Em casa. Ou enfurnada em algum lugar fechado. Porque a temperatura maxima pode ser de generosos 7C, mas a sensaçao termica eh de 0C. Agradabilissimo.
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Acabo de apostar no Grand National Sweepstake, a maior corrida de cavalos que acontece todo ano na Inglaterra. Meu cavalo eh o Royal Auclair, numero 2, e as odds sao de 1/25. Nao eh o melhor, mas as chances sao grandes. Apostei £1 e, se meu cavalo pegar primeiro lugar, recebo £24. Amanha, na BBC1, aas 15h locais. Porque, apesar de tanto sangue ultimamente, eu ainda nao desisti de me dar bem.
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Serias chances de aprontarmos algo para o feriado que vai ter no fim de maio. Algo bem aprontado. Mas soh revelo aqui quando de fato acontecer. To cansada de uruca virtual.
Friday, April 01, 2005
façam alguma coisa, só não me chamem para fazer também
Acabo de descobrir a solução para parte de minhas aflições. De agora em diante sou Verdana roxa. Aboli Times New Roman do meu processo criativo. Serifas só fazem doer a vista, mentem inescrupulosamente todos os jornalistas que um dia me disseram que serifas arredondam o texto. Batatada das grandes. E estou pensando seriamente em adotar o itálico para sempre também. Você há que concordar que um cursor deitadinho é menos ameaçador do que o empinado. De repente acabando o texto eu volto a pô-lo em pé. Enquanto crio, ele tem que se ajoelhar mesmo. Que é para eu caçar piolhos.
Mas a merda é que hoje tirei o dia para ler textos bons. Toda vez que tentava escapar do trabalho eu caia numa homepage maravilhosamente escrita por alguém que eu não conheço. E olha que isso é difícil. Difícil cyberdespencar em algo prestável hoje em dia. E de repente senti aquela urgência formigando os órgãos mais informigáveis. Quase uma vida surgindo de dentro do meu umbigo, uma vida nova crescendo dentro de mim. E não estou grávida, não, não estou – mas tenho sonhado deveras com o tópico.
Ih, fiz aquilo que sempre faço. Comecei sem saber onde chegar. Como meus sonhos. Tenho certeza que meus sonhos vão se sucedendo a esmo, minha cabeça desesperada atrás da próxima imagem, do próximo quadrinho, e como vai tudo muito rápido, sai aquela coisa Miró cuja interpretação até valeria o custo/benefício, não fosse o denominador tão doído antes de fazer o Bem. Preguiçaa de doer neste momento. Fiz de novo. Não tenho mais o que escrever, really. Muitas palavras me vêm em inglês e juro para você que tô achando isso um saco. Pareço uma adolescente com seu All Star, e seu chiclete Bubbaloo, e seu Walkman e tudo aquilo de que uma adolescente precisa desesperadamente para ficar em paz. Odeio esses meus tropeços. As palavras antes fluiam como cobra em terra molhada. Quase faziam parte do cenário, da minha existência, vocês sabem, eu respirava palavras. Continuo assim. Mas agora o ar é que tá diferente e tá rolando um estresse para me adaptar. Não quero ser uma dessas que fala meio português meio marguerita. Vinte e quatro anos, garota, vinte e quatro anos de portuga e nem um ainda de inglês. Te enxerga.
E hoje falei com o glorioso uncle John, que trabalha no nem tão glorioso The Times, no telefone:
- Fomos num pub chamado The Monks hoje, para rezar pelo Papa.
- Se eu não te conhecesse acharia que está falando sério.
- Mas estou. Rezamos para ele morrer na próxima meia hora e eu poder ir para casa logo.
Aiai.
Falando em morte, eu estava pensando tanto, mas tanto e tão de perto na morte do meu avô que cheguei a quase invejá-lo. Ele já sabe. Ele já está na frente de mim, de você, de todo esse monte de vivos rastejantes. Ele agora tem o Conhecimento. Aquele que eu e você secretamente sempre quisermos ter ainda vivos, mas sabemos ser impossível. O negócio é engolir a inveja do meu sábio avô e fazer coisas bem humanas. Comer salgadinhos bem crocantes, tomar banhos bem quentes, correr até torcer o pé, trepar até virar duas, nadar entre águas-vivas – porque morrer de medo é estar mais vivo que nunca –, sonhar, porque nada garante que há sonhos ou que se durma depois da morte – como achava meu avô quando estava aqui, entre os vivos rastejantes. De repente está ele agora a rir da própria bobagem, com a boca bem aberta. Ele pode, porque ele Sabe.
**
Ouvindo agora:
“O meu caminho pelo mundo eu mesmo traço”, porque quando se está na puta que o pariu há dez meses, de repente voltamos a ouvir músicas que só se ouvia da porta para for a. Ninguém mais canta Aquele Abraço. Só gringaiada e expatriados. Me digam, amigos, o Chacrinha continua balançando a pança?
**
Recebi o seguinte email hoje, HOJE, que é 1o de abril, só para eu ficar encafifada:
Based on the career profile you provided us, you might be interested in the following job(s). Please review the job description(s) and if you would like to continue the process, click on the job link below.
Instructional Design Learning Specialist
Viajaram na mayo.
Mas a merda é que hoje tirei o dia para ler textos bons. Toda vez que tentava escapar do trabalho eu caia numa homepage maravilhosamente escrita por alguém que eu não conheço. E olha que isso é difícil. Difícil cyberdespencar em algo prestável hoje em dia. E de repente senti aquela urgência formigando os órgãos mais informigáveis. Quase uma vida surgindo de dentro do meu umbigo, uma vida nova crescendo dentro de mim. E não estou grávida, não, não estou – mas tenho sonhado deveras com o tópico.
Ih, fiz aquilo que sempre faço. Comecei sem saber onde chegar. Como meus sonhos. Tenho certeza que meus sonhos vão se sucedendo a esmo, minha cabeça desesperada atrás da próxima imagem, do próximo quadrinho, e como vai tudo muito rápido, sai aquela coisa Miró cuja interpretação até valeria o custo/benefício, não fosse o denominador tão doído antes de fazer o Bem. Preguiçaa de doer neste momento. Fiz de novo. Não tenho mais o que escrever, really. Muitas palavras me vêm em inglês e juro para você que tô achando isso um saco. Pareço uma adolescente com seu All Star, e seu chiclete Bubbaloo, e seu Walkman e tudo aquilo de que uma adolescente precisa desesperadamente para ficar em paz. Odeio esses meus tropeços. As palavras antes fluiam como cobra em terra molhada. Quase faziam parte do cenário, da minha existência, vocês sabem, eu respirava palavras. Continuo assim. Mas agora o ar é que tá diferente e tá rolando um estresse para me adaptar. Não quero ser uma dessas que fala meio português meio marguerita. Vinte e quatro anos, garota, vinte e quatro anos de portuga e nem um ainda de inglês. Te enxerga.
E hoje falei com o glorioso uncle John, que trabalha no nem tão glorioso The Times, no telefone:
- Fomos num pub chamado The Monks hoje, para rezar pelo Papa.
- Se eu não te conhecesse acharia que está falando sério.
- Mas estou. Rezamos para ele morrer na próxima meia hora e eu poder ir para casa logo.
Aiai.
Falando em morte, eu estava pensando tanto, mas tanto e tão de perto na morte do meu avô que cheguei a quase invejá-lo. Ele já sabe. Ele já está na frente de mim, de você, de todo esse monte de vivos rastejantes. Ele agora tem o Conhecimento. Aquele que eu e você secretamente sempre quisermos ter ainda vivos, mas sabemos ser impossível. O negócio é engolir a inveja do meu sábio avô e fazer coisas bem humanas. Comer salgadinhos bem crocantes, tomar banhos bem quentes, correr até torcer o pé, trepar até virar duas, nadar entre águas-vivas – porque morrer de medo é estar mais vivo que nunca –, sonhar, porque nada garante que há sonhos ou que se durma depois da morte – como achava meu avô quando estava aqui, entre os vivos rastejantes. De repente está ele agora a rir da própria bobagem, com a boca bem aberta. Ele pode, porque ele Sabe.
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Ouvindo agora:
“O meu caminho pelo mundo eu mesmo traço”, porque quando se está na puta que o pariu há dez meses, de repente voltamos a ouvir músicas que só se ouvia da porta para for a. Ninguém mais canta Aquele Abraço. Só gringaiada e expatriados. Me digam, amigos, o Chacrinha continua balançando a pança?
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Recebi o seguinte email hoje, HOJE, que é 1o de abril, só para eu ficar encafifada:
Based on the career profile you provided us, you might be interested in the following job(s). Please review the job description(s) and if you would like to continue the process, click on the job link below.
Instructional Design Learning Specialist
Viajaram na mayo.
Thursday, March 31, 2005
Oh no, cuttiest nerd back on track!
Glad to hear about you getting on with the new job. Soon it won't be "new" anymore.
I'm fine, work's ok (better than yesterday so far) and life is "not too bad" (you English...)
I just came from Galore Cards and got a birthday card to my sis that (***censurado por motivos de SURPRESA maior***). She'll love it!
The house is ok, though the toilet is leaking and we all find it disgusting to try to fix it so we don't.
And this weekend I might try to swim with the wetsuit which I borrowed from my cousin Lucia, a very pathetic-like situation, as I'll swim in a warm swimming pool. I'll be St George's Swimming Pool new bully. Oh well, who cares?
Would you like to meet up some time next week?
Glad to hear about you getting on with the new job. Soon it won't be "new" anymore.
I'm fine, work's ok (better than yesterday so far) and life is "not too bad" (you English...)
I just came from Galore Cards and got a birthday card to my sis that (***censurado por motivos de SURPRESA maior***). She'll love it!
The house is ok, though the toilet is leaking and we all find it disgusting to try to fix it so we don't.
And this weekend I might try to swim with the wetsuit which I borrowed from my cousin Lucia, a very pathetic-like situation, as I'll swim in a warm swimming pool. I'll be St George's Swimming Pool new bully. Oh well, who cares?
Would you like to meet up some time next week?
ice, ice baby
Eu realmente viajei. Meu celular toca mais que homem em onibus lotado. A qualquer hora, mas especialmente no trabalho. E eu, que nao costumo ser “that tapada”, nao percebi. Mas ontem estourou: uma de minhas chefes me chamou num canto e disse que o celular tem que parar de tocar um pouco. Sim, porque obviamente todo mundo perde a concentracao se no meio das formulas do Excel comeca a tocar “Ice Ice Baby” (ringtone de que deveras me orgulho). Sim, ontem levei um PITO. Nada demais, mas o suficiente para me deixar desgostosa. Odeio, odeeeeeio levar bronca. Ta, eu sei que isso todo mundo odeia, mas tenho certeza de que odeio mais que a media. Fico o dia inteiro de mau humor, gosto ruim na boca, nao vendo a hora do tempo passar – e ele custa a passar.
