Monday, September 27, 2004

happiness is simple

Dias deliciosamente cheios, esses. A primeira boa noticia da semana passada foi que em apenas tres meses de Inglaterra consegui recuperar toda a grana que havia trazido para ca. A partir de agora, o que eu conseguir juntar eh "lucro". Claro que lucro, para quem nao pensa muito nisso, significa viajar, melhorar de vida, ficar menos ansiosa e se dar pequenos luxos, como a membership na St George’s Swimming Pool, a que vou hoje depois do trabalho.

A segunda coisa boa, logicamente, foi a chegada da minha Frubinha amada. Busca-la em Heathrow foi a melhor coisa que fiz. Nao porque ela estivesse perdida, nem porque eu adoro aeroportos, mas porque foi de alguma forma gratificante ver o tamanho dos olhinhos dela querendo absorver absolutamente tudo: "oia! Onibus de dois andares! Oia! Cabine de telefone vermelha! Oia! Big Ben, Hyde Park, Tamisa! Oia! Oia! Oia!"

A terceira coisa boa ja deriva da chegada da Frubinha, como eu imaginei: ela e Bobby se deram superbem. Eu ja sabia, mas eh sempre bom ver seu dom de perceber afinidades antes delas acontecerem. Elas passaram o dia seguinte inteirinho juntas, tagarelando, passeando, fotografando Londres enquanto eu estava no trabalho. Nesse mesmo dia, fomos num pub perto de casa, chamado Brown Bear, encontrar meu tio John e uns colegas dele do Times. O John me deu um presente que os APERTAVEIS do Rols e da Paige mandaram para a casa nova, uma vela perfumada maravilhosa (nao esquecer de ligar agradecendo).

E os colegas do John, para nosso espanto e regozijo, eram jovens e belos. E do Times - convenhamos, isso eh um turn-on. Robbin e Timur. Ambos fofos, ambos jornalistas internacionais, ambos…e assim vai. Bobby, Fruba e eu ficamos ateh coradas de tanto falar e rir e beber (elas, neam?). Depois ficamos soh nos tres, ja que eles tinham que voltar pro Times pra fechar a edicao do dia seguinte. Mas combinamos de reencontra-los no mesmo dia, la pelas 22:30h, apos o expediente. Continuamos as tres a falar merda e gargalhar desesperadamente e nem vimos o tempo passar. Timur adentra o pub novamente e nos escolta ateh o destino seguinte: outro pub.

O lugar: bem legal. O desafio: permanecer no pub. Isso porque o Timur aprontou algumas e chamou a garconete de fascista na ultima vez em que esteve la, ha um mes. Assim que o viu, a garconete comecou a dar chilique e, bom, em 10 minutos, apos muita discussao, estavamos novamente chutando pedrinhas na rua atras de algum lugar que nos aceitasse.

Fomos para outro pub, de taxi ilegal, cantando musicas brasileiras pro "taxista" indiano. Na parada seguinte, a vitima foi a Bobby. Um velho na porta com cara de Papai Noel do mau segurava desesperadamente a porta de entrada. Comecamos a bater, pedir licenca e tal, Bobby na frente. Quando ela entrou o velho a jogou para fora. Empurrrou mesmo, justo ela que ja levou tanto empurrao de ingles mal educado nas ruas, quando trabalhava como fundraiser. Estavamos a caminho de tentar a porta dos fundos quando veio uma senhoura reforcar a proibicao, grossa no urtimo. Ai eu falei: "nao precisa ser rude, minha senhora, porque aquele senhor ali ja foi o suficiente empurrando minha amiga". Ela pediu desculpas e ficou mais doce. Foda-se, nossa situacao nao mudou ja que nao pudemos entrar.

Continuamos andando, meu peh doendo da porra do salto. Mau humor na porta.
Fomos para Bricklane, uma regiaozinha cool perto de White Chapel, a dez minutos de casa. Finalmente entramos num lugar. Sentamos, conversamos, fomos admoestadas por uns neo-zelandeses folgados bagarai, e voltamos para casa aas gargalhadas, meio perdidas, meio detonadas. Noite boa.

Sabado foi um dia meio bunda. Compras no supermercado ocuparam o resto da tarde em que nao passamos debaixo do edredon falando besteira. Aa noite fomos na casa do meu tio, onde teve lancamento do livro sobre mulheres da Ilha da Madeira. Foi legal rever todos, principalmente Biggles, que continua um espetaculo. Tambem revi Emily e Fiona, primas bem queridas, e outros que sao apenas os outros. Mas aas 9h da noite estava tudo acabado e fomos para nossa proxima parada: Borough High Street, onde varias pessoas de lugares diferentes marcaram de me encontrar e aa Bobby. A salada deu certo. Erica, Sophia e Bruna do meu lado, galera da charity do lado da Bobby, todo mundo legal, todo mundo conversando, interacao, socializacao, nossa, nem esta acredito que sou eu quem estah escrevendo. Mas, sim, socializar foi legal. Ainda mais se for com alguem interessante e queixudo e fofo e desajeitado e com esse sotaque amado. Enfim, foi papo para uma noite e nao rolou troca de telefones porque as meninas, bebadas, resolveram ir embora assim, um dois e ja, na hora que o bonitinho foi pegar uma cerveja no bar. Aaaaaaniway. Elas me devem uma.

Voltamos a peh. Foi um longo caminho. Que obviamente percorremos gargalhando. Frubinha tirou fotos espetaculares que em breve serao postadas no fotoblog.

E entao chegou o domingo. Mais uma lazy Sunday morning, mas aproveitamos a tarde. Apos tentativa frustrada de ir ao Argos da Old Street (estava fechado) comprar armario (!) e outros bricabraques, fomos passear em Liverpool Station e no Spitafield Market, uma coisa assim meio mundomix. Rodamos e rodamos e resolvemos voltar quando as pernas ja estavam bambas.

O fim de semana terminou e eu me perguntei em qual dos tres dias descritos eu ri mais. Impossivel medir. Alegria saindo pelos poros. Eu nem ligo de nao estar inspirada para escrever depois de um fim de semana assim.

Thursday, September 23, 2004

O belo e o mala

Ontem fui para a balada. Cheguei em casa meio xoxa, cansada do trabalho, cansada de dormir pouco, cansada de uma ameaca de ataque de panico (este ultimo diretamente relacionado aos primeiros, naturalmente).

Ao descer do onibus em Clapham, me dei o prazo de uma hora para ir embora. Eu nao imaginei que nao veria a hora passar. Ir numa balada sozinha, sem conhecer ninguem e sem beber nao eh muito promissor. Mesmo assim eu fui. Ja furei algumas vezes com a Emily e o Justin e nao queria furar novamente. O negocio eh que cheguei la e nao tinha ninguem que eu conhecesse. Nenhuma das minhas primas, nada nada. Soh o Justin, que tava la reinaugurando o bar dele, entao obviamente tinha mais o que fazer. Fiquei ali zanzando. Sobe escada, desce escada, visita o banheiro, faz um xixi meia-boca – nem tava com vontade, mas na falta do que fazer… - e uma mocinha comecou a cantar musica ao vivo. Voz e violao. E uma puta voz. Ai comecei a relaxar. Fiquei segurando minha coca-light e logo um sofa perto de mim foi desocupado. Sentei sozinha. Por aproximadamente cinco minutos. Chegaram dois caras engracadissimos, cada um sentou de um lado, e comecaram a passar aquele chaveco furadissimo dos ingleses. Um realmente era ingles. O outro, mais bonitinho, eh sul-africano.

O ingles ficou buzinando um monte de merda no meu ouvido. O quanto as brasileiras sao quentes e tropicais e exuberantes e todo aquele senso comum que me irrita profundamente. O cara passou de divertido para mala em dois minutos. E eh claro que no final das contas quem ficou com meu telefone foi o mala, nao o bonitinho. Para voces visualizarem, o belo era uma versao castanha do Matt Damon. Igualzinho, soh que de cabelo e olhos castanhos. O mala? O mala era um versao piorada e franzina do Pascoal Papagaio em Despedida de Solteiro (qual o nome do ator mesmo?).

De qualquer maneira foi divertido. A beeeeautiful Bea, como o ingles alcoolizado insistia em acentuar, novamente se provou errada na teoria de que se nao sair de casa nao tem como ser ruim. Tambem nao tem como ser bom. E eu sai do Brasil para fugir da mediocridade. Por isso fui. Vou tentar lembrar para uma proxima vez em que eu quase nao for para algum lugar.

**

Em uma hora estou saindo do trabalho, rumo a Heathrow, para buscar a amada Frubinha no aeroporto. Farra pura.

Saturday, September 18, 2004

a primeira vez em que cozinhei para mim

Em Condicoes Normais de Temperatura e Pressao, eu jamais me sujeitaria a reescrever um post imenso e inspirado como os dois que escrevi ontem e perdi. Os dois. Escrevi dois posts sobre assuntos diferentes, em horarios diferentes, com humores diferentes, e tive o dom de perder os dois. Um deles, foi idiotice minha; o outro, idiotice do blogger. Agora chega. Estou no bom e velho WordPad. E vou reescrever um dos posts porque estou no maior bom humor, serotonina estourando nas veias: fui nadar! Acabei de chegar, o cheiro maravilhoso de cloro na pele, as bochechas quentes, a sensacao de flutuar. Estou no ceu. A St George's Swimming Pool fica a exatamente um minuto a pe da minha casa. Mesmo quarteirao, e ainda da para cortar caminho por dentro de uma igreja. Alias, ainda preciso falar da minha relacao com as igrejas daqui, mas fica para um proximo post.

Agora vou contar para voces como foi a primeira vez em que cozinhei para mim mesma. Tudo comecou quando percebi que estava morrendo de fome apos ter apenas um bowl de cereais com leite e um sanduiche xumbrega no estomago desde que acordei. Estava voltando do trabalho e resolvi parar no Safeway. Eu estava decidida: vou cozinhar para mim! Eu queria aproveitar que estava sozinha nesses dias em casa para poder cozinhar fazendo todas as cagadas possiveis e impossiveis sem ninguem ver. E acreditem, consegui. Fiz cagadas pensaveis e impensaveis. Preparem-se para se divertir aas minhas custas.

Eu tinha feito uma listinha das coisas que precisava comprar. Tirei a listinha da mochila, peguei a cesta e comecei a encher. Pao, cereal, leite, tudo perfeito, ate chegar no arroz. Tinha tipo uma JARRA que, no final das contas, sairia bem mais barata a longo prazo do que os sacos menores. Resolvi levar a jarra. Pesava 5kg. Continuei enchendo a cesta, iogurte grego, molho curry, macarrao, frango... A cesta estava bastante pesada, e o arroz eu ja estava levando na outra mao. Fui para o caixa, comecei a empacotar tudo e eu sabia que a volta para casa seria uma longa jornada. Nao imaginei que tao longa. Algumas dezenas de metros do supermercado eu ja tive de parar para ajeitar as sacolas porque daquele jeito nao dava. Passei todas as sacolas para a mao esquerda e fiquei apenas com os 5kg de arroz na direita. Naquela hora eu ja sabia que havia feito merda, mas tinha que seguir em frente.

Cheia de sacola na mao, nao conseguia nem por o cabelo para tras. Quem ja veio a Londres sabe que aqui venta muito. e quem me conhece sabe que nao eh dificil eu ficar descabelada a ponto de parecer uma louca. Pois assim eu estava. Cabelo pelos ares e cara, segurando as sacolas, andando naquele passinho rapido e geek, com ombros caidos, passos curos e firmes, quase uma marcha, e os olhos meio alucinados, meio que dizendo saiam-da-minha-frente-porque-eu-nao-vou-sair-da-sua. Sabem o tipo? pois assim eu estava quando, na metade da jornada, cruzo com o Howard (ou pardal, como eu chamava quando falava dele para minha irma, porque ele tem muita cara de pardal), editor e ex-colega do Times, com quem trabalhei ha alguns meses. Eu sabia que uma hora cruzaria com alguns de meus ex-colegas e ex-chefes. Eu nao imaginei que seria na pior situacao possivel.

