Thursday, May 17, 2007

a cabeleireira

Hoje aproveitei minha hora de almoço para ir ao cabeleireiro. Um lugar que cobra £17 para lavar e cortar. Isso, aqui, é barato. O lugar fica dentro de um shopping center em Kingston, o Bentall’s. Cheguei lá e pedi lavagem e corte. A mulher que veio me atender abriu um sorriso tão simpático que cheguei a ficar desconcertada. Eu queria saber ser assim simpática.

Depois foi perguntando o que eu quero, como eu quero, quantos inches era para tirar e depois de tudo certo, eu fiz a pergunta já sabendo a resposta: de onde você é? Ela respondeu, num sotaque forçado, Brazil. Sorri e disse que eu também. Ela não acreditou. Eu disse para esquecer esse negócio de inches que eu não entendia, e que era para tirar dois ou três dedinhos, two or three little fingers. Caímos na risada. Ela chama Lucia. É bióloga. Minha mãe chama Lucia e é bióloga. Ela mora aqui há treze anos. Desde que chegou é cabeleireira. “Adoro. Cortar principalmente. A gente tem que aprender a fazer de tudo, pintura, permanente, mas eu gosto mesmo é de cortar”.

Disse que não gostava do cabelo freezy que tenho na parte da frente. Tentamos pensar numa tradução para freezy. Eu só consegui pensar no gesto dos cabelos desgrenhados. Ela riu mais. Sorrateiramente aplicou no meu cabelo um produto que custaria £3 a aplicação. Sim, é brasileira mesmo.

Ela é casada, mas não tem filhos. Ficou desconfortável com a pergunta. Consigo imaginar ela e o marido brigando na noite passada, ela querendo engravidar, ele falando que ela tava louca, que a vida deles não era estável. Ela chorando no canto da cama, pensando que merda de vida alguma é estável. Ele lavando a louça para passar o tempo. Sim, deve ter sido assim. Ela trazia nos olhos aquele brilho estranho de quem já desistiu de muita coisa na vida, mas nem por isso azedou.

Perguntei se ela também atendia por fora, a domicílio. Ela disse que sim, mas não pareceu muito empolgada. Para que complicar?, ela parecia dizer sem falar. A vida dela não devia ter muitos percalços, principalmente porque ela procurava evitá-los, evitando assim, também, súbitas euforias.

Ela disse assim, out of the blue, “poxa, você é muito simpática” e eu fiquei meio sem saber o que fazer com um elogio gratuito. Como se me jogassem na mão um presente fora de ocasião e desmerecido. Abri um sorriso aberto demais, acho.

E ela disse para eu vir sempre às quintas, porque aí é garantido que ela estará lá. Perguntou “onde você aprendeu esse inglês?” e ri, sem graça, porque nem eu sei. E fiquei com vontade de saber mais, mas é estranho. Ela foi tão, tão simpática que fiquei com vontade de virar amiga dela. A gente tem dessas coisas aqui. Presta muito mais atenção nas pessoas à nossa volta já que não são tantas, ou não tantas que realmente importam, anyway.

Mas ela voltará pro Brasil. Não sabe quando, mas está nos planos do casal. Ela também não me pareceu entusiasmada ao falar da volta. Parecia mera reprodução do discurso do marido, com entonações artificiais e didáticas.

Sorri para disfarçar o suspiro. Às vezes é tão difícil ser feliz.

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