Férias dos sonhos. Fechei os olhos e entrei nelas, nas férias. E só agora saí delas e abri os olhos para o mundo novamente. E os dias que passei de olhos fechados foram dos mais especiais este ano, junto com os dias movidos a tapas e paella com babãe. A Ilha da Madeira é um pequeno mundo de sonhos, um daqueles carrossel em que toda criança quer subir e nenhuma quer descer. O mar a cada canto dos olhos, peixes em cada canto dos mares, sol demais, sempre a brisa. Mordomia. Uma parte da minha família, como já devo ter citado no ano passado, quando também fui à Madeira, é dona de uma cacetada de coisas, entre elas quatro hotéis, um deles daqueles que já são o sonho em si. Um sonho dentro do sonho. Fiquei hospedada na casa de um de meus tios-primos preferidos, o Michael. Fora que ficar de papo pro ar, vendo as paisagens mais bonitas que meus olhos podem absorver, ao lado de alguém tão querido quanto minha Piu, chega a ser sacanagem de tão bom. Chega a doer, chega a congelar, apesar de o tempo voar. Chega a fazer me sentir uma idiota de passar por pequenas coisas ruins e me deixar abalar, se tenho a pessoa mais preciosa do mundo ao meu lado num dos lugares mais preciosos aqui já fui.
E ainda para ser arrebatada com um proto-convite para ir morar na Ilha da Madeira. Digo proto porque quem me convidou foi a esposa do Michael, que não manda muito no circo. Mas o Michael estava presente, assentindo. Mas calado. Calado não é bom. E também não sei se quero morar na Madeira. Acho que em alguns meses eu estaria correndo atrás do próprio rabo, com medo de pôr chinelas e ir à padaria do Joaquim porque obviamente em alguns meses já estaria "falada" num lugar tão provinciano.
Meninas traquinas como eu devem se conformar com a condição de encurraladas nas megalópoles. Ou livres para aprontar sem ser identificadas. Escolham a versão que parece menos ruim. Ambas estão corretas.
Voltando à família, uma das melhores sensações que tive foi a de ver meu pai, que chegou na Madeira três dias após eu e minha irmã, resgatando uma parte importante do passado dele. Primos que ele não via há 35 anos. Outros que ele nem conhecia. Os filhos, os netos, as casas e as vidas. As dores, as viúvas, tudo o que há numa família. A família do meu pai, a família No.2, depois de minha irmã e eu. Finalmente, a família de cujo reencontro ouso me sentir pivô. Babái não tinha contato com esse lado dele até que eu resolvi cutucar o vespeiro. Primeiro morando com meu tio-primo aqui em Londres nos primeiros meses. Depois, indo para a Madeira e desenterrando, inclusive para muitos que nem sabiam da minha existência, o lado Blandy que vem do Brasil. Um lado Blandy que é branquelo de olhos claros, mas que samba, joga futebol, ri pra cacete e abraça. Uma louca brasileira que ninguém lembrava que poderia um dia aparecer. Mas apareci e este ano voltei, com minha irmã a tiracolo e babái, uma mão dada a mim, outra a sua namorada, para rever o passado. Entender como tudo foi parar onde parou.
Foi precioso ver onde meu pai aprendeu a andar de bicicleta. Onde passava horas olhando os astros por um telescópio. Onde morou os primeiros anos de infância. Onde aprendeu a nadar, puta merda, onde APRENDEU a NADAR.
Foi delicioso revisitar o passado com babái. Não foi fácil dizer tchau. Mas nunca é. Acho que tô ficando profissional nesse negócio de despedida. Tô me acostumando à saudade. Tô me acostumando em deixar pedaços de mim com pessoas que deixam pedaços delas comigo também. Fui eu que escolhi.
Friday, July 29, 2005
Monday, July 18, 2005
Cardiff
Conheci uma das minhas cidades preferidas. Eu sabia que adoraria, tinha um good feeling sobre a capital do País de Gales. Estava certa. Eu e minha Piu aproveitamos cada segundo dessa viagem deliciosa. Mal chegamos no hotel - delicios, diga-se - fomos para o Cardiff Castle. Fizemos o tour completo. Maravilhoso. Ainda passeamos pelo centro da cidade e terminamos o dia em Cardiff Bay, o ponto de encontro de final da tarde, cerveja pros que são de cerveja, suco pros que são de suco. O sol se pondo às 10pm.
Dia seguinte acordamos cedo, nos esbaldamos no café-da-manhã do hotel e pegamos o busão para Barry Island, que fica a uns 50 minutos de Cardiff. Praia de areia (um adendo necessário nessa ilha chamada Grã-Bretanha), mar quentinho, crianças, muitas crianças, praia limpa e sol, sol, sol. Banho de sal para me livrar de qualquer coisa ruim que esteja me impregnando. Porque acredito muito que esteja.
Na praia fizemos um amigo, o Ethan. Ethan tem dois anos e a língua presa. Sorvete seco espalhado pela cara e areia por todos os lados. Sempre que saía para pegar um brinquedo, anunciava depois sua volta: "I come back". E cismava que tinha um barco, mas que não estava achando. Pegava pedrinhas na areia e dizia: "tiny!" e eu me controlava, ô se me controlava, porque aqui é meio estranho essa história de sacudir bochecha de bebês alheios.
Ainda tentei negociar com o pai, já que uma hora em que estava indo dar uma nadada no mar o Ethan quis vir junto. Disse ao pai que sou salva-vidas e que não teria problema levá-lo para um mergulho. Ainda assim não quis. Entendo.
Piu e eu ainda tentamos, nesse mesmo dia, visitar St Fagan's, uma vilazinha ao lado de Cardiff que possui o maior museu aberto da ilha, o Welsh Folk Museum. Mas o último ônibus partia às 18h (!). Nada feito.
Passeamos mais por Cardiff, exploramos o Bute Park (acho que é esse o nome, not sure, not sure) e voltamos cedo para o hotel. No dia seguinte, hoje, era o dia de empacotar tudo e voltar. Ainda deu tempo de passear pelo parque, mas fomos pega por uma chuva pentelha - já era esperado, ninguém tem a sorte de só pegar sol na Inglaterra; com minha Piu não seria diferente.
Na hora do almoço arribamos no trem. Para nossa surpresa, nos puseram na primeira classe. Não reclamamos. Eu até consegui dormir, já que, em troca de um gole da minha coca-light, minha irmã prometeu não cantar as músicas que ia ouvindo no discman.
Agora estou resolvendo todos os pepinos a serem resolvidos antes da esperada viagem para a Ilha da Madeira. Novo telefonema para a polícia, nova constatação de que polícia é incompetente em qualquer lugar.
Minha pequena ruiva deve estar perdida em Oxford Street, comprando lembrancinhas inglesas para seus brasileirinhos. Estou sozinha em casa. Faz tempo que não fico sozinha. Um vento delicioso entrando pela janela. Um sol brilhando apesar de estar meio nublado. Um sossego de que tudo dará certo, sempre, mesmo que certo não signifique perfeito.
Dia seguinte acordamos cedo, nos esbaldamos no café-da-manhã do hotel e pegamos o busão para Barry Island, que fica a uns 50 minutos de Cardiff. Praia de areia (um adendo necessário nessa ilha chamada Grã-Bretanha), mar quentinho, crianças, muitas crianças, praia limpa e sol, sol, sol. Banho de sal para me livrar de qualquer coisa ruim que esteja me impregnando. Porque acredito muito que esteja.
Na praia fizemos um amigo, o Ethan. Ethan tem dois anos e a língua presa. Sorvete seco espalhado pela cara e areia por todos os lados. Sempre que saía para pegar um brinquedo, anunciava depois sua volta: "I come back". E cismava que tinha um barco, mas que não estava achando. Pegava pedrinhas na areia e dizia: "tiny!" e eu me controlava, ô se me controlava, porque aqui é meio estranho essa história de sacudir bochecha de bebês alheios.
Ainda tentei negociar com o pai, já que uma hora em que estava indo dar uma nadada no mar o Ethan quis vir junto. Disse ao pai que sou salva-vidas e que não teria problema levá-lo para um mergulho. Ainda assim não quis. Entendo.
Piu e eu ainda tentamos, nesse mesmo dia, visitar St Fagan's, uma vilazinha ao lado de Cardiff que possui o maior museu aberto da ilha, o Welsh Folk Museum. Mas o último ônibus partia às 18h (!). Nada feito.
Passeamos mais por Cardiff, exploramos o Bute Park (acho que é esse o nome, not sure, not sure) e voltamos cedo para o hotel. No dia seguinte, hoje, era o dia de empacotar tudo e voltar. Ainda deu tempo de passear pelo parque, mas fomos pega por uma chuva pentelha - já era esperado, ninguém tem a sorte de só pegar sol na Inglaterra; com minha Piu não seria diferente.
Na hora do almoço arribamos no trem. Para nossa surpresa, nos puseram na primeira classe. Não reclamamos. Eu até consegui dormir, já que, em troca de um gole da minha coca-light, minha irmã prometeu não cantar as músicas que ia ouvindo no discman.
Agora estou resolvendo todos os pepinos a serem resolvidos antes da esperada viagem para a Ilha da Madeira. Novo telefonema para a polícia, nova constatação de que polícia é incompetente em qualquer lugar.
Minha pequena ruiva deve estar perdida em Oxford Street, comprando lembrancinhas inglesas para seus brasileirinhos. Estou sozinha em casa. Faz tempo que não fico sozinha. Um vento delicioso entrando pela janela. Um sol brilhando apesar de estar meio nublado. Um sossego de que tudo dará certo, sempre, mesmo que certo não signifique perfeito.
retrolavagem e purificação
Começo a desconfiar que este blog está amaldiçoado. Gente demais lendo, nem todas de boa energia. Infelizmente ainda não inventaram um recurso para banir de acesso a esta página essa gente pequena, cujas grandes alegrias são encher o saco da vida alheia. Um recado: eu sei que esse blog é legal, que vocês não conseguem não vir aqui ler, que minha vida é mesmo muito interessante. Mesmo não concordando com vocês entendo que, em tendo uma vidinha bem mais ou menos, vocês achem a minha excitante. Óquei, sem problemas. Mas leia e vá embora. Não deixe aqui seu fedor
Friday, July 15, 2005
aftermaths ou two steps away from losing it
Estou ao lado da pessoa que mais amo no mundo exatamente agora que o mundo resolveu desabar e eu não sei no que me seguro, na raiz ou na nuvem. Nenhum apetitoso. Só consigo agarrar minha irmã, e morro de medo de levá-la comigo para o caminho errado.
Antes dos ataques terroristas, antes de babái me dar o deleite de sua visita, muita merda fedeu. Duas noites após terminar o namoro, encontrei aquele gatinho, o Certinho, que a partir de agora, se é que há algum partir que não seja partida em minha vida, chamarei de D. Fui assistir Bonbón com ele, um filme argentino que julgo eu deve estar fazendo sucesso pela terrinha. Resolvemos esticar depois para um pub. Coisa rápida já que ambos acordavam cedo no dia seguinte, mesmo sendo domingo. Levantei para ir embora, virei para alcançar minha bolsa e não havia mais bolsa. Fui roubada pelo mais malandro dos trombadinhas. Não percebi nada, e não deixei a cadeira nem para ir ao banheiro - vantagens de não beber.
Eu não acreditava. Na hora me veio um gelado na espinha, daqueles que todo mundo tem, de desespero. Mas comigo sempre é mais dramático. Associei as sensações a um ataque de pânico e quase o tive ali, em frente ao D., que me olhava com cara de "fuck!", e em frente às garçonetes do pub, que estavam tentando partilhar da minha dor, mas que na hora, aos meus olhos ranzinzas, apenas regozijavam internamente por não ter acontecido com elas.
Sem carteira, sem cartões, sem dinheiro, sem iPod, sem telefone celular, sem chave de casa, o desespero foi crescendo porque o quebra-cabeça foi fechando e parecia que as peças não iam mais se encaixar. Foi nessa hora que me deu um clique, naquela hora em que a vista começa a escurecer. Essa é minha hora preferida de ter cliques. Nunca antes de tudo parecer perdido. Sempre segundos antes de eu apagar.
O único celular que eu sabia de cor era o do Ernesto. Liguei para ele depois de cancelar celular e cartões de banco e pedi o número do telefone da Bobby. Mais uma longa jornada até encontrá-la. Cheguei em casa detonada, chorando, mal mesmo, achando que não conseguiria levantar no dia seguinte para trabalhar. Eu estava certa. Eu não conseguiria levantar, mas alguma força maior que eu andou por mim, comeu por mim e me levou ao trabalho.
Daí para frente vocês já conhecem. Fui me reerguendo, resolvendo todas as dores de cabeça que uma perda desse gênero gera, yadda yadda yadda. A verdade é que cansei do meu próprio discurso de eu-me-fodo-mas-levanto-pois-sou-foda. Cansei do gesto de bumbar no peito estufado. Cansei de ficar serena, esperando a hora certa para levantar e levar outro bofetão, mesmo depois de juiz ter decretado nocaute. É isso. Alô deus, rolou um nocaute aqui, já. Fim de jogo. Esquece os próximos rounds porque, really, I can't cope.
E babái aqui e minha Piu aqui, e todos os elementos que deveriam me deixar explodindo de alegria, ainda não estão conseguindo. Não quero saber de D. ou de L. (L. agora é o Malandro). Não quero saber. Preciso mudar de casa com a Bobby e ao mesmo tempo I don't give a shit. Moro em qualquer canto, jogada, durmo em qualquer esquina, em posição fetal, economizo no arroz. Tudo o que eu nunca quis para mim.
Estar com a minha irmã aqui faz com que tudo seja menos insuportável. Só não quero levá-la comigo para a merda. Eu jamais me perdoaria. Jamais.
**
Em tempo, amanhã começam minhas férias. Vou para o País de Gales, volto na segunda e na quata vou para a Ilha da Madeira novamente. Eu pretendo muito acordar outra. Férias merecidas. Férias de mim mesma.
Antes dos ataques terroristas, antes de babái me dar o deleite de sua visita, muita merda fedeu. Duas noites após terminar o namoro, encontrei aquele gatinho, o Certinho, que a partir de agora, se é que há algum partir que não seja partida em minha vida, chamarei de D. Fui assistir Bonbón com ele, um filme argentino que julgo eu deve estar fazendo sucesso pela terrinha. Resolvemos esticar depois para um pub. Coisa rápida já que ambos acordavam cedo no dia seguinte, mesmo sendo domingo. Levantei para ir embora, virei para alcançar minha bolsa e não havia mais bolsa. Fui roubada pelo mais malandro dos trombadinhas. Não percebi nada, e não deixei a cadeira nem para ir ao banheiro - vantagens de não beber.
Eu não acreditava. Na hora me veio um gelado na espinha, daqueles que todo mundo tem, de desespero. Mas comigo sempre é mais dramático. Associei as sensações a um ataque de pânico e quase o tive ali, em frente ao D., que me olhava com cara de "fuck!", e em frente às garçonetes do pub, que estavam tentando partilhar da minha dor, mas que na hora, aos meus olhos ranzinzas, apenas regozijavam internamente por não ter acontecido com elas.
Sem carteira, sem cartões, sem dinheiro, sem iPod, sem telefone celular, sem chave de casa, o desespero foi crescendo porque o quebra-cabeça foi fechando e parecia que as peças não iam mais se encaixar. Foi nessa hora que me deu um clique, naquela hora em que a vista começa a escurecer. Essa é minha hora preferida de ter cliques. Nunca antes de tudo parecer perdido. Sempre segundos antes de eu apagar.
O único celular que eu sabia de cor era o do Ernesto. Liguei para ele depois de cancelar celular e cartões de banco e pedi o número do telefone da Bobby. Mais uma longa jornada até encontrá-la. Cheguei em casa detonada, chorando, mal mesmo, achando que não conseguiria levantar no dia seguinte para trabalhar. Eu estava certa. Eu não conseguiria levantar, mas alguma força maior que eu andou por mim, comeu por mim e me levou ao trabalho.
Daí para frente vocês já conhecem. Fui me reerguendo, resolvendo todas as dores de cabeça que uma perda desse gênero gera, yadda yadda yadda. A verdade é que cansei do meu próprio discurso de eu-me-fodo-mas-levanto-pois-sou-foda. Cansei do gesto de bumbar no peito estufado. Cansei de ficar serena, esperando a hora certa para levantar e levar outro bofetão, mesmo depois de juiz ter decretado nocaute. É isso. Alô deus, rolou um nocaute aqui, já. Fim de jogo. Esquece os próximos rounds porque, really, I can't cope.
E babái aqui e minha Piu aqui, e todos os elementos que deveriam me deixar explodindo de alegria, ainda não estão conseguindo. Não quero saber de D. ou de L. (L. agora é o Malandro). Não quero saber. Preciso mudar de casa com a Bobby e ao mesmo tempo I don't give a shit. Moro em qualquer canto, jogada, durmo em qualquer esquina, em posição fetal, economizo no arroz. Tudo o que eu nunca quis para mim.
Estar com a minha irmã aqui faz com que tudo seja menos insuportável. Só não quero levá-la comigo para a merda. Eu jamais me perdoaria. Jamais.
**
Em tempo, amanhã começam minhas férias. Vou para o País de Gales, volto na segunda e na quata vou para a Ilha da Madeira novamente. Eu pretendo muito acordar outra. Férias merecidas. Férias de mim mesma.
Thursday, July 07, 2005
estou bem
Aparentemente. Nada aconteceu comigo ou com alguém que eu conheça. Até agora, que eu saiba, apenas uma amiga estava num metrô que foi evacuado. Parece pouco, mas é traumático demais. Por aqui, no Eastend, o barulho das ambulâncias está começando a ser uma extensão de meu ouvido. Melhor assim, porque passo a não ouvir de tanto ouvir. Não a ser humano que agüente a certeza a todo segundo de que tem alguém morrendo ou sofrendo aqui do lado.
Londres está quieta. Depois de um dia de chuva intermitente, finalmente o sol saiu. Mas não tem ninguém lá fora para aproveitar. Os que estão na rua, estão tentando ter uma idéia de como vão voltar para casa.
Meu peito está apertado, medo fodido de passar pelo que passei no 11 de setembro. Meu pai na cidade, depois de mais de ano sem vê-lo, e não posso encontrá-lo porque simplesmente não há como. Não há meio.
Se deus quiser amanhã será um dia de reerguimento. Não dá para parar.
Quando achamos que chegamos no inferno, ainda estamos aptos a achar, então ainda não chegamos lá. Agora que tudo começa a perder as margens é que desconfio de que o verdadeiro inferno está próximo.
Nada não. Amanhã estou melhor. Por ora, eu e Schopenhauer dançamos o mais triste dos tangos.
Londres está quieta. Depois de um dia de chuva intermitente, finalmente o sol saiu. Mas não tem ninguém lá fora para aproveitar. Os que estão na rua, estão tentando ter uma idéia de como vão voltar para casa.
Meu peito está apertado, medo fodido de passar pelo que passei no 11 de setembro. Meu pai na cidade, depois de mais de ano sem vê-lo, e não posso encontrá-lo porque simplesmente não há como. Não há meio.
Se deus quiser amanhã será um dia de reerguimento. Não dá para parar.
Quando achamos que chegamos no inferno, ainda estamos aptos a achar, então ainda não chegamos lá. Agora que tudo começa a perder as margens é que desconfio de que o verdadeiro inferno está próximo.
Nada não. Amanhã estou melhor. Por ora, eu e Schopenhauer dançamos o mais triste dos tangos.
Friday, July 01, 2005
o fim da primeira metade
Acabou a primeira metade de 2005 e, com o fim, minha esperança de que esse ano não será um fiasco completo, afinal ainda temos meio ano pela frente para fazê-lo um semi-fiasco: é só tudo dar certo a partir de HOJE. Já que até hoje, convenhamos, conto nos dedos de uma mão as coisas boas que me acontecerm. 2004 foi ridiculamente bom. vai ver é isso. Alguém reclamou lá em cima que era meio mancada me deixar tão feliz. Aí deu no que deu: fechei os seis primeiros meses do ano em grande classe: eu e o Chris terminamos.
Já era esperado, claro, vide post abaixo, vide antigos posts, vide minha vida. Mas o fim de um namoro é sempre um fim. O Chris esteve comigo durante a metade do tempo em que estou na Inglaterra. E eu o conheci apenas dois meses após ter aqui me ancorado. Ele é importante. É especial. Uma das três pessoas que me fazem ou fizeram não desistir de tudo e voltar.
Mas nosso tempo passou. Na verdade, passou do ponto do passou. Mais um pouco e a gente nem se olharia mais na cara. Foi um término civilizado. Mãos agarradas, olhos nos olhos, umas e outras lagriminhas saindo dos olhos nos olhos. Alívio. A certeza, para ele, de que é só um tempo e que provavelmente vamos voltar. A certeza, para mim, de que é o fim definitivo.
Mas ele não precisa saber.
Fechei o primeiro semestre com mais uma perda. Nesses seis meses perdi meu avô, perdi meu emprego, perdi meu namorado, perdi dinheiro e, finalmente, me perdi. Fiquei meio abirutada no meio de campo. Mas depois me achei um pouco. Sempre vão faltar alguns parafusos porque sou um quebra-cabeça infinito. Tive momentos de serenidade. A viagem com babãe para a Espanha foi, sem dúvida, o cume de minha felicidade nesses tempos difíceis.
E hoje é dia primeiro de julho e eu não quero sentar para ver o resto do ano me foder. Hoje dormi como há muitas semanas não conseguia. 10 horas de sono sem parar. Acordei depois de sonhos estranhos. Pesadelos, as usual. Mas o sono em si foi bom. Tenho um freela dos muito bem apessoados para fazer na sexta-feira que vem, de intérprete num evento bem dos chiques. Dei meu valor, £30 por hora. Acabo de pegar a resposta: valor aceito.
Também recebi telefonema do meu chefe na academia em que trabalho aos fins de semana e ele quer me pôr em mais shifts a partir dessa semana.
Amanhã devo ver pelo menos um dos gatinhos, o Certinho. Finalmente, se deus for mesmo pai, dessa vez rola.
E ainda há chances de ver o Malandro. Sob o pretexto dele deixar o CV dele na academia em que trabalho. Vai ser bom entrar nos olhos dele de novo.
Sem falar na vinda eminente de babái, que está me deixando bastante apreensiva. Não parei de voltar na sala do meu manager na St George's para lembrá-lo que farei small shifts nas próximas duas semanas, e no shift at all nas duas seguintes.
Foi-se o primeiro dia da melhor metade de ano que posso ter, já que foi-se a pior metade que já passei as well. Tenho que acreditar em algo nessa vida, nem que seja na matemática.
**
Minha pessoa favorita criou uma comunidade no Orkut para moi! Se estiverem no embalo, vão lá.
Já era esperado, claro, vide post abaixo, vide antigos posts, vide minha vida. Mas o fim de um namoro é sempre um fim. O Chris esteve comigo durante a metade do tempo em que estou na Inglaterra. E eu o conheci apenas dois meses após ter aqui me ancorado. Ele é importante. É especial. Uma das três pessoas que me fazem ou fizeram não desistir de tudo e voltar.
Mas nosso tempo passou. Na verdade, passou do ponto do passou. Mais um pouco e a gente nem se olharia mais na cara. Foi um término civilizado. Mãos agarradas, olhos nos olhos, umas e outras lagriminhas saindo dos olhos nos olhos. Alívio. A certeza, para ele, de que é só um tempo e que provavelmente vamos voltar. A certeza, para mim, de que é o fim definitivo.
Mas ele não precisa saber.
Fechei o primeiro semestre com mais uma perda. Nesses seis meses perdi meu avô, perdi meu emprego, perdi meu namorado, perdi dinheiro e, finalmente, me perdi. Fiquei meio abirutada no meio de campo. Mas depois me achei um pouco. Sempre vão faltar alguns parafusos porque sou um quebra-cabeça infinito. Tive momentos de serenidade. A viagem com babãe para a Espanha foi, sem dúvida, o cume de minha felicidade nesses tempos difíceis.
E hoje é dia primeiro de julho e eu não quero sentar para ver o resto do ano me foder. Hoje dormi como há muitas semanas não conseguia. 10 horas de sono sem parar. Acordei depois de sonhos estranhos. Pesadelos, as usual. Mas o sono em si foi bom. Tenho um freela dos muito bem apessoados para fazer na sexta-feira que vem, de intérprete num evento bem dos chiques. Dei meu valor, £30 por hora. Acabo de pegar a resposta: valor aceito.
Também recebi telefonema do meu chefe na academia em que trabalho aos fins de semana e ele quer me pôr em mais shifts a partir dessa semana.
Amanhã devo ver pelo menos um dos gatinhos, o Certinho. Finalmente, se deus for mesmo pai, dessa vez rola.