Sendo assim, ladies and gents amados, quando resolverem me ligar, tentem acertar depois do trabalho, a partir das 17h (13h aih) ou na hora do almoço (umas 9h aih). Oquei? Oquei.
**
Finalmente eu e Chris resolvemos assumir nosso nao-namoro. Porque, nunca vi isso, foi um parto bem maior assumir que nao eramos mais namorados do que assumir que eramos. Geralmente eh o contrario.
Mas eu nao fiquei aliviada como achei que ficaria. Na verdade ainda nao sei se fiz bem. Claro que eu lembro do tanto que reclamei dele aqui no blog, para meus amigos e ateh para ele mesmo. Mas de repente nao sei. Ele foi tao fofo comigo no dia em que terminamos que no dia seguinte eu ja me vi mandando uma text message ridicula para ele: “I fucking miss you already”. Que historia eh essa? Um dia depois que consigo terminar um namoro que ja era faz tempo, em vez de me sentir aliviada, solto essa batatada. Fora que logo depois esqueci que tinha mandado. Foi puro impulso de crappy day. Estava bem mais ou menos no onibus, ao encontro de Marinella e Ernesto. Mas aih foi. Soh que mais tarde ele me ligou e aih ficamos meio assim, sem saber o que falar. Eu nao quero zoar o cara, poxa. Sei que nao daremos certo. Mas fazer o que se ele faz falta agora? Faz. Como as ruas de Sampa, estou com o coracao esburacado de tanta chuva. O Chris foi o coitado do prefeito que sofreu impeachment mas que periga voltar por falta de novo lider no governo.
Tenho coracao de criança, que precisa ser embalado. Em duas semanas e 6 dias alguem bem amado deve estar por aqui para tentar dar um jeito nisso.
Enquanto isso, estou toda almofadada pelas minhas amadas Fruba & Bobby. Deus foi um megafofo ao por essas criaturinhas dentro da minha vida.
Sendo assim, ladies and gents amados, quando resolverem me ligar, tentem acertar depois do trabalho, a partir das 17h (13h aih) ou na hora do almoço (umas 9h aih). Oquei? Oquei.
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Finalmente eu e Chris resolvemos assumir nosso nao-namoro. Porque, nunca vi isso, foi um parto bem maior assumir que nao eramos mais namorados do que assumir que eramos. Geralmente eh o contrario.
Mas eu nao fiquei aliviada como achei que ficaria. Na verdade ainda nao sei se fiz bem. Claro que eu lembro do tanto que reclamei dele aqui no blog, para meus amigos e ateh para ele mesmo. Mas de repente nao sei. Ele foi tao fofo comigo no dia em que terminamos que no dia seguinte eu ja me vi mandando uma text message ridicula para ele: “I fucking miss you already”. Que historia eh essa? Um dia depois que consigo terminar um namoro que ja era faz tempo, em vez de me sentir aliviada, solto essa batatada. Fora que logo depois esqueci que tinha mandado. Foi puro impulso de crappy day. Estava bem mais ou menos no onibus, ao encontro de Marinella e Ernesto. Mas aih foi. Soh que mais tarde ele me ligou e aih ficamos meio assim, sem saber o que falar. Eu nao quero zoar o cara, poxa. Sei que nao daremos certo. Mas fazer o que se ele faz falta agora? Faz. Como as ruas de Sampa, estou com o coracao esburacado de tanta chuva. O Chris foi o coitado do prefeito que sofreu impeachment mas que periga voltar por falta de novo lider no governo.
Tenho coracao de criança, que precisa ser embalado. Em duas semanas e 6 dias alguem bem amado deve estar por aqui para tentar dar um jeito nisso.
Enquanto isso, estou toda almofadada pelas minhas amadas Fruba & Bobby. Deus foi um megafofo ao por essas criaturinhas dentro da minha vida.
Monday, March 28, 2005
hot or not?
Fazia, sei lá, 10 anos que eu não brincava de quente ou frio com ovo de páscoa Escondido pela casa. Era 10h da manhã de domingo e a Lucia, minha prima, surge pulando feliz na porta da cozinha – ela, que tem 34 anos, pula mais criança que eu. Todo mundo procurando ovos de páscoa naquela casinha de brinquedo do uncle Hans. Ir para Brighton nesta Páscoa foi a melhor coisa que fiz. O tempo estava lindo, como vocês podem ver pelas minhas fotos (vai ser na base do ctrl C ctrl V mesmo): http://pg.photos.yahoo.com/ph/jornalpuc/album?.dir=/9482&.src=ph&.tok=phripvCB7pKMIq5T
Brighton já está lotada e vibrante com o verão que ainda vai demorar um pouco, mas não tanto pra chegar. Cheguei a ver três pessoas no mar, nadando. Desconfio de que estavam se afogando, porque ninguém em sã consciência entraria num mar gelado daqueles. Mesmo. Eu, peixa que sou, fui até a água em minhas novíssimas havaianas amarelas trazidas pela amada Bobby do Brasil, para sentir a temperatura da água. O resultado foi que não senti porque estava tão, mas tããão gelada que em segundos meus dedos já nem se mexiam, congelados. Todos os ossos atingidos e adjacentes doendo, encolhidos, imóveis, horrível. Sem a menor, eu disse menor? Não, sem a mais ínfima microscópica chance de entrar na água. Incompreensível qualquer ser vivo que não as seagulls (português, pelamordedeus?) estar no mar se não fosse para se afogar.
Mas disso eu já sabia. Fui mesmo para cheirar o mar, ver, me hipnotizar. O mar, meu maior e mais sagrado templo. Cheguei cedo de propósito. Disse à Elaine, empregada do meu tio-avô, que só chegaria em Brighton às 18h, justamente para poder ficar horas a fio olhando o mar, ouvindo o mar, cheirando o mar, esperando ele me lavar por dentro, esperando ele me curar. Logicamente fiquei apenas uma hora em Brighton e já me estressei. Muito cheio. Aquela merda de praia de pedras, sabe deus por quê, inspira marmanjos e velhotes (todos incondicionalmente do sexo masculino) a ficarem atirando pedrinhas dois ou três metros à frente, com o nobre propósito de não fazer absolutamente nada. Nem divertido é. Só atrapalha pessoas que, como eu, gostariam de relaxar, pensar, paz, paz, só um pouco de paz. Mas não. Aquele tec-terererec-tec-tec o tempo todo no canto dos meus ouvidos sempre me lembrando que a qualquer momento eu poderia levar uma pedrada na cabeça.
Fui para Rottingdean, então, que já é perto de casa e a praia é bem mais calma. Ali sim. Liguei meu iPod, o sol batendo leve, sem queimar, mas deixando tudo quentinho em volta de mim. Ainda teve uma família que se acocorou bem do meu lado com três menininhas baxtant espuletas e gritonas. Mas relevei porque em 10 minutos elas saíram correndo para espantar gaivotas.
O sol ainda estava relativamente alto quando resolvi desmontar barraca. Peguei tudo, uma caminhada de meia hora com mala e cuia (de onde veio a cuia dessa expressão? Coisa mais feia!) morro acima. Cheguei, Elaine já me esperava. Tudo certo, Elaine se vai. Termino de ler o livro que comecei naquele mesmo dia, Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante, da Clarah, que Piu mais amada do mundo me deu. Comecei outro, Amestrando Orgasmos, do Ruy Castro, que Bobbynha me trouxe do Brasil para meu aniversário.
Dia seguinte já tinha destino programado na minha cabeça. Todas as vezes que fui pra Brighton fiquei restrita ao circuito Brighton-Rottingdean-Ovingdean. Dessa vez resolvi aproveitar o dia para o outro lado, e descobri várias vilinhas (Seaford, Peacehaven, Newhaven, Saltdean), e a bela Eastbourne, onde gastei mais tempo. Mais praia (para ver, ouvir e cheirar) e de quebra comprinhas necessárias: aniversário de Piu à frente; aniversário de Bobby atrás. Desodorante que tinha esquecido de levar. E algumas comprinhas desnecessárias também. Ugh. Mês pesadim esse, viu? Em todos os aspectos, inclusive no financeiro.
Cheguei em casa, esperei, esperei, esperei uncle Hans chegar. Ele demorou um pouco e adormeci na sala. Do nada. Isso é muito estranho. Quem me conhece sabe que eu não sou disso, a não ser sob efeito das *dorgas* - e esse não foi o caso. Mas chegaram. E depois chegou a Lucia com seu namorado Neil. Uma família pouco original a minha, hehehe… Uma odiável piada interna, liga não.
Todos reunidos, gostoso, quentinho. Dia seguinte, domingo de Páscoa, me vi num dilemma. Queria passar a Páscoa com tio Hans. Isso era minha prioridade. Mas aí a família resolveu se separar. Odile e tio Hans foram ao cemitério visitar o túmulo da falecida esposa do meu tio e de seu filho Andrew, marido de Odile. Enquanto isso, Lucia e Neil iam a um delicioso passeio até a praia, passando pelo windmill, marca registrada de Rottingdean. Fiquei entre o dever e o querer, e optei pelo querer. Minha terapeuta ficaria orgulhosa de mim, tenho certeza. Fui passear com Lucia e Neil. O Neil extremamente parecido com o Neal, marido da minha mãe que por sua vez – surprise, surprise – também se chama Lucia.
De lá reencontramos Odile e Hans para almoçar e aí chegou ao fim minha estadia em Brighton. Eu poderia ter ficado mais um dia, já que hoje (segunda) é feriado aqui. Mas eu tinha meus afazeres e queria nadar hoje também – menina aplicada, nadei sexta antes de viajar.
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Entrou o horário de verão aqui. A distância de horário em relação ao Brasil aumentou (agora são 4 horas), os dias estão mais adoráveis. Sol, juro. E dias que morrem às 19:30h. Tá começando a ficar bom de novo. Benzadeus, achei que nunca mais.
**
Bobbynha voltou do Brasil. Com uma mala duas vezes seu peso, nem veio para casa: foi direto para a casa do John, já que lá a estação de metro tem elevador. O John está em Paris. Logo, Bobbynha sozinha por lá, sentindo falta da matracagem, saca o telefone e nem hesita: vem para cá, dorme aqui essa noite! E eu fui sem pestanejar. Saudades demais daquela guria. Ganhei dois pijamas, duas calcinhas, um par de havaianas e dois livros, sim, porque Bobby tem TOC e nem sabe, vem tudo aos pares. Tagarelamos até meia-noite. Nem vi o tempo passar. Contei as 72643238365874 de coisas que aconteceram. Ela, então, contou as 7836587653826520 de coisas dela. Imagino que quando nos encontrarmos no Brasil vai ser muito engraçado. Nos conhecemos aqui, construimos nossa vida juntas aqui, mas o país de origem das duas é estranho ao nosso relacionamento. Vai ser divertidíssimo, tenho certeza.
