Saturday, September 18, 2004

a primeira vez em que cozinhei para mim

Em Condicoes Normais de Temperatura e Pressao, eu jamais me sujeitaria a reescrever um post imenso e inspirado como os dois que escrevi ontem e perdi. Os dois. Escrevi dois posts sobre assuntos diferentes, em horarios diferentes, com humores diferentes, e tive o dom de perder os dois. Um deles, foi idiotice minha; o outro, idiotice do blogger. Agora chega. Estou no bom e velho WordPad. E vou reescrever um dos posts porque estou no maior bom humor, serotonina estourando nas veias: fui nadar! Acabei de chegar, o cheiro maravilhoso de cloro na pele, as bochechas quentes, a sensacao de flutuar. Estou no ceu. A St George's Swimming Pool fica a exatamente um minuto a pe da minha casa. Mesmo quarteirao, e ainda da para cortar caminho por dentro de uma igreja. Alias, ainda preciso falar da minha relacao com as igrejas daqui, mas fica para um proximo post.

Agora vou contar para voces como foi a primeira vez em que cozinhei para mim mesma. Tudo comecou quando percebi que estava morrendo de fome apos ter apenas um bowl de cereais com leite e um sanduiche xumbrega no estomago desde que acordei. Estava voltando do trabalho e resolvi parar no Safeway. Eu estava decidida: vou cozinhar para mim! Eu queria aproveitar que estava sozinha nesses dias em casa para poder cozinhar fazendo todas as cagadas possiveis e impossiveis sem ninguem ver. E acreditem, consegui. Fiz cagadas pensaveis e impensaveis. Preparem-se para se divertir aas minhas custas.

Eu tinha feito uma listinha das coisas que precisava comprar. Tirei a listinha da mochila, peguei a cesta e comecei a encher. Pao, cereal, leite, tudo perfeito, ate chegar no arroz. Tinha tipo uma JARRA que, no final das contas, sairia bem mais barata a longo prazo do que os sacos menores. Resolvi levar a jarra. Pesava 5kg. Continuei enchendo a cesta, iogurte grego, molho curry, macarrao, frango... A cesta estava bastante pesada, e o arroz eu ja estava levando na outra mao. Fui para o caixa, comecei a empacotar tudo e eu sabia que a volta para casa seria uma longa jornada. Nao imaginei que tao longa. Algumas dezenas de metros do supermercado eu ja tive de parar para ajeitar as sacolas porque daquele jeito nao dava. Passei todas as sacolas para a mao esquerda e fiquei apenas com os 5kg de arroz na direita. Naquela hora eu ja sabia que havia feito merda, mas tinha que seguir em frente.

Cheia de sacola na mao, nao conseguia nem por o cabelo para tras. Quem ja veio a Londres sabe que aqui venta muito. e quem me conhece sabe que nao eh dificil eu ficar descabelada a ponto de parecer uma louca. Pois assim eu estava. Cabelo pelos ares e cara, segurando as sacolas, andando naquele passinho rapido e geek, com ombros caidos, passos curos e firmes, quase uma marcha, e os olhos meio alucinados, meio que dizendo saiam-da-minha-frente-porque-eu-nao-vou-sair-da-sua. Sabem o tipo? pois assim eu estava quando, na metade da jornada, cruzo com o Howard (ou pardal, como eu chamava quando falava dele para minha irma, porque ele tem muita cara de pardal), editor e ex-colega do Times, com quem trabalhei ha alguns meses. Eu sabia que uma hora cruzaria com alguns de meus ex-colegas e ex-chefes. Eu nao imaginei que seria na pior situacao possivel.

How's it going para la, how's it going para ca, estava pesado demais para eu parar para conversar, continuar segurando, e ser simpatica e sorridente. Resolvi colocar as sacolas no chao para falar um minuto com o cara. O problema eh que eu tinha demorado muito para ajeitar as sacolas da forma menos dolorosa possivel em torno do meu pulso, e agora nao podia desfazer todo o arranjo. Sendo assim, continuei conversando com ele, tentando sorrir, cabelo na cara, maos no chao junto com a sacola e bunda para a rua. Naturalmente a conversa nao durou muito, para meu alivio. Segui meu caminho. Ja estava tao pesado que a uma altura dessas eu parava a cada 20 passos para ajeitar as sacolas e descansar o pulso. Numa dessas, puf, o a jarra de arroz estoura. Comeca a voar grao para todo o lado. Resolvi apertar o passo. Atras de mim, uma carreira de arroz na calcada. Meu bom humor ja havia ha muito ido embora a essas alturas. Comecei a praguejar sozinha, soh para parecer um pouco mais lunatica do que eu ja estava parecendo. Meus pes se arrastando. Em determinado momento comecei a chutar as sacolas, achando que ao por um pouco de forca da perna nelas, meus bracos ficariam mais aliviados. Em momento algum eu me perguntei quanto ao absurdo dessa teoria, mas na hora ela fez o maior sentido do mundo. Entao segui chutando as sacolas e bufando.

Chegando em casa, abri a porta, joguei tudo no chao. soh quando me livrei do peso eh que percebi o quanto REALMENTE era pesado. Quando fui pegar uma das sacolas com a mao direita, a mesma que carregou a jarra de arroz por longos 20 minutos, uma dor lancinante me impede de me mexer. Abri o pulso. Fodeu. Estou sozinha em casa, nao tenho inscricao no NHS ainda, nem sei onde fica o hospital mais proximo na regiao, vou ser demitida porque nao vou mais conseguir digitar, fodeu fodeu fodeu.

Passada a histeria, comecei a levar sacola por sacola para a cozinha com o braco esquerdo. Sentei. Massageei meu braco enquanto via The Office, uma serie inglesa MUITO boa que PRECISA chegar no Brasil. Hilaria. Dou risada sozinha. A melhor descoberta desde Seinfeld, muitos anos atras.

Ja recuperada, resolvi arregacar as mangas. Ainda sou muito ruim de timing, de forma que o frango no forno ficou pronto anos-luz antes do arroz. Mas tudo ia bem quando comecei a ouvir um tsssssss dentro do forno. Abri. Um fumace do caralho. Olhei la dentro e percebi que o frango estava PINGANDO no forno. Otimo, alem de tudo, depois desse circo, vou ter que limpar a sujeira da palhaca. Fui por a mao no frango para ver se estava no ponto (na verdade eu nunca vou saber julgar se determinada comida "estah no ponto", mas eh isso que fazem as pessoas que sabem cozinhar, entao eu imitei). E nessa hora o fogao veio na minha direcao. Juro. Eu pus a mao com o maior cuidado la dentro e o forno me queimou. Uma dor absurda no indicador direito (sempre) e corri para levar o dedo aa boca. No meio do caminho senti o cheiro e descobri que realmente morrer queimada nao eh uma boa ideia. O cheiro de carne torrada eh muito ruim - mas minha ideia de ser cremada continua firme, ja que eu nao vou sentir cheiro nenhum.

Resignada em dor e angustia por ser uma zero aa esquerda na cozinha, desliguei o forno e fiquei esperando impacientemente o arroz cozinhar. Preparei uma saladinha esperta e me servi. Liguei o som. Fiona Apple. Acrescentei o curry ao arroz e experimentei. Eu juro que nunca comi uma comida tao boa em toda a minha vida. Uma comida simples com gosto de inexperiencia e independencia misturados. Algo me diz que jamais esquecerei essa refeicao.

E no final das contas sobrou um pouco para comer no dia seguinte.

Orgulho.

No comments: