Friday, December 30, 2005

fade in Brazil

Cheguei como se chegasse a uma reencarnação. Uma volta a uma vida que é minha e não me pertence. Essa foi a primeira impressão. Passados os primeiros sustos do passado, estou amando estar aqui. Estou amando o cheiro, as pessoas falando português a minha volta, até o calor, que costuma me irritar. Os pássaros que realmente cantam (lá, costumo dizer, eles são 'polite' demais para cantar), barulho de martelos - obras, obras, essa cidade nunca mais pára de crescer -, no começo tudo gritava. Agora estou me reacostumando. Os buracos no asfalto não são tão estarrecedores e as favelas não são mais outro mundo. É parte do meu mundo. Sempre foi. Muito foda chegar aqui com olhos virgens, olhos de bebê, desacostumado com o que é feio, pobre, sujo. Com o que é indecente mas se passa por decente. Como é que o brasileiro nem se abala mais? Como é que eu não me abalava? Será que vou ser para sempre uma sócio-chata se resolver voltar?

Estou amando tudo aqui. Amando as dores, até. Se sinto dor, é porque isso aqui ainda é meu. Se sinto dor, também sinto que eu ligo, sim, que é meu país que está fodido, apesar do futebol.

E tem todo mundo, né? As pessoas que vi. As pessoas com quem falei. Gente remota cuja voz reconheci. Gente próxima cuja voz desconheci - e doeu saber que um ano e meio é tempo suficiente para esquecer da voz de gente que eu amo. E toda aquela legião de amados querendo porque querendo me ver. E a legião de amados que decepcionam - olha, continuo amando vocês, mas amor não é eterno, não temos mais 15 anos, façavor de cultivar.

Foi especial ver tanta gente no happy hour queridamente organizado por minha irmã. Foi especial ver que cada rostinho mudou tanto e continua igual. Que as vidas mudaram tanto e continuam iguais. Que eu mesma, a seus olhos, mudei tanto e continuo igual.

Ainda não acabou. Estou no começo de tudo. Viajando, pegando uma cor. Combinando de encontrar e reencontrar pessoas que nem sei se vão realmente me ver. Eu quero encontrar todas.

Agora, puramente, um feliz 2006 para quem está por aqui. Celebremos a tragédia que foi 2005. Pior que esse ano não dá para ser. Que venha 2006, então, um ano que já chega mimado e cheio de expectativas. Um ano que traz consigo a obrigação de ser melhor. A obrigação de ser saudável e inesquecível. Vai ser.

Monday, December 19, 2005

esperando na janela

Que estranho... Eu jurava que tinha escrito outro post. Devo ter sonhado. Ultimamente meus sonhos tem invadido a realidade. Soh consigo descobrir quando algo assim acontece. Essa noite, sonhei que vomitava. Um vomito pequeno, que dava para segurar na boca. Acordei checando o travesseiro.

Estou ridiculamente ansiosa. Fico checando se lembrei de tudo o tempo todo. Sinto falta de ar de pensar nas coisinhas brasileiras que vou estar fazendo em breve. Amanha eu embarco, depois de amanha estou ai, a 12 horas de distancia, no sol, na poluicao, na pobreza, no biquini. Vou para ver se volto, tambem. Vou para testar. Vou para ver se eh possivel ser ainda mais feliz ou ainda mais triste. Vou para carregar coisas e recarregar baterias.

e depois volto. Mas agora nao eh hora de pensar nisso. Agora eh hora de pensar em nao perder o trem para o aeroporto, nao perder o check-in, nao perder a cabeca. Depois, cuidar para nao desmaiar, ou vomitar, ou panicar.

E depois cuidar do sol, que vai estar forte mesmo que esteja fraco, porque minha pele se acostumou com tudo o que eh cinza e frio. Mesmo apos a burrada de sabado, quando inventei de fazer bronzeamento artificial sem saber direito o que estava fazendo (como quase tudo o que faco). Me meti na cama, 12 minutos, nao passei nada. Resultado: fiquei roxa. Inteirinha, ja que a porra da sunbed eh para se ir pelada. Mas ja melhorou, quase passou.

Nao vejo a hora de estar com voces!

Monday, December 12, 2005

Menos um

Menos um. Foi a temperatura nessa madrugada. E a idiota saiu sem cachecol. Minha cabeca estah assim. Funciona em meia-fase. Lembro de coisas extremamente esqueciveis; esqueco as memoraveis. Ansiedade eh isso.

Ja comprei quase tudo que queria comprar, mas ainda falta. Acho que vai sempre faltar. Acho que vou chegar no Brasil e lembrar que tenho alguem muito especial de quem nao lembrei quando estava aqui.

Estah dificil fazer qualquer coisa e eu soh falto implorar pro meu chefe me passar trabalho para fazer o tempo passar. Mas no momento ele estah comentando comigo como o ceu perto da casa dele ficou preto com as cinzas do petroleo da explosao de ontem. Alias, nada mudou. Ninguem morreu, todo mundo foi trabalhar, nenhum drama, really. Estamos mais longe do protocolo de Kyoto talvez. Uma pena.

E o fim de semana foi bom. Sexta fui a Wimbledon depois do trabalho. Comprei um sobretudo vermelho e deixei o cartao de credito na loja (tipico). Babai, babae, sem panica: estah lah, guardadinho, no cofre. Vou buscar hoje, exatamente na hora em que estiver me atrasando para ir ao curso da Birkbeck.

Na sexta mesmo fui a Greenwich com Mr Australia e uma amiga do trabalho que eu queria que encaixasse com ele. Acabou que nao rolou. Sim, juro, nao tem mais nada a ver, eu e ele. Ele continua um fofo. Mas nada a ver. Mesmo. Passou.

E depois foi casa e cama. Dormi ateh meio-dia de sabado. Fui encontrar Broo, Re e o Ma (que eh o alguma coisa da Broo) para fazer compras de natal. O inferno, o inferno. Primeiro, a patetica ideia de ir a Harrods. O inferno. Logo desistimos. Andamos, andamos, acabei comprando muito do que queria, mas nao do jeito que queria. Foi uma coisa meio deixa-eu-comprar-logo-para-me-livrar, em vez de compras com carinho. Sad but true. Devia ter me prevenido e feito compras antes.

Aih sabadanoite fomos para casa de Broo, onde a festa ficou por conta das calories: pizza e Banoffee pie (torta de banana e toffee, ouch!). E la se foi, lancado ao espaco, mais uma tentative de chegar ao Brasil um cheirinho mais fina.

Domingo trabalhei. Trabalhei, trabalhei, trabalhei. Cheguei em casa e cozinhei. Assisti a um filme que ja havia assistido. Um domingo igual aos outros.

E estou aqui, agora, esperando meu chefe revisar meu ingles para uma propaganda que eu quero mandar ainda essa semana. Enquanto isso ele fala de quao feliz estah porque a BBC vai reprisar a serie preferida dele.

Eu deveria ficar feliz, nao? Todo mundo fica feliz quando tem um chefe assim, que trabalha um ‘cadim, conversa um ‘cadim. Acho que estou de fato ansiosa demais.

Thursday, December 08, 2005

a farsa

Eu estou evitando de todas as maneiras me considerer uma farsa. Anoto tudo o que aprendo, faco tudo o que me pedem, estou sempre alerta e solicita. Aprendo rapido, faco perguntas inteligentes, respondo o que o chefe quer ouvir. Voce nao quer um funcionario assim? Essa sou eu. Eu e minha tentative de nao me achar uma farsa. Mas acho que ela eh inerente ao ser humano (ou “cerumano”, como li uma vez). Ja se passaram mais de tres horas do meu dia no trabalho e nao fiz absolutamente nada porque nao ha nada a fazzer. Preciso esperar meu chefe terminar o que for que ele tenha que terminar para poder seguir com explicacoes sobre minha campanha. Ja fiz tudo o que podia fazer, agora ele precisa me pegar pela mao e ir.

Enquanto isso nao acontece, fico navegando, lendo artigos de todo o genero, atualizando um ou outro email, indo ao banheiro, tomando café. E ai fica bem dificil nao ser inundada pela pesarosa sensacao de ser uma farsa.

Voltemos aos meus impulsos ansioliticos. Eu nao estou mais me aguentando para ir ao Brasil. Nao penso em outra coisa. Uma pentelha. Vira e mexe recebo um convite para uma festa no dia 20/12 e abro aquele sorrisao: “Oh, sorry, I’m not gonna make it, I’ll be flying by then!” Ou para o Natal ou para o Ano Novo. Varios convites. Minha prima Emily me convidou par air para o sulo ds Franca. Meu tio me chamou para a Madeira. Fora os convites de festinha em Londres. Mas nenhum deles me deu agua na boca. Nada como ir pra minha terrinha, onde la em casa eh la em casa mesmo.

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Falando em ansiedade, uma outra agitacao foi aliviada. Ontem fui conhecer a casa nova do Chris. E, er, conheci a casa do Chris. Foi bom.

Tuesday, December 06, 2005

tudo de novo no front

O sumico tem explicacao obvia: trabalho, trabalho, trabalho. Animo zero de chegar em casa e ligar o computador depois de oito horas com olhos grudados na tela. Mas ca estou, sorrateiramente escrevendo no meu lunch break. Para voces terem uma ideia do quanto valem. Parte do meu lunch break vale muito.

Estah tudo bem aqui na WK. A responsabilidade que tenho que assumir eh grande, bem maior do que estava acostumada em meu antigo emprego, onde era apenas uma assistente de Marketing. Agora, tenho meus produtos, um budget, um target. Tudo dependendo de mim. Nao faco ideia do que esteja fazendo mas estou gostando mesmo assim. Ganho bem, as pessoas aqui sao legais e quero aprender a fazer essa coisa direito. Precisa mais?

Faltam 15 dias para eu chegar na terrinha. Duas semanas e um dia. Todo mundo disse que passaria rapido. Ateh agora, parece que o tempo se arrasta, tenta segurar nas paredes, luta contra passer, luta para ficar. Mas me disseram que a ultima semana passa ventando e voce acaba nao fazendo tudo o que tem que fazer. Tomara.

E agora vou la comer. Essa semana deve ser toda agitadinha. Drinks, jantares, Xmas Parties. Vamos ver se eu aguento.

Wednesday, November 30, 2005

o sorriso no rosto cansado

Começou a ventar mesmo e meu coração não pára mais. Quanto mais quieta eu fico, menos escuto. Não deveria ser assim. Mas eu vou tirar o dedão da tecla espaço. Vou revolucionar essa merdinha de mundo meu.

Amanhã começo o novo trabalho. Vai dar certo mesmo que dê errado. A três semanas de ir para o Brasil, fica difícil tirar o sorriso do meu rosto cansado.

Mas vez ou outra acontece.

A gente sempre recebe as notícias mais doídas quando não agüentamos mais doer? Tá certo que eu tenho doído pouco, mas simplesmente porque minha cota para esse ano foi atingida, tipo, no primeiro semestre. E tudo o que houve de ruim no segundo semestre fica de quitação da dívida da vida para comigo para 2006. Eu deixei que a vida me fodesse de propósito, para fazer do que vem agora algo mais especial.

Eu desci degraus despencando. Está na hora descer como uma mocinha. Não preciso ser arrastada para a realidade. Vou sozinha, a meu tempo, o sorriso no rosto cansado.

Acho que estou viciada em saudades. Cada vez que chega mais perto de eu matá-la, mais eu a sinto pulsando, quase que uma entidade fora de mim que me assombra e me testa e me sangra.

Meu estômago, um poço de adrenalina com caroços de expectativa e medo. Será que ainda sou eu mesma para quem me conheceu antes de eu vir para cá? Sou tão volúvel assim? Gosto das mesmas coisas? Me incomodo com os mesmos cheiros? Escrevo do mesmo jeito? Me digam, escrevo do mesmo jeito?

Escócia e Irlanda

Achem o álbum "Escocia e...", cuja capa duas meninas fofas e bochechudas ilustram. O link é esse aqui. Divirtam-se!

Monday, November 28, 2005

das coisas escondidas atrás da cabeça

Hoje saía do curso de Imprensa Britânica na University of London com minha colega Emma, uma garota brilhante que anunciou que conseguiu um novo emprego numa revista financeira. Ela disse que, apesar de o emprego ser legal, ela vai começar lá embaixo, na base da hierarquia. E eu, sem nem perceber, soltei uma verdade linda, que deveria, inclusive, servir para mim: "É bem melhor olhar para o topo da montanha com preguiça de escalar, mas enfim escalar; que ser jogada no meio da escalada e ficar o tempo todo com medo de cair, afinal você ainda não conhece a montanha".

Que bonito. Ela olhou para mim. Eu calei a boca e olhei para ela. Ela sorriu: "For fuck's sake, é a mais pura verdade".

Eu queria muitas vezes entender as coisas que eu falo como as outras pessoas entendem. É legal me ver de fora, parece. Eu também quero achar legal.