No dia seguinte ela iria a Paris, onde John está morando agora. Antes de partir, claro, Bobby é Bobby e fez despencar o estrado da cama (comigo em cima). Calma, nada do que mentes poluídas possam estar pensando. Ela resolveu subir na cama para fechar a persiana, que ficava do meu lado. A cama não agüentou sua delicadeza, despencou, gritamos, gargalhamos e ela nem percebeu que eu estava mais ou menos no formato de uma bengala, com os pés praticamente no chão. Consertamos e gargalhamos sob especulações típicas de Bobbuxa: “essa cama não era assim; quem será que o John anda comendo aqui?”
Ela voltou, ela voltou.
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Notícias piscinescas: hoje, pela primeira vez em 10 meses, resolvi cronometrar meu tempo em 800m, já que o triathlon das Singers se aproxima (o primeiro será em 12 de junho, em Oxford). Eu achei que faria bem mais feio. Não é nem perto do que um dia fiz, mas 13 cravados não decepcionam. Decepcionam?
Brighton já está lotada e vibrante com o verão que ainda vai demorar um pouco, mas não tanto pra chegar. Cheguei a ver três pessoas no mar, nadando. Desconfio de que estavam se afogando, porque ninguém em sã consciência entraria num mar gelado daqueles. Mesmo. Eu, peixa que sou, fui até a água em minhas novíssimas havaianas amarelas trazidas pela amada Bobby do Brasil, para sentir a temperatura da água. O resultado foi que não senti porque estava tão, mas tããão gelada que em segundos meus dedos já nem se mexiam, congelados. Todos os ossos atingidos e adjacentes doendo, encolhidos, imóveis, horrível. Sem a menor, eu disse menor? Não, sem a mais ínfima microscópica chance de entrar na água. Incompreensível qualquer ser vivo que não as seagulls (português, pelamordedeus?) estar no mar se não fosse para se afogar.
Mas disso eu já sabia. Fui mesmo para cheirar o mar, ver, me hipnotizar. O mar, meu maior e mais sagrado templo. Cheguei cedo de propósito. Disse à Elaine, empregada do meu tio-avô, que só chegaria em Brighton às 18h, justamente para poder ficar horas a fio olhando o mar, ouvindo o mar, cheirando o mar, esperando ele me lavar por dentro, esperando ele me curar. Logicamente fiquei apenas uma hora em Brighton e já me estressei. Muito cheio. Aquela merda de praia de pedras, sabe deus por quê, inspira marmanjos e velhotes (todos incondicionalmente do sexo masculino) a ficarem atirando pedrinhas dois ou três metros à frente, com o nobre propósito de não fazer absolutamente nada. Nem divertido é. Só atrapalha pessoas que, como eu, gostariam de relaxar, pensar, paz, paz, só um pouco de paz. Mas não. Aquele tec-terererec-tec-tec o tempo todo no canto dos meus ouvidos sempre me lembrando que a qualquer momento eu poderia levar uma pedrada na cabeça.
Fui para Rottingdean, então, que já é perto de casa e a praia é bem mais calma. Ali sim. Liguei meu iPod, o sol batendo leve, sem queimar, mas deixando tudo quentinho em volta de mim. Ainda teve uma família que se acocorou bem do meu lado com três menininhas baxtant espuletas e gritonas. Mas relevei porque em 10 minutos elas saíram correndo para espantar gaivotas.
O sol ainda estava relativamente alto quando resolvi desmontar barraca. Peguei tudo, uma caminhada de meia hora com mala e cuia (de onde veio a cuia dessa expressão? Coisa mais feia!) morro acima. Cheguei, Elaine já me esperava. Tudo certo, Elaine se vai. Termino de ler o livro que comecei naquele mesmo dia, Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante, da Clarah, que Piu mais amada do mundo me deu. Comecei outro, Amestrando Orgasmos, do Ruy Castro, que Bobbynha me trouxe do Brasil para meu aniversário.
Dia seguinte já tinha destino programado na minha cabeça. Todas as vezes que fui pra Brighton fiquei restrita ao circuito Brighton-Rottingdean-Ovingdean. Dessa vez resolvi aproveitar o dia para o outro lado, e descobri várias vilinhas (Seaford, Peacehaven, Newhaven, Saltdean), e a bela Eastbourne, onde gastei mais tempo. Mais praia (para ver, ouvir e cheirar) e de quebra comprinhas necessárias: aniversário de Piu à frente; aniversário de Bobby atrás. Desodorante que tinha esquecido de levar. E algumas comprinhas desnecessárias também. Ugh. Mês pesadim esse, viu? Em todos os aspectos, inclusive no financeiro.
Cheguei em casa, esperei, esperei, esperei uncle Hans chegar. Ele demorou um pouco e adormeci na sala. Do nada. Isso é muito estranho. Quem me conhece sabe que eu não sou disso, a não ser sob efeito das *dorgas* - e esse não foi o caso. Mas chegaram. E depois chegou a Lucia com seu namorado Neil. Uma família pouco original a minha, hehehe… Uma odiável piada interna, liga não.
Todos reunidos, gostoso, quentinho. Dia seguinte, domingo de Páscoa, me vi num dilemma. Queria passar a Páscoa com tio Hans. Isso era minha prioridade. Mas aí a família resolveu se separar. Odile e tio Hans foram ao cemitério visitar o túmulo da falecida esposa do meu tio e de seu filho Andrew, marido de Odile. Enquanto isso, Lucia e Neil iam a um delicioso passeio até a praia, passando pelo windmill, marca registrada de Rottingdean. Fiquei entre o dever e o querer, e optei pelo querer. Minha terapeuta ficaria orgulhosa de mim, tenho certeza. Fui passear com Lucia e Neil. O Neil extremamente parecido com o Neal, marido da minha mãe que por sua vez – surprise, surprise – também se chama Lucia.
De lá reencontramos Odile e Hans para almoçar e aí chegou ao fim minha estadia em Brighton. Eu poderia ter ficado mais um dia, já que hoje (segunda) é feriado aqui. Mas eu tinha meus afazeres e queria nadar hoje também – menina aplicada, nadei sexta antes de viajar.
**
Entrou o horário de verão aqui. A distância de horário em relação ao Brasil aumentou (agora são 4 horas), os dias estão mais adoráveis. Sol, juro. E dias que morrem às 19:30h. Tá começando a ficar bom de novo. Benzadeus, achei que nunca mais.
**
Bobbynha voltou do Brasil. Com uma mala duas vezes seu peso, nem veio para casa: foi direto para a casa do John, já que lá a estação de metro tem elevador. O John está em Paris. Logo, Bobbynha sozinha por lá, sentindo falta da matracagem, saca o telefone e nem hesita: vem para cá, dorme aqui essa noite! E eu fui sem pestanejar. Saudades demais daquela guria. Ganhei dois pijamas, duas calcinhas, um par de havaianas e dois livros, sim, porque Bobby tem TOC e nem sabe, vem tudo aos pares. Tagarelamos até meia-noite. Nem vi o tempo passar. Contei as 72643238365874 de coisas que aconteceram. Ela, então, contou as 7836587653826520 de coisas dela. Imagino que quando nos encontrarmos no Brasil vai ser muito engraçado. Nos conhecemos aqui, construimos nossa vida juntas aqui, mas o país de origem das duas é estranho ao nosso relacionamento. Vai ser divertidíssimo, tenho certeza.
No dia seguinte ela iria a Paris, onde John está morando agora. Antes de partir, claro, Bobby é Bobby e fez despencar o estrado da cama (comigo em cima). Calma, nada do que mentes poluídas possam estar pensando. Ela resolveu subir na cama para fechar a persiana, que ficava do meu lado. A cama não agüentou sua delicadeza, despencou, gritamos, gargalhamos e ela nem percebeu que eu estava mais ou menos no formato de uma bengala, com os pés praticamente no chão. Consertamos e gargalhamos sob especulações típicas de Bobbuxa: “essa cama não era assim; quem será que o John anda comendo aqui?”
Ela voltou, ela voltou.
**
Notícias piscinescas: hoje, pela primeira vez em 10 meses, resolvi cronometrar meu tempo em 800m, já que o triathlon das Singers se aproxima (o primeiro será em 12 de junho, em Oxford). Eu achei que faria bem mais feio. Não é nem perto do que um dia fiz, mas 13 cravados não decepcionam. Decepcionam?
Wednesday, March 23, 2005
ultimas
Olha soh, as coisas aos poucos melhoram. Aos poucos. Segunda-feira começou toda trocada, toda errada. Para começar, cai no chao. Assim mesmo, como nao acontecia a, sei la, quatro anos. Cai no chao. Na verdade rolei a escada. Dois degraus, o suficiente para estrupiar uma perna ja deveras estrupiada. Um tombo esquisito e desnecessario. Dois minutos para me recuperar. Ja estava atrasada para o trabalho quando, tudo pronto, nao acho meu ticket de onibus. Começo a escarafunchar a bolsa e em pouco tempo ja passo para o criado-mudo, bolso dos agasalhos, mesinha central da sala, cozinha, nada. Volto para a bolsa e ei-lo la, soberado, rindo malicioso. Saio ventando – dentro do possivel, mancando mais que compasso – para o ponto de onibus. Demora, demora, demora. Primeiro onibus passa reto. Lotado. Aqui tambem tem dessas coisas. Inacreditavel como uma manha pode ser tao cagada. Espera mais, mais, mais, outro onibus, dessa vez subivel.
Mas sabe-se la porque, Londres resolveu parar. Mandei um text message pra minha chefe, dizendo que atrasaria um pouco. No worries, ela disse. Cheguei no trabalho e entao finalmente as coisas começaram a normalizar.
Aa noite sai finalmente para conversar com o Chris. Foi outro parto para encontra-lo. Liguei dizendo que estava em Holborn Station esperando por ele. Ele saiu do trabalho ao meu encontro, mas me liga dez minutos depois dizendo que tinha se enganado e em vez de Holborn Station, tinha ido para Chancery Lane Station. Em seu power walk brit style, foi ate Holborn. Disse que estava na frente do Sainsbury. Fui ateh o Sainsbury e nao o achei. Liguei pra ele de novo, cheguei a trocar Sainsbury com Seinfeld (Eh serio. Eu disse: “no, no, I am in front of Seinfeld, where are you?”, para o qual ele soh respondeu: “what?!” naquele very british indeed way). De qualquer maneira, nao conseguia ve-lo. Combinamos de nos encontrar na saida 1 de Holborn Station entao. Quando chego la, descubro o que rolou... EU estava em Chancery Lane Station desde o começo, achando que estava em Holborn. Depois de rir sem parar – os britanicos nao entendem muito bem o que eh isso – combinei de ficar na saida 1 de Chancery Lane Station sem me mexer, quietinha.