How's it going para la, how's it going para ca, estava pesado demais para eu parar para conversar, continuar segurando, e ser simpatica e sorridente. Resolvi colocar as sacolas no chao para falar um minuto com o cara. O problema eh que eu tinha demorado muito para ajeitar as sacolas da forma menos dolorosa possivel em torno do meu pulso, e agora nao podia desfazer todo o arranjo. Sendo assim, continuei conversando com ele, tentando sorrir, cabelo na cara, maos no chao junto com a sacola e bunda para a rua. Naturalmente a conversa nao durou muito, para meu alivio. Segui meu caminho. Ja estava tao pesado que a uma altura dessas eu parava a cada 20 passos para ajeitar as sacolas e descansar o pulso. Numa dessas, puf, o a jarra de arroz estoura. Comeca a voar grao para todo o lado. Resolvi apertar o passo. Atras de mim, uma carreira de arroz na calcada. Meu bom humor ja havia ha muito ido embora a essas alturas. Comecei a praguejar sozinha, soh para parecer um pouco mais lunatica do que eu ja estava parecendo. Meus pes se arrastando. Em determinado momento comecei a chutar as sacolas, achando que ao por um pouco de forca da perna nelas, meus bracos ficariam mais aliviados. Em momento algum eu me perguntei quanto ao absurdo dessa teoria, mas na hora ela fez o maior sentido do mundo. Entao segui chutando as sacolas e bufando.

Chegando em casa, abri a porta, joguei tudo no chao. soh quando me livrei do peso eh que percebi o quanto REALMENTE era pesado. Quando fui pegar uma das sacolas com a mao direita, a mesma que carregou a jarra de arroz por longos 20 minutos, uma dor lancinante me impede de me mexer. Abri o pulso. Fodeu. Estou sozinha em casa, nao tenho inscricao no NHS ainda, nem sei onde fica o hospital mais proximo na regiao, vou ser demitida porque nao vou mais conseguir digitar, fodeu fodeu fodeu.

Passada a histeria, comecei a levar sacola por sacola para a cozinha com o braco esquerdo. Sentei. Massageei meu braco enquanto via The Office, uma serie inglesa MUITO boa que PRECISA chegar no Brasil. Hilaria. Dou risada sozinha. A melhor descoberta desde Seinfeld, muitos anos atras.

Ja recuperada, resolvi arregacar as mangas. Ainda sou muito ruim de timing, de forma que o frango no forno ficou pronto anos-luz antes do arroz. Mas tudo ia bem quando comecei a ouvir um tsssssss dentro do forno. Abri. Um fumace do caralho. Olhei la dentro e percebi que o frango estava PINGANDO no forno. Otimo, alem de tudo, depois desse circo, vou ter que limpar a sujeira da palhaca. Fui por a mao no frango para ver se estava no ponto (na verdade eu nunca vou saber julgar se determinada comida "estah no ponto", mas eh isso que fazem as pessoas que sabem cozinhar, entao eu imitei). E nessa hora o fogao veio na minha direcao. Juro. Eu pus a mao com o maior cuidado la dentro e o forno me queimou. Uma dor absurda no indicador direito (sempre) e corri para levar o dedo aa boca. No meio do caminho senti o cheiro e descobri que realmente morrer queimada nao eh uma boa ideia. O cheiro de carne torrada eh muito ruim - mas minha ideia de ser cremada continua firme, ja que eu nao vou sentir cheiro nenhum.

Resignada em dor e angustia por ser uma zero aa esquerda na cozinha, desliguei o forno e fiquei esperando impacientemente o arroz cozinhar. Preparei uma saladinha esperta e me servi. Liguei o som. Fiona Apple. Acrescentei o curry ao arroz e experimentei. Eu juro que nunca comi uma comida tao boa em toda a minha vida. Uma comida simples com gosto de inexperiencia e independencia misturados. Algo me diz que jamais esquecerei essa refeicao.

E no final das contas sobrou um pouco para comer no dia seguinte.

Orgulho.

Tuesday, September 14, 2004

happy and bleeding

Estou cansada, uma gripe iminente, o trabalho na frente do computador fodendo meus pulsos e minhas pernas, almoco sanduiche todo dia para gastar menos, o escritorio eh um gelo e tenho que ficar disputando o aquecedor portatil com uma polonesa que senta atras de mim e eh folgada bagarai, e levei meio que uma bofetada no coracao bastante recentemente. E - nao duvidem - eu nunca estive tao feliz por aqui.

No momento estou na MINHA casa. Tudo bem que eh a casa do Ricardo, mas estou pagando aluguel tanto quanto ele, a unica diferenca eh que o contrato ta no nome dele. Soh. De resto, finalmente estou sentindo o sabor da liberdade, da independencia. Agora, sim, posso dizer de peito estufado que ninguem, senao eu mesma, paga minha conta.

Eu sabia que essa sensacao era boa. Mas eu nao sabia que, ao contrario de todas as outras coisas do mundo, a sensacao de viver de fato eh melhor do que quando apenas a imaginamos.

A vida aqui eh tranquila. Hoje o Richard foi pra NY. Ateh entao, eu e Bobby estavamos dividindo a mesma cama. A louca eh sonambula e deu para me fazer cafune no meio da noite. Tenho ido e vindo do trabalho a peh. 45 minutos cada. Por enquanto tranquilo, ainda nao estah frio e tem feito uns dias bonitos. Meto o sapato na mala e vou de tenis, beirando o Tamisa, ja que moro perto do rio e meu trabalho tambem fica aa beira-rio, do mesmo lado. Eh indescritivel. Ateh agora a sorte andou muito a meu lado. Muito mesmo. Da ateh medo de falar e comecar a reverter o efeito.