E falando em curso, recebi meu essay de volta, corrigido ou, como prefere o professor, "comentado". Com nota e tudo. Dizem as boas línguas que minha nota foi das mais altas. O comentário foi favorável mesmo, com críticas esperadas, como das minhas longas (e portuguesas) frases e da minha vontade de querer dizer várias coisas ao mesmo tempo. Sim, sim, sou ansiosa até em ensaios.

Mas tá beleza. Fiquei satisfeita com o resultado. "Um ótimo começo", disse Prof. Caplan.

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Vocês têm noção de que em 23 dias estou aí? Meda, pânica, horrora, desespera, socorra, não vou conseguir nem a pau nem a pedra emagrecer como queria. Hoje mesmo, do alto de meu regime, engoli quase sem sentir o gosto um pedaço de bolo de chocolate pelo aniversário da Louise, uma Manager lá da Cannons.

E agora começo a pensar no que levar para o Brasil. Não tenho roupas de verão. Não tenho idéias. Não tenho nem vontade. Quero fazer uma mochila e ir. E só depois me preocupar em como voltar. Mas não vai ser assim. De uma coisa eu sei: vou contrabandear Havaianas. Comprar a dérreal e vender a £8. Aiai.

E já podem ir me informando quando estarão por Sampa para me visitar. Fim de ano toido mundo zarpa, mas quero todos os meus amados comigo, pelo menos por um fim de semana. Façavor então. Meu aniversário, 11 de janeiro, podem reservar. Quem disser que não pode vai realmente me emputecer. Vocês sabem (ou não) do que sou capaz emputecida.

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Quinta-feira começo meu novo emprego. Vamos chamá-lo de WK, para deixar tudo mais fácil (o nome da maledeta é Wolters Kluwer, no one deserves ter que escrever isso toda vez). Tô meio que borrando as calças. Uma mistura de ansiedade boa, recomeço; com uma ansiedade ruim, traumas da nossa amiga BMI. Um medo daqueles bem Bia de não estar de acordo com as expectativas alheias. De novamente me descobrir uma farsa de, yadda yadda, lá vou eu outra vez me convencer de que o mundo está errado de me ver como sou, na pretensão autista de saber, só eu, quem realmente sou.

Não, de novo não. Prometo evitar doravante.

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Fim de semana todo gostoso, a não ser por um detalhe de domingo à noite. Sábado aquela palhaçada de ter que trabalhar. Eu fiquei meio doente, estranha, não sei. Resistência baixa, me arrastei pela academia e pela piscina e pelo clientes, com um sorriso doído no rosto. O corpo todo dolorido, implorando sossego. Claro que não dei. Saí do trabalho às 6pm e fui para Leicester Square, encontrar Broo e Renata para comermos um japa. Olha, que japa fenomenal aquele. Então fizemos umas extravagâncias em lojinhas e viemos aqui para casa. Elas se divertiram com a Sky. Eu, já mais para lá do que para cá, despenquei.

Dia seguinte fomos a Greenwich. Olha, desculpem, quem não vai a Greenwich não conhece Londres direito. Sério. E agora Greenwich fica walking distance de casa. Um mercado liiiiindo, cheio de coisas compráveis (eu me segurei, foram só dois livrinhos). Um parque todo cores de outono, esquilos, crianças almofadadas e cachorros correndo atrás do rabo de outros cachorros. Aquela cena de cinema. Subimos até o Royal Observatory, onde passa o meridiano de Greenwich, e ficamos com um pé no oriente e o outro no ocidente, e o mundo realmente parecia que estava prestes a mudar toda vez que eu passava para o outro lado. Um balé de iminências na minha cabeça.

Voltamos para casa, onde Mr Austrália cozinharia seu Lamb Perfeito. Na verdade, ele já cozinhou melhores. Mas a abóbora estava algo assim entre o sublime e o carnal. Alucinantemente bom, como nunca cogitamos ser possível com uma abóbora.

Comemos, tudo muito bom, tudo muito bem. Aquela horinha pós-refeição e tal. Fomos para fora de casa. Frio. Entramos. Quente. Sentei. Comecei a me sentir estranha. Eis o detalhe de domingo à noite que impediu que meu fim de semana fosse, enfim, depois de muito tempo, finalmente, bom.

Pânico. Mas dessa vez foi sério. Me tranquei no banheiro. Tudo sumiu, comecei a suar, respirar acelerado, meu coração gelado no meio do meu sangue quente. O peito apertado e ao mesmo tempo querendo estourar minha pele. Tudo desconfortável no saco que carrega meus órgãos. Sentei na provada. Sentei no chão. Levantei. Sentei de novo. Me olhei no espelho. BRANCA. Comecei a chorar, aquele choro seco de desespero. Vou ficar aqui até passar. Melhorou. Desço. Piorou. Mas não subo. Fico. Sento. Tento entender. Broo e Rê cada uma com uma mão. As palavras saindo da minha boca bem antes do que o planejado. Ou chegando aos meus ouvidos depois do que deveriam.

Tentei ignorar, mas minha mão tremia. Um tremor forte, que chegou a me impedir de dar uma garfada no doce que as meninas tentaram me enfiar goela abaixo.

Nada pior que estar atenta a todo e qualquer potencial problema no seu corpo. Pânico, entre outras coisas, é fechar o ouvido para o que está fora, fechar a cabeça para as razões do mundo, e criar suas próprias razões e sensações, e diagnosticar, e ouvir apenas o que se passa dentro. Autismo mesmo. Não queria me ver nesse estado.

Agora PASSOU. Não precisam se preocupar. E eu tive todo o suporte de que precisei.

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Myriam de volta ao Brasil. Mais uma que se vai.

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Se eu realmente conseguir encontrar no Brasil todo mundo que está falando que eu vou encontrar, vai ser difícil voltar...

Wednesday, November 23, 2005

fim de outono

Voltar foi difícil. Sinal de que a viagem foi boa. Boa demais. Edinburgo é uma cidade absurdamente fofa, é toda escurinha, como se fosse de brinquedo, tirada de uma história da carochinha mesmo. Dizem que a cidade é assombrada - mais um de seus charmes. Ela é fria, mas o povo é quente. Acho que por sobrevivência eles têm que ser mesmo. Dias ainda mais curtos que os londrinos, mas sol, sol, céu sem uma única nuvem. Poçass d'água congeladas, tartan para todos os lados, gaita de fole tocando em todo lugar, homens de saia - eu nunca pensei que fosse achar homem de saia charmoso. Ainda quero voltar para a Escócia, visitar os lagos de Inverness e dar um pulo em Glasgow. Quem sabe numa época um pouquinho mais quente.