Depois de uma hora do combinado, conseguimos nos encontrar. O desencontro todo na verdade ajudou a quebrar o gelo. Um desencontro que tornou bem melhor o encontro. Nao consegui fechar o livro. Ele foi extremamente doce, extremamente atencioso, extremamente namorado. E eu decidi que nao preciso decidir nada agora. Posso me dar esse luxo. Simplesmente desdecidir. Eu tinha dito que terminaria tudo e agora nao sei mais. Ainda quero terminar, acho que nao temos futuro juntos. Mas isso nao significa que tudo tem que terminar agora, se agora nao eh a melhor hora.
Ontem, um pouco melhor. Nao cai, nao perdi meu ticket, nao perdi o onibus. Encontrei Marinella depois do trabalho para mais um cineminha baaaasico. Dessa vez, Somersault, um filme aussie meio clichezento demais, mas bonitinho. Uma coisa meio modelo drogada revoltada adolescente foge de casa e vira hippie. Nao, ne?
Depois do filme fomos no Mac (porque eh o que ta dando pra gastar nesse fim de mes). Marinella eh uma companhia deliciosa.
No onibus de volta para casa, telefonema do Chris e da Fru. Nao estou tao sozinha afinal.
Mas hoje o dia promete ser lindo. Usei oculos escuros pela primeira vez em meses. Almocei com uma amiga de babae que me faz lembrar babae. E hoje, claro, chega minha amada Bobby. Como demorou! Vou enche-la de apertoes e mordidas. Nao vejo a hora de ouvir aquela matraquinha falar ateh eu adormecer.
A mareh baixando faz com que as coisas todas ja nao gritem tanto para mim. Antes, qualquer buzina era ensurdecedora, qualquer cor era fosforescente, qualquer tempero era forte demais, qualquer temperatura era a errada. Eu estava toda perola recem-saida da ostra. Cansou. Agora as coisas estao com um contorno mais real. A vida grita muito de qualquer maneira e isso foge ao nosso controle; se o ser humano nao fosse adaptavel, ja estariamos extintos.
Mas sabe-se la porque, Londres resolveu parar. Mandei um text message pra minha chefe, dizendo que atrasaria um pouco. No worries, ela disse. Cheguei no trabalho e entao finalmente as coisas começaram a normalizar.
Aa noite sai finalmente para conversar com o Chris. Foi outro parto para encontra-lo. Liguei dizendo que estava em Holborn Station esperando por ele. Ele saiu do trabalho ao meu encontro, mas me liga dez minutos depois dizendo que tinha se enganado e em vez de Holborn Station, tinha ido para Chancery Lane Station. Em seu power walk brit style, foi ate Holborn. Disse que estava na frente do Sainsbury. Fui ateh o Sainsbury e nao o achei. Liguei pra ele de novo, cheguei a trocar Sainsbury com Seinfeld (Eh serio. Eu disse: “no, no, I am in front of Seinfeld, where are you?”, para o qual ele soh respondeu: “what?!” naquele very british indeed way). De qualquer maneira, nao conseguia ve-lo. Combinamos de nos encontrar na saida 1 de Holborn Station entao. Quando chego la, descubro o que rolou... EU estava em Chancery Lane Station desde o começo, achando que estava em Holborn. Depois de rir sem parar – os britanicos nao entendem muito bem o que eh isso – combinei de ficar na saida 1 de Chancery Lane Station sem me mexer, quietinha.
Depois de uma hora do combinado, conseguimos nos encontrar. O desencontro todo na verdade ajudou a quebrar o gelo. Um desencontro que tornou bem melhor o encontro. Nao consegui fechar o livro. Ele foi extremamente doce, extremamente atencioso, extremamente namorado. E eu decidi que nao preciso decidir nada agora. Posso me dar esse luxo. Simplesmente desdecidir. Eu tinha dito que terminaria tudo e agora nao sei mais. Ainda quero terminar, acho que nao temos futuro juntos. Mas isso nao significa que tudo tem que terminar agora, se agora nao eh a melhor hora.
Ontem, um pouco melhor. Nao cai, nao perdi meu ticket, nao perdi o onibus. Encontrei Marinella depois do trabalho para mais um cineminha baaaasico. Dessa vez, Somersault, um filme aussie meio clichezento demais, mas bonitinho. Uma coisa meio modelo drogada revoltada adolescente foge de casa e vira hippie. Nao, ne?
Depois do filme fomos no Mac (porque eh o que ta dando pra gastar nesse fim de mes). Marinella eh uma companhia deliciosa.
No onibus de volta para casa, telefonema do Chris e da Fru. Nao estou tao sozinha afinal.
Mas hoje o dia promete ser lindo. Usei oculos escuros pela primeira vez em meses. Almocei com uma amiga de babae que me faz lembrar babae. E hoje, claro, chega minha amada Bobby. Como demorou! Vou enche-la de apertoes e mordidas. Nao vejo a hora de ouvir aquela matraquinha falar ateh eu adormecer.
A mareh baixando faz com que as coisas todas ja nao gritem tanto para mim. Antes, qualquer buzina era ensurdecedora, qualquer cor era fosforescente, qualquer tempero era forte demais, qualquer temperatura era a errada. Eu estava toda perola recem-saida da ostra. Cansou. Agora as coisas estao com um contorno mais real. A vida grita muito de qualquer maneira e isso foge ao nosso controle; se o ser humano nao fosse adaptavel, ja estariamos extintos.
Sunday, March 20, 2005
streets of London
Email mandado à Bobby anteontem:
Bobbuxa, minha amada, tens lido meu blog? Pois devia. Tem coisa de vc lá.
Inaceitável eu não ter te mandado um email ontem, no capricho. Queria te ligar, mas não tenho o número. Queria na verdade te abraçar muito e dizer, como vc me disse few months ago, “hoje o dia é seu, gata, fazeso que quiseres!” Queria também ter minha pequenina loirinha das bolasde gude no lugar dos olhos me olhando com ternura e me abraçando, e me dando apoio, porque, amiga, tá foda demais. Tudo se despedaçando na minha vida. Primeiro, a morte do meu avô (acho que vou escrever “a morte do meu avô” mais mil vezes e ainda assim vou achar que não sou eu quem está escrevendo, ou que logo mais acordo dessa merda de pesadelo), depois, termino o namoro (ou “dou um tempo”) com o Chris, e ontem recebo um email da minha “tia” dizendo que o uncle Hans, aquele fofuxo da ONU, irmão do meu vô que morreu (ai, de novo), está no hospital. Vomitando sangue. Não bebe nem come nada. Vou pra Brighton visitá-lo no domingo.
Uma vida de cabeça para baixo. Um quebra-cabeça com as peças trocadas, uma cidade inteira de ruas sem saída. É assim que está minha vida. Tive um proto-ataque (essa é nova) de pânico no sábado, foi horrível. Essa noite sonhei que estava tendo outro ataque. Bobbynha, você não sabe a falta que me faz. Tô parecendo uma apaixonada, mas vc não tem idéia de como o quarto está grande sem você! A casa silenciosa, os filmes que assistimos transcorrem inteirinhos sem interrupção. Really boring.
Mas tudo bem, tudo bem, fico aqui mentalizando que vc já tá chegando (outro trecho apaixonado, hahaha) e que poderemos comemorar seu niver londrinamente. Hoje foi o dia mais quente do ano. Chegou a 20 graus. Pessoas sentadas no lado de fora dos pubs, calor mesmo. Inacreditável. Londres está toda quente para sua volta, minha amiga!
Não vejo a hora. Adorei as novidades todas. Vc deve estar sendo uuuultramimada pelo seu Alberto. Faz bem ele. Alguém tem que me substituir.
Amiga linda, parabéns pelos seus 25 anos (eu sei, eu sei, mas é negar até a morte), você, como sabes, é a irmã do meio. Não é a posição mais divertida, mas pelo menos você aprendeu antes que viver nem sempre é legal. Eu aprendo um pouquinho aqui, um pouquinho ali. Um poquinho agora. Mas vai passar.
Parabéns minha amada preferida. Poderia continuar batucando aqui no teclado por horas a fio, vc sabe, as palavras nunca se esgotam e, pior, nunca são suficientes. Tenho mil coisas embotadas que precisam desabrochar. Volta logo pra me ajudar.
Te amo.
Beijos mil,
Bibi.
**
Acabei a faxina, estou quase pronta para nadar novamente. O sol parou de brilhar, claro, vivo em Londres agora, must remember.
Ouvindo, neste exato mmomento Streets of London, uma das melhores de Sinead O’Connor. How can you tell me you’re lonely, and safer here, the sun won’t shine? Let me take you by the hand and lead through the streets of London, I’ll show you something to make your change your mind.
Novamente sozinha. Bobby ainda longe, Fru foi para a França esquiar. Ando sem fome, mas nada preocupante – como sempre. Pelo contrário, estou começando a perder o excesso que ganhei quando comecei a ser responsável pelas comidas que compro.
Amanhã devo encontrar com o Chris. É o primeiro dia de trabalho dele, último do relacionamento. Andei pensando, conversei com algumas pessoas a respeito, Piu, Fru, Julinho, Maureen (a fofa da minha chefe), Tatyana (que senta ao meu lado no trabalho) e outras. Ninguém emitiu opinião concreta, mas a soma dos conselhos que recebi e dos que eu mesma me dei me levaram à decisão.
**
Semana curta. Sexta e segunda não trabalho. Com uma forcinha de Iemanjá (será que ela viaja tão longe?) pegarei praia e sol em Brighton. Mar no máximo para as pontinhas dos dedinhos do pé.
**
Decidi hoje, lavando louça: escrever não é a arte de falar mentira fazendo-a passar por verdade, mas de falar verdades camufladas de mentira.
**
Ainda contando com o tempo-tempo-mano-véio para acordar a cada dia com menos dificuldade de entender que acordei, e não que comecei a sonhar. Falta um tanto ainda, eu sei.
Bobbuxa, minha amada, tens lido meu blog? Pois devia. Tem coisa de vc lá.
Inaceitável eu não ter te mandado um email ontem, no capricho. Queria te ligar, mas não tenho o número. Queria na verdade te abraçar muito e dizer, como vc me disse few months ago, “hoje o dia é seu, gata, fazeso que quiseres!” Queria também ter minha pequenina loirinha das bolasde gude no lugar dos olhos me olhando com ternura e me abraçando, e me dando apoio, porque, amiga, tá foda demais. Tudo se despedaçando na minha vida. Primeiro, a morte do meu avô (acho que vou escrever “a morte do meu avô” mais mil vezes e ainda assim vou achar que não sou eu quem está escrevendo, ou que logo mais acordo dessa merda de pesadelo), depois, termino o namoro (ou “dou um tempo”) com o Chris, e ontem recebo um email da minha “tia” dizendo que o uncle Hans, aquele fofuxo da ONU, irmão do meu vô que morreu (ai, de novo), está no hospital. Vomitando sangue. Não bebe nem come nada. Vou pra Brighton visitá-lo no domingo.