E ainda há chances de ver o Malandro. Sob o pretexto dele deixar o CV dele na academia em que trabalho. Vai ser bom entrar nos olhos dele de novo.
Sem falar na vinda eminente de babái, que está me deixando bastante apreensiva. Não parei de voltar na sala do meu manager na St George's para lembrá-lo que farei small shifts nas próximas duas semanas, e no shift at all nas duas seguintes.
Foi-se o primeiro dia da melhor metade de ano que posso ter, já que foi-se a pior metade que já passei as well. Tenho que acreditar em algo nessa vida, nem que seja na matemática.
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Minha pessoa favorita criou uma comunidade no Orkut para moi! Se estiverem no embalo, vão lá.
Thursday, June 30, 2005
meus olhos se escondem onde explodem paixões
Mão fria, coração quente. O verão na Inglaterra é patético. Estou de agasalho e ainda assim com frio. Mas pelo menos aqui dentro as coisas estão bem. Na verdade, as coisas estão estranhas. Tenho ups muito upds e downs muito downs. Desacredito que vou ver meu pai em 4 dias e minha irmã, sim, ela, a toda poderosa, capaz de ser minha pessoa favorita, primeira entre as primeiras. Vai ser foda. Altas emoções nos dias vindouros.
E também tem os gatinhos. Nesse exato momento aguardo o Malandro me ligar. Ele ligou quando estava bufando, carregando sacolas do supermercado, pronta para subir dezenas de lances de escada. Não ia rolar ser simpática, ainda mais depois de ter pego uma chuva desnecessária nessa época do ano. Disse que ligaria de novo. Se for o canalha que eu estou pensando, vai demorar bastante para ligar. De repente só amanhã. Mas tá valendo, faz parte da malandragem, eu conheço o tipo. Conheço bem.
E tem o Certinho, o da despedida do trabalho. Combinamos de ir no cinema ontem. Marcamos às 6:20pm (ingleses, meus caros, ingleses…), o filme começava às 6:35pm (Inglaterra, meus caros, Inglaterra…). O negócio é que na hora marcada estávamos lá (mentira, ele atrasou MENOS DE DOIS MINUTOS e ligou para pedir desculpas porque estava atrasado. Depois me perguntam o que eu vejo nos ingleses. Eles são tudo de bom. O negócio é que a 15 minutos do início do filme, não sabíamos muito bem onde ficava o cinema. Acabamos desencanando e fomos a um pub, conversar e ver o jogo do Brasil e Argentina. Fiquei com vergonha dos berros que soltei, mas ele fazia cara de ternurinha, então, na pior das hipóteses, achou fofo. Fofo não é ótimo, mas tá legal.
Jogamos o cinema para sábado à noite. Todos nós sabemos o que significa saída de sabadanoite, então fico um pouco mais animadinha. O negócio é que o Certinho é muito tímido. Esse é nosso segundo date e até agora ele nem pegou na minha mão. A verdade é que estou gostando, curtindo o regresso à quarta-série, porque, como disse a Bobby, faz bastante tempo que isso aconteceu a última vez, desde a quarta-série!
E enquanto tudo isso de bom adoça meu coração, tem mais um monte de coisinhas beliscando. Não deixando que tudo sossegue por aqui. Preciso na verdade de mais um estômago para digerir tanta coisa.
Essa indefinição profissional está bem estranha. Nunca trabalhei tanto na minha vida – way beyond the amount allowed by law. Sério mesmo. Mas a causa é justíssima. De qualquer forma, me irrita um pouco estar trabalhando com algo que não contribui, pelo menos não diretamente, com o futuro profissional que quero pra mim. A verdade é que sempre fui tão abençoada profissionalmente, sempre tive facilidade para ser empregada, que quando me deparo com uma situação de rejeição, é extremamente difícil lidar. Estou passando agora pelo que muita gente passa no primeiro ou segundo ano no mercado de trabalho.
E, obviamente, toda essa situação faz com que eu repense minhas estratégias, perspectivas e planos futuros aqui em Londres. Não vou ficar aqui se não for para fazer o que mais feliz. Se é para ser infeliz, prefiro o ser do lado de pessoas que me fazem feliz no Brasil. Mas calma que ainda tem muita água por rolar.
Hoje, mais tarde, devo ver o Chris. Grand-finale, tudo indica.
E também tem os gatinhos. Nesse exato momento aguardo o Malandro me ligar. Ele ligou quando estava bufando, carregando sacolas do supermercado, pronta para subir dezenas de lances de escada. Não ia rolar ser simpática, ainda mais depois de ter pego uma chuva desnecessária nessa época do ano. Disse que ligaria de novo. Se for o canalha que eu estou pensando, vai demorar bastante para ligar. De repente só amanhã. Mas tá valendo, faz parte da malandragem, eu conheço o tipo. Conheço bem.
E tem o Certinho, o da despedida do trabalho. Combinamos de ir no cinema ontem. Marcamos às 6:20pm (ingleses, meus caros, ingleses…), o filme começava às 6:35pm (Inglaterra, meus caros, Inglaterra…). O negócio é que na hora marcada estávamos lá (mentira, ele atrasou MENOS DE DOIS MINUTOS e ligou para pedir desculpas porque estava atrasado. Depois me perguntam o que eu vejo nos ingleses. Eles são tudo de bom. O negócio é que a 15 minutos do início do filme, não sabíamos muito bem onde ficava o cinema. Acabamos desencanando e fomos a um pub, conversar e ver o jogo do Brasil e Argentina. Fiquei com vergonha dos berros que soltei, mas ele fazia cara de ternurinha, então, na pior das hipóteses, achou fofo. Fofo não é ótimo, mas tá legal.
Jogamos o cinema para sábado à noite. Todos nós sabemos o que significa saída de sabadanoite, então fico um pouco mais animadinha. O negócio é que o Certinho é muito tímido. Esse é nosso segundo date e até agora ele nem pegou na minha mão. A verdade é que estou gostando, curtindo o regresso à quarta-série, porque, como disse a Bobby, faz bastante tempo que isso aconteceu a última vez, desde a quarta-série!
E enquanto tudo isso de bom adoça meu coração, tem mais um monte de coisinhas beliscando. Não deixando que tudo sossegue por aqui. Preciso na verdade de mais um estômago para digerir tanta coisa.
Essa indefinição profissional está bem estranha. Nunca trabalhei tanto na minha vida – way beyond the amount allowed by law. Sério mesmo. Mas a causa é justíssima. De qualquer forma, me irrita um pouco estar trabalhando com algo que não contribui, pelo menos não diretamente, com o futuro profissional que quero pra mim. A verdade é que sempre fui tão abençoada profissionalmente, sempre tive facilidade para ser empregada, que quando me deparo com uma situação de rejeição, é extremamente difícil lidar. Estou passando agora pelo que muita gente passa no primeiro ou segundo ano no mercado de trabalho.
E, obviamente, toda essa situação faz com que eu repense minhas estratégias, perspectivas e planos futuros aqui em Londres. Não vou ficar aqui se não for para fazer o que mais feliz. Se é para ser infeliz, prefiro o ser do lado de pessoas que me fazem feliz no Brasil. Mas calma que ainda tem muita água por rolar.
Hoje, mais tarde, devo ver o Chris. Grand-finale, tudo indica.
Tuesday, June 28, 2005
give peace to my black and empty heart
I can’t believe life is so complex, when I just want to sit here and watch you undress.
Não tem como não se inspirar com PJ Harvey. Novamente tudo virado por aqui. Uma coisa assim meio mar do triângulo das Bermudas. Entenderam?
Domingo eu estava em luto. Anna, uma das duty managers da St George’s, piscina onde trabalho, ligou para falar, entre outras coisas, que meu gatinho salva-vidas pediu demissão e largou o shift, assim, no meio. Num desses acessos fuck-offs moleques em que eu tenho que me segurar bravamente para não achar lindo.
Se encheu e saiu. A chefona dessa piscina é um carrasco mesmo, não o culpo. Mas fiquei com aquele gosto de cinza na boca. E agora? Ele era um dos grandes estímulos para ir trabalhar todo dia. Perdeu boa parte da graça. Obviamente, it’s not about graça – I need the money. Mas que ficou mais penoso vigiar uma piscina, não importa o quanto eu goste do ambiente, isso ficou.
E o gosto de cinza ficou ainda mais empapucento quanto mais eu fosse pensando que nunca mais o veria. Nunca mais, a não ser que ele me procurasse por meio de alguém da St George’s, ou que aparecesse por lá. Enfim, queria manter minhas expectativas no nunca mais mesmo, para não me iludir. Um luto rápido, afinal tivemos pouco tempo juntos para nutrir qualquer coisa especial. Mas ainda assim um luto desconfortável. De um vazio que nunca deixou de ser vazio. Que nunca chegou a ser preenchido com nada. Uma tela vazia jogada no lixo antes do primeiro traço. Praticamente um aborto. Considero luto tudo o que era para ser e não foi por força maior. Nesse caso, eu e ele era para ser.
Ontem resolvo fazer o shift mais inumano do mundo. 7 às 11h, depois 15:30h às 22:30h. Ridículo, eu sei. Mas por uma boa causa: babái está chegando em menos de uma semana e, enquanto ele estiver por aqui, quero aproveitá-lo até a última gota. Isso significa trabalhar shifts de 4 horas, façavô, porque eu não nasci pra sofrer.
E aí é que aconteceu. Estava chegando no trabalho para o segundo turno da jornada inumana, a cara amassada do travesseiro ainda, meio correndo e mal humorada por ter esquecido os óculos escuros com tanta luz lá fora. Entro na St George’s e quem está lá, lindo, sacana, canalha? O gatinho. Meus olhos brilharam, os dele também. Parecia que ele só estava esperando eu chegar para poder ir embora.
Naturalmente, trocamos telefone. Naturalmente, trocamos mensagens naquele mesmo dia, algumas poucas horas depois. Obviamente ele disse que gostaria de me ver: Give me a call when you get a chance. It doesn’t have to be about work. It would be nice to here from you when you got some free time, maybe go out for a drink. E algumas células nervosas morreram dentro de mim nesse momento. Fiquei toda formigando, quentinha, babaca, não posso me envolver com MAIS UM CANALHA. Eu estava melhorando. No último ano só tive caras legais, de família, fiéis, companheiros, de sorriso de boca inteira. Não posso me deixar regredir para o mulher-das-cavernas mode-on. Não posso pensar em voltar a ser aquela mulher volúvel que, no mesmo dia em que quer morrer, quer também viver para sempre.
Não se assustem. O Chris continua presente. Meio como sombra, mas continua. Fazendo tudo errado, como sempre. Me provando o quanto mudei: se fosse alguns meses ou anos atrás, ele teria rodado em um mês. E lá se vão mais de seis. Céus. Isso tem que acabar.
E tem o que acabou virando a segunda opção. O gatinho da festa de despedida. Vamos no cinema amanhã. Ver Bonbón. Estou planejando dormir em seus braços se estiver muito cansada.
Mas quem tem ocupado mais espaço nas minhas viajadas ao longo do dia, quem tem evitado que eu me entupa de chocolate, é o canalha charmoso que me derrete em meio sorriso. Aqueles meios sorrisos que ficam irresistíveis nos verdadeiros cafas e patéticos nos que tentam agir como tal mas nunca serão.
Não sossego enquanto não conseguir o que quero. Sempre fui assim. You’re the only story that I never told, you’re my dirty little secret – wanna keep you so.
**
Enquanto as novidades estão entre o inspirar e o expirar, um aviso aos navegantes intrometidos (vocês sabem quem são) dessa humilde página: não tente cuidar da minha vida, amigo. Você não me conhece. Não sabe dos meus sonhos, taras, vontades, idéias, convicções, condenações. Você, acredite, é um mero leitor cuja existência eu, do fundo do coração, ignoro. Então desencana de tentar me julgar porque suas palavras têm sobre mim o efeito que um tiro tem no corpo de um morto. Mesmo.
Não tem como não se inspirar com PJ Harvey. Novamente tudo virado por aqui. Uma coisa assim meio mar do triângulo das Bermudas. Entenderam?
Domingo eu estava em luto. Anna, uma das duty managers da St George’s, piscina onde trabalho, ligou para falar, entre outras coisas, que meu gatinho salva-vidas pediu demissão e largou o shift, assim, no meio. Num desses acessos fuck-offs moleques em que eu tenho que me segurar bravamente para não achar lindo.