Irlanda também é linda. Para falar a verdade mesmo, foi meio decepcionante. Acho que eu tava esperando demais. Mas fizemos tudo conforme o figurino. Visitamos igrejas e castelos, batemos muita perna, fomos em pubs na fábrica da Guiness em Dublin e beijamos a pedra de Blarney, no castelo de Blarney, o melhor programa da viagem, na minha opinião - mesmo minha câmera digital tendo despencado uns 20m, do alto da torre do castelo. Fiquei amiga de um velhinho no ônibus de Dublin a Cork, um velhinho veterinário e fazendeiro que mora numa cidade perdida no centro da Irlanda. Conhecemos pessoas estranhas também pelos albergues. Albergue é albergue, né, minha gente... Aquela palhaçada de chegar no quarto e ter gente dormindo na sua cama, ou de não suportar os cheiros do próximo, tudo esperado e, obviamente, concretizado.

Broo é uma ótima companhia de viagem. Temos o mesmo pique, as mesmas vontades, as mesmas neuras e o mesmo timing. Claro que ela sempre demora mais para se vestir, mas isso desde que vim ao mundo é assim. Não sou de muita enrolação e já cresci sabendo esperar o outro que, dentro de sua humanidade, não faz tudo voando feito eu.

Fotos em breve no meu albinho virtual.

Ah, e o trampo na editora foi confirmado. A partir de 1o. de dezembro sou uma executivammmmm de marketingmmmmmmm. Palmas para mim, que vou ao Brasil sem precisar em como correr atrás do prejú quando voltar.

Faltam 28 dias. Estou começando a ficar assustada.

Tuesday, November 15, 2005

antes de partir

Último post antes de ir para Escócia + Irlanda. Vocês querem saber a previsão do tempo?
Quinta-feira, snow showers em Edinburgh, onde chegamos. Sexta, sol (sensação térmica de 0oC). Sábado, mostly cloudy em Dublin (pelo menos a temperatura é de 4 a 11oC). Domingo e segunda alternando nuvens e sol em Cork, temperatura sobe (6 a 10oC, maravilha).

Pelo menos não vai chover, segundo os meteorologistas.

Estou toda empacotada já. Meu agasalho mais quente (e um dos mais feios também) já está separado. Meias-calças de lã, bota de neve comprada no Brasil (?), pijama de flanela, gorro, cachecóis, tudo, não estou esquecendo nada. Sou dessas pessoas irritantes que sabem que não esqueceram nada antes de viajar, ao contrário de quase toda a humanidade. Como sou especial.

Amanhã vou trabalhar com a mala já. Saio de lá e vou para a Bru, onde passo a noite - ou metade dela, já que acordamos às 5h para ir ao aeroporto. Não vejo a hora. Eu mereço tanto. Mas taaaanto.

Quando voltar prometo relatos detalhados. Podem cobrar.

Sunday, November 13, 2005

shadow boxer

Tenho por princípio nunca fechar portas, mas como mantê-las abertas o tempo todo se em certos dias o vento quer derrubar tudo?

Está ficando muito frio. Hoje senti falta de gorro, minha orelha quase congelou quando resolvi passear por Leicester Square depois do trabalho. Eu até queria estar com alguém ao lado, mas tenho certeza de que não seria boa companhia. Aliás, não seria companhia. Não tava a fim de falar, de sorrir, de interjeitar. Nem de ouvir, o mais inofensivo dos atos. Nem isso. Mas aí, andando em meio àquele mundo de gente, fui parar no Soho, a única parte de Londres, ao lado de Brixton, que realmente nunca dorme. Entrei numa loja, experimentei uma bota linda, mas só tinha tamanho grande demais ou pequeno demais. Saí, entrei na Soho Books, livraria de precinhos camaradas e artigos alternativos e uma loja de DVDs pornográficos no subsolo. Mas nada me chamou a atenção. Saí, ainda sem querer parar. Resolvi que precisava comer. Ali no Soho era meio complicado; mais capaz de eu ser comida.

Voltei para a civilização. Parei num pub que adoro. Aí pensei que era deprimente demais sentar sozinha e comer sozinha e olhar para o nada ou fingir que lia. Resolvi não entrar. E fiquei pensando, puta merda, como sou normal. Sou como qualquer outra dessas meninas que não querem ser vistas sozinhas, que não agüentam um olhar de piedade alheia mesmo quando sabem que não há nada de que sentir pena nelas. Apenas volúveis aos olhares de fora, de pessoas que nunca mais farão parte da sua vida a não ser naquele instante. Por que querer parecer algo para pessoas que jamais vão me ver de novo e, pior, na verdade nem estão prestando tanta atenção assim na minha condição de sozinha?

Continuei andando. Outro restaurante. Um vietnamita. Vontade de entrar. Passo reto. Vai que não é bom. Uma volta por fora em Leicester Square. Quanta gente andando na rua nesse frio. Será que as facas vêm de dentro mesmo? Eu achava que estava sendo furada pelo vento, mas talvez não. Quando minhas três camadas de roupas não são mais suficientes para me manterem nas condições normais de temperatura e pressão, e meu estômago ronca e minha bexiga aperta, resolvo parar. Um italiano ali, um rice and noodles, um Subway, um Pizza Hut. Rice and noodles. Arroz misto e frango agridoce numa caixa de papelão. “Eat in or take away?” Take away, respondi, quase ofendida. “No, no, sorry, eat in. Yes, eat in”. A atendente sorriu, quase complacente. Ela entende. Ou estava apenas sendo educada quando na verdade queria me chamar de stupid cow. Sentei num banquinho e comi. Peguei o celular. Ligo para a Piu. Nada. A Broo está com o papi dela que vai embora amanhã. Ernesto em Barcelona, Marinella em Amsterdã. Myriam sempre cheia das baladas. Chris. Ficamos de nos ver nesse fim de semana, certo? Certo. Liguei, chama e ninguém atende. Caixa postal. Não deixo recado. Acabo de comer, só então percebendo o rombo que havia no meu estômago. Mais um passeio pela praça. Paro no All Bar One para fazer xixi. Uma vontade imensa de ser segura o suficiente para ficar lá sozinha sem fechar a cara e o coração. Mas não consigo, pelo jeito. Não sou tão cool assim.

Faço xixi e vou embora. Minha Piu me liga. Falo com ela um tequinho, um tequinho antes de dar uma leve desmoronada em meu regime e comprar um waffle com sorvete do Ben & Jerry. Malditos todos os fabricantes de açúcar foda do planeta. Eu estava indo tão bem. Mas amanhã eu volto, prometo. Fui para casa para constatar, um ‘cadim mais, que meus queridos flatmates têm me irritado. Não sei explicar bem porquê. Irritaram sem fazer nada demais. Agora escrevo, fone nos ouvidos, eles estão deitados às minhas costas, vendo TV, inofensivos, cansados também, porque todos nós estamos sempre cansados mesmo quando acabamos de descansar. O fracasso do ser humano é deixar que o cansaço dite quando se deve descansar.

E me imaginando terminando de escrever isso aqui e indo ler meu livro na cama, ou respondendo um email, ou qualquer outra coisa que seja minha e só minha e que me deixe nesse meu autismo que tanto cultivo para depois escrever, aqui, reclamando.

Saturday, November 12, 2005

troca de guarda

Faltando ainda 38 dias para ir ao Brasil e eu me pego já pensando em cada momento, cada coisinha, desde o pouso do avião. até as pessoas me esperando no aeroporto, até a chegada em casa, o barulho da porta rangendo, o cheiro de feijão da Ligia, os cheiros, os cheiros. O calor, o mal-jeito jeitoso do brasileiro. Tudo. Acho que vou entrar em parafuso.

Enquanto isso, para tentar segurar a ansiedade (ficar nessas por mais 38 dias vai ser bastaaaante sofrido), penso na viagem da semana que vem. E penso que preciso resolver minhas pendências empregatícias logo. E penso que a idéia de mudar de casa vai ter que ser bem considerável nos próximos meses. E penso que dia 3 de dezembro vou para Brighton comemorar mais um aninho dos 95 que meu tio-avô viveu até hoje. Aquela coisa fofa.

Enfim, hoje foi mais um sábado de trabalho, amanhã mais um domingo de trabalho, e assim vou apagando, um a um, os fins de semana que não existiram em 2005. Ontem fui assistir a The Constant Gardener, o novo filme do Fernando Meirelles cujo nome em português ignoro. Achei muito bom, mas prefiri Cidade de Deus. Aliás, engraçadíssimo: estava saindo do cinema em Kilburn, na companhia da Broo (bem melhor que Bru, não?), Paulinha e Renata, quando vejo aquele poste com um chumaço branco no topo: uncle John! Uncle John e a Bruxa foram ver o mesmo filme, uma sessão mais tarde. Foi tudo bem rápido porque a bruxa da Bruxa estava ansiosa para entrar logo (isso porque aqui cinema tem cadeira marcada, mas enfim, bruxa é bruxa). Saindo do cinema fomos num pub-restaurante foférrimo, sugestão da Broo, que já foi uma Garota de Kilburn.

E aí dormi na casa da Broo e mais uma vez descobri que felicidade responde pelo nome de FUTON. Dormi como um anjo naquele futon duro e confortável. Preciso comprar um ou minhas costas vão morrer.

Agora estou aqui, insistindo para assistir a um filme que os meninos não querem assistir, eles, malditos monopolizadores da TV e do DVD e da Sky. Eu nunca peço porra nenhuma, porque nunca estou em casa ou acordada para ficar vendo programas. Quando peço, uma vez, uminha, para assistir a um filme, recebo um NAO e um olhar indignado, tipo, já-vimos-esse-filme.

Fodam-se. Vou ler e dormir que ganho mais.

Não, vou lutar pelos meus direitos de moradora dessa casa, malditos sacos de testosterona mal-conduzida. Vou lutar e depois conto como foi. Estou ficando de mau humor.

Wednesday, November 09, 2005

rápidas

* Estou de regime e agora é sério (tem que ser, tem que ser, não quero chegar no Brasil um balão).

* Eu e Bru já bookamos os albergues em que ficaremos. Daqui a uma semana voamos para Escócia. Hurrah!

* Aiai. Tô cansada, viu? Amanhã trabalho das 8am até 10:30pm. Sério.

* O trabalho de Kingston, tudo indica, vai rolar. Eu já comecei a achar que era lenda, mas a moça da agência disse que o chefão estava todo angustiado pensando que com a demora da papelada eu poderia desistir da vaga.

* Entreguei meu primeiro essay para o curso na Birkbeck. Eu gostei, apesar de não ter dado tempo de revisar.

* Ando de saco cheio do Mr. Suécia. Ele é meio tantan. E em dezembro teremos nova flatmate, uma alemã que parece ser bem legal. Ela vai ficar no lugar da sul-africana. Não ficarei em luto com a partida.

* Faltam 41 dias.

Friday, November 04, 2005

no chão

Essa noite dormi no chão. Me enchi o saco do colchão, arregacei um lençol e me mudei para o chão. Queria dormir no que fosse mais duro possível. Dormi feito anjo. E minhas costas estão melhor hoje. O negócio vai ser repetir a dose, até resolver comprar um colchão decente afinal.

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A sentença daquele lance do carro roubado finalmente saiu. Não poderia ter sido mais positiva, segundo meus advogados Ivan (oficial) e Thathá (especial). Fiquei muito feliz. Após dois anos na justiça, o caso foi finalmente julgado. Só que agora eles podem recorrer e aí são mais não sei quantos anos. Eles vão recorrer, obviamente. Quanto mais for possível usar do poder judiciário para postergar uma dívida (o bom e velho empurrando com a barriga), mais se fará uso disso. Babacas. Anyway, terão que pagar, uma hora ou outra. Não quero saber de onde vem o dinheiro, mas ele tem que vir. E virá.

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Quarta-feira fui com a Marinella num workshop chamado Landmark Forum. Já ouviram falar? Bom, resumindo, é um empresa que vende felicidade. Eles garantem que após três dias de curso intensivo, você será uma nova pessoa, capaz de resolver todo e cada problema da sua vida. Você será capaz de descobrir quem são realmente as pessoas que te cercam e quem é a pessoa mais importante na sua vida, você.

Na boa, se eu conseguir isso em três dias é capaz de ao final deles me sucidar. Pela estupidez de não ser capaz de descobrir em 25 anos o que completos estranhos desvelam em três dias. Ao preço de £300. Ótimas intenções, tenho certeza, mas thanks but no thanks.

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Daqui a pouco vou encontrar os queridos Marius e Steeeeeve, da BMI, antigo trampo, lembram? Marius, a bicha romena que eu adoro, Steeeeve, que ameaçou me roubar do Chris (na verdade eu ameacei largar do Chris por ele, ele não fez patavinas, do alto de seu topete cor-de-burro-quando-foge). Vai ser legal. E no fim de semana vou tentar dar um jeito de encontrar o Chris depois do trampo. Porque eu e ele não temos mais nada a ver, e exatamente por isso nada nos impede de encontros fortuitos e felizes.