Uma vida de cabeça para baixo. Um quebra-cabeça com as peças trocadas, uma cidade inteira de ruas sem saída. É assim que está minha vida. Tive um proto-ataque (essa é nova) de pânico no sábado, foi horrível. Essa noite sonhei que estava tendo outro ataque. Bobbynha, você não sabe a falta que me faz. Tô parecendo uma apaixonada, mas vc não tem idéia de como o quarto está grande sem você! A casa silenciosa, os filmes que assistimos transcorrem inteirinhos sem interrupção. Really boring.
Mas tudo bem, tudo bem, fico aqui mentalizando que vc já tá chegando (outro trecho apaixonado, hahaha) e que poderemos comemorar seu niver londrinamente. Hoje foi o dia mais quente do ano. Chegou a 20 graus. Pessoas sentadas no lado de fora dos pubs, calor mesmo. Inacreditável. Londres está toda quente para sua volta, minha amiga!
Não vejo a hora. Adorei as novidades todas. Vc deve estar sendo uuuultramimada pelo seu Alberto. Faz bem ele. Alguém tem que me substituir.
Amiga linda, parabéns pelos seus 25 anos (eu sei, eu sei, mas é negar até a morte), você, como sabes, é a irmã do meio. Não é a posição mais divertida, mas pelo menos você aprendeu antes que viver nem sempre é legal. Eu aprendo um pouquinho aqui, um pouquinho ali. Um poquinho agora. Mas vai passar.
Parabéns minha amada preferida. Poderia continuar batucando aqui no teclado por horas a fio, vc sabe, as palavras nunca se esgotam e, pior, nunca são suficientes. Tenho mil coisas embotadas que precisam desabrochar. Volta logo pra me ajudar.
Te amo.
Beijos mil,
Bibi.
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Acabei a faxina, estou quase pronta para nadar novamente. O sol parou de brilhar, claro, vivo em Londres agora, must remember.
Ouvindo, neste exato mmomento Streets of London, uma das melhores de Sinead O’Connor. How can you tell me you’re lonely, and safer here, the sun won’t shine? Let me take you by the hand and lead through the streets of London, I’ll show you something to make your change your mind.
Novamente sozinha. Bobby ainda longe, Fru foi para a França esquiar. Ando sem fome, mas nada preocupante – como sempre. Pelo contrário, estou começando a perder o excesso que ganhei quando comecei a ser responsável pelas comidas que compro.
Amanhã devo encontrar com o Chris. É o primeiro dia de trabalho dele, último do relacionamento. Andei pensando, conversei com algumas pessoas a respeito, Piu, Fru, Julinho, Maureen (a fofa da minha chefe), Tatyana (que senta ao meu lado no trabalho) e outras. Ninguém emitiu opinião concreta, mas a soma dos conselhos que recebi e dos que eu mesma me dei me levaram à decisão.
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Semana curta. Sexta e segunda não trabalho. Com uma forcinha de Iemanjá (será que ela viaja tão longe?) pegarei praia e sol em Brighton. Mar no máximo para as pontinhas dos dedinhos do pé.
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Decidi hoje, lavando louça: escrever não é a arte de falar mentira fazendo-a passar por verdade, mas de falar verdades camufladas de mentira.
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Ainda contando com o tempo-tempo-mano-véio para acordar a cada dia com menos dificuldade de entender que acordei, e não que comecei a sonhar. Falta um tanto ainda, eu sei.
Saturday, March 19, 2005
hoje eu recebi esse email
A idéia: fazer valer minha presença nesse negócio de Orkut; conhecer alguém decente que nunca, nem fodendo, trombaria comigo pessoalmente-assim-do-nada -- porque o destino é um cretino que só coloca gente tosca no meu caminho.
A ressalva: não dava pra imaginar conseguir alguma coisa assim em qualquer buraco. A comunidade Nova Literatura Brasileira me pareceu razoável pra começar as buscas. Esse nome, sei lá, me faz lembrar de uma gente boa, despirocada; me remete ao Mirisola, à Lady Averbuck, ao Bernardo Carvalho, ao Ruffato... Quem gostasse e conhecesse e pudesse falar comigo sobre esse povo obviamente tinha um tempero. Um quê.
Você, Bia, estava lá. Em destaque. O perfil do rostozinho focando o nada, absolutamente completa. Seria uma imbecibilidade se não me apresentasse; se não pusesse minha carona feliz e veraneia pra dizer, e aí, pô, tímido como só eu; é que... não deu pra resistir.
Hoje eu até cheguei a acreditar que tudo uma hora vai voltar ao normal à medida que consegui ficar feliz com uma coisa assim, pequena. Dessas que justamente por serem pequenas nos deixam feliz. Hoje eu fui nadar, e nadei bem, e bastante, e e estava um sol delicioso, e fui passear na beira do Thames e acabei deitando num banco com meu iPod na mão e meu celular na barriga, graças a Deus tocando sem parar. Um amado atrás do outro me ligando.
**
Primeiro acontecimento do dia: minha tia me liga de Brighton dizendo que meu tio avô - irmão do meu avô que faleceu - tinha saído do hospital. Isso mesmo: em apenas dois dias ele entrou no hospital vomitando sangue e já teve alta. 94 aninhos, aquele sem vergonha tem. O que alguém faz com tanta vida assim? Alguém eu não sei. Ele fez coisas que a maioria levaria 400 anos. Ele é meu orgulho por aqui. E quem o conhece e conhece toda a sua história, entende bem porquê. E passa a ficar orgulhoso só de o ter conhecido.
Mas ele foi forte. Imagino que a morte do irmão o tenha abalado, claro, apesar de ele me assegurar do contrário no telefone. Estou decidida e já combinei com minha tia: vou passar a Páscoa em Brighton, com ele e o resto da família.
**
Falta um mês e um dia para eu ver babãe de carne e osso, ao vivo e a cores (meio embaçado, claro, vai ser inevitável).
Voa, voa tempo...
A ressalva: não dava pra imaginar conseguir alguma coisa assim em qualquer buraco. A comunidade Nova Literatura Brasileira me pareceu razoável pra começar as buscas. Esse nome, sei lá, me faz lembrar de uma gente boa, despirocada; me remete ao Mirisola, à Lady Averbuck, ao Bernardo Carvalho, ao Ruffato... Quem gostasse e conhecesse e pudesse falar comigo sobre esse povo obviamente tinha um tempero. Um quê.
Você, Bia, estava lá. Em destaque. O perfil do rostozinho focando o nada, absolutamente completa. Seria uma imbecibilidade se não me apresentasse; se não pusesse minha carona feliz e veraneia pra dizer, e aí, pô, tímido como só eu; é que... não deu pra resistir.
Hoje eu até cheguei a acreditar que tudo uma hora vai voltar ao normal à medida que consegui ficar feliz com uma coisa assim, pequena. Dessas que justamente por serem pequenas nos deixam feliz. Hoje eu fui nadar, e nadei bem, e bastante, e e estava um sol delicioso, e fui passear na beira do Thames e acabei deitando num banco com meu iPod na mão e meu celular na barriga, graças a Deus tocando sem parar. Um amado atrás do outro me ligando.
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Primeiro acontecimento do dia: minha tia me liga de Brighton dizendo que meu tio avô - irmão do meu avô que faleceu - tinha saído do hospital. Isso mesmo: em apenas dois dias ele entrou no hospital vomitando sangue e já teve alta. 94 aninhos, aquele sem vergonha tem. O que alguém faz com tanta vida assim? Alguém eu não sei. Ele fez coisas que a maioria levaria 400 anos. Ele é meu orgulho por aqui. E quem o conhece e conhece toda a sua história, entende bem porquê. E passa a ficar orgulhoso só de o ter conhecido.
Mas ele foi forte. Imagino que a morte do irmão o tenha abalado, claro, apesar de ele me assegurar do contrário no telefone. Estou decidida e já combinei com minha tia: vou passar a Páscoa em Brighton, com ele e o resto da família.
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Falta um mês e um dia para eu ver babãe de carne e osso, ao vivo e a cores (meio embaçado, claro, vai ser inevitável).
Voa, voa tempo...
Wednesday, March 16, 2005
o tunel no fim da luz
Parece que finalmente estou entendendo que estou passando por um dos momentos mais delicados da minha vida. Já passei por zilhões de crises, fundadas e infundadas. Depressões, chiliques, you name it. Mas essa é a primeira vez que passo por uma crise em toda a sua complexidade. Uma crise que existe soberana. Apesar de muitos amados me lembrarem de que não estou sozinha o tempo todo, é difícil. É a primeira vez que minha vida está uma zona e eu tenho que arrumar a bagunça sozinha. E além de arrumar minha bagunça interna, tenho que arrumar a externa também. Toda uma vida que acontece dentro de mim, e outra fora de mim. E cismam em tentar me fazer entender de que são as mesmas, mas não me convencem, não me convencem.
A morte do meu avô, pelo incrível que pareça, ainda não está cimentada. Me pego de repente “lembrando” que realmente ele se foi e me dá uma vontade monstra de me jogar no chão e chorar. Aí passa uma criança loirinha, os cachinhos tonhonhoim, rebolando, bochechuda, na minha direção, e eu logo me esqueço, e lembro do quanto quero ter um filho, e o quanto preciso crescer ainda, e o quanto ao mesmo tempo já cresci. Gosto de pensar que meu avô, onde estiver, vai estar orgulhoso.
Mas voltando, estou passando por um dos momentos mais difíceis que já tive de encarar aqui. Claro que houve outros doídos, como o término do namoro, a sensação de urgência de sair da casa do meu tio por causa da bruxa, e mais um ou outro. Mas é a primeira vez que me bateu uma vontade quase instintiva de pegar um avião e voltar pro Brasil, nem que para me arrepender em uma semana. Aí lembro que estou sob contrato, que tenho contas a quitar, que, enfim, sou gente grande. E gosto de morar aqui.
O negócio é que, como sempre, as coisas embolaram. O término do namoro com o Chris teve um efeito maior do que eu esperava. Provavelmente porque estou fragilizada. Mas hoje me peguei ligando pra ele pra saber-como-vão-as-coisas e no final meio que podemos nos encontrar na sexta-feira. Ele tem uma entrevista de trabalho no Foreign Office, aliás, vaga que eu indiquei para ele. Ele tem chances. Já passou no primeiro pente-fino. Ele fala russo e francês fluentemente, e isso o coloca à frente de uma pá de candidatos. De qualquer forma, ele já está empregado e começa segunda-feira. Um trabalho semelhante ao que ele fazia na empresa em que trabalho – para quem pegou o bonde andando, foi ele quem me entrevistou para uma vaga na empresa.