Essa semana pretendo falar com a Kate, minha boss, para saber se ha algum interesse em postergar o contrato ou me efetivar. Nao custa mostrar que da minha parte, oh yes, ha interesse.

**

Aos que estao preocupados, eu anuncio: despreocupem-se.! Voces amados ja deviam saber que sou um ioio ambulante. Subo e desco e subo e desco e me enrolo e desenrolo, mas no final das contas a cordinha continua la.

Estou pronta para outra. Na verdade, ja ha outra. E ja faz tempo.

Friday, September 10, 2004

contagem regressiva

Soh mais tres dias, soh mais tres dias, soh mais tres dias…

Hoje eh dia de comemoracao! Foi meu ultimo café-da-manha em dia de semana aqui. E nao levei nenhuma bronca! Alias, a bruxa anda dulcissima. Ontem me perguntou o que eu queria para o jantar de hoje, porque ela iria fazer algo especial, ja que eh o ultimo jantar em familia em que estarei presente. E, coitada, ela eh toda cagada, disse que ia fazer comida chinesa! Quem me conhece sabe que gosto de todas as cozinhas, MENOS da chinesa. E acho que nao consegui esconder meu nariz torcido, porque ela falou: "bom, vamos pensar em algo legal…"

Hoje, na hora do almoco, fui comprar um vaso de plantas e um pacote de Lindt. Ta bem bonito, acho que eles vao adorar. No fundo vou sentir saudades, porque apesar do terrorismo praticado pela Jane, eu vivia numa especie de mordomia – em momento algum comparavel com a que eu tinha no Brasil, mas mesmo assim mordomia se comparada com a que passarei a nao ter – e estava bem acomodada la. Agora estou me mudando para um lugar em que vou dividir quarto e tentar cavar espaco para guardar minhas roupas. E, putz, to feliz da vida com isso. Serio mesmo. To pondo fe de que vou estar bem mais feliz no aperto que no excesso de espaco.

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Os pesadelos continuam. Ontem eram ratos que subiam no meu colchao, cachorros horriveis que tentavam me comer (no sentido sexual mesmo), eu saindo na estacao de metro errada e desencontrando da minha irma… Hoje o pesadelo foi mais ameno, mas ainda assim pesadelo. Sonhei com um ex-namorado por quem fui apaixonada – acho que a pessoa por quem mais me apaixonei ateh hoje – e de repente olhava para ele e nao sentia nada, e o fato de nao sentir nada me dava desespero, me deixava muito mal, vazia. A sensacao que eu tinha era de que seria melhor estar apaixonada e nao-correspondida do que estar vazia.

Nem requer interpretacoes, neam?

Thursday, September 09, 2004

keep on rocking para seus males espantar

Eu quero informar a todos que, apesar de estar meio ausente no blog, nao estou deixando de escrever. Alem do meu livro romance, estou escrevendo um livro sobre minha experiencia aqui e esta bem legal, modestia aas favas… Nao vai ser soh umbigo, nao, mas se alguem quiser me comparar com a Clarah, apesar de estar redondamente enganado (ja que nao tera lido meu livro e, portanto, estara fazendo um pre-julgamento), eu nao vou me incomodar. Adoro a Clarah, acho que ela escreve bem pra cacete. Digam o que disserem, nao vou mudar minha opiniao.

Mas vamos aas novidades, que eh o que interessa. Os dias voam aqui. Durante a semana, por causa do trabalho; nos fins de semana, porque sempre tem muita coisa para fazer. No tempo livre, fico no meu quarto lendo ou arranjo um programa for a de casa, ja que olhar pra cara da bruxa estah cada vez mais penoso. Ontem por exemplo inventei de ver o Ernesto tocar em Croydon, que eh for a de Londres, depois do trabalho. Ele nem gosta da banda e suspeito que secretamente nem queria que eu tivesse ido ja que ele soh havia feito um (!) ensaio. Soh fiquei sabendo que ele tocaria porque perguntei o que ele ia fazer ontem porque eu nao queria voltar pra casa depois do trabalho, e basicamente me convidei.

Como podem ver, tinha tudo apra ser um porre: sair de Londres no meio da semana, estar em meio a uma porrada de gente que eu nao conhecia, a unica pessoa que eu conhecia nao queria que eu fosse. Pelo incrivel que pareca me diverti. Conheci uma cidade nova, o bar em que a banda tocou eh bem legal e o pessoal da banda tambem, alem de muy gatos.

Minha vontade de evitar a bruxa me empurrou para programas de indio que no final nem foram tao de indio assim. Entendem agora quando eu digo que aquela energia negativa nao me atinge? Sinceramente, nao entendo como meu tio foi casar com aquela lambisgoia.

Soh mais quatro dias, soh mais quatro dias, soh mais quatro dias…

Sunday, September 05, 2004

chororo

Ontem, finalmente, a casa caiu. Ia cair uma hora ou outra, eu sei. Mas o bom eh que caiu, eu cai junto, mas ja estou me levantando. O tempo tem ajudado, apesar de eu ter dito que sol ou chuva nao fariam mais diferenca. Ontem fiquei horas a ver O Tamisa ao lado da Tower Bridge. Mas quase o tempo todo era uma pintura impressionista. Nao consigo lembrar de ter focado aquela paisagem maravilhosa sem que meus olhos estivessem inundados.

Pelo menos pus para fora. Chorei a cota do mes. Sobre o rio, para nao contrariar a natureza. A noite estava linda, apesar de tudo.

Saturday, September 04, 2004

pagina virada

Virei a pagina. Na verdade, viraram por mim, sem que eu tivesse controle. As maos atadas em Londres e o coracao em Sao Paulo, nao tinha como me defender. Perdi o pouco que sobrava de garantia.