Se encheu e saiu. A chefona dessa piscina é um carrasco mesmo, não o culpo. Mas fiquei com aquele gosto de cinza na boca. E agora? Ele era um dos grandes estímulos para ir trabalhar todo dia. Perdeu boa parte da graça. Obviamente, it’s not about graça – I need the money. Mas que ficou mais penoso vigiar uma piscina, não importa o quanto eu goste do ambiente, isso ficou.
E o gosto de cinza ficou ainda mais empapucento quanto mais eu fosse pensando que nunca mais o veria. Nunca mais, a não ser que ele me procurasse por meio de alguém da St George’s, ou que aparecesse por lá. Enfim, queria manter minhas expectativas no nunca mais mesmo, para não me iludir. Um luto rápido, afinal tivemos pouco tempo juntos para nutrir qualquer coisa especial. Mas ainda assim um luto desconfortável. De um vazio que nunca deixou de ser vazio. Que nunca chegou a ser preenchido com nada. Uma tela vazia jogada no lixo antes do primeiro traço. Praticamente um aborto. Considero luto tudo o que era para ser e não foi por força maior. Nesse caso, eu e ele era para ser.
Ontem resolvo fazer o shift mais inumano do mundo. 7 às 11h, depois 15:30h às 22:30h. Ridículo, eu sei. Mas por uma boa causa: babái está chegando em menos de uma semana e, enquanto ele estiver por aqui, quero aproveitá-lo até a última gota. Isso significa trabalhar shifts de 4 horas, façavô, porque eu não nasci pra sofrer.
E aí é que aconteceu. Estava chegando no trabalho para o segundo turno da jornada inumana, a cara amassada do travesseiro ainda, meio correndo e mal humorada por ter esquecido os óculos escuros com tanta luz lá fora. Entro na St George’s e quem está lá, lindo, sacana, canalha? O gatinho. Meus olhos brilharam, os dele também. Parecia que ele só estava esperando eu chegar para poder ir embora.
Naturalmente, trocamos telefone. Naturalmente, trocamos mensagens naquele mesmo dia, algumas poucas horas depois. Obviamente ele disse que gostaria de me ver: Give me a call when you get a chance. It doesn’t have to be about work. It would be nice to here from you when you got some free time, maybe go out for a drink. E algumas células nervosas morreram dentro de mim nesse momento. Fiquei toda formigando, quentinha, babaca, não posso me envolver com MAIS UM CANALHA. Eu estava melhorando. No último ano só tive caras legais, de família, fiéis, companheiros, de sorriso de boca inteira. Não posso me deixar regredir para o mulher-das-cavernas mode-on. Não posso pensar em voltar a ser aquela mulher volúvel que, no mesmo dia em que quer morrer, quer também viver para sempre.
Não se assustem. O Chris continua presente. Meio como sombra, mas continua. Fazendo tudo errado, como sempre. Me provando o quanto mudei: se fosse alguns meses ou anos atrás, ele teria rodado em um mês. E lá se vão mais de seis. Céus. Isso tem que acabar.
E tem o que acabou virando a segunda opção. O gatinho da festa de despedida. Vamos no cinema amanhã. Ver Bonbón. Estou planejando dormir em seus braços se estiver muito cansada.
Mas quem tem ocupado mais espaço nas minhas viajadas ao longo do dia, quem tem evitado que eu me entupa de chocolate, é o canalha charmoso que me derrete em meio sorriso. Aqueles meios sorrisos que ficam irresistíveis nos verdadeiros cafas e patéticos nos que tentam agir como tal mas nunca serão.
Não sossego enquanto não conseguir o que quero. Sempre fui assim. You’re the only story that I never told, you’re my dirty little secret – wanna keep you so.
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Enquanto as novidades estão entre o inspirar e o expirar, um aviso aos navegantes intrometidos (vocês sabem quem são) dessa humilde página: não tente cuidar da minha vida, amigo. Você não me conhece. Não sabe dos meus sonhos, taras, vontades, idéias, convicções, condenações. Você, acredite, é um mero leitor cuja existência eu, do fundo do coração, ignoro. Então desencana de tentar me julgar porque suas palavras têm sobre mim o efeito que um tiro tem no corpo de um morto. Mesmo.
Wednesday, June 22, 2005
eu preciso dizer que não te amo, eventually
Como o trem da minha vida não pára por mais que eu apite – e muitas vezes o faço com força – cá estou, após alguns dias apenas, com novidades que cabem num livro. Na verdade, um dia cabe num livro se o escritor for bom. James Joyce é o primeiro e melhor exemplo.
Hoje completei uma semana trabalhando como salva-vidas. O saldo já está de bom tamanho: um sangramento de nariz intenso, duas cãimbras, uma vomitada no capricho no meio da piscina, várias apitadas para a molecada não correr, não se empurrar, enfim, não se afogar porque não tenho camisa reserva se tiver que pular para salvar algum mané. Hoje mesmo quase rolou uma operação First Aid Room: um gorduchinho começou a correr no deck da piscine, todas as banhinhas sacolejando, gritei “no running pleeeease”, o viado não parou de correr, dois segundos, catapoft, homem ao chão. I hate to say I told you so.
E aqui estou agora, assistindo a um programa da BBC sobre por quê os pingüins africanos evitam a presença humana. Eu, se fosse pingüim, evitariam também.
**
Hoje o dia foi melhor que o esperado. Passei calor demais, resolvi mergulhar depois do meu shift. E, claro, o gatinho em que já estou de olho estava lá. Ele é salva-vidas também. Malandro, canalha, um daqueles Good Old Biba’s Day. Só para farra, claro. O Chris? Ai, na boa, vou começar a ignorar esse tipo de pergunta se nela vier embutido um tom acusatório.
Ontem, o outro gatinho, o da festa de despedida do meu ex-trabalho, ligou. Para combinar um cinema nesse fim de semana. Eu, claro, topei. Porque não quero passar minha vida pensando que alguém que não conseguiu me fazer feliz, como se não bastasse, teve o poder de evitar outras felicidades. Pequenas, grandes, de diferentes cheiros e formatos, travestidas de infelicidade, whichever. Qualquer uma serve. Desde que eu sinta sempre.
Hoje completei uma semana trabalhando como salva-vidas. O saldo já está de bom tamanho: um sangramento de nariz intenso, duas cãimbras, uma vomitada no capricho no meio da piscina, várias apitadas para a molecada não correr, não se empurrar, enfim, não se afogar porque não tenho camisa reserva se tiver que pular para salvar algum mané. Hoje mesmo quase rolou uma operação First Aid Room: um gorduchinho começou a correr no deck da piscine, todas as banhinhas sacolejando, gritei “no running pleeeease”, o viado não parou de correr, dois segundos, catapoft, homem ao chão. I hate to say I told you so.
E aqui estou agora, assistindo a um programa da BBC sobre por quê os pingüins africanos evitam a presença humana. Eu, se fosse pingüim, evitariam também.
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Hoje o dia foi melhor que o esperado. Passei calor demais, resolvi mergulhar depois do meu shift. E, claro, o gatinho em que já estou de olho estava lá. Ele é salva-vidas também. Malandro, canalha, um daqueles Good Old Biba’s Day. Só para farra, claro. O Chris? Ai, na boa, vou começar a ignorar esse tipo de pergunta se nela vier embutido um tom acusatório.
Ontem, o outro gatinho, o da festa de despedida do meu ex-trabalho, ligou. Para combinar um cinema nesse fim de semana. Eu, claro, topei. Porque não quero passar minha vida pensando que alguém que não conseguiu me fazer feliz, como se não bastasse, teve o poder de evitar outras felicidades. Pequenas, grandes, de diferentes cheiros e formatos, travestidas de infelicidade, whichever. Qualquer uma serve. Desde que eu sinta sempre.
Thursday, June 16, 2005
happy and bleeding
Hoje eu caí no chão. Estava saindo do prédio onde moro com meu tênis novo, já que tenho que trabalhar de tênis branco, e, sabe deus como, virei o pe e caí mesmo, como há anos não acontecia. E foi daquelas clássicas, tipo cachorrinho, de ralar joelho e a palma da mão. Um cara de bicicleta passou e perguntou se eu estava bem. "Yeah, yeah." Eram 6.15h da manhã e meu saldo já era um tombo.
Mas a promessa não se fez profecia. O dia, afinal, foi bom. Desde ontem sou salva-vidas na St George's Pools. Todos já me conheciam, pois é lá que sempre nadei. Lá que sempre fui servida, e agora sirvo. Talvez alguns de vocês não entendam a poesia, quase beleza disso. Mas quero crer que se você é um leitor assíduo disso aqui, é porque vai entender minhas idiossincrasias.
Desde ontem faço turnos entre a piscina pequena e as duas posições da piscina grande. Desde ontem, também, preciso limpar a porra toda, com a ajuda de meus colegas salva-vidas. Eu. Limpeza. Coceira no nariz. Eca. Cabelo. Mais eca. Já estou me acostumando. Credo. Mas aqui no UK as coisas são assim. Aliás, aqui, nos EUA, na Europa toda, não tem essa história de faxineira. Todo mundo faz faxina e quem quer pagar para não fazer, paga caro. Então, entre as duties normais de uma salva-vidas, inclui-se a boa e velha faxina. Claro que não é a tarefa primordial. Das 8 horas que fico lá, no máximo duas são dedicadas a limpeza.
De qualquer forma, é annoying porque odeio limpar coisas.
Fora isso tem sido bem legal. Hoje pela primeira vez usei meu apito. Tinha um grupo de senhouras muçulmanas paradas no meio da raia dedicada para quem nada. Tive que fazê-las moverem as ancas, claro. Elas não gostaram. Fodam-se.
Também tive que gritar para uma pirralhada que estava correndo ao redor da piscina. A partir de hoje sou a tia do Mal e eles todos têm medo de mim. Não é bem o estigma que me cabe, but that will do.
E nem preciso dizer o ímpeto fofuro-genocídico que me assola quando tem aula dos babies e das molecadinhas de uns quatro anos. Hoje, por exemplo, tinha uma menininha idêntica à minha Piu quando era pequena. Bem, bem magrinha, toda branquinha, ruuuuuiva, e cheia de sim, em seu collant (não era maiô aquilo), touca e óculos, todos rosa e esses últimos fosforescentes. E toda metidinha. Adorable.
E tem os velhinhos, que se continuarem fofos do jeito que são eu ainda quebro costelas. Um deles, todo magrinho, cabelinho bem branco, em alguma coisa me lembra meu avô. Ele está lá todo dia. Senta no mesmo banquinho, tira os mesmos chinelinhos do pé, faz uma automassagem meia-boca na batata da perna, entra na piscina e faz suas chegadinhas, sempre com as mesmas caretas de esforço, nunca molhando as madeixas de neve. Vontade de pular na água e agarrar, pór no colo, fazer boiar, fazer feliz. Mas tento me conter e não demonstrar isso nem no olhar. Vai que sou mal interpretada.
**
Amanhã tenho entrevista em uma editora. Fingers crossed. Enquanto isso, tem mais luz no horizonte. Tem dinheiro entrando, então posso procurar meus sonhos mais em paz.
**
Em 18 dias estarei nos braços amados e aconchegantes de babái. A correria foi tanta nos últimos tempos que só agora está caindo a ficha. Tenho vontade de me desmanchar toda no seu abraço, papito. E sei que vou.Todo esse tempo e toda essa saudade só serviram para aguçar um sentimento forte e lindo que sempre esteve aqui, mas nunca foi tão óbvio. Amo minha família. Tenho certeza de que a escolhi, sim.
Mas a promessa não se fez profecia. O dia, afinal, foi bom. Desde ontem sou salva-vidas na St George's Pools. Todos já me conheciam, pois é lá que sempre nadei. Lá que sempre fui servida, e agora sirvo. Talvez alguns de vocês não entendam a poesia, quase beleza disso. Mas quero crer que se você é um leitor assíduo disso aqui, é porque vai entender minhas idiossincrasias.
Desde ontem faço turnos entre a piscina pequena e as duas posições da piscina grande. Desde ontem, também, preciso limpar a porra toda, com a ajuda de meus colegas salva-vidas. Eu. Limpeza. Coceira no nariz. Eca. Cabelo. Mais eca. Já estou me acostumando. Credo. Mas aqui no UK as coisas são assim. Aliás, aqui, nos EUA, na Europa toda, não tem essa história de faxineira. Todo mundo faz faxina e quem quer pagar para não fazer, paga caro. Então, entre as duties normais de uma salva-vidas, inclui-se a boa e velha faxina. Claro que não é a tarefa primordial. Das 8 horas que fico lá, no máximo duas são dedicadas a limpeza.
De qualquer forma, é annoying porque odeio limpar coisas.