O negócio é assim: não suporto a idéia de voltar a namorar com ele, mas também não suporto a idéia de ficar longe dele. Eu chamo isso de manha, mimo, ele me mimou, agora dependo um pouco disso. Eu, que aqui não recebo mimo algum. Antes do Chris, era mimada por outro cara fofésimo que durou alguns meses mas minguou – e hoje somos grandes amigos. E enquanto estive sozinha, tinha minhas doses de mimo com minhas amadas flatmates. Aliás, às vezes acho que essa crise só está sendo mesmo braba porque Bobbynha ainda está no Brasil. Esse tempo que não passa. Mas em uma semana ela volta (para viajar de novo, mas tuuuudo bem).
A única coisa que vai de vento em popa é o trabalho. Continuo curtindo muito, adoro minhas colegas e chefes, adoro o clima da empresa, adoro o que faço. Muitas vezes as jornadas são exaustivas, temos deadlines a cumprir, targets, além das tarefas diárias de praxe. Fora que estou aprendendo na marra (mesmo) a ser organizada. Não há a menor possibilidade de se dar bem no Marketing sem ser organizada. Eu tenho vários lapsos de memória, coisas como, puta merda, será que eu mandei o email pra fulana MESMO? Será que esqueci algo importantíssimo? Será que mudei as datas das cartas? Enfim, tudo vira um problema monstro quando temos mania de perfeição (não aquela que todo mundo tem; mania mesmo). Está sendo deveras importante passar por isso.
E a verdade é que, resumindo, não sobra oportunidade para ficar desesperada. Quando penso que a vida tá foda, que essa é a hora perfeita para me meter debaixo do cobertor em posição fetal, eu lembro que tem conta de luz, eletricidade, telefone, banda-larga, celular, gás, natação, council tax e, claro, o aluguel. Lembro que seres humanos também têm a estranha necessidade de se alimentar, de se limpar, de se dar um ou outro regalito. E que portanto viver é caro bagarái então preciso fazer valer meu ticket.
A morte do meu avô, pelo incrível que pareça, ainda não está cimentada. Me pego de repente “lembrando” que realmente ele se foi e me dá uma vontade monstra de me jogar no chão e chorar. Aí passa uma criança loirinha, os cachinhos tonhonhoim, rebolando, bochechuda, na minha direção, e eu logo me esqueço, e lembro do quanto quero ter um filho, e o quanto preciso crescer ainda, e o quanto ao mesmo tempo já cresci. Gosto de pensar que meu avô, onde estiver, vai estar orgulhoso.
Mas voltando, estou passando por um dos momentos mais difíceis que já tive de encarar aqui. Claro que houve outros doídos, como o término do namoro, a sensação de urgência de sair da casa do meu tio por causa da bruxa, e mais um ou outro. Mas é a primeira vez que me bateu uma vontade quase instintiva de pegar um avião e voltar pro Brasil, nem que para me arrepender em uma semana. Aí lembro que estou sob contrato, que tenho contas a quitar, que, enfim, sou gente grande. E gosto de morar aqui.
O negócio é que, como sempre, as coisas embolaram. O término do namoro com o Chris teve um efeito maior do que eu esperava. Provavelmente porque estou fragilizada. Mas hoje me peguei ligando pra ele pra saber-como-vão-as-coisas e no final meio que podemos nos encontrar na sexta-feira. Ele tem uma entrevista de trabalho no Foreign Office, aliás, vaga que eu indiquei para ele. Ele tem chances. Já passou no primeiro pente-fino. Ele fala russo e francês fluentemente, e isso o coloca à frente de uma pá de candidatos. De qualquer forma, ele já está empregado e começa segunda-feira. Um trabalho semelhante ao que ele fazia na empresa em que trabalho – para quem pegou o bonde andando, foi ele quem me entrevistou para uma vaga na empresa.
O negócio é assim: não suporto a idéia de voltar a namorar com ele, mas também não suporto a idéia de ficar longe dele. Eu chamo isso de manha, mimo, ele me mimou, agora dependo um pouco disso. Eu, que aqui não recebo mimo algum. Antes do Chris, era mimada por outro cara fofésimo que durou alguns meses mas minguou – e hoje somos grandes amigos. E enquanto estive sozinha, tinha minhas doses de mimo com minhas amadas flatmates. Aliás, às vezes acho que essa crise só está sendo mesmo braba porque Bobbynha ainda está no Brasil. Esse tempo que não passa. Mas em uma semana ela volta (para viajar de novo, mas tuuuudo bem).
A única coisa que vai de vento em popa é o trabalho. Continuo curtindo muito, adoro minhas colegas e chefes, adoro o clima da empresa, adoro o que faço. Muitas vezes as jornadas são exaustivas, temos deadlines a cumprir, targets, além das tarefas diárias de praxe. Fora que estou aprendendo na marra (mesmo) a ser organizada. Não há a menor possibilidade de se dar bem no Marketing sem ser organizada. Eu tenho vários lapsos de memória, coisas como, puta merda, será que eu mandei o email pra fulana MESMO? Será que esqueci algo importantíssimo? Será que mudei as datas das cartas? Enfim, tudo vira um problema monstro quando temos mania de perfeição (não aquela que todo mundo tem; mania mesmo). Está sendo deveras importante passar por isso.
E a verdade é que, resumindo, não sobra oportunidade para ficar desesperada. Quando penso que a vida tá foda, que essa é a hora perfeita para me meter debaixo do cobertor em posição fetal, eu lembro que tem conta de luz, eletricidade, telefone, banda-larga, celular, gás, natação, council tax e, claro, o aluguel. Lembro que seres humanos também têm a estranha necessidade de se alimentar, de se limpar, de se dar um ou outro regalito. E que portanto viver é caro bagarái então preciso fazer valer meu ticket.
Monday, March 14, 2005
antes soh
Saí do trabalho e fui direto pro médico. Terceira visita. Já comecei a perder a paciência. Uma fila imensa. Mil mulheres com mil véus para tapar a cara. Mil crianças com caras de adultas. Cheiro de suor de curry. O zoológico em sua forma mais humana. Ou uma sala de espera em sua forma mais zoológica. Finalmente entrei na fila para um ortopedista. Se eu tiver sorte, em duas semanas. Se tiver azar, só deus sabe.
Dia estranho também. Demorou uma meia hora depois que acordei para lembrar que tinha terminado com o Chris. Cheguei no trabalho e não resisti. Entrei no blog dele (cuja URL por razões óbvias não serão postadas) e senti um gelado. Eu não sabia que ele ficaria tão ressentido. Ele não me pareceu ressentido quando saiu daqui ontem. Esses ingleses sabem como ninguém como se robotizar. De qualquer maneira, ele sabe que eu entraria no blog dele uma hora ou outra. E se pensou que reagindo da forma furiosa com que reagiu ele vai me reconquistar ele apostou no cavalo azarão que continua sendo azarão. Sou do tipo que até toma – e às vezes precisa tomar – porrada, mas não no final. No final eu já não tô sensívedl a porrada. No final qualquer alfinetada não motiva mais que pena.
Um dia um pouco melhor esse. Falei no Messenger com pessoas amadas (sim, amadas). Ontem ainda recebi telefonema de dois brasileirinhos preciosos, Bathatha e Nickão.
A verdade é que estou chateada por ter machucado tanto o Chris. Juro que fiz tudo do jeito mais doce que sei fazer, mas tem horas que você pode ser quindim que cai azedo. Oh well, aí já foge do meu alcance, concordam?
Vou dormir. Chega. São 22h aqui e meus olhos já estão operando em meia fase.
Dia estranho também. Demorou uma meia hora depois que acordei para lembrar que tinha terminado com o Chris. Cheguei no trabalho e não resisti. Entrei no blog dele (cuja URL por razões óbvias não serão postadas) e senti um gelado. Eu não sabia que ele ficaria tão ressentido. Ele não me pareceu ressentido quando saiu daqui ontem. Esses ingleses sabem como ninguém como se robotizar. De qualquer maneira, ele sabe que eu entraria no blog dele uma hora ou outra. E se pensou que reagindo da forma furiosa com que reagiu ele vai me reconquistar ele apostou no cavalo azarão que continua sendo azarão. Sou do tipo que até toma – e às vezes precisa tomar – porrada, mas não no final. No final eu já não tô sensívedl a porrada. No final qualquer alfinetada não motiva mais que pena.
Um dia um pouco melhor esse. Falei no Messenger com pessoas amadas (sim, amadas). Ontem ainda recebi telefonema de dois brasileirinhos preciosos, Bathatha e Nickão.
A verdade é que estou chateada por ter machucado tanto o Chris. Juro que fiz tudo do jeito mais doce que sei fazer, mas tem horas que você pode ser quindim que cai azedo. Oh well, aí já foge do meu alcance, concordam?
Vou dormir. Chega. São 22h aqui e meus olhos já estão operando em meia fase.
Sunday, March 13, 2005
adendo
Excluam minha família de qualquer crítica que possa ter sido detectada no post abaixo. Essas, pessoas top amadas e preferidas, estão além de qualquer crítica e logicamente foram maravilhosas comigo. Me fez lembrar de toda a sorte que tenho. Passei na frente de um país inteiro na fila para escolher a família lá no céu.
Como escalar um poço sem alguém para jogar a cordinha
Diretamente do meu brinquedo lindo, informo que estou voltando ao trilho aos poucos.
Descarrilhada braba, acompanhada de uma certa decepção também. Pessoinhas que costumo citar como amadas e preferidas: quem está longe também sofre de luto. Acabo de descobrir e gostaria de dividir com vocês. Pode parecer estranho, mas chorei muito todos esses dias e ontem tive mais uma clássica ameaça de ataque de pânico. Nada com que já não esteja acostumada, certo? Errado. Uma pessoa jamais se acostuma à ataques de pânico. À tristeza, sim. Todo mundo conhece alguém viciado em tristeza. Mas mais uma vez, pessoinhas amadas e preferidas, este não é o meu caso.
Então, um lembretinho para esses amigos, para minhas pessoas preferidas e amadas manterem essa digna e rara posição: vocês fizeram falta. Não estavam lá quando precisei. Não se dignaram a ligar (por que achavam que eu preferia ficar “sozinha” na hora em que mais me senti sozinha? Por que ligar para Londres é difícil e caro e tem horários trocados? Por que é difícil ligar para alguém sabendo que a voz do outro lado do telefone não vai estgar vibrando?), um ou outro mandou email. A maioria dos que se comunicaram comigo aproveitou o “ensejo” quando entrei no Messenger para aproveitar que eu já tava lá mesmo e falar tudo aquilo que deveriam ter tomado a iniciativa de falar. De me reconfortar.