O Tiago foi algo maravilhoso que apareceu na minha vida num momento pessimo. Eu ri e chorei da contradicao. Sorte e reves em uma soh situacao eh implacabel.

Nao sei se esse eh o fim da NOSSA historia. Sei apenas que a MINHA em Londres estah apenas comecando.

Ainda ha muito o que arquivar por aqui. Mas de maneira alguma os arquivos antigos cairao no esquecimento. Quem eu amo cotinuo amando. Quem eu estou conhecendo, posso vir a amar. Uma coisa nunca vai excluir a outra.

Pelo que ficou claro, sou uma mulher solteira novamente. Solteira em Londres. E como eu disse, sem querer, para alguem, estou de olho nos SINGLESES. O mundo nao vai parar de girar. Nao agora que eu resolvi subir.

Monday, August 30, 2004

feriado bancario

Eu pensei que teria muito mais tempo para escrever sobre as coisas que vivi e vivo aqui em Londres. Isso de maneira alguma eh uma reclamacao. Mas sinto falta de ter aquele par de horas livre para escrever sobre os acontecimentos e mundos e vidas com que cruzo. Escrever torna tudo mais real e interessante. Mas se nao for num par de horas, que seja num par de minutos. Deixar de escrever, jamais.

Ao que interessa: esse eh o final de uma segunda-feira molenga. Feriado bancario. Sol frio. Dia de conhecer a casa em que vou morar ate pelo menos janeiro. Fomos eu e Roberta. Amamos. Ja nos vimos ali. Impressionante como tem coisas que fazem as mulheres felizes. Duas pias num banheiro, por exemplo. Ficamos empolgadas com as duas pias no banheiro mesmo sabendo que a casa soh tem dois quartos para tres pessoas morarem. Foda-se. Vai ser uma festa estar com duas pessoas amadas. Frubinha, amiga do peito e de todo o resto; e Roberta, ou Bobby, como a chamo carinhosamente, que eh uma amizade recem-nascida mas ja muito forte. Duas fofas que estou feliz de carregar comigo na roda da sorte que me abateu nos ultimos tempos. Nao eh sempre, preciso aproveitar.

No mais, estou mais serena. Vez ou outra uma desequilibradinha baaaasica. Aquelas coisas de sempre. Horas depois passa. E pesadelos. Tenho tido muitos pesadelos. Acordo em prantos e fico pesada, mas depois do banho ja melhora e na hora do almoco ja esqueco. Sao apenas pesadelos.

O trabalho continua. Estou entrando na terceira semana e estou bem adaptada. Adoro meu chefe e adoro o lugar. Meus colegas tambem sao muito gente boa e ainda da para eu ver meus e-mails (e responder vez ou outra, escondido). Demoro 50 minutos para chegar la (pouco em termos londrinos) e passarei a demorar ainda menos quando mudar de casa.

Comprei meu celular, devolvi o do Owen. Estou pagando meu tio John toda semana. Comer fora ja nao me faz espremar os olhos na hora da conta. Marquei e desmarquei e remarquei programas. Arrumei e desarrumei e rearranjei flatmates. Fiz varias putas confusoes. Me meti em frias e em quentes. E continuo firme, esperando o sono bater para comecar cedo o dia amanha. Nao importa realmente se vai estar chuva ou sol. As coisas nao me abalam mais tao facilmente. Aprendi a gostar de leve. E a desodiar. E a ficar feliz mesmo triste, e a me sentir completa mesmo sentindo muita, muita saudade.

Tuesday, August 17, 2004

liquid London

Estou aqui na BMI esperando me darem mais trabalho. Internet fora do ar, mas como minhas maos nao param, cah estou no Word. Vou aproveitar para atualiza-los.

O fim de semana foi uma correria absurda. Sexta teve jantar na minha prima, Fiona. A casa eh uma graca, em Clapham (que, ao contrario do que alguns julgam, eh um otimo lugar para se morar, bairro jovem e perto do centro), no sul de Londres. Conheci uns amigos do casal e Emily (outra prima) e Justin (marido dela) tambem foram. Por sinal, dormi na casa deles. Eh uma das casas mais simpaticas e aconchegantes que jah fui por aqui. Toda tematica, toda cheia de surpresas. Mas antes de cair na cama e dormir como merecia, fui conhecer o bar do Justin e de emenda fomos a uma festa num puta apartamento em Chelsea. Adorei, apesar do esquema meio festa estranha; gente esquisita, que costuma me causar asco. Chegamos na casa da Emily la pelas 4h da matina. Fazia tempo que nao ia dormir tao tarde. E dormi como um anjo. De manha, o Justin cozinhou um eggy bread com syrup e fomos tomar café no jardim.

De lah segui para Kentish Town, ao encontro do Ernesto e da Roberta. Minha tentativa de organizar uma ida ao cinema no parque falhou completamente. Tudo bem. No final fomos a um pub chamado Gordon’s, em Embankment, com o Ricardo, e foi legal de qualquer jeito. Quando eu estava para lah de Bagda (de sono, queridos, nao se iludam porque ainda nao me rendi aos costumes etilicos dos ingleses), inventaram de ir a um night club em Covent Garden (acho) onde soh tocava musica espanhola, daquelas indancaveis, se eh que voces me entendem. Somem: sono, lugar cheio, musica espanhola. Qual o resultado? Eu indo embora depois de menos de uma hora.

Dormi na casa do Ernesto e no dia seguinte tinha mais um café primoroso, feito pela querida Roberta. Ateh ovo (ugh!) eu comi sem reclamar. Soh reclamei mesmo do frances folgado que mora com eles, o Roman. Puta cara mala, folgado, espacoso. Isso porque nao moro com ele. Imaginem se morasse… A Roberta ainda cogitou essa ideia, tentou me convencer de como relevar a presenca do sujeito, mas eu simplesmente nao quero ter que relevar a presenca de ninguem em minha futura propria casa. Entao nada de Roman. Roman = abacaxi.

