Eu queria, juro que queria, poder dividir com vocês todos, amados leitores, lurkers e escancarados, conhecidos e desconhecidos, tudo o que se passa ao meu redor. Eu queria. Só para vocês verem que de fato minha vida é inundada por filmes. Geralmente os filmes são inundados por vidas, quero crer.
Mas eu não posso. Não posso expor tanta gente. Eu optei por ter um blog, não as pessoas que convivem comigo. Então não posso, não quero, não vou. Por isso uso pseudônimos, iniciais, nacionalidades, mil artimanhas. E por isso muitas vezes sou toda abstrata, um quadro de Miró. Você não entende nada, mas sabe que a Lua e a estrela estão lá, então só pode ser um quadro de Miró.
Aiai. Eu me comparando com Miró. O acinte. O fim.
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E outro dia estava andando pelas ruas de Mudchute. Devia ser 5:30h da manhã, eu estava indo pro trabalho - sim, sinta-se mal por reclamar do SEU trabalho - e no meio do delírio onírico que costumo ter a essa hora, vejo um gato. Não um gato qualquer. Um gato belo. Caramelo com um splash branco no focinho. Rabo bem peludo, empinado. Gato limpo. Coleira e tal. Na hora pensei que podia ser um gato perdido, sim, provavelmente era. Mas pensei que poderia ser apenas um gato tão domesticado que já ganhou a confiança do dono para deixá-lo passear por aí. Ou, mesmo que estivesse perdido, o que eu poderia fazer? Levar o gato para o trabalho? Deixá-lo afinado as garras na sauna seca? Pô-lo para correr na esteira? Desencanei.
Dia seguinte, num horário igualmente indigno, começo a caminhada de oito minutos até a estação de metrô e o que eu vejo? Não, não foi o gato. Foi uma placa pregada na árvore: Gato perdido, yadda yadda, dona sensível, yadda yadda, atende por Mr P., yadda yadda, é caramelo com splashes brancos, coleira e microchip. Me enfureci. Por que não puseram as placas no dia anterior? Se foderam, eu poderia ter feito a vida da dona sensível cor-de-rosa de novo. Segui andando para o metrô e pensando na ironia da história, na inversão temporal das coisas. Não fazia sentido. Chegando no metrô, o que eu vejo? Não, não foi o gato. Foi a dona pregando plaquinhas desesperadamente em tudo o que se projeto do chão. Caminhei até ela, uma senhora gorda, redonda mesmo, óculos, calça de moleton, nariz assado de gente deprimida. "Olha, minha senhora, eu vi seu gato passeando ontem por aquelas bandas ali, ó". Ela me olhou com um misto de esperança e ceticismo. Acho que não estava convencida de que eu tinha realmente visto o gato dela.
Aí fui embora. A história não saía da minha cabeça. Como pode? Apenas um dia e o gato que eu vi solto poderia estar de volta aos aconchegantes e gordos braços de quem lhe dava comida, bebida e cafuné.
Mais um dia se passa e na manhã seguinte lá vou eu, já na espera de ver a placa do gato, olhos atentos aos canteiros e arbustos, vai que eu via o gato de novo? Não tem gente que ganha mais de uma vez na lotto? Deve ter.
Eis que a placa não está lá. Foi arrancada. Todas as outras também. Para mim estava claro: haviam achado o gato. De fato, devem tê-lo achado. Fiquei feliz. Ao mesmo tempo, um vazio disputava espaço com a felicidade. Aquela era a MINHA história. EEEEU tinha visto o gato, EEEEU tinha encontrado a dona, EEEEU fui falar com ela. Como é que outra pessoa rouba o meu papel de anjo nessa história? Incrível. Eu e meu egoísmo. Mas acho que somos todos assim. Caridade nunca é só caridade. Se dando não se recebesse, seríamos cofres ancorados ao mar. Nada entra, nada sai. Eu, louca para fazer parte, louca para ser a agente da ativa dessa história, e por quê? Só para ser eu. Só para me redimir de tudo o que recebi sem autorização e resolvi não dar em troca.
Não funcionou. Quantos gatos precisam se perder para eu entender que o problema é que não é recebendo que se dá, mas é dando que se recebe? A verdade é que tenho medo de nunca receber. Acho que a vida me fez assim. Odeio esperar.
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