Foi-se. O tempo passou e não me venham com o ombro quando minha cabeça já é capaz de ficar parada sobre meu pescoço. Nada pior do que alguém vindo te dar toda a atenção quando na verdade toda essa atenção só teria tido valor se fosse na hora certa. E já não foi, no matter how hard you try now.
**
Estou comendo um iogurte de rhubarb (alguém sabe o que é isso???), vendo um documentario sobre filmes x-rated na BBC e ruminando o que fiz há apenas alguns minutos. Terminei com o Chris. Na verdade, pedi um tempo. E apesar de ter ficado num bode cão durante esse fim de semana (ele teve o dom de sair para “tomar um chá e fumar um cigarro” quando eu estava prestes a ter o ataque de pânico), confesso que não foi fácil. Odeio isso de machucar as pessoas. Já fui mais tranqüila em relação a isso, mas quando você lembra o quanto dói estar do outro lado, é bem cuzão ser tranqüilo.
De qualquer forma, ficamos de nos falar. Na verdade, eu fiquei de ligar. E vou ligar. Ao contrário da maioria dos caras que ficaram retidos no meu pente finíssimo. Ele foi e é especial. Mas de repente não vale o sacrifício dos fins de semana.
**
Rivotril correndo na veia depois de meses. Babei. E dormi como fazia tempo que não acontecia. Na verdade, menos que um ataque de pânico, tive tipo um acesso nervoso, tremedeira, choro compulsivo, enfim, um carnaval às plenas 3am de hoje. Inferno.
Mas passou. (Novamente, sem comiserações tardias, façavor.)
**
Você já viu Mar Adentro? Não? Trouxa…
Descarrilhada braba, acompanhada de uma certa decepção também. Pessoinhas que costumo citar como amadas e preferidas: quem está longe também sofre de luto. Acabo de descobrir e gostaria de dividir com vocês. Pode parecer estranho, mas chorei muito todos esses dias e ontem tive mais uma clássica ameaça de ataque de pânico. Nada com que já não esteja acostumada, certo? Errado. Uma pessoa jamais se acostuma à ataques de pânico. À tristeza, sim. Todo mundo conhece alguém viciado em tristeza. Mas mais uma vez, pessoinhas amadas e preferidas, este não é o meu caso.
Então, um lembretinho para esses amigos, para minhas pessoas preferidas e amadas manterem essa digna e rara posição: vocês fizeram falta. Não estavam lá quando precisei. Não se dignaram a ligar (por que achavam que eu preferia ficar “sozinha” na hora em que mais me senti sozinha? Por que ligar para Londres é difícil e caro e tem horários trocados? Por que é difícil ligar para alguém sabendo que a voz do outro lado do telefone não vai estgar vibrando?), um ou outro mandou email. A maioria dos que se comunicaram comigo aproveitou o “ensejo” quando entrei no Messenger para aproveitar que eu já tava lá mesmo e falar tudo aquilo que deveriam ter tomado a iniciativa de falar. De me reconfortar.
Foi-se. O tempo passou e não me venham com o ombro quando minha cabeça já é capaz de ficar parada sobre meu pescoço. Nada pior do que alguém vindo te dar toda a atenção quando na verdade toda essa atenção só teria tido valor se fosse na hora certa. E já não foi, no matter how hard you try now.
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Estou comendo um iogurte de rhubarb (alguém sabe o que é isso???), vendo um documentario sobre filmes x-rated na BBC e ruminando o que fiz há apenas alguns minutos. Terminei com o Chris. Na verdade, pedi um tempo. E apesar de ter ficado num bode cão durante esse fim de semana (ele teve o dom de sair para “tomar um chá e fumar um cigarro” quando eu estava prestes a ter o ataque de pânico), confesso que não foi fácil. Odeio isso de machucar as pessoas. Já fui mais tranqüila em relação a isso, mas quando você lembra o quanto dói estar do outro lado, é bem cuzão ser tranqüilo.
De qualquer forma, ficamos de nos falar. Na verdade, eu fiquei de ligar. E vou ligar. Ao contrário da maioria dos caras que ficaram retidos no meu pente finíssimo. Ele foi e é especial. Mas de repente não vale o sacrifício dos fins de semana.
**
Rivotril correndo na veia depois de meses. Babei. E dormi como fazia tempo que não acontecia. Na verdade, menos que um ataque de pânico, tive tipo um acesso nervoso, tremedeira, choro compulsivo, enfim, um carnaval às plenas 3am de hoje. Inferno.
Mas passou. (Novamente, sem comiserações tardias, façavor.)
**
Você já viu Mar Adentro? Não? Trouxa…
Tuesday, March 08, 2005
floco de neve
Lendo John Fante, outro dia, me emocionei. O avo do personagem de 1933 Was a Bad Year tinha morrido e ele tinha lido em algum lugar que quando uma pessoa morre, elas se transformam em flocos de neve. Uma imagem infantil, mas bonita. Uma imagem daquelas que mae conta para filho novo quando tem que se deparar com a morte pela primeira vez e precisa entender que a pessoa foi, mas continua no ar. Uma imagem daquelas para refletir as dores e tentar sentir menos dor. Principalmente porque nesse mesmo dia estava nevando aqui em Londres. E porque meu avo ja estava dormindo um dos seus ultimos sonos vivos.
Chorei um pouquinho ao ler o trecho. Nao era para ser um trecho emocionante at all, mas foi tao certo no contexto que nao tive como nao olhar para a neve caindo tao silenciosa, tao serena, e nao pensar que em breve ela seria para mim a partida do meu avo.
Oito de março, hoje, o dia em que recebi um telefonema da minha Piu com a voz macia, macia. Um macio que doi. Macio que amacia antes da queda. Minha pergunta foi soh para tornar tudo mais facil para ela.
Ai, Piu, ele morreu?
Morreu, Bi.
Um longo silencio, metade quentinho, metade gelado. A voz dela estava calma. Estranhamente calma. Nao aa toa horas depois me ligou aos prantos. Tudo voltando aa sua cabecinha linda e forte. O quentinho de quase alivio, porque toda vez que o telefone tocava eu morria um pouco. E gelado porque ainda eh dificil acreditar. Eh tudo muito surreal. Estar aqui, nao ter passado pelo processo de ve-lo no hospital, de ver a situaçao piorando, ainda me da sustos quando penso que nao tenho meu velhinho mais ao meu alcance.
Sabe, minha familia eh pequena. Eu nao tenho muita gente proxima. Somos apenas eu, minha irma, meus pais e meus avos maternos. Soh. O resto da familia estah espalhada por ai (alguns por aqui). Mas o que considero familia eh soh isso mesmo. Tirar assim um pedacinho de uma familia tao pequena eh como morder uma migalha. Mas eh isso que nos faz forte. Saber que somos tao poucos e cuidamos tao bem de nos mesmos. O amor que sinto por cada pessoinha eh ridiculamente grande e concentrado. Tirar um deles de mim eh tirar dinheiro de pobre.
E ele entao se foi. Ha alguns anos, sentei para ouvir toda a sua historia. Foram uns 5 ou 6 encontros longos, cada um deles gravado numa fitinha daquelas de gravador amador. Tenho-as guardadas no Brasil, mas nao preciso recupera-las para cita-lo ipsis literis. Ele disse que apos a morte nao havia nada. Era apenas como dormir para sempre. Simples assim. Nao acreditava em outra vida, nem em ceu e inferno, nem em nada que tentasse embriagar uma mente cartesiana daquelas. Fechar os olhos e descansar. Nada mais empirico, comparar a morte com o sono porque sono eh uma mostra real a que os cientistas podem se prender. Meu avo, meu amado ser enrugadinho, meu xodo, nasceu e viveu cientista. Mas de repente, agora que estah lah para provar que a ciencia se mostrou insuficiente, ele nao vira poeta?
Chorei um pouquinho ao ler o trecho. Nao era para ser um trecho emocionante at all, mas foi tao certo no contexto que nao tive como nao olhar para a neve caindo tao silenciosa, tao serena, e nao pensar que em breve ela seria para mim a partida do meu avo.
Oito de março, hoje, o dia em que recebi um telefonema da minha Piu com a voz macia, macia. Um macio que doi. Macio que amacia antes da queda. Minha pergunta foi soh para tornar tudo mais facil para ela.
Ai, Piu, ele morreu?
Morreu, Bi.
Um longo silencio, metade quentinho, metade gelado. A voz dela estava calma. Estranhamente calma. Nao aa toa horas depois me ligou aos prantos. Tudo voltando aa sua cabecinha linda e forte. O quentinho de quase alivio, porque toda vez que o telefone tocava eu morria um pouco. E gelado porque ainda eh dificil acreditar. Eh tudo muito surreal. Estar aqui, nao ter passado pelo processo de ve-lo no hospital, de ver a situaçao piorando, ainda me da sustos quando penso que nao tenho meu velhinho mais ao meu alcance.
Sabe, minha familia eh pequena. Eu nao tenho muita gente proxima. Somos apenas eu, minha irma, meus pais e meus avos maternos. Soh. O resto da familia estah espalhada por ai (alguns por aqui). Mas o que considero familia eh soh isso mesmo. Tirar assim um pedacinho de uma familia tao pequena eh como morder uma migalha. Mas eh isso que nos faz forte. Saber que somos tao poucos e cuidamos tao bem de nos mesmos. O amor que sinto por cada pessoinha eh ridiculamente grande e concentrado. Tirar um deles de mim eh tirar dinheiro de pobre.
E ele entao se foi. Ha alguns anos, sentei para ouvir toda a sua historia. Foram uns 5 ou 6 encontros longos, cada um deles gravado numa fitinha daquelas de gravador amador. Tenho-as guardadas no Brasil, mas nao preciso recupera-las para cita-lo ipsis literis. Ele disse que apos a morte nao havia nada. Era apenas como dormir para sempre. Simples assim. Nao acreditava em outra vida, nem em ceu e inferno, nem em nada que tentasse embriagar uma mente cartesiana daquelas. Fechar os olhos e descansar. Nada mais empirico, comparar a morte com o sono porque sono eh uma mostra real a que os cientistas podem se prender. Meu avo, meu amado ser enrugadinho, meu xodo, nasceu e viveu cientista. Mas de repente, agora que estah lah para provar que a ciencia se mostrou insuficiente, ele nao vira poeta?