Voltei para casa rapidao, soh para trocar de roupa e checar e-mails, e fui para o Hyde Park jogar Frisbee com o pessoal. Foi otimo correr um pouco, fazer algum exercicio, endorfina nas bochechas, e descobrir que algumas pessoas que eu achava meio malas nao o sao na verdade (naturalmente nao estou falando do frances, que foi ao frisbee e continua mais mala que nunca - bebeu mais da metade da minha garrafinha de agua quando ofereci um gole). Findo o frisbee, todo mundo estava esfomeado e sedento. Fomos para um restaurante indiano chamado Chowky, em Piccadilly. Foi uma paulada (£17!), mas comi muito bem.

Nisso o fim de semana passou. Voando. Soh me dei conta de que o dia seguinte seria meu primeiro dia de trabalho quando lembrei que nao tinha comprado o Week Travel Card para ir pro escritorio no dia seguinte. Teria de comprar na segunda-feira, enfrentando uma fila monstruosa.

E o trabalho comecou sem grandes sobressaltos – a fila nem foi taaaao monstruosa. A unica coisa que me fez suar ontem foi minha dificuldade de achar a saida certa do metro (tem 10) que daria em frente ao meu trabalho. Mas cheguei na hora e achei as tarefas facim, facim.

Consegui chegar a algumas definicoes em relacao aa casa, apos longos papos com Ro e Frubinha. Vamos morar as tres numa casa de tres quartos, que custe ateh £100 por semana. Assim que sair alguma coisa, eu e Ro mudamos, Fruba vem depois, mas paga pelo aluguel do quarto vazio. Pronto. Assim fica bem mais facil. Vou afunilar minhas pesquisas.

Noticia ruim recebida no momento em que escrevia esse post e que tirou completamente minha concentracao: a casa que eu ia ver em Willesden Green hoje, com a qual estava toda empolgada porque o preco era bom e a regiao eh show, jah foi alugada. Merda.

Mas a busca continua. Vou ali almocar.

***

Achei meus oculos!

Friday, August 13, 2004

drops

E eu perdi meus oculos escuros, acho. Tuuuudo bem, assim que comprar novos, vou achar.

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Comprei umas roupas de trabalho numa charity shop. Barato bagarai.

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Estou atras de um celular usado. Tenho o SIM card, mas preciso do telefone em si. Estou quase conseguindo.

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De agora em diante andarei com meus remedios na bolsa para poder dormir fora de casa se necessario for.

panela de pressao

Eu nao quero assustar minha familia, mas preciso dizer que vou sair desta casa em breve. O principal motivo eh a mulher do meu tio, que, desde que eu consegui um emprego (que ainda nem comecei, diga-se), todo santo dia me pergunta se eu ja comecei a procurar casa para mim e eu nao sou idiota de nao perceber que eh uma forma de pressao. Claro que meu tio nao sabe disso - tenho certeza de que se soubesse daria um puta esporro nela - mas eh o jeito dela. Ela deve temer que eu simplesmente me acomode e va ficando, o que obviamente nao vai acontecer jah que em pouco mais de um mes a Fruba deve chegar e vamos morar juntas. Mas jah estou quase acostumando. Tanto que da ultima vez que ela me perguntou, eu respondi com outra pergunta, com o olhar puzzled ma non troppo: "por que voce pergunta?" E ela logicamente disse "por nada, soh curiosidade mesmo".

Fora que ela tem TOC. Dos brabos.

Mas nao vou ficar aqui demonizando a mulher. Ela me trata bem e conversamos bastante. Mas tenho certeza de que o grande medo dela eh que eu vai ficando, ficando, ficando indefinidamente. Coitada, ela nao me conhece. Mal sabe que jah estou com a bunda formigando ha tempos e que soh sosseguei e continuei aqui apos telefonemas desesperados do Brasil e uma conversa de gente grande com meu tio -- que insistiu em que eu ficasse ateh final de setembro.

De qualquer maneira, tenho para quem gritar. Qualquer problema vou para a casa do Ricardo, que ja me ofereceu um quarto vazio, ou para a casa do Ernesto, que nao me ofereceu nada mas eu me convido numa boa, ou para a da Emily e do Justin, que disseram ter um quarto vazio e tambem podem me abrigar quando eu quiser, ou, em ultimo caso, tem a Agi, prima do meu pai do outro lado da familia, que tambem ofereceu espaco.

Pelo menos ateh o final do mes fico aqui, imagino. Depois disso, considero abrir o jogo com meu tio + sua mulher, mas o que quero mesmo eh zarpar.

Wednesday, August 11, 2004

mind the doors

Hoje estava fazendo um passeio delicioso de Maida Vale ateh Camdem Town, ao longo do Regent's Canal, quando tocou o celular. Era o David, da Shelter, dizendo que tambem fui aprovada para trabalhar com eles.

Com o coracao na mao (odeio dizer nao para trabalho, quem me conhece sabe que por causa disso ja acumulei varios papeis e acabei quase louca - ou louca mesmo, nao tenho vergonha de falar), com o coracao na mao falei que tinha acabado de aceitar outro trabalho, mas que era um contrato de apenas cerca de oito semanas. Perguntei se, se eu nao fosse renovar depois, poderia voltar a ligar para ele em busca do trabalho na charity. Ele disse que sim e que ficaria mto feliz! Ou seja, se por acaso meu contrato na BMI acabar e nao for renovado, praticamente jah tenho um emprego engatado.

O trabalho na charity seria muito legal. Eu acho. Tem gente que nao chega nem perto desse tipo de trabalho. Eu teria de bater de porta em porta pedindo para participarem da charity, o que significa contribuir semanalmente com qualquer quantia, a ser descontada da conta bancaria. Claro que eh estafante, frustrante e estressante, jah que eu receberia uma media de 30 batidas de porta no nariz a cada alma gentil que aceitar assinar. Mas acho que mesmo assim eu iria gostar. Essa coisa de ter que falar com as pessoas, ouvi-las, sentir diferentes reacoes, acho que seria uma verdadeira escola de antropologia dos londrinos. Alem disso, o salario eh bom -- melhor que o da BMI. Mas sao menos horas de trabalho por semana e no total eu ganharia menos.