Fora isso tem sido bem legal. Hoje pela primeira vez usei meu apito. Tinha um grupo de senhouras muçulmanas paradas no meio da raia dedicada para quem nada. Tive que fazê-las moverem as ancas, claro. Elas não gostaram. Fodam-se.
Também tive que gritar para uma pirralhada que estava correndo ao redor da piscina. A partir de hoje sou a tia do Mal e eles todos têm medo de mim. Não é bem o estigma que me cabe, but that will do.
E nem preciso dizer o ímpeto fofuro-genocídico que me assola quando tem aula dos babies e das molecadinhas de uns quatro anos. Hoje, por exemplo, tinha uma menininha idêntica à minha Piu quando era pequena. Bem, bem magrinha, toda branquinha, ruuuuuiva, e cheia de sim, em seu collant (não era maiô aquilo), touca e óculos, todos rosa e esses últimos fosforescentes. E toda metidinha. Adorable.
E tem os velhinhos, que se continuarem fofos do jeito que são eu ainda quebro costelas. Um deles, todo magrinho, cabelinho bem branco, em alguma coisa me lembra meu avô. Ele está lá todo dia. Senta no mesmo banquinho, tira os mesmos chinelinhos do pé, faz uma automassagem meia-boca na batata da perna, entra na piscina e faz suas chegadinhas, sempre com as mesmas caretas de esforço, nunca molhando as madeixas de neve. Vontade de pular na água e agarrar, pór no colo, fazer boiar, fazer feliz. Mas tento me conter e não demonstrar isso nem no olhar. Vai que sou mal interpretada.
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Amanhã tenho entrevista em uma editora. Fingers crossed. Enquanto isso, tem mais luz no horizonte. Tem dinheiro entrando, então posso procurar meus sonhos mais em paz.
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Em 18 dias estarei nos braços amados e aconchegantes de babái. A correria foi tanta nos últimos tempos que só agora está caindo a ficha. Tenho vontade de me desmanchar toda no seu abraço, papito. E sei que vou.Todo esse tempo e toda essa saudade só serviram para aguçar um sentimento forte e lindo que sempre esteve aqui, mas nunca foi tão óbvio. Amo minha família. Tenho certeza de que a escolhi, sim.
Tuesday, June 14, 2005
spin it
E se a vida em geral é um carrossel, a minha é um peão. E a culpa é toda minha, que puxo incessantemente a cordinha e o faço dançar desvairado sobre qualquer superfície, em qualquer contexto, dentro ou fora do ritmo. A culpa é toda minha.
Esse fim de semana foi surreal do começo ao fim. Começou já sábado de manhã. Fui no centro esportivo implorar emprego como salva-vidas. Fui muito bem, senti. Ontem passei lá para deixar meu NPLQ (certificado de salva-vidas) e meu National Insurance Number e a manager me puxou de lado. Disse que a vaga é minha. A partir de amanhã, 7 da matina, sou lifeguard na mesma piscina em que costumo treinar, a cinco minutos de casa. Trabalho feito alucinada até sexta, quando já terei ganho quase o suficiente para sanar os gastos que tive com o curso de salva-vidas.
Aí depois disso fui encontrar com a Rô, uma brasileira que fundou o site www.BrazilianArtists.net e que me chamou para uma conversa a respeito de possível trabalho. O legal: a causa, que é linda. O não-legal: é voluntário. Convenhamos que não estou podendo me dar ao luxo. De qualquer forma, fui na casa dela ontem e passei a tarde trabalhando em cima de um release que mandamus para toda a imprensa local anunciando a vinda do MV Bill para o lançamento do livro Cabeça de Porco. Mas não tô podendo, não tô podendo. Preciso cuidar de mim e dos meus sonhos primeiro, para depois cuidar dos outros e de seus sonhos. Porque sou estúpida o bastante para sonhar os sonhos alheios.
E então fui para Oxford, encontrar com minhas primas, Jo e Lucia. No dia seguinte, triathlon. Elas estavam nervosíssimas. Eu não porque a distância da natação, que era a minha perna na comeptição, não era longa. Muito pelo contrário: a distância é o que costumo fazer para aquecer normalmente. Rolou bem legal. Fui a segunda mulher no geral, e a 19a pessoa, entre homens e mulheres, entre 150 competidores. Not too bad para quem parou de treinar há tanto tempo e hoje só nada para chacoalhar a pança mesmo.
Aí, terminou a premiação e voltei pra minha Londres. Cheguei em casa e em 15 minutos tinha que estar pronta para, bom, foda falar mas, pro meu date. Aquele, lembram? O tal bonitinho que conversou comigo no meu drink de despedida do trabalho; aquele que ligou semana passada. Finalmente nos encontramos. Não rolou nada. Ele tava todo ansioso porque tinha que terminar um trabalho. Mas já temos novo programinha: cinema no final dessa semana ou começo da semana que vem.
Hoje faz um ano que deixei meu país.
Hoje faço seis meses de namoro com o Chris.
A verdade é que não estou me sentindo culpada. Nem um pouco, actually. Ele precisa se esforçar um pouco mais, como eu já disse.
Um peão desequilibrado, que ameaça quedar pro lado, mas não queda. Não pára. Até quando?
**
Já assistiram Vera Drake? Se ainda não, não percam a oportunidade de ver o melhor diretor de cinema inglês em um de seus melhores momentos ever. Imperdivelíssimo, juro mesmo.
Esse fim de semana foi surreal do começo ao fim. Começou já sábado de manhã. Fui no centro esportivo implorar emprego como salva-vidas. Fui muito bem, senti. Ontem passei lá para deixar meu NPLQ (certificado de salva-vidas) e meu National Insurance Number e a manager me puxou de lado. Disse que a vaga é minha. A partir de amanhã, 7 da matina, sou lifeguard na mesma piscina em que costumo treinar, a cinco minutos de casa. Trabalho feito alucinada até sexta, quando já terei ganho quase o suficiente para sanar os gastos que tive com o curso de salva-vidas.
Aí depois disso fui encontrar com a Rô, uma brasileira que fundou o site www.BrazilianArtists.net e que me chamou para uma conversa a respeito de possível trabalho. O legal: a causa, que é linda. O não-legal: é voluntário. Convenhamos que não estou podendo me dar ao luxo. De qualquer forma, fui na casa dela ontem e passei a tarde trabalhando em cima de um release que mandamus para toda a imprensa local anunciando a vinda do MV Bill para o lançamento do livro Cabeça de Porco. Mas não tô podendo, não tô podendo. Preciso cuidar de mim e dos meus sonhos primeiro, para depois cuidar dos outros e de seus sonhos. Porque sou estúpida o bastante para sonhar os sonhos alheios.
E então fui para Oxford, encontrar com minhas primas, Jo e Lucia. No dia seguinte, triathlon. Elas estavam nervosíssimas. Eu não porque a distância da natação, que era a minha perna na comeptição, não era longa. Muito pelo contrário: a distância é o que costumo fazer para aquecer normalmente. Rolou bem legal. Fui a segunda mulher no geral, e a 19a pessoa, entre homens e mulheres, entre 150 competidores. Not too bad para quem parou de treinar há tanto tempo e hoje só nada para chacoalhar a pança mesmo.
Aí, terminou a premiação e voltei pra minha Londres. Cheguei em casa e em 15 minutos tinha que estar pronta para, bom, foda falar mas, pro meu date. Aquele, lembram? O tal bonitinho que conversou comigo no meu drink de despedida do trabalho; aquele que ligou semana passada. Finalmente nos encontramos. Não rolou nada. Ele tava todo ansioso porque tinha que terminar um trabalho. Mas já temos novo programinha: cinema no final dessa semana ou começo da semana que vem.
Hoje faz um ano que deixei meu país.
Hoje faço seis meses de namoro com o Chris.
A verdade é que não estou me sentindo culpada. Nem um pouco, actually. Ele precisa se esforçar um pouco mais, como eu já disse.
Um peão desequilibrado, que ameaça quedar pro lado, mas não queda. Não pára. Até quando?
**
Já assistiram Vera Drake? Se ainda não, não percam a oportunidade de ver o melhor diretor de cinema inglês em um de seus melhores momentos ever. Imperdivelíssimo, juro mesmo.
Monday, June 13, 2005
Thursday, June 09, 2005
nada no bolso ou nas mãos
Estava comentando com a Bobby hoje que resolvi ficar desempregada na melhor época do ano. Dias lindos, solzão, temos nossa varanda que é grande o suficiente para três brasileirinhas banharem-se ao sol. Não consigo imaginar o que teria acontecido se tivesse ficado desempregada em dezembro. Dias amanhecendo às 8h e anoitecendo às 15:30h, e a casa em que eu morava antes era fria, mas friiiia, que nem conto o quanto sofri com ossos gelados porque vocês vão morrer de pena. Para terem uma idéia, nos últimos dias me dava desespero de pensar em entrar no Messenger para falar com meus amados porque minha mão doía muito se não estivesse debaixo de um edredon.
E hoje foi um dia de praia quase. Até o barulho da criançada aqui na escolinha do lado ajudou. era só fechar os olhos, imaginar uma maresia entrando pelas ventas e pôr uma voz virtual: "olha o bishcoito globo, bishcoito globo é um real. tem doce, tem salgado, é o bishcoito globo um real".
Tudo nas devidas proporções, claro.
Mas de qualquer maneira, dá prazer viver nessa cidade durante seus 05 dias de verão. Mesmo que não tenha nada no bolso ou nas mãos.
**
Novidades, perspectivas várias, uma hora rola um emprego. Tô sentindo que não vai tardar. Estou com uma intuição positivíssima, principalmente em relação a sábado. Como sempre, só conto se rolar. Mas por enquanto, não saí do lugar. É assim que quero pensar, é assim que se deve pensar. Porque se eu achar que já fiz tudo para o emprego aparecer, ele vai me escorrer pelas mãos. Então, todo dia acordo mentalizando que estou no zero. Não posso dizer que me dá ânimo isso; me dá desespero, muitas vezes o motor dos meus melhores feitos. É que nem depilação: dói mas funciona.
**
Daqui a cinco dias faz um ano que deixei terra brasilis. Dá para acreditar? Eu também não.
E hoje foi um dia de praia quase. Até o barulho da criançada aqui na escolinha do lado ajudou. era só fechar os olhos, imaginar uma maresia entrando pelas ventas e pôr uma voz virtual: "olha o bishcoito globo, bishcoito globo é um real. tem doce, tem salgado, é o bishcoito globo um real".
Tudo nas devidas proporções, claro.
Mas de qualquer maneira, dá prazer viver nessa cidade durante seus 05 dias de verão. Mesmo que não tenha nada no bolso ou nas mãos.
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Novidades, perspectivas várias, uma hora rola um emprego. Tô sentindo que não vai tardar. Estou com uma intuição positivíssima, principalmente em relação a sábado. Como sempre, só conto se rolar. Mas por enquanto, não saí do lugar. É assim que quero pensar, é assim que se deve pensar. Porque se eu achar que já fiz tudo para o emprego aparecer, ele vai me escorrer pelas mãos. Então, todo dia acordo mentalizando que estou no zero. Não posso dizer que me dá ânimo isso; me dá desespero, muitas vezes o motor dos meus melhores feitos. É que nem depilação: dói mas funciona.
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Daqui a cinco dias faz um ano que deixei terra brasilis. Dá para acreditar? Eu também não.
Tuesday, June 07, 2005
as coisas, assim, espremendo ombros
Uma semana em Southampton. Foi tudo muito estranho. Decidi que queria porque queria porque queria fazer o curso de salva-vidas. Quem me conhece sabe que querer por querer significa fazer nesta cabecinha dura. Nada é melhor justificativa para um feito que o querer por querer.
Então fui para lá, costa sudoeste da Inglaterra. Estava indo para um lugar desconhecido, fazer algo novo, com gente desconhecida e ia ficar hospedada na casa de gente que eu igualmente nunca havia visto mais gorda. Na cara-de-pau, fiz um amigo do meu ex-trabalho achar alguém que ele conhecesse morando por lá que pudesse me hospedar, na caruda, caruda mesmo. Sou bem mais cara-de-pau do que eu mesma acho. De qualquer forma, bateu aquela meda, pânica, horrora e desespera básica. No trem, saindo de Waterloo. Bateu aquele comecinho de pânico. O monstro do desconhecido comprimindo meu estômago e me gelando por baixo na pele. Mas consegui segurar o ataque com a respiração básica que minha terapeuta no Brasil me ensinou.
