Hoje saía do curso de Imprensa Britânica na University of London com minha colega Emma, uma garota brilhante que anunciou que conseguiu um novo emprego numa revista financeira. Ela disse que, apesar de o emprego ser legal, ela vai começar lá embaixo, na base da hierarquia. E eu, sem nem perceber, soltei uma verdade linda, que deveria, inclusive, servir para mim: "É bem melhor olhar para o topo da montanha com preguiça de escalar, mas enfim escalar; que ser jogada no meio da escalada e ficar o tempo todo com medo de cair, afinal você ainda não conhece a montanha".
Que bonito. Ela olhou para mim. Eu calei a boca e olhei para ela. Ela sorriu: "For fuck's sake, é a mais pura verdade".
Eu queria muitas vezes entender as coisas que eu falo como as outras pessoas entendem. É legal me ver de fora, parece. Eu também quero achar legal.
E falando em curso, recebi meu essay de volta, corrigido ou, como prefere o professor, "comentado". Com nota e tudo. Dizem as boas línguas que minha nota foi das mais altas. O comentário foi favorável mesmo, com críticas esperadas, como das minhas longas (e portuguesas) frases e da minha vontade de querer dizer várias coisas ao mesmo tempo. Sim, sim, sou ansiosa até em ensaios.
Mas tá beleza. Fiquei satisfeita com o resultado. "Um ótimo começo", disse Prof. Caplan.
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Vocês têm noção de que em 23 dias estou aí? Meda, pânica, horrora, desespera, socorra, não vou conseguir nem a pau nem a pedra emagrecer como queria. Hoje mesmo, do alto de meu regime, engoli quase sem sentir o gosto um pedaço de bolo de chocolate pelo aniversário da Louise, uma Manager lá da Cannons.
E agora começo a pensar no que levar para o Brasil. Não tenho roupas de verão. Não tenho idéias. Não tenho nem vontade. Quero fazer uma mochila e ir. E só depois me preocupar em como voltar. Mas não vai ser assim. De uma coisa eu sei: vou contrabandear Havaianas. Comprar a dérreal e vender a £8. Aiai.
E já podem ir me informando quando estarão por Sampa para me visitar. Fim de ano toido mundo zarpa, mas quero todos os meus amados comigo, pelo menos por um fim de semana. Façavor então. Meu aniversário, 11 de janeiro, podem reservar. Quem disser que não pode vai realmente me emputecer. Vocês sabem (ou não) do que sou capaz emputecida.
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Quinta-feira começo meu novo emprego. Vamos chamá-lo de WK, para deixar tudo mais fácil (o nome da maledeta é Wolters Kluwer, no one deserves ter que escrever isso toda vez). Tô meio que borrando as calças. Uma mistura de ansiedade boa, recomeço; com uma ansiedade ruim, traumas da nossa amiga BMI. Um medo daqueles bem Bia de não estar de acordo com as expectativas alheias. De novamente me descobrir uma farsa de, yadda yadda, lá vou eu outra vez me convencer de que o mundo está errado de me ver como sou, na pretensão autista de saber, só eu, quem realmente sou.
Não, de novo não. Prometo evitar doravante.
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Fim de semana todo gostoso, a não ser por um detalhe de domingo à noite. Sábado aquela palhaçada de ter que trabalhar. Eu fiquei meio doente, estranha, não sei. Resistência baixa, me arrastei pela academia e pela piscina e pelo clientes, com um sorriso doído no rosto. O corpo todo dolorido, implorando sossego. Claro que não dei. Saí do trabalho às 6pm e fui para Leicester Square, encontrar Broo e Renata para comermos um japa. Olha, que japa fenomenal aquele. Então fizemos umas extravagâncias em lojinhas e viemos aqui para casa. Elas se divertiram com a Sky. Eu, já mais para lá do que para cá, despenquei.
Dia seguinte fomos a Greenwich. Olha, desculpem, quem não vai a Greenwich não conhece Londres direito. Sério. E agora Greenwich fica walking distance de casa. Um mercado liiiiindo, cheio de coisas compráveis (eu me segurei, foram só dois livrinhos). Um parque todo cores de outono, esquilos, crianças almofadadas e cachorros correndo atrás do rabo de outros cachorros. Aquela cena de cinema. Subimos até o Royal Observatory, onde passa o meridiano de Greenwich, e ficamos com um pé no oriente e o outro no ocidente, e o mundo realmente parecia que estava prestes a mudar toda vez que eu passava para o outro lado. Um balé de iminências na minha cabeça.
Voltamos para casa, onde Mr Austrália cozinharia seu Lamb Perfeito. Na verdade, ele já cozinhou melhores. Mas a abóbora estava algo assim entre o sublime e o carnal. Alucinantemente bom, como nunca cogitamos ser possível com uma abóbora.
Comemos, tudo muito bom, tudo muito bem. Aquela horinha pós-refeição e tal. Fomos para fora de casa. Frio. Entramos. Quente. Sentei. Comecei a me sentir estranha. Eis o detalhe de domingo à noite que impediu que meu fim de semana fosse, enfim, depois de muito tempo, finalmente, bom.
Pânico. Mas dessa vez foi sério. Me tranquei no banheiro. Tudo sumiu, comecei a suar, respirar acelerado, meu coração gelado no meio do meu sangue quente. O peito apertado e ao mesmo tempo querendo estourar minha pele. Tudo desconfortável no saco que carrega meus órgãos. Sentei na provada. Sentei no chão. Levantei. Sentei de novo. Me olhei no espelho. BRANCA. Comecei a chorar, aquele choro seco de desespero. Vou ficar aqui até passar. Melhorou. Desço. Piorou. Mas não subo. Fico. Sento. Tento entender. Broo e Rê cada uma com uma mão. As palavras saindo da minha boca bem antes do que o planejado. Ou chegando aos meus ouvidos depois do que deveriam.
Tentei ignorar, mas minha mão tremia. Um tremor forte, que chegou a me impedir de dar uma garfada no doce que as meninas tentaram me enfiar goela abaixo.
Nada pior que estar atenta a todo e qualquer potencial problema no seu corpo. Pânico, entre outras coisas, é fechar o ouvido para o que está fora, fechar a cabeça para as razões do mundo, e criar suas próprias razões e sensações, e diagnosticar, e ouvir apenas o que se passa dentro. Autismo mesmo. Não queria me ver nesse estado.
Agora PASSOU. Não precisam se preocupar. E eu tive todo o suporte de que precisei.
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Myriam de volta ao Brasil. Mais uma que se vai.
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Se eu realmente conseguir encontrar no Brasil todo mundo que está falando que eu vou encontrar, vai ser difícil voltar...
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