Lendo John Fante, outro dia, me emocionei. O avo do personagem de 1933 Was a Bad Year tinha morrido e ele tinha lido em algum lugar que quando uma pessoa morre, elas se transformam em flocos de neve. Uma imagem infantil, mas bonita. Uma imagem daquelas que mae conta para filho novo quando tem que se deparar com a morte pela primeira vez e precisa entender que a pessoa foi, mas continua no ar. Uma imagem daquelas para refletir as dores e tentar sentir menos dor. Principalmente porque nesse mesmo dia estava nevando aqui em Londres. E porque meu avo ja estava dormindo um dos seus ultimos sonos vivos.
Chorei um pouquinho ao ler o trecho. Nao era para ser um trecho emocionante at all, mas foi tao certo no contexto que nao tive como nao olhar para a neve caindo tao silenciosa, tao serena, e nao pensar que em breve ela seria para mim a partida do meu avo.
Oito de março, hoje, o dia em que recebi um telefonema da minha Piu com a voz macia, macia. Um macio que doi. Macio que amacia antes da queda. Minha pergunta foi soh para tornar tudo mais facil para ela.
Ai, Piu, ele morreu?
Morreu, Bi.
Um longo silencio, metade quentinho, metade gelado. A voz dela estava calma. Estranhamente calma. Nao aa toa horas depois me ligou aos prantos. Tudo voltando aa sua cabecinha linda e forte. O quentinho de quase alivio, porque toda vez que o telefone tocava eu morria um pouco. E gelado porque ainda eh dificil acreditar. Eh tudo muito surreal. Estar aqui, nao ter passado pelo processo de ve-lo no hospital, de ver a situaçao piorando, ainda me da sustos quando penso que nao tenho meu velhinho mais ao meu alcance.
Sabe, minha familia eh pequena. Eu nao tenho muita gente proxima. Somos apenas eu, minha irma, meus pais e meus avos maternos. Soh. O resto da familia estah espalhada por ai (alguns por aqui). Mas o que considero familia eh soh isso mesmo. Tirar assim um pedacinho de uma familia tao pequena eh como morder uma migalha. Mas eh isso que nos faz forte. Saber que somos tao poucos e cuidamos tao bem de nos mesmos. O amor que sinto por cada pessoinha eh ridiculamente grande e concentrado. Tirar um deles de mim eh tirar dinheiro de pobre.
E ele entao se foi. Ha alguns anos, sentei para ouvir toda a sua historia. Foram uns 5 ou 6 encontros longos, cada um deles gravado numa fitinha daquelas de gravador amador. Tenho-as guardadas no Brasil, mas nao preciso recupera-las para cita-lo ipsis literis. Ele disse que apos a morte nao havia nada. Era apenas como dormir para sempre. Simples assim. Nao acreditava em outra vida, nem em ceu e inferno, nem em nada que tentasse embriagar uma mente cartesiana daquelas. Fechar os olhos e descansar. Nada mais empirico, comparar a morte com o sono porque sono eh uma mostra real a que os cientistas podem se prender. Meu avo, meu amado ser enrugadinho, meu xodo, nasceu e viveu cientista. Mas de repente, agora que estah lah para provar que a ciencia se mostrou insuficiente, ele nao vira poeta?
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