Sunday, November 13, 2005

shadow boxer

Tenho por princípio nunca fechar portas, mas como mantê-las abertas o tempo todo se em certos dias o vento quer derrubar tudo?

Está ficando muito frio. Hoje senti falta de gorro, minha orelha quase congelou quando resolvi passear por Leicester Square depois do trabalho. Eu até queria estar com alguém ao lado, mas tenho certeza de que não seria boa companhia. Aliás, não seria companhia. Não tava a fim de falar, de sorrir, de interjeitar. Nem de ouvir, o mais inofensivo dos atos. Nem isso. Mas aí, andando em meio àquele mundo de gente, fui parar no Soho, a única parte de Londres, ao lado de Brixton, que realmente nunca dorme. Entrei numa loja, experimentei uma bota linda, mas só tinha tamanho grande demais ou pequeno demais. Saí, entrei na Soho Books, livraria de precinhos camaradas e artigos alternativos e uma loja de DVDs pornográficos no subsolo. Mas nada me chamou a atenção. Saí, ainda sem querer parar. Resolvi que precisava comer. Ali no Soho era meio complicado; mais capaz de eu ser comida.

Voltei para a civilização. Parei num pub que adoro. Aí pensei que era deprimente demais sentar sozinha e comer sozinha e olhar para o nada ou fingir que lia. Resolvi não entrar. E fiquei pensando, puta merda, como sou normal. Sou como qualquer outra dessas meninas que não querem ser vistas sozinhas, que não agüentam um olhar de piedade alheia mesmo quando sabem que não há nada de que sentir pena nelas. Apenas volúveis aos olhares de fora, de pessoas que nunca mais farão parte da sua vida a não ser naquele instante. Por que querer parecer algo para pessoas que jamais vão me ver de novo e, pior, na verdade nem estão prestando tanta atenção assim na minha condição de sozinha?

Continuei andando. Outro restaurante. Um vietnamita. Vontade de entrar. Passo reto. Vai que não é bom. Uma volta por fora em Leicester Square. Quanta gente andando na rua nesse frio. Será que as facas vêm de dentro mesmo? Eu achava que estava sendo furada pelo vento, mas talvez não. Quando minhas três camadas de roupas não são mais suficientes para me manterem nas condições normais de temperatura e pressão, e meu estômago ronca e minha bexiga aperta, resolvo parar. Um italiano ali, um rice and noodles, um Subway, um Pizza Hut. Rice and noodles. Arroz misto e frango agridoce numa caixa de papelão. “Eat in or take away?” Take away, respondi, quase ofendida. “No, no, sorry, eat in. Yes, eat in”. A atendente sorriu, quase complacente. Ela entende. Ou estava apenas sendo educada quando na verdade queria me chamar de stupid cow. Sentei num banquinho e comi. Peguei o celular. Ligo para a Piu. Nada. A Broo está com o papi dela que vai embora amanhã. Ernesto em Barcelona, Marinella em Amsterdã. Myriam sempre cheia das baladas. Chris. Ficamos de nos ver nesse fim de semana, certo? Certo. Liguei, chama e ninguém atende. Caixa postal. Não deixo recado. Acabo de comer, só então percebendo o rombo que havia no meu estômago. Mais um passeio pela praça. Paro no All Bar One para fazer xixi. Uma vontade imensa de ser segura o suficiente para ficar lá sozinha sem fechar a cara e o coração. Mas não consigo, pelo jeito. Não sou tão cool assim.

Faço xixi e vou embora. Minha Piu me liga. Falo com ela um tequinho, um tequinho antes de dar uma leve desmoronada em meu regime e comprar um waffle com sorvete do Ben & Jerry. Malditos todos os fabricantes de açúcar foda do planeta. Eu estava indo tão bem. Mas amanhã eu volto, prometo. Fui para casa para constatar, um ‘cadim mais, que meus queridos flatmates têm me irritado. Não sei explicar bem porquê. Irritaram sem fazer nada demais. Agora escrevo, fone nos ouvidos, eles estão deitados às minhas costas, vendo TV, inofensivos, cansados também, porque todos nós estamos sempre cansados mesmo quando acabamos de descansar. O fracasso do ser humano é deixar que o cansaço dite quando se deve descansar.

E me imaginando terminando de escrever isso aqui e indo ler meu livro na cama, ou respondendo um email, ou qualquer outra coisa que seja minha e só minha e que me deixe nesse meu autismo que tanto cultivo para depois escrever, aqui, reclamando.

Saturday, November 12, 2005

troca de guarda

Faltando ainda 38 dias para ir ao Brasil e eu me pego já pensando em cada momento, cada coisinha, desde o pouso do avião. até as pessoas me esperando no aeroporto, até a chegada em casa, o barulho da porta rangendo, o cheiro de feijão da Ligia, os cheiros, os cheiros. O calor, o mal-jeito jeitoso do brasileiro. Tudo. Acho que vou entrar em parafuso.

Enquanto isso, para tentar segurar a ansiedade (ficar nessas por mais 38 dias vai ser bastaaaante sofrido), penso na viagem da semana que vem. E penso que preciso resolver minhas pendências empregatícias logo. E penso que a idéia de mudar de casa vai ter que ser bem considerável nos próximos meses. E penso que dia 3 de dezembro vou para Brighton comemorar mais um aninho dos 95 que meu tio-avô viveu até hoje. Aquela coisa fofa.

Enfim, hoje foi mais um sábado de trabalho, amanhã mais um domingo de trabalho, e assim vou apagando, um a um, os fins de semana que não existiram em 2005. Ontem fui assistir a The Constant Gardener, o novo filme do Fernando Meirelles cujo nome em português ignoro. Achei muito bom, mas prefiri Cidade de Deus. Aliás, engraçadíssimo: estava saindo do cinema em Kilburn, na companhia da Broo (bem melhor que Bru, não?), Paulinha e Renata, quando vejo aquele poste com um chumaço branco no topo: uncle John! Uncle John e a Bruxa foram ver o mesmo filme, uma sessão mais tarde. Foi tudo bem rápido porque a bruxa da Bruxa estava ansiosa para entrar logo (isso porque aqui cinema tem cadeira marcada, mas enfim, bruxa é bruxa). Saindo do cinema fomos num pub-restaurante foférrimo, sugestão da Broo, que já foi uma Garota de Kilburn.

E aí dormi na casa da Broo e mais uma vez descobri que felicidade responde pelo nome de FUTON. Dormi como um anjo naquele futon duro e confortável. Preciso comprar um ou minhas costas vão morrer.

Agora estou aqui, insistindo para assistir a um filme que os meninos não querem assistir, eles, malditos monopolizadores da TV e do DVD e da Sky. Eu nunca peço porra nenhuma, porque nunca estou em casa ou acordada para ficar vendo programas. Quando peço, uma vez, uminha, para assistir a um filme, recebo um NAO e um olhar indignado, tipo, já-vimos-esse-filme.