Friday, March 04, 2005
my million dollar grandpa
Ontem sai do trabalho e fui direto assistir Million Dollar Baby. Que grande merda eu fiz. Nao, o filme eh otimo, adorei, ateh ousei me sentir na pele da boxeadora por causa dos treinos exaustivos. Claro que eu me achei ao me sentir como ela, mas aconteceu. Aureos tempos de horas de treino diarias na nataçao.
A merda foi ter assistido agora, num periodo tao critico. Falei com babae ontem e recebi email de Piu e babai. Eles meio que combinaram de me contar tudo, nao esconder nada, mas ao mesmo tempo tentar mostrar que estao bem, que eh o ciclo natural da vida, que ele viveu coisas demais ja e que nao merece sofrer a essa altura. Eu concordo, claro. Concordo como um burrico que nao tem muito para onde ir numa estrada de terra que leva nada a lugar nenhum. Aquele concordar nao-tem-outro-jeito-mesmo. A verdade eh que ontem, apos o filme, a ficha finalmente começou a cair.
Voltei para casa em prantos, falando com o Chris no telefone, o onibus inteiro naquele silencio acolhedor, condescendente, ingles. O Chris falou tudo o que eu sabia mas precisava ouvir. Tambem conseguiu me fazer rir. Me fez prometer que ficaria bem. Me garantiu que almoçariamos juntos hoje, ouviu meus lamentos mais tolos, “I’m being selfish, I know! I’m horrible!”, “No, babe, you’re not being selfish at all. You’re suffering a loss, that’s all”, “Yeah, you’re right, I just wanted, you know?, to say goodbye to him”, “I know, babe, but try to think of him as he were when you left”. Enfim, quem me conhece sabe que eu sei ser um pain in the ass quando estou triste. Nao aceito conselhos, nao aceito palavras superfluas, nao aceito pena. Mas dele eu aceitei isso tudo. E e senti deliciosamente (dentro do possivel, claro) leve depois.
Cheguei em casa saltando as poças congeladas na rua. Encontrei Frufru, meu anjinho acolhedor. Me abraçou, me falou mais do mesmo, e eu adorei ouvir. Aquela pequena me faz bem.
Dormi cedo porque tenho tido que acordar cedo esses dias, tenho que telefonar para a Asia e la eh final de expediente quando aqui o galo ainda nem cantou. Ninguem merece o sotaque tailandes. O vietnamita tambem eh duro de encarar.
Mas tudo isso eh otimo porque me mantem ocupada. O Chris me perguntou se eu iria trabalhar hoje. Claro que sim, eu disse. Nao consigo nem pensar em passar por tudo isso em casa. Cabeça vazia, oficina do diabo. A Fru me perguntou se eu queria ir para o Brasil. Claro que nao, eu disse. Nao consigo imaginar a mistura grotesca que seria a profunda felicidade de encontrar as pessoas que mais amo na vida, com a profunda tristeza da iminencia de uma perda. Simplesmente nao combina. Nao cai bem. Pesa do estomago de todo mundo. E quem me conhece sabe bem o que acontece se meu estomago começa a reclamar.
Mas, meus amados, estou melhor. Hoje acordei inchada, olho fechadinho, sabe?, aquela cara de briguei-feio-com-meu-namorado-ontem-a-noite. Mas ja estou back on track. Muito trabalho, um fim de semana aa frente, amanha chega meu laptop, vou ver meu gatinho, vou me ocupar. E tentar pensar no meu velhinho mais amado com toda a ternura que houver neste mundo. E nao eh pouca. Eu amo aquele serzinho enrugado. E se ele morrer, nao vou deixar de ama-lo nem um cilio. Finally, slowly a ficha estah caindo. E isso eh tudo de que preciso. O resto nao estah a meu alcance.
A merda foi ter assistido agora, num periodo tao critico. Falei com babae ontem e recebi email de Piu e babai. Eles meio que combinaram de me contar tudo, nao esconder nada, mas ao mesmo tempo tentar mostrar que estao bem, que eh o ciclo natural da vida, que ele viveu coisas demais ja e que nao merece sofrer a essa altura. Eu concordo, claro. Concordo como um burrico que nao tem muito para onde ir numa estrada de terra que leva nada a lugar nenhum. Aquele concordar nao-tem-outro-jeito-mesmo. A verdade eh que ontem, apos o filme, a ficha finalmente começou a cair.
Voltei para casa em prantos, falando com o Chris no telefone, o onibus inteiro naquele silencio acolhedor, condescendente, ingles. O Chris falou tudo o que eu sabia mas precisava ouvir. Tambem conseguiu me fazer rir. Me fez prometer que ficaria bem. Me garantiu que almoçariamos juntos hoje, ouviu meus lamentos mais tolos, “I’m being selfish, I know! I’m horrible!”, “No, babe, you’re not being selfish at all. You’re suffering a loss, that’s all”, “Yeah, you’re right, I just wanted, you know?, to say goodbye to him”, “I know, babe, but try to think of him as he were when you left”. Enfim, quem me conhece sabe que eu sei ser um pain in the ass quando estou triste. Nao aceito conselhos, nao aceito palavras superfluas, nao aceito pena. Mas dele eu aceitei isso tudo. E e senti deliciosamente (dentro do possivel, claro) leve depois.
Cheguei em casa saltando as poças congeladas na rua. Encontrei Frufru, meu anjinho acolhedor. Me abraçou, me falou mais do mesmo, e eu adorei ouvir. Aquela pequena me faz bem.
Dormi cedo porque tenho tido que acordar cedo esses dias, tenho que telefonar para a Asia e la eh final de expediente quando aqui o galo ainda nem cantou. Ninguem merece o sotaque tailandes. O vietnamita tambem eh duro de encarar.
Mas tudo isso eh otimo porque me mantem ocupada. O Chris me perguntou se eu iria trabalhar hoje. Claro que sim, eu disse. Nao consigo nem pensar em passar por tudo isso em casa. Cabeça vazia, oficina do diabo. A Fru me perguntou se eu queria ir para o Brasil. Claro que nao, eu disse. Nao consigo imaginar a mistura grotesca que seria a profunda felicidade de encontrar as pessoas que mais amo na vida, com a profunda tristeza da iminencia de uma perda. Simplesmente nao combina. Nao cai bem. Pesa do estomago de todo mundo. E quem me conhece sabe bem o que acontece se meu estomago começa a reclamar.
Mas, meus amados, estou melhor. Hoje acordei inchada, olho fechadinho, sabe?, aquela cara de briguei-feio-com-meu-namorado-ontem-a-noite. Mas ja estou back on track. Muito trabalho, um fim de semana aa frente, amanha chega meu laptop, vou ver meu gatinho, vou me ocupar. E tentar pensar no meu velhinho mais amado com toda a ternura que houver neste mundo. E nao eh pouca. Eu amo aquele serzinho enrugado. E se ele morrer, nao vou deixar de ama-lo nem um cilio. Finally, slowly a ficha estah caindo. E isso eh tudo de que preciso. O resto nao estah a meu alcance.
Tuesday, March 01, 2005
pelo direito de nao desmoronar
Gribada de dovo. Que bosta. Nunca fui assim, e de repente em um mes peguei duas gripe. Palhaçada.
Atualizaçoes. Vou comprar um Mac. Powerbook, nada zero quilometro porque tenho medo do que eh novo. Usado. Pouco, mas usado. Por gente confiavel. Sabado ja estarei com o pequeno (ainda sem nome) em casa. Assim que me adaptar direitinho vou estar de volta ao fascinante mudo do MSN. Falar com pessoas queridas muito. Muito queridas e falar muito.
Acabo de fazer assinatura para broadband. Como tudo eh facil aqui... Ateh pegar gripe eh facil, facil.
Desacredito que em menos de dois meses vou estar me afofando com babae!!! Disse a ela agora pouco que nove meses eh tempo demais longe de quem me teve dentro de si por exatamente o mesmo tempo.
Logo mais faz nove meses que da terra brasilis me mandei. Passarinhos verdes me contaram que Bobby chorou compulsivamente quando aterrissou em Salvador, na semana passada, depois de um ano e pouco de Inglaterra. Tiveram que trazer lenços e tudo mais, parece. Ela eh assim. Quase trinta e chora de fazer bico.
Aqui, contrato assinado, entrevista para o National Insurance Number feita, agora eh soh esperar. Contrato com o landlord tambem foi assinado finalmente. Porque finalmente ele cumpriu o que prometeu. Tudo nos conformes.
Periodo de serenidade, apesar da turbulencia interna. Vovo ainda estah na UTI. Melhora daqui e piora de la. Falei com babae e Piu no telefone e as duas demonstraram uma certa perda de esperanças. Estando aqui, longe, nao podendo julgar, soh posso mesmo eh olhar atraves dos olhos delas. Seja o que for, estou pensando no meu velhinho, mandando minha energia positiva, mandando calma, tranquilidade, mandando ondas de amor para ele nao se sentir sozinho, mandando quentinhos para ele nao sentir frio, mandando minha alegria para que ele nao tenha medo. De ficar ou de ir.
Atualizaçoes. Vou comprar um Mac. Powerbook, nada zero quilometro porque tenho medo do que eh novo. Usado. Pouco, mas usado. Por gente confiavel. Sabado ja estarei com o pequeno (ainda sem nome) em casa. Assim que me adaptar direitinho vou estar de volta ao fascinante mudo do MSN. Falar com pessoas queridas muito. Muito queridas e falar muito.
Acabo de fazer assinatura para broadband. Como tudo eh facil aqui... Ateh pegar gripe eh facil, facil.
Desacredito que em menos de dois meses vou estar me afofando com babae!!! Disse a ela agora pouco que nove meses eh tempo demais longe de quem me teve dentro de si por exatamente o mesmo tempo.
Logo mais faz nove meses que da terra brasilis me mandei. Passarinhos verdes me contaram que Bobby chorou compulsivamente quando aterrissou em Salvador, na semana passada, depois de um ano e pouco de Inglaterra. Tiveram que trazer lenços e tudo mais, parece. Ela eh assim. Quase trinta e chora de fazer bico.
Aqui, contrato assinado, entrevista para o National Insurance Number feita, agora eh soh esperar. Contrato com o landlord tambem foi assinado finalmente. Porque finalmente ele cumpriu o que prometeu. Tudo nos conformes.
Periodo de serenidade, apesar da turbulencia interna. Vovo ainda estah na UTI. Melhora daqui e piora de la. Falei com babae e Piu no telefone e as duas demonstraram uma certa perda de esperanças. Estando aqui, longe, nao podendo julgar, soh posso mesmo eh olhar atraves dos olhos delas. Seja o que for, estou pensando no meu velhinho, mandando minha energia positiva, mandando calma, tranquilidade, mandando ondas de amor para ele nao se sentir sozinho, mandando quentinhos para ele nao sentir frio, mandando minha alegria para que ele nao tenha medo. De ficar ou de ir.
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