De qualquer forma, a decisao estah feita e o celular do David estah gravado no meu celular. Fechei a porta, mas deixei a janela aberta.

Tuesday, August 10, 2004

valeu

A todos os e-mails de parabens pelo novo emprego! Mas o e-mail do meu stepfather foi campeao:

Dear Bia,

UAU!!!!! Parabéns!!!!

Boa sorte no seu primeiro emprego em Inglaterra.

"Corporate Researcher" sounds like a really interesting job.

You might be a corporate spy, infiltrating yourself as an apparently-innocent employee into large corporations, ruthlessly stealing the secret formula for their new ultra high-cholesterol french fries! Executives riding in their Rolls Royces will worry about you, hate you, and fear you, but they will never know who you are or where you might strike next. In fact, I am in great danger just writing you this e-mail.

On the other hand, you may spend eight boring hours per day looking through reference material for words that rhyme with Chevrolet.

Adorei!

A iniciativa da Deia tambem foi legal: ela assinou o boletim diario sobre America Latina e Caribe do Business Monitor International, to keep an eye on me.

Brigadao, babae, pelo e-mail lindo - quase pude ver seus olhinhos marejados -, babai, pelo telefonema quase impulsivo e cheio de orgulho na voz, e a todos que me escreveram soh para dizer, com diferentes palavras, algo como "eu ja sabia".

E, claro, aos que ainda vao escrever porque nao viram meu e-mail ou meu blog a tempo de responder antes deste post ir ao ar.

consegui

Estou empregada. Caralho, CARALHO. Ainda nao caiu a ficha. Estou empregada! Naquele lugar em que foi minha primeira entrevista, em que 150 neguinhos disputavam 8 vagas.

Comeco segunda. Puta merda.

Monday, August 09, 2004

bright Brighton

Foi animal. Depois eu conto.

Vao ver as fotos, vao?

Thursday, August 05, 2004

updates da semana - para quem sente falta de detalhes

Tenho uma noticia boa e uma ruim. Qual voces querem ouvir primeiro?

Entao tah. A boa eh que a entrevista a que fui hoje foi um sucesso. Conversei com os entrevistadores (eram dois) e eles pareceram satisfeitos com as minhas respostas. Depois fiz uma prova que foi moleza. Um pouco de matematica, um pouco de ortografia inglesa, um pouco de conhecimentos gerais e um proofreading em ingles que tambem foi baba.

O problema eh que sao 150 pessoas disputando oito vagas. Entao eh bom eu ficar bem quietinha aqui ateh receber alguma resposta.

Detalhe: quando eu cheguei lah eles falaram: "so... you speak Portuguese, Spanish and Brazilian, is that right?" Acho que consegui nao fazer cara de nao-seja-monga-minha-senhora. Mas foi dificil. Eu respondi: "well, yes, Brazilian Portuguese and some Spanish". Ela ficou vermelha, mesmo minha resposta tendo sido gentil. E deveria ficar vermelha mesmo.

Agora a ma noticia: recebi uma multa e por pouco nao fui presa. Isso mesmo. Fui dar uma de malandra e tentar voltar de trem da entrevista sem pagar. Aih apareceu um fiscal, desses que aparecem a cada ano bissexto, e pediu para ver meu cartao. Claro que eu fiz aquele drama todo, "me Brazilian, anderrrrstandi?", mas nao colou. Ele ateh ficou com pena de mim no final, mas disse que teria de me multar em 10 pounds. Eu abri a carteira e... Nao tinha 10, soh 5. "Agora fodeu", pensei. Ele disse: me dah os 5 e eu te dou uma multa cobrando mais 5, ok? Voce vai ateh o correio e paga.

Que vergonha.

Nunca mais.

Nao me venham com sermoes porque eu aprendi a licao.

***

O banheiro, que estava quebrado, jah estah consertado. Eu estava me sentindo uma indigena. Cinco pessoas dividindo uma unica privada. Sem descarga. E nenhum chuveiro funcionando. Nao sei como foi acontecer, mas a culpa nao foi minha.

De qualquer forma, pude me aliviar dos refluxos matinais na estacao de trem. Ninguem merece.

***

Ontem fui aa Ladies' Pond com a Paige. Eh uma lagoa em que soh entram mulheres e eh toda cercada por arvores. Ninguem de fora consegue ver, teoricamente. Entao jah viu, neh? A mulhegada toda de topless, as mais ousadas de less-tudo. Eu e Paige fizemos topless depois de constatar que seriamos vistas como extraterrestre se nao o fizessemos.

Dei minha nadada na lagoa. Nada que me lembrasse os tempos de treino pesado, mas deu para esticar em uns 1000m.

***

Ainda fico na duvida se entendo realmente o que as pessoas falam. E geralmente entendo, mas o esforco para entender faz com que a situacao fique patetica. Hoje no almoco, por exemplo, eu estava fazendo alongamento e massagem na Jane porque ela tava toda dura de pintar (!!!) a casa. Aih eu puxei o braco dela pra baixo. E ela disse assim: "fica melhor se voce colocar o queixo para baixo, no pescoco". Achei estranho mas lah fui eu, puxando o braco da mulher por tras e metendo o queixo na nuca dela. Bem esquisito. E ela disse, "oh, thanx, mas eu quis dizer que eu deveria por o MEU queixo para baixo para alongar minha nuca. But that was fine anyway. Thank you".

Pelo menos me orgulho de ter preparado o almoco.

***

Acabo de receber outra resposta e semana que vem tenho outra entrevista. Numa charity. Como diria babae, "vai, boba, vamos ver que bicho dah".