Fodam-se. Vou ler e dormir que ganho mais.

Não, vou lutar pelos meus direitos de moradora dessa casa, malditos sacos de testosterona mal-conduzida. Vou lutar e depois conto como foi. Estou ficando de mau humor.

Wednesday, November 09, 2005

rápidas

* Estou de regime e agora é sério (tem que ser, tem que ser, não quero chegar no Brasil um balão).

* Eu e Bru já bookamos os albergues em que ficaremos. Daqui a uma semana voamos para Escócia. Hurrah!

* Aiai. Tô cansada, viu? Amanhã trabalho das 8am até 10:30pm. Sério.

* O trabalho de Kingston, tudo indica, vai rolar. Eu já comecei a achar que era lenda, mas a moça da agência disse que o chefão estava todo angustiado pensando que com a demora da papelada eu poderia desistir da vaga.

* Entreguei meu primeiro essay para o curso na Birkbeck. Eu gostei, apesar de não ter dado tempo de revisar.

* Ando de saco cheio do Mr. Suécia. Ele é meio tantan. E em dezembro teremos nova flatmate, uma alemã que parece ser bem legal. Ela vai ficar no lugar da sul-africana. Não ficarei em luto com a partida.

* Faltam 41 dias.

Friday, November 04, 2005

no chão

Essa noite dormi no chão. Me enchi o saco do colchão, arregacei um lençol e me mudei para o chão. Queria dormir no que fosse mais duro possível. Dormi feito anjo. E minhas costas estão melhor hoje. O negócio vai ser repetir a dose, até resolver comprar um colchão decente afinal.

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A sentença daquele lance do carro roubado finalmente saiu. Não poderia ter sido mais positiva, segundo meus advogados Ivan (oficial) e Thathá (especial). Fiquei muito feliz. Após dois anos na justiça, o caso foi finalmente julgado. Só que agora eles podem recorrer e aí são mais não sei quantos anos. Eles vão recorrer, obviamente. Quanto mais for possível usar do poder judiciário para postergar uma dívida (o bom e velho empurrando com a barriga), mais se fará uso disso. Babacas. Anyway, terão que pagar, uma hora ou outra. Não quero saber de onde vem o dinheiro, mas ele tem que vir. E virá.

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Quarta-feira fui com a Marinella num workshop chamado Landmark Forum. Já ouviram falar? Bom, resumindo, é um empresa que vende felicidade. Eles garantem que após três dias de curso intensivo, você será uma nova pessoa, capaz de resolver todo e cada problema da sua vida. Você será capaz de descobrir quem são realmente as pessoas que te cercam e quem é a pessoa mais importante na sua vida, você.

Na boa, se eu conseguir isso em três dias é capaz de ao final deles me sucidar. Pela estupidez de não ser capaz de descobrir em 25 anos o que completos estranhos desvelam em três dias. Ao preço de £300. Ótimas intenções, tenho certeza, mas thanks but no thanks.

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Daqui a pouco vou encontrar os queridos Marius e Steeeeeve, da BMI, antigo trampo, lembram? Marius, a bicha romena que eu adoro, Steeeeve, que ameaçou me roubar do Chris (na verdade eu ameacei largar do Chris por ele, ele não fez patavinas, do alto de seu topete cor-de-burro-quando-foge). Vai ser legal. E no fim de semana vou tentar dar um jeito de encontrar o Chris depois do trampo. Porque eu e ele não temos mais nada a ver, e exatamente por isso nada nos impede de encontros fortuitos e felizes.

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Ontem, Sam e eu, daydreaming na recepção da Cannons, resolvemos que ela vai comigo pro Brasil ano que vem e eu vou para Nova Zelândia e Hong Kong com ela. Ela é neo-zelandeza e hong-konguiana (como se chama quem vem de Hong Kong?). Uma fofa. Minha maior companhia no Cannons. Fofa demais. Tem até foto nossa na recepção da Cannons no meu álbum do Yahoo.

Mas foi só um daydreaming. Pouco depois ela disse que iria fazer bronzeamento artificial, mas que odiava aquelas cápsulas em que não se pode fazer nada, apenas existir na cápsula, e por isso ela conta. Conta, fica contando. Um, dois, três... Não é MUITO FOFO?

Vou sentir falta da Sam quando deixar a Cannons.

Wednesday, November 02, 2005

inscrições abertas

Venham, venham! Essa oportunidade é única. Estou anunciando espaços livres no meu coração. Não só no sentido amor carnal. Não. Esse não anuncio porque não garanto poder proporcionar. Anuncio vagas no estacionamento apenas. Estou aberta a ser legal com as pessoas, a deixá-las entrar na minha vida. Estou aberta a gostar. A fazer amigos. A poder passar com alguém(ns) o pouco do tempo que nos sobra - que parece muito tempo quando se está sozinha.

Estou me sentindo assim, completamente abandonada, cheia de tiradas e cometários que só faço pensar. Minha boca está atrofiando. Não falo mais português, estou realmente pensando mais em inglês que em português ultimamente. Como é que se pode ser uma pessoa complexa em duas línguas? Isso me faz duas vezes mais complexa que o resto do mundo, ou meia vez?

Isso realmente importa? No momento o que importa é que minha vida está ficando mais interessante. Não sou mais aquela pessoa resmungando que a vida foi filha da puta o ano todo, e que várias vezes pensei em dar um fim (à filhadaputagem, não à vida) a isso a meu bronco e estúpido modo. Mas não. Eu soube esperar. Eu soube me desesperar driblando o acelerador do meu coração. E minha vida começa a ter alguma cor, com dinheiro no bolso, novo emprego, ida ao Brasil, um curso legal. Só falta as pessoinhas para ocupar as vagas vazias. Falta com quem dividir isso tudo. Todo dia. Minha vida inteira me acostumei a falar da minha vida, mesmo quando não queria. Não dá para ficar sem isso de uma hora para a outra. As vagas estão abertas até eu dizer chega.

Tuesday, November 01, 2005

agora é oficial

Estou viciada em Su Doku.

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Dias lindos têm feito aqui. Daqueles de pendurar a roupa no varal de fora. Algo errado, muito errado. Eu finjo que não é comigo. Já basta a escuridão que é às 5pm. Que o sol e céu azul sejam eternos enquanto durem. Meteorologistas (catastrofistas?) estimam que este será o inverno mais frio dos últimos 40 anos. Bem possível que eu já tenha escrito isso aqui. Só lembrando. Mas eu não penso, não penso. Saio de casa de óculos escuros e guarda-chuva, just in case, just in case. Precaução é sobrevivência em Londres.

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Estou ficando realmente viciada em Su Doku.

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Estou ficando realmente irritada com meu colchão. Acho que vai ser o presente que vou me dar quando começar no novo trampo.