Em poucas horas me transformei de um bichinho assustado dentro do próprio casulo que construi invisivelmente para mim, em uma pessoa pronta para viver algo que tinha tudo para me engrandecer e me fazer mais feliz, mesmo que um pouquinho só. Logo no primeiro dia resolvi dar uma nadada de meia hora já que havia chegado mais cedo no The Quays, o complexo aquático em que eu faria o curso. O curso começou e foi tudo bem. Aí chegou a hora de encontrar com o Jon (short for Jonathan), cara que eu não conhecia mas em cuja casa ficaria pela próxima semana.
Sinceramente? Não podia ter sido melhor. Eles me adoraram e eu adorei eles. Até fui com o Jon jantar na casa do pai dele (os pais, presumivelmente, são separados). Fofo demais. Também conheci um amigo do Jon, chamado Chris (uh!) que fala português e ama o Brasil. E é gato. Deveras gato.
Mas não passou nada, não passou nada. A semana voou. O curso durava o dia inteiro. Nos almoços eu ia num cybercafé - quiçá o único da cidade - para checar novidades de emprego. Capotava às 21h, acordava às 7h, com luz, passarinhos, e despertador, tudo ao mesmo tempo. Precisava calcular o tempo do trem, já que o curso foi em Southampton e eu estava hospedada num bucólico sobrado em Eastleigh, cidade vizinha.
E também me engracei com o instrutor do curso de salva-vidas, e a engracice só não foi recíproca porque o gostosão é profissional demais. Foi tudo bom demais. Chegou sexta, day-off, fui passear em Winchester, a capital mais antiga da Inglaterra. Uma preciosidade. Cheia de construções medievais ainda, ruínas de castelos, uma catedral magavilhosa, uma vista inesquecível da St Gilles Hill. Perdi o fôlego e me perdi. Só pensei em me achar quando, claro, começou a chover. Peguei o trem, voltei pra Eastleigh e fiquei estudando para a prova do dia seguinte. Chegou o dia da prova, eu estava tranqüila. O pior já tinha passado - e só quem me conhece mesmo entendeu essa frase.
Passei no teste. Não foi fácil, porque aqui o que é mais elementar precisa ser tratado em todos os detalhes. Mas também não foi difícil. Fui para Southampton cabisbaixa e paniquenta, voltei para Londres salva-vidas e com mil perspectivas: a primeira, de um emprego, me ligaram na sexta chamando para uma entrevista a que, por sinal, fui hoje e que promete, mas não quero me precipitar.
Fora isso, lembram daquele gatinho da minha festa de despedida? Então. Ele ligou. Vamos sair. O Chris? Tá bem, obrigada. Mas sinceramente não está comendo arroz com feijão suficiente para garantir minha felicidade inner-conjugal (uh!). Assim sendo, não me avexarei se me aprouver aplicar um chifre por justa causa.
**
Fim de semana que vem vou para Oxford (Wantage, na verdade, que fica do lado), encontrar com minhas primas. Chego sábado, fico por lá à noite, provavelmente vamos a um folky concert. Dia seguinte cedo é nosso Triathlon Debut. Finalmente as Singers se aventurarão nas piscinas e caminhos do Reino Unido. Tudo indica que este é o primeiro de vários triathlons. Caio n'água às 9:30h no domingo. Torçam. Delícia sentir de novo aquele nervosinho pré-competição. Tratarei de treinar nos próximos dias. Tratarei de cuidar bem de mim as well.
Esse foi um resumo resumidíssimo de tudo o que foi e que está para vir. Queria ter o tempo e a disposição para detalhar cada sopro desses dias deliciosamente loucos que foram em Southampton e que vivem na minha memória. Cresci demais como pessoa. Mergulhei na escuridão e descobri que as coisas cuidam de si mesmas mesmo quando não conseguimos olhá-las, cuidá-las, dirigi-las. Amo um pouco mais o mundo em que vivo, for a change.
Então fui para lá, costa sudoeste da Inglaterra. Estava indo para um lugar desconhecido, fazer algo novo, com gente desconhecida e ia ficar hospedada na casa de gente que eu igualmente nunca havia visto mais gorda. Na cara-de-pau, fiz um amigo do meu ex-trabalho achar alguém que ele conhecesse morando por lá que pudesse me hospedar, na caruda, caruda mesmo. Sou bem mais cara-de-pau do que eu mesma acho. De qualquer forma, bateu aquela meda, pânica, horrora e desespera básica. No trem, saindo de Waterloo. Bateu aquele comecinho de pânico. O monstro do desconhecido comprimindo meu estômago e me gelando por baixo na pele. Mas consegui segurar o ataque com a respiração básica que minha terapeuta no Brasil me ensinou.
Em poucas horas me transformei de um bichinho assustado dentro do próprio casulo que construi invisivelmente para mim, em uma pessoa pronta para viver algo que tinha tudo para me engrandecer e me fazer mais feliz, mesmo que um pouquinho só. Logo no primeiro dia resolvi dar uma nadada de meia hora já que havia chegado mais cedo no The Quays, o complexo aquático em que eu faria o curso. O curso começou e foi tudo bem. Aí chegou a hora de encontrar com o Jon (short for Jonathan), cara que eu não conhecia mas em cuja casa ficaria pela próxima semana.
Sinceramente? Não podia ter sido melhor. Eles me adoraram e eu adorei eles. Até fui com o Jon jantar na casa do pai dele (os pais, presumivelmente, são separados). Fofo demais. Também conheci um amigo do Jon, chamado Chris (uh!) que fala português e ama o Brasil. E é gato. Deveras gato.
Mas não passou nada, não passou nada. A semana voou. O curso durava o dia inteiro. Nos almoços eu ia num cybercafé - quiçá o único da cidade - para checar novidades de emprego. Capotava às 21h, acordava às 7h, com luz, passarinhos, e despertador, tudo ao mesmo tempo. Precisava calcular o tempo do trem, já que o curso foi em Southampton e eu estava hospedada num bucólico sobrado em Eastleigh, cidade vizinha.
E também me engracei com o instrutor do curso de salva-vidas, e a engracice só não foi recíproca porque o gostosão é profissional demais. Foi tudo bom demais. Chegou sexta, day-off, fui passear em Winchester, a capital mais antiga da Inglaterra. Uma preciosidade. Cheia de construções medievais ainda, ruínas de castelos, uma catedral magavilhosa, uma vista inesquecível da St Gilles Hill. Perdi o fôlego e me perdi. Só pensei em me achar quando, claro, começou a chover. Peguei o trem, voltei pra Eastleigh e fiquei estudando para a prova do dia seguinte. Chegou o dia da prova, eu estava tranqüila. O pior já tinha passado - e só quem me conhece mesmo entendeu essa frase.
Passei no teste. Não foi fácil, porque aqui o que é mais elementar precisa ser tratado em todos os detalhes. Mas também não foi difícil. Fui para Southampton cabisbaixa e paniquenta, voltei para Londres salva-vidas e com mil perspectivas: a primeira, de um emprego, me ligaram na sexta chamando para uma entrevista a que, por sinal, fui hoje e que promete, mas não quero me precipitar.
Fora isso, lembram daquele gatinho da minha festa de despedida? Então. Ele ligou. Vamos sair. O Chris? Tá bem, obrigada. Mas sinceramente não está comendo arroz com feijão suficiente para garantir minha felicidade inner-conjugal (uh!). Assim sendo, não me avexarei se me aprouver aplicar um chifre por justa causa.
**
Fim de semana que vem vou para Oxford (Wantage, na verdade, que fica do lado), encontrar com minhas primas. Chego sábado, fico por lá à noite, provavelmente vamos a um folky concert. Dia seguinte cedo é nosso Triathlon Debut. Finalmente as Singers se aventurarão nas piscinas e caminhos do Reino Unido. Tudo indica que este é o primeiro de vários triathlons. Caio n'água às 9:30h no domingo. Torçam. Delícia sentir de novo aquele nervosinho pré-competição. Tratarei de treinar nos próximos dias. Tratarei de cuidar bem de mim as well.
Esse foi um resumo resumidíssimo de tudo o que foi e que está para vir. Queria ter o tempo e a disposição para detalhar cada sopro desses dias deliciosamente loucos que foram em Southampton e que vivem na minha memória. Cresci demais como pessoa. Mergulhei na escuridão e descobri que as coisas cuidam de si mesmas mesmo quando não conseguimos olhá-las, cuidá-las, dirigi-las. Amo um pouco mais o mundo em que vivo, for a change.
Friday, May 27, 2005
Thursday, May 26, 2005
bambole
Então vai ser assim. Semana que vem me mudo para Southampton, mas só por uma semana mesmo. Isso é, se eu arranjar lugar para ficar. Senão vou comutar todos os dias da semana que vem. Southampton fica no sul, na praia, 90km a oeste de Brighton, uns 120km ao sul de Londres. E é lá que farei meu curso de salva vidas. Eu disse que não estou para brincadeira, não disse? Pois liguei para a Dona Vaca que disse ter me mandado o formulario para o curso que estaria acontecendo em Londres, e ela disse que mandou e eu nunca recebi. E quando liguei para cobrar ela disse que agora não tinha mais vagas. Não pensei duas vezes. Abri o mapa da Inglaterra, vi as regiões ao redor e fui atrás de cursos nessas regiões. Southampton foi a escolhida. Começo segunda, me qualifico no sábado. E eu vou, porque se parar eu paro mesmo.
O emprego que eu queria já foi ocupado por outra pessoa.
Aiai.
Hoje fui em outra entrevista. Dessa vez menti um pouco. Tá difícil conseguir emprego falando a verdade. Disse que amaria fazer certas coisas que nem amaria. Disse que fico feliz com coisas que don’t move me at all.
Viram? Já virei rata de escritório. Eca. Isso nunca. Vou sempre voltar para casa e tentar lembrar de como eu realmente sou. Mesmo que só eu lembre.
Enfim.
Finalmente chegou aqui a caixa que babãe tinha mandado do Brasil em março, repito, março. Não, a culpa não foi dos correios. Minha mãezinha linda não pôs o número da minha casa no endereço. A caixa voltou e ela teve que mandar de novo. Não tinha mesmo que ser minha mãe?
Mas finalmente chegou. Abri e encontrei um cachecol lindo, branco, quentinho, acolhedor. Uma canga azul magavilhosa que estou usando agora porque, acreditem, faz calor. Um guia de turismo da Europa deeeeste tamanho que o Neal me mandou de aniversário. E um livro que eu queria muito, O Vendedor de Passados. Este foi presente de aniversário do meu avô. Ele ainda estava vivo quando minha mãe me mandou a caixa. A dedicatória, foi ele quem ditou para minha irmã escrever. E ele assinou. Com uma mão trêmula, mas forte. Posso imaginar sua carinha. Uma assinatura trêmula e forte. Porque mesmo esmorecendo ele não perde as forças. Um dia quero ser que nem ele.
E o Chris. Tivemos uma longa conversa ontem. Ele chorou. Eu não. Não tinha porquê. A dor era só dele, que tinha feito merda. Me pediu mil perdões, disse que está com mil problemas mas que em (mil) dias vai começar uma terapia, porque está fodido, porque a vida nese exato momenbto fede, porque, hoje, não é bom ser ele.
Só ouvi. E o abracei. E disse que é só não parar para não me perder. Porque qualquer bambolê cai sem a rebolada.
E eu repito isso a mim todos os dias, como um mantra: é só rebolar para ele continuar rodando. Mas se parar de rebolar, pode dançar twist que ele não sobe de novo.
O emprego que eu queria já foi ocupado por outra pessoa.
Aiai.
Hoje fui em outra entrevista. Dessa vez menti um pouco. Tá difícil conseguir emprego falando a verdade. Disse que amaria fazer certas coisas que nem amaria. Disse que fico feliz com coisas que don’t move me at all.
Viram? Já virei rata de escritório. Eca. Isso nunca. Vou sempre voltar para casa e tentar lembrar de como eu realmente sou. Mesmo que só eu lembre.
Enfim.
Finalmente chegou aqui a caixa que babãe tinha mandado do Brasil em março, repito, março. Não, a culpa não foi dos correios. Minha mãezinha linda não pôs o número da minha casa no endereço. A caixa voltou e ela teve que mandar de novo. Não tinha mesmo que ser minha mãe?