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Ontem, Sam e eu, daydreaming na recepção da Cannons, resolvemos que ela vai comigo pro Brasil ano que vem e eu vou para Nova Zelândia e Hong Kong com ela. Ela é neo-zelandeza e hong-konguiana (como se chama quem vem de Hong Kong?). Uma fofa. Minha maior companhia no Cannons. Fofa demais. Tem até foto nossa na recepção da Cannons no meu álbum do Yahoo.

Mas foi só um daydreaming. Pouco depois ela disse que iria fazer bronzeamento artificial, mas que odiava aquelas cápsulas em que não se pode fazer nada, apenas existir na cápsula, e por isso ela conta. Conta, fica contando. Um, dois, três... Não é MUITO FOFO?

Vou sentir falta da Sam quando deixar a Cannons.

Wednesday, November 02, 2005

inscrições abertas

Venham, venham! Essa oportunidade é única. Estou anunciando espaços livres no meu coração. Não só no sentido amor carnal. Não. Esse não anuncio porque não garanto poder proporcionar. Anuncio vagas no estacionamento apenas. Estou aberta a ser legal com as pessoas, a deixá-las entrar na minha vida. Estou aberta a gostar. A fazer amigos. A poder passar com alguém(ns) o pouco do tempo que nos sobra - que parece muito tempo quando se está sozinha.

Estou me sentindo assim, completamente abandonada, cheia de tiradas e cometários que só faço pensar. Minha boca está atrofiando. Não falo mais português, estou realmente pensando mais em inglês que em português ultimamente. Como é que se pode ser uma pessoa complexa em duas línguas? Isso me faz duas vezes mais complexa que o resto do mundo, ou meia vez?

Isso realmente importa? No momento o que importa é que minha vida está ficando mais interessante. Não sou mais aquela pessoa resmungando que a vida foi filha da puta o ano todo, e que várias vezes pensei em dar um fim (à filhadaputagem, não à vida) a isso a meu bronco e estúpido modo. Mas não. Eu soube esperar. Eu soube me desesperar driblando o acelerador do meu coração. E minha vida começa a ter alguma cor, com dinheiro no bolso, novo emprego, ida ao Brasil, um curso legal. Só falta as pessoinhas para ocupar as vagas vazias. Falta com quem dividir isso tudo. Todo dia. Minha vida inteira me acostumei a falar da minha vida, mesmo quando não queria. Não dá para ficar sem isso de uma hora para a outra. As vagas estão abertas até eu dizer chega.

Tuesday, November 01, 2005

agora é oficial

Estou viciada em Su Doku.

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Dias lindos têm feito aqui. Daqueles de pendurar a roupa no varal de fora. Algo errado, muito errado. Eu finjo que não é comigo. Já basta a escuridão que é às 5pm. Que o sol e céu azul sejam eternos enquanto durem. Meteorologistas (catastrofistas?) estimam que este será o inverno mais frio dos últimos 40 anos. Bem possível que eu já tenha escrito isso aqui. Só lembrando. Mas eu não penso, não penso. Saio de casa de óculos escuros e guarda-chuva, just in case, just in case. Precaução é sobrevivência em Londres.

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Estou ficando realmente viciada em Su Doku.

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Estou ficando realmente irritada com meu colchão. Acho que vai ser o presente que vou me dar quando começar no novo trampo.

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Um mundo de saudades invade o mundo de verdades. Acho que a perspectiva de reencontrar meus amados todos faz com que eu me permita sentir saudades. Saudades que sempre estiveram aqui mas a que nunca pude dar vazão porque simplesmente, se desse vazão, eu voltava, ou morria, ou enlouquecia, qualquer coisa que eu não quero agora. Saudade só é dor boa de sentir quando está prestes a não ser mais. Que nem sauna. Sauna só é boa quando há um chuveiro gelado por perto.

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Vocês sabem o que é Su Doku? Nãããão? Pois pesquisem. Hoje vou trabalhar fazendo Su Doku no trem.

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Falei que ontem saí com o Chris antes do meu curso? E que ele está vindo morar em Canary Wharf? E que nos abraçamos muito e que foi bom? E que nos beijamos? Ahn, e que estou viciada em Su Doku?

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E o curso, o curso. Ensaio maldito. Comecei a pescar umas coisinhas já. Uma hora eu sento a bunda e sai tudo numa rajada (soou meio mal, mas deu para sacar). Comigo é assim. Se pá, hoje decido que jornal vou analisar. Estou entre o Daily Mail, o Daily Mirror e o Evening Standard. Me divirto à beça com os tablóides. Eles pecam pela obviedade. Vai ser fácil analisar a semiótica de um jornal que não esconde a que veio.

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Aiai. Estou cheia de amor para dar.

Monday, October 31, 2005

amanhã é 23

Vinte e três dias exatos que trabalho sem um dia de descanso. Seria muito mais, não fosse minha assertividade mais que vital para dizer não, ao menos uma vez, para o pessoal do trabalho. Estou aprendendo. Não só falei não, como "possovelmente nunca mais" para St. George's. Já avisei Cannons que em breve abandonarei o barco por lá também. Ainda preciso de uma dose de assertividade para falar para o Imperial College que valeu, mas não vai rolar dessa vez. E assumir novamente minha confortável posição de mono-trampo, nine-to-five, de que só reclama quem nunca trabalhou five-to-nine, am-pm. Acreditem, eu já. E não é tão legal e ainda assim me esforço para conseguir pagar o aluguel e as contas e o maldito cartão de crédito, meu contrato com o diabo. Graças ao cartão de crédito comprei meu iPod que me quebrou as pernas. Adoro ele, meu nano, mas foi deveras irresponsável comprá-lo. Só eu sei. Meda, pânica, horrora, desespera, socorra quando vi minha conta baixar a marca dos £100 este mês.

Mas tudo passou. Passou mesmo. E meu novo emprego deve me deixar bem mais, ahn, confortável. Paga mais do que eu jamais ganhei.

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Estou aqui now and then; assino como Bee S.

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Estou realmente penando um tequinho para fazer esse primeiro essay do curso da facul. Nunca imaginei que isso fosse acontecer, mas hoje serei uma dessas que ficam segurando o professor depois da aula para pedir ajuda particular. Céus, como sou mala. Entendo todos os preceitos, teorias, estou feliz da vida ao notar o universo semiótico se abrindo num sorriso para mim. Mas não adianta, esse semiotas (semióticos + idiotas) falam de comunicação para lá, comunicação para cá, mas o que menos fazem é comunicar. Incrível pensar que essa é uma disciplina fundamental a quem estuda comunicação. Mas sempre há quem ache bela a língua alemã só porque faz parte do seleto grupo dos que a dominam também. Ah, o gozo do conhecimento partilhado por poucos. No worries, eu também já tive muitas alegriazinhas assim. Aí passou.