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Um mundo de saudades invade o mundo de verdades. Acho que a perspectiva de reencontrar meus amados todos faz com que eu me permita sentir saudades. Saudades que sempre estiveram aqui mas a que nunca pude dar vazão porque simplesmente, se desse vazão, eu voltava, ou morria, ou enlouquecia, qualquer coisa que eu não quero agora. Saudade só é dor boa de sentir quando está prestes a não ser mais. Que nem sauna. Sauna só é boa quando há um chuveiro gelado por perto.

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Vocês sabem o que é Su Doku? Nãããão? Pois pesquisem. Hoje vou trabalhar fazendo Su Doku no trem.

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Falei que ontem saí com o Chris antes do meu curso? E que ele está vindo morar em Canary Wharf? E que nos abraçamos muito e que foi bom? E que nos beijamos? Ahn, e que estou viciada em Su Doku?

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E o curso, o curso. Ensaio maldito. Comecei a pescar umas coisinhas já. Uma hora eu sento a bunda e sai tudo numa rajada (soou meio mal, mas deu para sacar). Comigo é assim. Se pá, hoje decido que jornal vou analisar. Estou entre o Daily Mail, o Daily Mirror e o Evening Standard. Me divirto à beça com os tablóides. Eles pecam pela obviedade. Vai ser fácil analisar a semiótica de um jornal que não esconde a que veio.

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Aiai. Estou cheia de amor para dar.

Monday, October 31, 2005

amanhã é 23

Vinte e três dias exatos que trabalho sem um dia de descanso. Seria muito mais, não fosse minha assertividade mais que vital para dizer não, ao menos uma vez, para o pessoal do trabalho. Estou aprendendo. Não só falei não, como "possovelmente nunca mais" para St. George's. Já avisei Cannons que em breve abandonarei o barco por lá também. Ainda preciso de uma dose de assertividade para falar para o Imperial College que valeu, mas não vai rolar dessa vez. E assumir novamente minha confortável posição de mono-trampo, nine-to-five, de que só reclama quem nunca trabalhou five-to-nine, am-pm. Acreditem, eu já. E não é tão legal e ainda assim me esforço para conseguir pagar o aluguel e as contas e o maldito cartão de crédito, meu contrato com o diabo. Graças ao cartão de crédito comprei meu iPod que me quebrou as pernas. Adoro ele, meu nano, mas foi deveras irresponsável comprá-lo. Só eu sei. Meda, pânica, horrora, desespera, socorra quando vi minha conta baixar a marca dos £100 este mês.

Mas tudo passou. Passou mesmo. E meu novo emprego deve me deixar bem mais, ahn, confortável. Paga mais do que eu jamais ganhei.

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Estou aqui now and then; assino como Bee S.

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Estou realmente penando um tequinho para fazer esse primeiro essay do curso da facul. Nunca imaginei que isso fosse acontecer, mas hoje serei uma dessas que ficam segurando o professor depois da aula para pedir ajuda particular. Céus, como sou mala. Entendo todos os preceitos, teorias, estou feliz da vida ao notar o universo semiótico se abrindo num sorriso para mim. Mas não adianta, esse semiotas (semióticos + idiotas) falam de comunicação para lá, comunicação para cá, mas o que menos fazem é comunicar. Incrível pensar que essa é uma disciplina fundamental a quem estuda comunicação. Mas sempre há quem ache bela a língua alemã só porque faz parte do seleto grupo dos que a dominam também. Ah, o gozo do conhecimento partilhado por poucos. No worries, eu também já tive muitas alegriazinhas assim. Aí passou.

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Preciso encerrar este post em breve. Vou me encontrar com o glorioso Chris. Ontem, assistindo Betty Blue na Sky, lembrei muito de nós dois em algumas cenas crássicas (crassas + clássicas) e na mesma hora ele ligou. Vai se mudar para Canary Wharf em uma semana. Vamos morar alguns minutos um do outro. Tipo uns 20 andando. Não vai prestar.

Mas vai ser legal.

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E quarta-feira vou com a Marinella num workshop e sexta vou almoçar com meus queridos Marius e Steve da BMI e, ufff, viram só como sou popular? Saudade de tanta gente... Nada melhor que se enganar com dois ou três minutos longe de qualquer realidade.

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Estou pensando seriamente em investir um pouco do dinheiro que não tenho num colchão novo. Minhas costas estão cada dia pior. Merda de landlord muquirana que comprou o colchão mais barato DO MUNDO para pôr na minha cama. Mongolóide.

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Hoje eu deveria ter pesquisado hotéis na Escócia e na Irlanda para mim e Bruninha, mas vai ficar para outro dia. Quase não consegui escrever no blog como havia me prometido. Nem adiantei meu essay porque NAO SEI POR ONDE COMEÇAR. Isso só me acontece em inglês mesmo.

Ouvindo The Dancer da PJ Harvey no repeat. Isso só pode ser sinal de inspiração. Vou ali ver o Chris e seguir direto pro meu curso.

Uninspired.

Wednesday, October 26, 2005

brainstorm

Vou tentar descrever para vocês como está meu cérebro, descivilizadamente:

Ai eu mereço essa viagem eu e Bru e talvez Paulinha e talvez outras pessoas mais sempre quis conhecer a Escócia e a Irlanda tickets comprados ainda bem será que vai dar tempo de tomar banho antes do trabalho acho bom dar porque ontem não tomei banho que medo de começar o novo trabalho será que vai rolar mesmo ou é mais uma pegadinha não posso esquecer de tomar Goody's enxaqueca bombando saco saco saco David Gray é mesmo muito legal amanhã é niver do meu Putão e eu estou aqui até convite pra festa o desgraçado me mandou ele me paga faltam menos de oito semanas para ir ao brasil sonhei que minha irmã também era salva-vidas essa noite e também que o Manager me agarrava coisa boa quisera eu ano novo vai ser em Duas Marias família sossego cheiro e comida de infância mami e Piu mato calor não sei se meeu coração agüenta tanta felicidade preciso lembrar de marcar dentista e ginecologista no Brasil o Chris ficou de me ligar no final dessa semana ele foi tão legal na última vez que nos falamos ele viu que eu não tava bem mas agora estou ele já devia ter se acostumado com a montanha russa que é estar ao meu lado tudo muda em uma semana e eu vou com a onda não tenho culpa o curso tá bem legal mas porra tenho que escrever um essay de 1,500 palavras para segunda-feira sem ser essa a outr 1,500 palavras é pouco para o tema que ele pediu análise semiótica dos jornais nunca pensei que fosse realmente REALMENTE entender semiótica sinto que aprendi uma nova língua ai quantos emails pra responder bobby me escreveu perguntado cadê eu mas eu escrevi perguntando cadê ela e mais uma vez não sabemos quem sumiu primeiro mas adorei mesmo o sonho com o Manager pena que vou abandoná-lo ou melhor falando abandonar a possibilidade eu certamente me divertiria com ele mas aquele lugar paga muito mal ninguém merece ainda preciso avisar o pessoal do Imperial College que o sim que eu disse é não não vou mais trabalhar com eles não vejo a hora de ganhar decentemente mas não vejo a hora de ter merecidos cinco dias de descanso na Escócia e Irlanda o que será que vou gostar mais Edimburgo Dublin sudoeste irlandês ou cork vai ser demais e sexta-feira trabalho num lugar em Covent Garden chamado The Sanctuary um spa todo posh e saio as três e de lá vou pra Cannons onde encontro com Bru e vamos nos esforçar merecidamente em nosso descanso ai spa sauna piscina ginástica uma aulinha de Pilates maybe qualquer coisa que quisermos é bom trabalhar lá também vou sentir falta se bem que quero continuar trabalhando ao menos uma vez por semana para poder usar a academia e a piscina depois do trabalho nem é fora de mão de repente eu trabalho de sábado e pronto caralho 11:22 se não for tomar banho agora não tomo mais não esquecer o goody's para enxaqueca pelo menos já me livrei de faxinar a cozinha.