Mas finalmente chegou. Abri e encontrei um cachecol lindo, branco, quentinho, acolhedor. Uma canga azul magavilhosa que estou usando agora porque, acreditem, faz calor. Um guia de turismo da Europa deeeeste tamanho que o Neal me mandou de aniversário. E um livro que eu queria muito, O Vendedor de Passados. Este foi presente de aniversário do meu avô. Ele ainda estava vivo quando minha mãe me mandou a caixa. A dedicatória, foi ele quem ditou para minha irmã escrever. E ele assinou. Com uma mão trêmula, mas forte. Posso imaginar sua carinha. Uma assinatura trêmula e forte. Porque mesmo esmorecendo ele não perde as forças. Um dia quero ser que nem ele.
E o Chris. Tivemos uma longa conversa ontem. Ele chorou. Eu não. Não tinha porquê. A dor era só dele, que tinha feito merda. Me pediu mil perdões, disse que está com mil problemas mas que em (mil) dias vai começar uma terapia, porque está fodido, porque a vida nese exato momenbto fede, porque, hoje, não é bom ser ele.
Só ouvi. E o abracei. E disse que é só não parar para não me perder. Porque qualquer bambolê cai sem a rebolada.
E eu repito isso a mim todos os dias, como um mantra: é só rebolar para ele continuar rodando. Mas se parar de rebolar, pode dançar twist que ele não sobe de novo.
Monday, May 23, 2005
desarmonia em si maior
Eu ainda não decidi o que sou hoje. Não sei se estou feliz ou triste. Não sei se estou ansiosa bom ou ansiosa ruim. Não sei se estou esperançosa ou cética demais. Não sei quem sou hoje. Na verdade, as entrevistas, principalmente a segunda, foram um sucesso. Ambas me garantiram que estou ultraqualificada e a segunda entrevistadora chegou a dizer que agora que ela me "pegou", sou "dela". Mas, meus caros, tratam-se de job agencies. Elas ganham para enfiar pessoas em empresas, então obviamente o interesse maior da simpatiquérrima Leslie era me pegar e ser dela para ela levar a comissão. Só comemoro quando estiver com contrato assinado.
por outro lado, estou extremamente emputecida com meu (pseudo-)namorado que simplesmente esqueceu que viria para cá ontem à noite depois de mais um desses fins de semana infudados que ele passa em treinamento no exército. Esqueceu. Liguei para o paspalho às 22h e ele, "whassup, beautiful?", nem aí. Estava num pub. NUM PUB. Cara, que raiva me deu. "Oh, you're in the pub? Wow, that's really interested as you said you were coming here and staying the night". Ele disse que não lembrava. E ter dito isso não melhorou em nada a situação dele. Na verdade, mais uma vez ele fex gol contra. Ele não tem noção do risco de me perder que está correndo desde que dei meu telefone para aquele carinha e não paro de pensar em quando ele vai me ligar para sairmos. Agindo assim, meu (pseudo-)namorado apenas ajuda para que um eventual (pseudo-)chifre ocorra sem grandes pesos na consciência.
**
Como um todo o fim de semana foi bem, beeeem legal. A começar com a saga de sexta do post anterior. Sábado fui almoçar com a Ana Luiza e um amigo dele. Foi bem legal e saí com contatos e perspectivas de quebra-galhos bastante bem vindos. De lá fui ao British Museum, dei uma girada mas estava muito cheio. Me irritei. Fui embora. Fui no cinema ver Machuca. Outro filme imperdível que eu sei que já tá passando aí no Brasil.
De lá para casa. Chegando aqui, mais filme com a Fru. Vi 21 Gramas finalmente. Atestei o que todos me diziam: é ótimo também.
Domingo foi dia de piquenique no parque com o pessoal do ex-trampo. Tava meio frio, meio vento demais, meio choveu até, mas foi legal mesmo assim. Principalmente depois que apareceram uns gatinhos na área e depois que a Erica chegou. Depois viemos para casa, a Eri não conhecia o nosso cafofo ainda. Conheceu e adorou.
Mais tarde ela foi embora e foi então que quebrei o pau com o Chris. Minha vontade era desligar e emendar o telefonema para o gatinho, o outro. Mas não. Agüentei firme até hoje, uma hora atrás, quando ele me ligou dizendo que estava podre e que não poderíamos nos ver hoje também. Eu só queria vê-lo para dar esporro mesmo, como combinado. Novamente ele deu o cano. Eu falei para ele: você sabe o risco que está correndo levando nosso relacionamento assim? Ele ficou mudo. Depois disse que estava cansado demais, que precisava dormir e comer, porque não dormia e nem comia mais, e eu disse, your choice, babe, your choice, e eu disse também que por mais que o problema não estivesse no relacionamento (e eu sei que não está), ele - o relacionamento - acaba sofrendo as conseqüências.
Ele ainda não entendeu que não sou só de palavras duras. Sou dura.
por outro lado, estou extremamente emputecida com meu (pseudo-)namorado que simplesmente esqueceu que viria para cá ontem à noite depois de mais um desses fins de semana infudados que ele passa em treinamento no exército. Esqueceu. Liguei para o paspalho às 22h e ele, "whassup, beautiful?", nem aí. Estava num pub. NUM PUB. Cara, que raiva me deu. "Oh, you're in the pub? Wow, that's really interested as you said you were coming here and staying the night". Ele disse que não lembrava. E ter dito isso não melhorou em nada a situação dele. Na verdade, mais uma vez ele fex gol contra. Ele não tem noção do risco de me perder que está correndo desde que dei meu telefone para aquele carinha e não paro de pensar em quando ele vai me ligar para sairmos. Agindo assim, meu (pseudo-)namorado apenas ajuda para que um eventual (pseudo-)chifre ocorra sem grandes pesos na consciência.
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Como um todo o fim de semana foi bem, beeeem legal. A começar com a saga de sexta do post anterior. Sábado fui almoçar com a Ana Luiza e um amigo dele. Foi bem legal e saí com contatos e perspectivas de quebra-galhos bastante bem vindos. De lá fui ao British Museum, dei uma girada mas estava muito cheio. Me irritei. Fui embora. Fui no cinema ver Machuca. Outro filme imperdível que eu sei que já tá passando aí no Brasil.
De lá para casa. Chegando aqui, mais filme com a Fru. Vi 21 Gramas finalmente. Atestei o que todos me diziam: é ótimo também.
Domingo foi dia de piquenique no parque com o pessoal do ex-trampo. Tava meio frio, meio vento demais, meio choveu até, mas foi legal mesmo assim. Principalmente depois que apareceram uns gatinhos na área e depois que a Erica chegou. Depois viemos para casa, a Eri não conhecia o nosso cafofo ainda. Conheceu e adorou.
Mais tarde ela foi embora e foi então que quebrei o pau com o Chris. Minha vontade era desligar e emendar o telefonema para o gatinho, o outro. Mas não. Agüentei firme até hoje, uma hora atrás, quando ele me ligou dizendo que estava podre e que não poderíamos nos ver hoje também. Eu só queria vê-lo para dar esporro mesmo, como combinado. Novamente ele deu o cano. Eu falei para ele: você sabe o risco que está correndo levando nosso relacionamento assim? Ele ficou mudo. Depois disse que estava cansado demais, que precisava dormir e comer, porque não dormia e nem comia mais, e eu disse, your choice, babe, your choice, e eu disse também que por mais que o problema não estivesse no relacionamento (e eu sei que não está), ele - o relacionamento - acaba sofrendo as conseqüências.
Ele ainda não entendeu que não sou só de palavras duras. Sou dura.
Saturday, May 21, 2005
turn over
Eu juro para vocês que poucas vezes estive tão feliz como ontem. Acho que, por mais lamentável que pareça, só sentimos a felicidade assim crua quando passamos por tristezas profundas antes. Se a vida é toda feliz ela acaba paradoxalmente não sendo feliz. Anestesia pura. Assim como tristeza constante não é tristeza, mas a perspectiva de ter mais felicidade com uma simples borrifada de esperança. Vai ver é por isso o povo brasileiro é tão feliz. Tristeza constante não é tristeza.
Mas eu ia dizendo. Estava eu extremamente mau humorada, irritadiça e, what the hell, deprê, chorosa, toda ardida por dentro na quinta-feira. Até nadar não deu certo porque tava tendo aula da pirralhada (ou cavocada, como diria meu ex-treinador Edu, porque criança não nada, cavoca) e eles tiveram o dom de pôr uma raia de assim, e não de assado, de forma que nnao tinha uma raia inteira para nadar e, logo, perdeu toda a graça (porque tudo corria o sério risco de a qualquer momento perder a graça na quinta-feira). Para ajudar, chuva, frio, cinza, vento, alô, primavera? Vai rolar ou tá difícil? Eu estava cursing e swearing e, you name it, todos os palavrões não cabiam em minha cabeça. E minha cabeça é grande.
Aí resolvi acabar com a palhaçada e fui dormir às 11h da noite. Sexta o dia já amanheceu todo diferente. Quer dizer, naquelas, estava chovendo ainda, cinza, frio, vento, oh well, eu vim pra Londres, não vim? Agora que agüente sem reclamar. Mas acordei depois de uma noite bem dormida. 8:30h em pé. Fui até Poplar, um bairro aqui no leste, mas mais leste ainda. Meio dodgy, mas encarei. Fui a uma agência de empregos lá, especializada em jobs na região leste de Londres. Eu percebi que aquele seria um bom dia porque dei gargalhada numa situação que deveria me fazer abrir as ventas de emputecimento. Estava com meu iPod tentando achar a maldita entrada da job agency e um segurança bem invocadinho me pára e pergunta o que estou procurando. Responde e ele começa a falar tudo enrolado, com aquele sotaque cockney maldito, e eu toda enrolada nos fios do iPod, tentando achar o botãozinho de desliga. Foi o suficiente para ele se enfezar e dizer "tira essa coisa do ouvido para falar comigo senão você não entende nada mesmo". Ele estava bravo. E eu achei engraçado porque ele foi extremamente grosso e invasivo como poucos ingleses são (obviamente ele não era inglês, mas, morando aqui, favor se adaptar à cultura local). E foi então que comecei a rir. Mais de surpresa que de qualquer outra coisa. Anyway, o jeito que ele olha me faz desconfiar de que há algo meio errado na cachola.
Preenchi um cadastro e fui m'embora. De lá passei em casa e depois fui pro meu ex-trabalho, encontrar o pessoal pro almoço. Foi bem divertido ver todo mundo. Apesar de toda a sacanagem, apesar de todo o sofrimento da última semana, gosto muito de toda aquela gente, inclusive de minhas ex-chefes. E ontem pude ter um "glance" de como sou amada lá também.
Depois fui ao escritório. Sentei na minha antiga mesa, ao lado de Tatyana, na frente de minhas chefes. Minha chefe mais próxima disse que era para eu imprimir tudo o que tinha feito, para montar uma espécie de portfolio. Também sentou comigo e reformulou meu CV com o que fiz durante os nove meses em que trabalhei lá. Quando bateu 4:30pm, metade do escritório - isso dá umas 30 pessoas - se reuniu em frente a minha mesa para me dar presentes de despedida e um cartão lindo, com mensagens lindas, todas elas me convencendo de que meu sorriso é capaz de iluminar um dia inteiro. Os presentes, todos preciosos, porque foram pensados com carinho: um óculos e uma touca de natação, uma cafeteira de filtro, um kit de coisinhas de banho, uma apple pie (porque minha irmã me chama de tortinha de maçã e eles lembraram desse estranho detalhe), biscoitinhos para comer com o café, 10 libras para gastar com livros numa livraria e, claro, o cartão. Muita, muita coisa. Bem mais do que eu esperava. E toda aquela gente me olhando, e eu roxa de vergonha, sem saber o que falar, meio, "really, guys, I loved it and I'll miss you so much, but I know we'll keep in touch, oh, look, this is really lovely, thanks for being so nice". Toda a raiva que eu havia acumulado de repente adentrou ralo e eu percebi que a merda toda não era culpa de ninguém. Que não tinha como alguém querer me foder tanto (no mau sentido) gostando tanto de mim. Ou então toda aquela demonstração de carinho era extravasamento de culpa. Não sei. Não importa. Recebi um quentinho tão bom no peito que não senti at all na última semana em que estive sentada naquela cadeira. E a simples assimilação disso me deu vontade de chorar, but I held back the tears, fir I've already cried a river. Desnecessário.