Tuesday, August 03, 2004

balanca mas nao cai

Ontem o dia foi uma merda. Eu fechava os olhos e estava no Brasil, abria e estava na Inglaterra. Ontem se me pegassem pelos bracos eu ia.

Nao pus o peh pra fora de casa. Biggles ateh veio me convidar para uma voltinha pelos canteiros mais atraentes da vizinhanca, mas tive de deixa-la na mao (ou nas patas). O sol brilhou incansavel e nem assim foi capaz de me seduzir. Estou determinada a achar um emprego. E quem me conhece sabe o que isso significa. Dedicacao 24-7.

Soh que nao estava sendo muito alentador. Dezenas de curriculos enviados e poucas respostas, todas negativas.

Estava ansiosa. Com medo. Estava sentindo que estava criando a situacao propicia para um ataque. Estava estendendo o capacho para o panico.

Escrevi, escrevi. Meu livro eh um consolo nessas horas. Porque meu livro tem como protagonista um personagem ainda mais angustiado que eu. Entao eu solto minhas quimicas distimicas nele, e por mais que nao me ajude em nada, pelo menos sai um bom trecho de pretensa literatura.

Ontem desanimei.

E hoje tudo mudou. Acordei e o primeiro e-mail que abri era uma chamada para entrevista. Nao que eu vah pegar o emprego, mas pelo menos passei para a "segunda etapa" da selecao.

Hoje tambem recebi e-mails queridos. Encontrei outras queridas no MSN. Estou menos ansiosa. Tenho programa para depois da chuva. marquei com a Biggles de ver uns caes sarados em Gladstone Park. E mais tarde ver um filminho bacana.

Eh isso, minhas obsessoes sao afiadas, mas nao duram muito tempo. Sei quao louca fico se deixo os dias passarem e cabeca fixa em um soh ponto.

Agora passou.

Monday, August 02, 2004

vao la ver

Fotas fotas fotas fotas fotas.

Todo dia novas fotas.

Por enquanto soh da Ilha da Madeira. Mais pra frente vai ter mais.

Thursday, July 29, 2004

a primeira vez que me perdi bonito – e ri por dentro

Até achei que demorou muito. Estava sentindo falta de arregalar os olhos e comer as unhas e ficar atenta a todas as placas e ruas. Ontem à noite, pela primeira vez, me perdi em Londres. Mas me perdi bonito. Já estava quase saindo da cidade. Juro. Fui parar na última estação de metrô da linha norte. Obviamente eu não estava no metrô, mas no ônibus. No metrô daqui não tem muito como se perder, como qualquer metrô. Já ônibus.

Foi assim. Eu estava voltando do centro da cidade à noite. Eram 23h. Eu estava no ponto de ônibus esperando o 98, que vai bonitinho até minha casa. Mas como eu estava tão feliz de saber para onde eu tava indo, resolvi inventar. Peguei outro ônibus, o 13, me achando a Londoner, para depois pegar mais um adiante. Eu estava com um ticket único, então não precisava pagar duas vezes se quisesse pegar dois ônibus.

Não demorou tanto quanto o de costume para eu perceber que estava perdida. Umas avenidas tipo Brasília que não têm nada a ver com Londres, umas placas indicando saídas da cidade. Arrepio na espinha. Desci do ônibus. Reação típica minha. E assim que desci do ônibus pensei, ótimo, e agora, para onde ir? Por que você desceu, retardada? Estava com medo de não ter mais busão passando naquela região, apenas Night Buses em direção à cidade. É claro que se tudo estivesse perdido,eu ainda poderia descer do ônibus, atravessar a rua, pegar o mesmo número em direção ao centro e de lá pegar algum dos ônibus que eu conheço para casa. Mas demoraria uma eternidade. Daqui de Willesden Green até Oxford Street, no centrão, demora uns 45 a 50 minutos de busão. Façam a soma.

Havia ainda outra saída: descer numa estação de metrô e tenta pegar um dos últimos trens. Mas não. Aí seria fácil demais. No final das contas, eu nunca achei tão ruim assim me perder. Porque eu sei quão bom é me achar depois. Claro que tentei ligar para o meu primo, toda chorosa, para receber uma assessorada. Mas ele não atendeu o celular. Acabou de arrancar o siso e está todo grogue.

Depois de descer do 13, tentar falar com meu primo e pensar “agora fodeu mesmo porque aqui não tem estação de metrô”, peguei uma avenidona adjacente e esperei num ponto de ônibus. Estava quase desistindo, já que não tinha ninguém esperando também e não parecia que passaria nenhum outro ônibus por lá. Quando eu vejo os farolões e o vermelhinho vindo na minha direção. Subi e tentei explicar pro motorista a merda que eu tinha feito. Ele então sorriu, o dente da frente de ouro, dread lock pelos ombros: “Minha filha, você está indo para o lado errado. Isso aqui vai para Edgware Station”. Me rendi e tive de implorar: “eu sei, moço, estava voltando para casa, tentei inventar um caminho diferente e acabei me perdendo. O que eu faço?” O cara era muito gente fina. Falava naquele jeito negão de falar, meio cantando, meio cuspindo, e sempre mostrando o dente de ouro. Ele foi muito legal. Disse para eu ir com ele até o ponto final e lá perguntaríamos para o supervisor dos ônibus.

A essa altura eu já estava me divertindo. Cheguei na garage do ônibus, onde teoricamete não é permitido estranhos entrarem, e vi aquele mundo de vermelhinhos prontos para ir para as ruas. O negão do dente de ouro me levou até o chefe dele e disse: “chief, I’ve got a princess for you!” e foi-se embora. O tal superindente, depois de perguntar se eu sou australiana (???) e se eu não queria esperar até 1h30 da manhã para ele me levar de carro (!!!) – com evidente negativa de minha parte, nem preciso dizer -, me meteu num ônibus que vai direto a Cricklewood, do lado de casa.

Acabou a noite. Cheguei em casa faminta, exausta, meia-noite e meia. Mas eu juro que estava rindo por dentro.