Sunday, October 23, 2005

grito de dor feliz

Estou cansada. Dormi menos de sete horas nas últimas três noites; menos de oito nas últimas semanas. Estou cansada mas estou sorrindo. Meio xingando o mundo, mas eu sou assim, xinguenta, rabugenta. Ainda assim sorrindo. Um sorriso que é mais um rasgo na diagonal, mas ainda assim um sorriso. Torto de guerra. Sou uma puta guerreira, é isso que sou. Não paro porque não posso parar. Se parar, morro, tal qual uma guerreira. Nunca o termo foi tão bem aplicado. Me orgulho do peito ferido, do coração esmagado, das marcass de pneus nas minhas costas. Me orgulho das marcas de bota na bunda, das bolhas nesses pés que só fazem andar, dessas mãos que derrubam tudo, mas não desistem de levantar tudo o que derrubam.

Sinto-me perfeitamente confortável com olheiras e ombros duros. Meio assustador, porque se me pego sem fazer nada, a guerra começa na minha cabeça.

Hoje a Fru voltou para o Brasil, mas não sei se quero falar disso. Não sei se quero falar da pessoa que me foi mais importante aqui, junto com a Bobby. Não sei se quero lembrar o quanto rimos e choramos e ignoramos o silêncio juntas. Não sei se quero entender que estou mais sozinha ainda. Eu, que já vinha me sentindo cada vez mais sozinha. Não sei se quero guardar na memória nossos rosto contorcidos de choro de despedida. Sei que vou vê-la no Brasil em menos de dois meses, mas, ninguém vai entender, ela é parte de Londres para mim. Ela está aqui comigo desde meu terceiro mês por aqui. Ela indo embora equaliza Londres faltando um pedaço. Para mim, a vida aqui perdeu um pouquinho mais da graça. Que já não é mais a mesma anyway.

Olha, não me venham com papinho de que sou pessimista. Vem aqui pôr o cu na pimenta um tequinho para entender. Não tenho tempo para chorar.

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Estou querendo uns dias de luxo. Novidades mais concretas, quando a vontade se fizer concreta. E possível, for a change. Por enquanto, luxo é aquilo que posso ver sem tocar. Nem sempre foi assim. Sinal de que nem sempre será.

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Fui chamada para trabalho permanente no Imperial College. Eles estão inaugurando um novo centro esportivo do caralho, piscina semi-olímpica e pans, e eu faria um papel meio que de tudo: salva-vidas, recepcionista, supervisora esportiva, instrutora sabe deus do quê...

Eu disse sim.

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Então começo meu trampo novo no começo de dezembro. Até lá, muito trampo para pagar as contas. Quando o trampo novo começar, quero crer que minha vida vai entrar nos eixos. Vou ganhar relativamente bem.

De qualquer maneira, amanhã tenho entrevista em Kingston. A terceira. Palhaçada. Nem sei se quero mesmo. Vou por desencargo de consciência e para entender porque eles querem me ver pela terceira vez. Mas é isso. Não irei uma quarta vez, a não ser que seja para de fato trabalhar. Faz tempo que o mundo já não é mais uma criança carente pedindo dinheiro no farol e ganhando minha compaixão e meu bolso. Não dou nada de graça para o mundo se não houver a perspectiva de receber. E se recebo primeiro, dou um pouco de volta, e mais um pouco, e mais um pouco. De pouco em pouco, para me iludir com a idéia deliciosa de que o mundo sempre vai me dar e vez ou outra receber.

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Dia 18 foi aniversário do meu Hemingway. Ele me disse ao telefone, pouco antes de desligarmos: "Você escreve muito bem, né?" Acho que meu Hemingway não sabe o quanto isso significou para mim. Você, meu Hemingway, é uma das poucas pessoas para quem escrevo esse blog. A maioria apenas lê. Você, meu Hemingway, você recebe. Você sabe que é para você. Happy birthday, dear Hemingway. Quem sabe ano que vem não estarei na área para comemorarmos juntos?

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Sabem meu último post? Então. Na mesma noite sonhei com meu avô. Ele estava deitadinho, sereno, na cama do hospital. Eu, ao lado dele, segurando suas duas mãos com minhas duas mãos, um pavor de que qualquer parte dele escapasse por entre os dedos magros. Eu estava ali para me despedir. Dava um beijo em sua testa e saia. Ao lado de fora, uma excursão de crianças esperava para entrar no quarto também. Eu pensava, ufa, cheguei a tempo.

Obrigada, vovinho, por me deixar te dar adeus. Eu não sabia que você lia meu blog.

Sunday, October 16, 2005

floco de neve

Hoje meu avô faria 93 aninhos. Noventa e três aninhos se não tivesse partido alguns meses atrás, como leitores mais assíduos e mais memoriados hão de se lembrar.

Hoje tentei não pensar nisso para não deixar o dia pesado, mas todo mundo quis me lembrar. Todo mundo me perguntou que dia era hoje. Sixteenth of October. Eu tentava dizer da maneira mais vazia possível. Como se fosse apenas mais um dia como a maioria, mais um dia para carregar nas costas. Mas não é. Esse é o primeiro dia 16 de outubro em que não falo "feliz aniversário" para ninguém. É o primeiro 16 de outubro que me vem em gotas de saudade, uma saudade que sei que nunca irei saciar, por isso uma saudade serena e doída, saudade

Hoje meu velhinho faria noventa e três anos. Onde ele estiver, aqueles olhinhos cheios de história continuarão morando em mim. Quer ele queira, quer não. Eu só sinto muito e continuo sentindo muito por não ter podido me despedir. Sem a despedida, ainda fico meio perdida. Algumas vezes na última semana me deparei com a dúvida do que minha irmã poderia comprar para dar para meu avô em meu nome. Preciso entender de uma vez por todas que o que posso dar a ele não se compra e é bem mais precioso. Hoje, vovinho, te entrego meu pensamento. Todo ele foi seu. Todas as linhas que meus olhos correram lendo, vendo, piscando, não distraíram meu cérebro de você. Te dei minha saudade doce e doída de aniversário. Aceite, é de coração.