Do escritório fomos ao happy hour. Um monte de gente foi lá para se despedir de mim. Entre os mais fofos, Steve (claro), Nick (um cara com quem troquei poucas palavras mas que ama a língua portuguesa), minhas chefes que adoraram me ver sorrindo de novo e, bom, um carinha. Mas isso é história para se algo acontecer. Um carinha que saiu da BMI há uma semana e apareceu no pub. Um carinha que sempre passava pelo corredor me olhando, mas cujo nome eu nem sabia. Finalmente, ontem, eu soube. Após meia hora de conversa, "sorry, what's your name?" Engraçado. Trocamos telefone. E ontem mesmo, quando fui embora, ele me ligou. O Chris? Olha, estamos bem. Logo mais fazemos 6 meses juntos, mas eu sei e ele sabe que não é um relacionamento que vai, assim, prosperar numa esfera mais elevada. Não vai. É ótimo tê-lo por perto agora, mas ele não me dá frios no estômago. Não mais.
E, para terminar a noite, mais uma entrevista na segunda-feira. Para duas empresas de PR. Para ganhar mais (bem mais) do que eu estava ganhando na BMI. Ontem foi um dia certo do começo ao fim. Um dos melhores dias aqui. Obrigada todos pelas vibrações positivas. Estou novamente pensando mais alto que o chão, mas sem tirar meu pé dele. Sou feliz de novo.
Mas eu ia dizendo. Estava eu extremamente mau humorada, irritadiça e, what the hell, deprê, chorosa, toda ardida por dentro na quinta-feira. Até nadar não deu certo porque tava tendo aula da pirralhada (ou cavocada, como diria meu ex-treinador Edu, porque criança não nada, cavoca) e eles tiveram o dom de pôr uma raia de assim, e não de assado, de forma que nnao tinha uma raia inteira para nadar e, logo, perdeu toda a graça (porque tudo corria o sério risco de a qualquer momento perder a graça na quinta-feira). Para ajudar, chuva, frio, cinza, vento, alô, primavera? Vai rolar ou tá difícil? Eu estava cursing e swearing e, you name it, todos os palavrões não cabiam em minha cabeça. E minha cabeça é grande.
Aí resolvi acabar com a palhaçada e fui dormir às 11h da noite. Sexta o dia já amanheceu todo diferente. Quer dizer, naquelas, estava chovendo ainda, cinza, frio, vento, oh well, eu vim pra Londres, não vim? Agora que agüente sem reclamar. Mas acordei depois de uma noite bem dormida. 8:30h em pé. Fui até Poplar, um bairro aqui no leste, mas mais leste ainda. Meio dodgy, mas encarei. Fui a uma agência de empregos lá, especializada em jobs na região leste de Londres. Eu percebi que aquele seria um bom dia porque dei gargalhada numa situação que deveria me fazer abrir as ventas de emputecimento. Estava com meu iPod tentando achar a maldita entrada da job agency e um segurança bem invocadinho me pára e pergunta o que estou procurando. Responde e ele começa a falar tudo enrolado, com aquele sotaque cockney maldito, e eu toda enrolada nos fios do iPod, tentando achar o botãozinho de desliga. Foi o suficiente para ele se enfezar e dizer "tira essa coisa do ouvido para falar comigo senão você não entende nada mesmo". Ele estava bravo. E eu achei engraçado porque ele foi extremamente grosso e invasivo como poucos ingleses são (obviamente ele não era inglês, mas, morando aqui, favor se adaptar à cultura local). E foi então que comecei a rir. Mais de surpresa que de qualquer outra coisa. Anyway, o jeito que ele olha me faz desconfiar de que há algo meio errado na cachola.
Preenchi um cadastro e fui m'embora. De lá passei em casa e depois fui pro meu ex-trabalho, encontrar o pessoal pro almoço. Foi bem divertido ver todo mundo. Apesar de toda a sacanagem, apesar de todo o sofrimento da última semana, gosto muito de toda aquela gente, inclusive de minhas ex-chefes. E ontem pude ter um "glance" de como sou amada lá também.
Depois fui ao escritório. Sentei na minha antiga mesa, ao lado de Tatyana, na frente de minhas chefes. Minha chefe mais próxima disse que era para eu imprimir tudo o que tinha feito, para montar uma espécie de portfolio. Também sentou comigo e reformulou meu CV com o que fiz durante os nove meses em que trabalhei lá. Quando bateu 4:30pm, metade do escritório - isso dá umas 30 pessoas - se reuniu em frente a minha mesa para me dar presentes de despedida e um cartão lindo, com mensagens lindas, todas elas me convencendo de que meu sorriso é capaz de iluminar um dia inteiro. Os presentes, todos preciosos, porque foram pensados com carinho: um óculos e uma touca de natação, uma cafeteira de filtro, um kit de coisinhas de banho, uma apple pie (porque minha irmã me chama de tortinha de maçã e eles lembraram desse estranho detalhe), biscoitinhos para comer com o café, 10 libras para gastar com livros numa livraria e, claro, o cartão. Muita, muita coisa. Bem mais do que eu esperava. E toda aquela gente me olhando, e eu roxa de vergonha, sem saber o que falar, meio, "really, guys, I loved it and I'll miss you so much, but I know we'll keep in touch, oh, look, this is really lovely, thanks for being so nice". Toda a raiva que eu havia acumulado de repente adentrou ralo e eu percebi que a merda toda não era culpa de ninguém. Que não tinha como alguém querer me foder tanto (no mau sentido) gostando tanto de mim. Ou então toda aquela demonstração de carinho era extravasamento de culpa. Não sei. Não importa. Recebi um quentinho tão bom no peito que não senti at all na última semana em que estive sentada naquela cadeira. E a simples assimilação disso me deu vontade de chorar, but I held back the tears, fir I've already cried a river. Desnecessário.
Do escritório fomos ao happy hour. Um monte de gente foi lá para se despedir de mim. Entre os mais fofos, Steve (claro), Nick (um cara com quem troquei poucas palavras mas que ama a língua portuguesa), minhas chefes que adoraram me ver sorrindo de novo e, bom, um carinha. Mas isso é história para se algo acontecer. Um carinha que saiu da BMI há uma semana e apareceu no pub. Um carinha que sempre passava pelo corredor me olhando, mas cujo nome eu nem sabia. Finalmente, ontem, eu soube. Após meia hora de conversa, "sorry, what's your name?" Engraçado. Trocamos telefone. E ontem mesmo, quando fui embora, ele me ligou. O Chris? Olha, estamos bem. Logo mais fazemos 6 meses juntos, mas eu sei e ele sabe que não é um relacionamento que vai, assim, prosperar numa esfera mais elevada. Não vai. É ótimo tê-lo por perto agora, mas ele não me dá frios no estômago. Não mais.
E, para terminar a noite, mais uma entrevista na segunda-feira. Para duas empresas de PR. Para ganhar mais (bem mais) do que eu estava ganhando na BMI. Ontem foi um dia certo do começo ao fim. Um dos melhores dias aqui. Obrigada todos pelas vibrações positivas. Estou novamente pensando mais alto que o chão, mas sem tirar meu pé dele. Sou feliz de novo.
Thursday, May 19, 2005
the ground is the limit
Às vezes eu quero chorar, mas o dia nasce e eu esqueço. Apesar de que nada deixou de ter o ritmo alucinado que minha vida costuma ter, é horrível estar desesperada com a possibilidade de sentar e chorar.
Eu já me conheço o suficiente para saber que não sei dançar tão devagar para acompanhar o ritmo do mundo. Tanto que uma hora tudo pára em uma explosão que não posso evitar. Mas se não sei dançar no ritmo do mundo, o que fazer para evitar a dor? Nada. Não há o que fazer. Há que se sentir a dor apenas. Aprender que ela vem e eu não posso evitar. Senti-la em sua forma mais profunda para conseguir me separar dela. Talvez.
Em dias como esse tudo o que não posso é me entregar. Em dias como esse eu brigaria com uma freira, eu bateria num mendigo, eu xingaria uma amiga, eu daria um tiro em qualquer coração. Qualquer, inclusive no meu. Em dias assim eu não me perdôo de todas as merdas que possa ter feito, de tudo o que poderia ter ditto mas silenciei para ouvir outros sons – já que o que eu acho está sempre comigo.
Tenho que tomar cuidado para não cair. De novo. De novo para não cair, de novo tomar cuidado. Cansa um pouco, mas, novamente, não há o que fazer senão concordar com os livros de auto-ajuda que só são uma bosta porque mentem. Senão seriam ótimas comédias britânicas.
Atualizações, porque não sou só lamento: tenho uma entrevista segunda-feira. Veremos. Não quero me animar demais para não despencar demais também. Uma entrevista como qualquer outra. Só torçam.
Eu já me conheço o suficiente para saber que não sei dançar tão devagar para acompanhar o ritmo do mundo. Tanto que uma hora tudo pára em uma explosão que não posso evitar. Mas se não sei dançar no ritmo do mundo, o que fazer para evitar a dor? Nada. Não há o que fazer. Há que se sentir a dor apenas. Aprender que ela vem e eu não posso evitar. Senti-la em sua forma mais profunda para conseguir me separar dela. Talvez.
Em dias como esse tudo o que não posso é me entregar. Em dias como esse eu brigaria com uma freira, eu bateria num mendigo, eu xingaria uma amiga, eu daria um tiro em qualquer coração. Qualquer, inclusive no meu. Em dias assim eu não me perdôo de todas as merdas que possa ter feito, de tudo o que poderia ter ditto mas silenciei para ouvir outros sons – já que o que eu acho está sempre comigo.
Tenho que tomar cuidado para não cair. De novo. De novo para não cair, de novo tomar cuidado. Cansa um pouco, mas, novamente, não há o que fazer senão concordar com os livros de auto-ajuda que só são uma bosta porque mentem. Senão seriam ótimas comédias britânicas.
Atualizações, porque não sou só lamento: tenho uma entrevista segunda-feira. Veremos. Não quero me animar demais para não despencar demais também. Uma entrevista como qualquer outra. Só torçam.
Tuesday, May 17, 2005
redemoinho
Asneiras. Um mundo de asneiras. Às vezes quero ser uma folha, às vezes dou graças a deus por não ser. Tudo o que é leve gira alucinadamente atrás de um vento que apenas, bom, apenas gira.
Não quero uma vida mais ou menos. Não quero ter que beber leite puro antes de dormir, abraçar árvores ao acordar, alongar de hora em hora. Não quero. Nunca quis. Quero um trabalho que me faça trincar os dentes. Que me seque os olhos de atenção. Quero porque posso. Ninguém vai me convencer do contrário. Nem um tufão vai me fazer girar como uma folha ao mais fraco sopro. Estou fora da curva normal.
Algumas oportunidades de trampo estão começando a despontar. Nada concreto, nem perto disso. E eu também estou achando bom poder parar e olhar pela janela. Entender que o sol que bate nas árvores é outro. Que o latido do cachorro é o mesmo, que houve um acidente fatal na avenida aqui do lado e que antes isso não me comoveu. E agora comove. Me senti Carlitos em Tempos Modernos. Me senti máquina. Me senti folha que roda ao mais tênue vento.
Não quero isso para mim nunca mais.
**
Em tempo: estou seguindo os passos do meu personagem no livro que estou escrevendo. E isso não é bom. Fantástico como a vida imita a arte. Mas assustador também, se conhecessem meu personagem. Besteira minha, mas que tá parecido, tá.
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Fui ver Maria Cheia de Graça no domingo. Não percam esse filme nem por uma diarréia. É muito bom. Fazia tempo que eu não ficava tão presa num filme. Imperdível mesmo.
Não quero uma vida mais ou menos. Não quero ter que beber leite puro antes de dormir, abraçar árvores ao acordar, alongar de hora em hora. Não quero. Nunca quis. Quero um trabalho que me faça trincar os dentes. Que me seque os olhos de atenção. Quero porque posso. Ninguém vai me convencer do contrário. Nem um tufão vai me fazer girar como uma folha ao mais fraco sopro. Estou fora da curva normal.
Algumas oportunidades de trampo estão começando a despontar. Nada concreto, nem perto disso. E eu também estou achando bom poder parar e olhar pela janela. Entender que o sol que bate nas árvores é outro. Que o latido do cachorro é o mesmo, que houve um acidente fatal na avenida aqui do lado e que antes isso não me comoveu. E agora comove. Me senti Carlitos em Tempos Modernos. Me senti máquina. Me senti folha que roda ao mais tênue vento.
Não quero isso para mim nunca mais.
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Em tempo: estou seguindo os passos do meu personagem no livro que estou escrevendo. E isso não é bom. Fantástico como a vida imita a arte. Mas assustador também, se conhecessem meu personagem. Besteira minha, mas que tá parecido, tá.
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Fui ver Maria Cheia de Graça no domingo. Não percam esse filme nem por uma diarréia. É muito bom. Fazia tempo que eu não ficava tão presa num filme. Imperdível mesmo.
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