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Preciso encerrar este post em breve. Vou me encontrar com o glorioso Chris. Ontem, assistindo Betty Blue na Sky, lembrei muito de nós dois em algumas cenas crássicas (crassas + clássicas) e na mesma hora ele ligou. Vai se mudar para Canary Wharf em uma semana. Vamos morar alguns minutos um do outro. Tipo uns 20 andando. Não vai prestar.

Mas vai ser legal.

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E quarta-feira vou com a Marinella num workshop e sexta vou almoçar com meus queridos Marius e Steve da BMI e, ufff, viram só como sou popular? Saudade de tanta gente... Nada melhor que se enganar com dois ou três minutos longe de qualquer realidade.

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Estou pensando seriamente em investir um pouco do dinheiro que não tenho num colchão novo. Minhas costas estão cada dia pior. Merda de landlord muquirana que comprou o colchão mais barato DO MUNDO para pôr na minha cama. Mongolóide.

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Hoje eu deveria ter pesquisado hotéis na Escócia e na Irlanda para mim e Bruninha, mas vai ficar para outro dia. Quase não consegui escrever no blog como havia me prometido. Nem adiantei meu essay porque NAO SEI POR ONDE COMEÇAR. Isso só me acontece em inglês mesmo.

Ouvindo The Dancer da PJ Harvey no repeat. Isso só pode ser sinal de inspiração. Vou ali ver o Chris e seguir direto pro meu curso.

Uninspired.

Wednesday, October 26, 2005

brainstorm

Vou tentar descrever para vocês como está meu cérebro, descivilizadamente:

Ai eu mereço essa viagem eu e Bru e talvez Paulinha e talvez outras pessoas mais sempre quis conhecer a Escócia e a Irlanda tickets comprados ainda bem será que vai dar tempo de tomar banho antes do trabalho acho bom dar porque ontem não tomei banho que medo de começar o novo trabalho será que vai rolar mesmo ou é mais uma pegadinha não posso esquecer de tomar Goody's enxaqueca bombando saco saco saco David Gray é mesmo muito legal amanhã é niver do meu Putão e eu estou aqui até convite pra festa o desgraçado me mandou ele me paga faltam menos de oito semanas para ir ao brasil sonhei que minha irmã também era salva-vidas essa noite e também que o Manager me agarrava coisa boa quisera eu ano novo vai ser em Duas Marias família sossego cheiro e comida de infância mami e Piu mato calor não sei se meeu coração agüenta tanta felicidade preciso lembrar de marcar dentista e ginecologista no Brasil o Chris ficou de me ligar no final dessa semana ele foi tão legal na última vez que nos falamos ele viu que eu não tava bem mas agora estou ele já devia ter se acostumado com a montanha russa que é estar ao meu lado tudo muda em uma semana e eu vou com a onda não tenho culpa o curso tá bem legal mas porra tenho que escrever um essay de 1,500 palavras para segunda-feira sem ser essa a outr 1,500 palavras é pouco para o tema que ele pediu análise semiótica dos jornais nunca pensei que fosse realmente REALMENTE entender semiótica sinto que aprendi uma nova língua ai quantos emails pra responder bobby me escreveu perguntado cadê eu mas eu escrevi perguntando cadê ela e mais uma vez não sabemos quem sumiu primeiro mas adorei mesmo o sonho com o Manager pena que vou abandoná-lo ou melhor falando abandonar a possibilidade eu certamente me divertiria com ele mas aquele lugar paga muito mal ninguém merece ainda preciso avisar o pessoal do Imperial College que o sim que eu disse é não não vou mais trabalhar com eles não vejo a hora de ganhar decentemente mas não vejo a hora de ter merecidos cinco dias de descanso na Escócia e Irlanda o que será que vou gostar mais Edimburgo Dublin sudoeste irlandês ou cork vai ser demais e sexta-feira trabalho num lugar em Covent Garden chamado The Sanctuary um spa todo posh e saio as três e de lá vou pra Cannons onde encontro com Bru e vamos nos esforçar merecidamente em nosso descanso ai spa sauna piscina ginástica uma aulinha de Pilates maybe qualquer coisa que quisermos é bom trabalhar lá também vou sentir falta se bem que quero continuar trabalhando ao menos uma vez por semana para poder usar a academia e a piscina depois do trabalho nem é fora de mão de repente eu trabalho de sábado e pronto caralho 11:22 se não for tomar banho agora não tomo mais não esquecer o goody's para enxaqueca pelo menos já me livrei de faxinar a cozinha.

Sunday, October 23, 2005

grito de dor feliz

Estou cansada. Dormi menos de sete horas nas últimas três noites; menos de oito nas últimas semanas. Estou cansada mas estou sorrindo. Meio xingando o mundo, mas eu sou assim, xinguenta, rabugenta. Ainda assim sorrindo. Um sorriso que é mais um rasgo na diagonal, mas ainda assim um sorriso. Torto de guerra. Sou uma puta guerreira, é isso que sou. Não paro porque não posso parar. Se parar, morro, tal qual uma guerreira. Nunca o termo foi tão bem aplicado. Me orgulho do peito ferido, do coração esmagado, das marcass de pneus nas minhas costas. Me orgulho das marcas de bota na bunda, das bolhas nesses pés que só fazem andar, dessas mãos que derrubam tudo, mas não desistem de levantar tudo o que derrubam.

Sinto-me perfeitamente confortável com olheiras e ombros duros. Meio assustador, porque se me pego sem fazer nada, a guerra começa na minha cabeça.

Hoje a Fru voltou para o Brasil, mas não sei se quero falar disso. Não sei se quero falar da pessoa que me foi mais importante aqui, junto com a Bobby. Não sei se quero lembrar o quanto rimos e choramos e ignoramos o silêncio juntas. Não sei se quero entender que estou mais sozinha ainda. Eu, que já vinha me sentindo cada vez mais sozinha. Não sei se quero guardar na memória nossos rosto contorcidos de choro de despedida. Sei que vou vê-la no Brasil em menos de dois meses, mas, ninguém vai entender, ela é parte de Londres para mim. Ela está aqui comigo desde meu terceiro mês por aqui. Ela indo embora equaliza Londres faltando um pedaço. Para mim, a vida aqui perdeu um pouquinho mais da graça. Que já não é mais a mesma anyway.