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Fim de semana besta, gripe besta. Em menos de uma semana a Fru volta pro Brasil. Acho que ainda não caiu a ficha. Não sei se quero que caia também. Dói. Cansei de doer.

Provavelmente nos veremos algumas vezes essa semana, antes do tchau derradeiro. E nem é um tchau tão sofrido por que nos veremos de novo em dois meses, no Brasil. Mas mesmo assim, ela sabe o papel importante que tem aqui dentro. Amiga que mora com a gente e continua amiga, é amiga pra vida inteira! Eu não tenho dúvidas de que minha pequena, apesar de todos os encalços, obstáculos, pedras no sapato e chiliques, é a minha pequena para sempre. Agora fodeu. Você sabe que pode cometer a maior cagada que uma amiga pode cometer e eu vou continuar te amando da mesma forma. Puta da vida, te xingando, chorando ou triste. Mas o amor é o mesmo. Sempre. Amo você. Amo tudo o que vivemos e passaria por tudo quantas vezes mais forem necessárias. E pediria desculpas mil vezes e aceitaria mil desculpas suas. Vale a pena passar pelo que for para te ter ao lado, all the way, ocupando o pódio do meu coração.

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Ontem assisti “Lucia e o Sexo” na TV. Na verdade, eu ia assistir “A Excêntrica Família de Antonia”, que havia gravado no Sky. Mas acabei deletando o filme sem saber direito porquê. De qualquer forma, valeu. “Lucia e o Sexo” é fabuloso. Roteiro incrível, diálogos bem bolados, trama contagiante e, claro, tema que nunca se esgota: sexo. Ou melhor, amor. Apesar de tantas cenas de sexo, esse é um filme, acima de tudo, sobre o amor.

Ontem, também, tive o primeiro encontro com um novo morador da casa: um rato. Ele me saudou passando correndo sobre meus pés descalços. Era um rato gelado. Fiquei apavorada. Não gritei nem nada, mas senti a adrenalina subindo minha espinha e meu pé se fechou numa bola que nem bailarina seria capaz. Subi correndo as escadas e me enfiei debaixo do meu edredon. Custei a dormir e pedi a Morfeu que me poupasse de sonhar com ratos, porque seria uma brincadeira de deveras mau gosto. Batizei o novo inquilino de Little Izac.

Tuesday, October 11, 2005

eu e o gato

Eu queria, juro que queria, poder dividir com vocês todos, amados leitores, lurkers e escancarados, conhecidos e desconhecidos, tudo o que se passa ao meu redor. Eu queria. Só para vocês verem que de fato minha vida é inundada por filmes. Geralmente os filmes são inundados por vidas, quero crer.

Mas eu não posso. Não posso expor tanta gente. Eu optei por ter um blog, não as pessoas que convivem comigo. Então não posso, não quero, não vou. Por isso uso pseudônimos, iniciais, nacionalidades, mil artimanhas. E por isso muitas vezes sou toda abstrata, um quadro de Miró. Você não entende nada, mas sabe que a Lua e a estrela estão lá, então só pode ser um quadro de Miró.

Aiai. Eu me comparando com Miró. O acinte. O fim.

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E outro dia estava andando pelas ruas de Mudchute. Devia ser 5:30h da manhã, eu estava indo pro trabalho - sim, sinta-se mal por reclamar do SEU trabalho - e no meio do delírio onírico que costumo ter a essa hora, vejo um gato. Não um gato qualquer. Um gato belo. Caramelo com um splash branco no focinho. Rabo bem peludo, empinado. Gato limpo. Coleira e tal. Na hora pensei que podia ser um gato perdido, sim, provavelmente era. Mas pensei que poderia ser apenas um gato tão domesticado que já ganhou a confiança do dono para deixá-lo passear por aí. Ou, mesmo que estivesse perdido, o que eu poderia fazer? Levar o gato para o trabalho? Deixá-lo afinado as garras na sauna seca? Pô-lo para correr na esteira? Desencanei.

Dia seguinte, num horário igualmente indigno, começo a caminhada de oito minutos até a estação de metrô e o que eu vejo? Não, não foi o gato. Foi uma placa pregada na árvore: Gato perdido, yadda yadda, dona sensível, yadda yadda, atende por Mr P., yadda yadda, é caramelo com splashes brancos, coleira e microchip. Me enfureci. Por que não puseram as placas no dia anterior? Se foderam, eu poderia ter feito a vida da dona sensível cor-de-rosa de novo. Segui andando para o metrô e pensando na ironia da história, na inversão temporal das coisas. Não fazia sentido. Chegando no metrô, o que eu vejo? Não, não foi o gato. Foi a dona pregando plaquinhas desesperadamente em tudo o que se projeto do chão. Caminhei até ela, uma senhora gorda, redonda mesmo, óculos, calça de moleton, nariz assado de gente deprimida. "Olha, minha senhora, eu vi seu gato passeando ontem por aquelas bandas ali, ó". Ela me olhou com um misto de esperança e ceticismo. Acho que não estava convencida de que eu tinha realmente visto o gato dela.

Aí fui embora. A história não saía da minha cabeça. Como pode? Apenas um dia e o gato que eu vi solto poderia estar de volta aos aconchegantes e gordos braços de quem lhe dava comida, bebida e cafuné.

Mais um dia se passa e na manhã seguinte lá vou eu, já na espera de ver a placa do gato, olhos atentos aos canteiros e arbustos, vai que eu via o gato de novo? Não tem gente que ganha mais de uma vez na lotto? Deve ter.

Eis que a placa não está lá. Foi arrancada. Todas as outras também. Para mim estava claro: haviam achado o gato. De fato, devem tê-lo achado. Fiquei feliz. Ao mesmo tempo, um vazio disputava espaço com a felicidade. Aquela era a MINHA história. EEEEU tinha visto o gato, EEEEU tinha encontrado a dona, EEEEU fui falar com ela. Como é que outra pessoa rouba o meu papel de anjo nessa história? Incrível. Eu e meu egoísmo. Mas acho que somos todos assim. Caridade nunca é só caridade. Se dando não se recebesse, seríamos cofres ancorados ao mar. Nada entra, nada sai. Eu, louca para fazer parte, louca para ser a agente da ativa dessa história, e por quê? Só para ser eu. Só para me redimir de tudo o que recebi sem autorização e resolvi não dar em troca.

Não funcionou. Quantos gatos precisam se perder para eu entender que o problema é que não é recebendo que se dá, mas é dando que se recebe? A verdade é que tenho medo de nunca receber. Acho que a vida me fez assim. Odeio esperar.

Friday, October 07, 2005

o fantástico mundo de Bobby

Qual a chance do dia ser uma merda quando a primeira coisa que leio é um email amado, amado, amado, de uma pessoa que eu levaria no bolso ou empoleirada no meu ombro para sempre se pudesse?

Oh, meu xuxu, se prepara pro abraco que eu vou te dar qdo nos vermos. Ontem eu contei pro John da briga que tivemos, e eu tentando ir pra cima da Bibi e ela me olhando quase rindo com uma cara de "fofa, voce ta delirando, eh so eu levantar meu braco que voce voa..."Ele quase chorou de rir. Eu disse que Bia eh Bia e sempre sera Bia. E que eu gosto da Bia, muito Bia, sempre Bia. Foi mais ou menos o que eu disse. Ele morreu de fofura e eu chorei.


Chance zero.

Monday, October 03, 2005

the only way is out

Você acredita no que eu escrevo? Pois não acredite. A partir de agora eu não acredito mais no que digo e penso. Tudo de que tenho certeza absoluta sempre vai ter um ponto de interrogação no final, daqui para frente, até eu aprender a me entender, me conhecer, saber quem sou e não quem gostaria de ser. É muito fácil fingir que sou o que gostaria de ser o tempo todo. Eu visto uma máscara (minha preferida é a de nada-me-abala-a-vida-é-uma-festa) e ela só cai quando a vida anda na minha direção, quando trombo com fatos que, na teoria, nem chegariam a ser fatos, tão insignificantes. Várias coisas disputam meu pensamento agora. Eu fico meio perdida, porque são pensamentos genuínos, a partir de coisas reais. Minha máscara está caindo e não aprendi a viver sem ela ainda. Tenho medo de chorar e a lágrima furar minha cara. Tenho medo de abraçar e quebrar os ossos. Tenho medo. Sou, enfim, uma pessoa como você. Uma vez uma leitora me disse que sonhou comigo e eu era uma espécie de Angelina Jolie naquele filme que ela era heroína de não me lembro o quê. Eu achei uma graça, mas fiquei a pensar se é essa a imagem que passo: de uma super-heroína cuja vida é cool e cujos obstáculos fazem cócegas. Não fazem.

A partir de agora, não acreditem mais no que eu digo. Acreditem apenas no que questiono. A dúvida é minha única certeza.

***

Fim de semana agitado. Alucinada. Dormi quase nada, mas trabalhei. Me arrastei o dia inteiro. Já está virando hobby esse negócio de dormir no quartinho de primeiros-socorros. Nada como um bom cochilo na maca. Sábado foi o housewarming da Fru e da Bruna. Foi uma delícia rever tanta gente legal que acabei perdendo o contato porque sou uma anta de tetas workaholic. Tudo culpa minha. A Paulinha, por exemplo, é uma amiga da PUC que está aqui já faz três meses e sábado foi a primeira vez em que a vi. Claro que minha vida está uma correria e yadda yadda, mas eu podia ter dado um jeito. No final, combinamos de nos encontrar com mais freqüência, já que ela está morando em Bermondsey, não muito longe de mim. Também reencontrei a Camila, ex-flatmate do Ernesto, uma fofa que é a enxaqueca em pessoa, mas é fofa. Poucos sabem o quanto ela é doce.

Enfim, levei meus flatmates, Mr. Australia e Mr. Suécia, para a festa. Eles se divertiram. Bastante. Mas, sei lá, se pudesse voltar no tempo acho que não os teria levado, não. Mas xapralá. Eu me diverti, eles se divertiram, todos se divertiram e é isso que importa, ou que deveria importar. Se ficou um gosto amargo no final é porque eu precisava aprender - mais uma vez, mais uma vez - que não há doce absoluto. Até quindim tem seu lado perversamente amargo. Não há exceções. Um dia, um dia eu quero voltar a ser imaculada. Quero voltar a ser pura. Voltar a pensar que existe certo e errado e que eu saio ganhando fazendo o certo. Um dia quero escolher o Bem novamente, acreditar que há essa alternativa. Acreditar que uma porta quadrada, definida, iluminada, me espera em alguma ponta do labirinto. Chega de portas semi-abertas. Chega de portas semi-fechadas.

Thursday, September 29, 2005

depois do afeto

Apesar de ter metido o pé na jaca no meu regime, tenho me sentido linda. Gatinhos na área. Alguns mais, alguns menos, alguns novos e alguns velhos. O Chris, por exemplo, resolveu reaparecer. Combinamos de nos ver semana passada. Fomos num pub no final da tarde, depois do trabalho de ambos. Conversamos muito, tudo muito divertido, ele fofo, eu fofa, somos fofos afinal. Aí no final fomos nos despedir e, tchuf, o moço atola a mão na minha bunda. Ah, Chris, não é assim que se faz. Tudo errado.

Definitivamente passado.

Meu atual foco não é Manager, não é Malandro, não é Chris. É o Mr Austrália.

Tá. Pode ser a maior cagada dos últimos tempos (e olha que pra ser maior cagada nos últimos tempos tem que feder meeeesmo), mas, cara, tá foda. E se digo que está é porque está mesmo. Fruquinha amiga e leitora assídua não me deixa mentir e estava presente no digníssimo housewarming que fizemos aqui. Ela conheceu meus novos flatmates e aprovou o mocinho, claro, ele é todo aprovável. Provável, na conotação, ahn, gastronômica da palavra.

Mas pára, Bia, pára. Não bom. Ele mora com você e vai morar com você por sabe deus quanto tempo mais. Ele vai trazer menininhas para dormir no quarto dele. Eu pretendo muito decentemente trazer rapazinhos para dormir no meu quarto. Não vai ser legal ver olhos injetados de ciúmes de nenhuma parte. Não quero correr o risco de me sentir incomodada com a idéia de trazer algum carinha em casa, nem com a idéia de vê-lo chegar com uma sirigaita. Assim sendo, declaro e assino aqui que só darei o próximo passo (que promete ser deliciosamente cheio de beijos e amassos, ufff) se for para fazer direito. Brincar sério, se é que vocês me entendem.

Mudemos de assunto e só voltemos a este quando eu tiver NOTÍCIAS, e não POSSIBILIDADES.

Fui a uma entrevista na segunda-feira. Não gostei. Serviu para eu conhecer Kingston, ao sul de Wimbledon. Uma gracinha de vila. Mas não rolará ir todo dia para lá, ainda mais que não achei o lugar tão bacana assim. O negócio é que eles gostaram de mim, e querem me ver novamente, e eu não quero e não sei ainda o que vou fazer. Aí quarta tive outra entrevista, em Highgate Village, uma coooooisa de região, norte de Londres, próximo de Hampstead, ladeirinhas, casas vitorianas, praças de paralelepípedos, tudo pequeno, tudo lindo. Adorei o trampo. Tô na expectativa de que dê certo. Mesmo. Amanh㘘tenho outra entrevista, dessa vez para salva-vidas, para um trampo que paga bem melhor. Dinheiro é coisa do bem. Todo mundo merece.