Olha, não me venham com papinho de que sou pessimista. Vem aqui pôr o cu na pimenta um tequinho para entender. Não tenho tempo para chorar.

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Estou querendo uns dias de luxo. Novidades mais concretas, quando a vontade se fizer concreta. E possível, for a change. Por enquanto, luxo é aquilo que posso ver sem tocar. Nem sempre foi assim. Sinal de que nem sempre será.

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Fui chamada para trabalho permanente no Imperial College. Eles estão inaugurando um novo centro esportivo do caralho, piscina semi-olímpica e pans, e eu faria um papel meio que de tudo: salva-vidas, recepcionista, supervisora esportiva, instrutora sabe deus do quê...

Eu disse sim.

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Então começo meu trampo novo no começo de dezembro. Até lá, muito trampo para pagar as contas. Quando o trampo novo começar, quero crer que minha vida vai entrar nos eixos. Vou ganhar relativamente bem.

De qualquer maneira, amanhã tenho entrevista em Kingston. A terceira. Palhaçada. Nem sei se quero mesmo. Vou por desencargo de consciência e para entender porque eles querem me ver pela terceira vez. Mas é isso. Não irei uma quarta vez, a não ser que seja para de fato trabalhar. Faz tempo que o mundo já não é mais uma criança carente pedindo dinheiro no farol e ganhando minha compaixão e meu bolso. Não dou nada de graça para o mundo se não houver a perspectiva de receber. E se recebo primeiro, dou um pouco de volta, e mais um pouco, e mais um pouco. De pouco em pouco, para me iludir com a idéia deliciosa de que o mundo sempre vai me dar e vez ou outra receber.

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Dia 18 foi aniversário do meu Hemingway. Ele me disse ao telefone, pouco antes de desligarmos: "Você escreve muito bem, né?" Acho que meu Hemingway não sabe o quanto isso significou para mim. Você, meu Hemingway, é uma das poucas pessoas para quem escrevo esse blog. A maioria apenas lê. Você, meu Hemingway, você recebe. Você sabe que é para você. Happy birthday, dear Hemingway. Quem sabe ano que vem não estarei na área para comemorarmos juntos?

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Sabem meu último post? Então. Na mesma noite sonhei com meu avô. Ele estava deitadinho, sereno, na cama do hospital. Eu, ao lado dele, segurando suas duas mãos com minhas duas mãos, um pavor de que qualquer parte dele escapasse por entre os dedos magros. Eu estava ali para me despedir. Dava um beijo em sua testa e saia. Ao lado de fora, uma excursão de crianças esperava para entrar no quarto também. Eu pensava, ufa, cheguei a tempo.

Obrigada, vovinho, por me deixar te dar adeus. Eu não sabia que você lia meu blog.

Sunday, October 16, 2005

floco de neve

Hoje meu avô faria 93 aninhos. Noventa e três aninhos se não tivesse partido alguns meses atrás, como leitores mais assíduos e mais memoriados hão de se lembrar.

Hoje tentei não pensar nisso para não deixar o dia pesado, mas todo mundo quis me lembrar. Todo mundo me perguntou que dia era hoje. Sixteenth of October. Eu tentava dizer da maneira mais vazia possível. Como se fosse apenas mais um dia como a maioria, mais um dia para carregar nas costas. Mas não é. Esse é o primeiro dia 16 de outubro em que não falo "feliz aniversário" para ninguém. É o primeiro 16 de outubro que me vem em gotas de saudade, uma saudade que sei que nunca irei saciar, por isso uma saudade serena e doída, saudade

Hoje meu velhinho faria noventa e três anos. Onde ele estiver, aqueles olhinhos cheios de história continuarão morando em mim. Quer ele queira, quer não. Eu só sinto muito e continuo sentindo muito por não ter podido me despedir. Sem a despedida, ainda fico meio perdida. Algumas vezes na última semana me deparei com a dúvida do que minha irmã poderia comprar para dar para meu avô em meu nome. Preciso entender de uma vez por todas que o que posso dar a ele não se compra e é bem mais precioso. Hoje, vovinho, te entrego meu pensamento. Todo ele foi seu. Todas as linhas que meus olhos correram lendo, vendo, piscando, não distraíram meu cérebro de você. Te dei minha saudade doce e doída de aniversário. Aceite, é de coração.

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Fim de semana besta, gripe besta. Em menos de uma semana a Fru volta pro Brasil. Acho que ainda não caiu a ficha. Não sei se quero que caia também. Dói. Cansei de doer.

Provavelmente nos veremos algumas vezes essa semana, antes do tchau derradeiro. E nem é um tchau tão sofrido por que nos veremos de novo em dois meses, no Brasil. Mas mesmo assim, ela sabe o papel importante que tem aqui dentro. Amiga que mora com a gente e continua amiga, é amiga pra vida inteira! Eu não tenho dúvidas de que minha pequena, apesar de todos os encalços, obstáculos, pedras no sapato e chiliques, é a minha pequena para sempre. Agora fodeu. Você sabe que pode cometer a maior cagada que uma amiga pode cometer e eu vou continuar te amando da mesma forma. Puta da vida, te xingando, chorando ou triste. Mas o amor é o mesmo. Sempre. Amo você. Amo tudo o que vivemos e passaria por tudo quantas vezes mais forem necessárias. E pediria desculpas mil vezes e aceitaria mil desculpas suas. Vale a pena passar pelo que for para te ter ao lado, all the way, ocupando o pódio do meu coração.

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Ontem assisti “Lucia e o Sexo” na TV. Na verdade, eu ia assistir “A Excêntrica Família de Antonia”, que havia gravado no Sky. Mas acabei deletando o filme sem saber direito porquê. De qualquer forma, valeu. “Lucia e o Sexo” é fabuloso. Roteiro incrível, diálogos bem bolados, trama contagiante e, claro, tema que nunca se esgota: sexo. Ou melhor, amor. Apesar de tantas cenas de sexo, esse é um filme, acima de tudo, sobre o amor.

Ontem, também, tive o primeiro encontro com um novo morador da casa: um rato. Ele me saudou passando correndo sobre meus pés descalços. Era um rato gelado. Fiquei apavorada. Não gritei nem nada, mas senti a adrenalina subindo minha espinha e meu pé se fechou numa bola que nem bailarina seria capaz. Subi correndo as escadas e me enfiei debaixo do meu edredon. Custei a dormir e pedi a Morfeu que me poupasse de sonhar com ratos, porque seria uma brincadeira de deveras mau gosto. Batizei o novo inquilino de Little Izac.