E segunda-feira tem uma surpresa. Além do curso, que está indo muito bem, e que vocês poderão acompanhar mais de perto no meu blog recém-nascido. A surpresa fica para quando ela deixar de ser POSSIBILIDADE e virar FATO, ok? Cansei de me iludir e iludir vocês, fofos leitores.

E é isso. Minha vida está quase boa de novo. Nota 6.0. Falta bastante tempero, mas os ingredientes básicos já estão cozinhando.

Wednesday, September 28, 2005

o sétimo filho

Queridos, amados, conhecidos, desconhecidos: hoje pari meu sétimo filho eletrônico. Desta vez, nasceu nerd, de óculos e livro em punhos, com bafo de quem fica muito tempo sem falar, com teorias por trás de qualquer prática. Meu primeiro filho gringo, inclusive. Educadinho a falar inglês desde o nascimento. Meu filho acadêmico. Na verdade, nasceu como lição de casa do curso que comecei a fazer na University of London na última segunda-feira. Evitem morte prematura: visitem, leiam e comentem.

Ele está aqui, ó: Blame it on Media!

Friday, September 23, 2005

working my arse out

Basicamente sumi e basicamente serei breve agora porque estou trabalhando muito mais que um dia sonhei. E isso porque, entre outras coisas, não tenho dinheiro para comprar um iPod nano como o que comprei alguns dias atrás. Foi tão fácil... Entrei no site da Apple Store, nenhuma taxa de entrega, algumas AirMiles colecionáveis e a lembrança de como eu e meu iPod Shuffle nos dávamos bem antes de ser seqüestrado sem pedido de resgate.

Depois de mais uma semana de self-pity (juro que tentei evitar, mas aconteceu), resolvi me dar esse *treat*. E para me dar esse treat, tive que sacrificar dias de merecida bundação para trabalhar como ontem, por exemplo, das 6:30h às 21:30h, com meia hora de intervalo, o tempo de subir no metrô e ir de um trampo ao outro.

Ridículo, babaca, sem graça. Mas foi. Trabalho logo mais e o fim de semana inteiro e a semana inteira, claro. Esse iPod nano é bom ser a coisa mais *fofa* dos últimos tempos, porque me custou bem mais que £140 no final. Custou um tequinho da minha saúde.

Novamente, aquele blablablá: estou atrasada em meus emails, posts, escritos, falados, telefonemas, tudo. Não sei se um dia chegarei a ficar realmente em dia com tudo. Desconfio que não, mas tento não falar isso muito alto em caso de eu ouvir. O eu obsessivo-compulsivo que não agüenta nada pendente, nem mesmo uma vontade mínima de fazer xixi. Não muito longe do ódio de existir na forma humana, que permite estar consciente de que há uma vontade de fazer xixi; há, portanto, a necessidade de uma privada e, preferivelmente, um rolo de papel higiênico.

Ai, tô pirando demais. Mesmo meus leitores mais costumazes não devem estar entendendo nada. Não os culpo: eu também já não entendo mais.

Saturday, September 17, 2005

aonde foi parar minha casa ou a metáfora do ponto de ônibus

Outro dia estava saindo do trabalho, no ponto de ônibus, e um cara senta ao meu lado. Distraído, ele não viu o ônibus dele chegando e quase partindo. Levantou esbaforido e saiu correndo. Eu gritei, ei, moço, não esquece sua sacola! E ele respondeu "sorry". Tudo bem que inglês pede desculpas até por respirar mas a questão é que, em vez de agradecer, ele se desculpou. Como se fosse uma ofensa esquecer uma sacolinha, uma dessas small brown bags, no banco do ponto de ônibus. Como se, enfim, eu fosse achar que naquela sacolinha de papel estivesse uma bomba.

Aqui está assim. Uma neura sem tamanho, mas não sem fundamento. Agora Londres é parte do crescente número de cidades *com histórico*. Enquanto qualquer cidade for *sem histórico* de terrorismo, nenhuma precaução é justificada, qualquer alerta é alarde, uma ameaça é só uma ameaça e uma sacola esquecida e recuperada é agradecida, e não desculpada.

Claro que somado ao fato de morar numa cidade *com histórico* está minha desilusão com o rumo que minha vida tomou aqui. Não estou querendo soar fatalista; tudo pode mudar e as coisas podem parecer menos negras ou até coloridas dentro de alguns meses. Mas por enquanto meu gráfico está caminhando para a abcissa.

Essa semana, inclusive, bati meu recorde. Não consegui o mestrado, não consegui Reader's Digest, não consegui IMP, nem uma noite, er, quentinha ao lado do Malandro consegui. Ficamos assistindo devedê. Supimpa. Devedê my ass, meu filho.

Três da manhã e lá fui eu de volta para casa de táxi, pensando que de fato tudo o que realmente quero não tem acontecido. Onde eu errei? O que está faltando? O que está sobrando? Quantas voltas mais o mundo precisa dar para começar a girar para o lado contrário - o certo? Quando todos esses nãos vão fazer algum sentido? Estou esperando a hora em que vai me dar o tal do clique. Que vou entender por que, como todos dizem, tudo aconteceu de forma a me contrariar mas só porque lá na frente vai fazer sentido. Estou esperando para ligar os pontos. Estou há meses com o lápis na mão. Espero que na hora em que houver pontos a ser ligados *lá na frente* eu não tenha quebrado a ponta.

De repente me senti sozinha de novo. Bobbynha me mandando text messages de L.A., aquela fofa. Fruquinha me afofando o quanto pode, aquela fofa. Mas ainda assim me sinto sozinha. Todas as pessoas importantes na minha vida estão longe de mim. Não sobrou uma, UMA. Todas moram no meu coração, mas eu quero *tocá-las*. Beijar molhado a bochecha da minha mãe, arrancar o nariz da minha irmã, balançar a lela do meu pai,mordiscar a bochecha da Bathatha, passar a mão na testinha enrugada da minha avó, beijar a careca do meu avô (que saudade, que saudade), beijar o olho do Putão, apertar o queixo da Cá, esmagar o braço da Dé, e apertar tantos outros braços e testas de tantos fofos com braços e testas apertáveis. Minhas saudades começam a sair pelos poros, no suor, no movimento rápido dos olhos, nos suspiros mais e mais freqüentes, em lágrimas que inevitavelmente me escapam - já nem luto mais.

Que medo de desabar mesmo.

Thursday, September 15, 2005

babylon

Sem aviso a vida desaba. Um precipício raso, mas ainda assim precipício. Eu prometo não gritar quando chegar a hora de me atirar. Porque todas as decepções que eu podia ter esse ano não cabem num grito, nem o fazem valer a pena. Cair nem seria assim tão ruim, para quem se estatelou sem sair do lugar.

O mestrado não vai rolar. Basicamente, o diretor do curso acha meu inglês escrito fraco para um curso dentro do Departamento de Inglês. E, agora, looking back, concordo com ele. Não quero estudar aqui, investir tempo e dinheiro, para ser aluna nota 5.0. Nunca fui, nunca quero ser.

Agora é hora de repensar minha vida aqui. Não vim pra Londres pra ser salva-vidas. No matter how cool alguns acham, esse trabalho é bem entediante. Então, o negócio é tentar entender o que está me esperando aqui realmente. Quero ficar mais um tempo aqui. Minha hora ainda não chegou. Tenho alguns trabalhos esperando resposta. Reader's Digest obviamente não vai rolar, mas ainda não recebi resposta da outra empresa, IMP. E tem ainda outras coisas. Estou pensando em fazer short courses, para continuar pensando. Não quero parar de pensar, porque eu sem pensar, ou pensando para dentro, sou um perigo. Atestado por minha psiquiatra.

**

E depois de chorar pra burro com a falha no mestrado, resolvi, no bom e velho estilo I'm-a-survivor, sacudir. Let go your heart, let go your head. O mundo continua desabando, eu continuo me estatelando sem sair do lugar, o precipício canta meu nome, mas eu não vou. Ainda não.

Hoje vou sair com o Malandro. Não sei aonde vamos, não sei sobre o que conversaremos, não sei se vou continuar curtindo a idéia de curti-lo, não sei. E estou adorando a idéia de não saber.

Depois conto do Manager. Estou atrasada e preciso tomar um banho caprichado hoje. Porque termino o trampo às 22h30 e de lá vou encontrar o Malandro e sei que a noite vai ser só uma criança.

Sunday, September 11, 2005

cyberlove

Não. Não é isso que vocês estão pensando. Não encontrei um amor virtual. É o mundo virtual que eu amo. Essa é uma declaração de amor à internet. Internet, obrigada por você existir e me manter tão próxima a um passado amado, aos amados de ontem e hoje e sempre. Aos leitores que nem me conhecem e mandam ondinhas de amor - eu sei, eu sinto.

Estou com internet em casa. No meu colo, para ser exata. Enquanto Mr Austrália e Mr Suécia assistem a Dogville no DVD, digito freneticamente.

Minha vida está em apnéia até amanhã, quando muita coisa vai ficar clara na minha vida. Amanhã sai a resposta do mestrado. Se rolar, começo a estudar já no mês que vem. Isso significa que tenho que ler, em um mês, uns 7 livros, entre eles Ulysses. Sim, sim. Se rolar o mestrado estarei pretty much fucked até sabe deus quando. De qualquer maneira, não quero que nada atrapalhe minha ida ao Brasil. Mesmo que tenha que levar livros & cia a tiracolo.

**[pausa para comentário urgente] Gente, o australiano deitou aqui do meu lado, a cabeça a uma régua escolar de distância. Puta vontade de fazer um cafuné. Ele é um fofo. [/pausa para comentário urgente]**

A entrevista de sexta, a segunda que fiz na Reader's Digest, foi uma bosta. Quer dizer, isso foi o que eu achei. Jamais me contrataria se tivesse assistido àquela apresentação. Tive brancos, ri de nervoso, troquei palavras, coisa mais difícil que é embromar em inglês. Não que eu tivesse a intenção de embromar, mas entrevista de emprego precisa ter uns floreamentos. Você não responde simplesmente "não". Responde "não, mas acho que se x e y colaborarem, ou se z não atrapalhar, e se o alfabeto inteiro estiver disposto, aí acho que pode ser. Mas, a priori, não".

Pois foi isso. Me enrolei no meu próprio nariz de cera. Maldição jornalística.

Mas esqueçamos. Passou, foi, zupt, sumiu. Agora é só esperar. Esperar a resposta do mestrado. Esperar a resposta da IMP. Esperar a resposta da Reader's Digest. Sabe que até estou começando a gostar de esperar. Porque quando todas as respostas chegarem, todas todas, aí sim vou ter que começar a tomar decisões. E não são das mais fáceis. E não são das mais superficiais. São decisões de gente grande saindo de uma cabeça que cisma em continuar bebê, sempre que possível. E o sempre que possível está se tornando quase impossível. Quanto mais o tempo passa aqui, mais me sinto uma senhora. Tantas responsabilidades, tantas preocupações, tanto a pensar, decidir, unir, excluir, telefonemas a fazer, coração para aquietar, minha saúde, compras, o aluguel, trabalho demais, e no entanto estou aqui, sentada na sala com dois rapazes deitados, assistindo a um filme quietinhos, enquanto digito e nada, nada além de digitar, nada além de vomitar pelos dedos, ocupa minha cabeça.

Uma senhora. Crescer é isso. Saber que o mundo desaba sobre seus ombros todos os dias, e nem por isso você deixa de regar sua planta, ou fazer seu café com calma, ou assistir a um programa favorito, ou escrever num blog que é mero engano de Google para tantos leitores.

Voltei.

Tuesday, September 06, 2005

a place called home

Desde ontem um bolo na garganta. Um medo de tanta coisa acontecer em tao pouco tempo e nao ter ninguem para olhar serenamente de fora. Sim, estou sozinha. Digo, me sentindo sozinha. Sozinha mesmo eu nunca estou. Minha casa estah sempre cheia, meu trabalho eh com pessoas o tempo todo, minhas viagens de trem sao regadas a mensagens e telefonemas. Mas estou meio sozinha.

Acabo de sair da Goldsmiths. Basicamente, preciso provar que sou capaz de escrever um trabalho academico em ingles. Se conseguir fazer isso, nos proximos dois dias estou dentro. Sim, eles me ofereceram a vaga de mestrado. Fui aceita. Claro, com a condicao de poder provar que sou capaz de escrever. Eu. Capaz de escrever. Vou arrebentar meu computador. Ele quer 6 paginas. Farei 12. E nao quero nenhum native speaker corrigindo meus desabafos. Eu e eu apenas. Eu e o desafio. Vou escrever. Dai, apenas continuem torcendo.

Tenho toda essa mistura de medo e felicidade tipica de novos tempos, e nao tenho com quem dividir. Bobby na Franca, Fru em Budapeste e eu aqui, meio perdida, meio achada, feliz e assustada, correndo parada.

Ainda sem internet em casa. Puta merda, minha gente, puta merda.

Respirem por mim, porque eu, nos proximos dias, estou prendendo o ar com medo de ele, tambem, me escapulir para sempre, perdido entre as coisas que vem e vao tao depressa na minha vida.