Foi assim. Eu estava voltando do centro da cidade à noite. Eram 23h. Eu estava no ponto de ônibus esperando o 98, que vai bonitinho até minha casa. Mas como eu estava tão feliz de saber para onde eu tava indo, resolvi inventar. Peguei outro ônibus, o 13, me achando a Londoner, para depois pegar mais um adiante. Eu estava com um ticket único, então não precisava pagar duas vezes se quisesse pegar dois ônibus.
Não demorou tanto quanto o de costume para eu perceber que estava perdida. Umas avenidas tipo Brasília que não têm nada a ver com Londres, umas placas indicando saídas da cidade. Arrepio na espinha. Desci do ônibus. Reação típica minha. E assim que desci do ônibus pensei, ótimo, e agora, para onde ir? Por que você desceu, retardada? Estava com medo de não ter mais busão passando naquela região, apenas Night Buses em direção à cidade. É claro que se tudo estivesse perdido,eu ainda poderia descer do ônibus, atravessar a rua, pegar o mesmo número em direção ao centro e de lá pegar algum dos ônibus que eu conheço para casa. Mas demoraria uma eternidade. Daqui de Willesden Green até Oxford Street, no centrão, demora uns 45 a 50 minutos de busão. Façam a soma.
Havia ainda outra saída: descer numa estação de metrô e tenta pegar um dos últimos trens. Mas não. Aí seria fácil demais. No final das contas, eu nunca achei tão ruim assim me perder. Porque eu sei quão bom é me achar depois. Claro que tentei ligar para o meu primo, toda chorosa, para receber uma assessorada. Mas ele não atendeu o celular. Acabou de arrancar o siso e está todo grogue.
Depois de descer do 13, tentar falar com meu primo e pensar “agora fodeu mesmo porque aqui não tem estação de metrô”, peguei uma avenidona adjacente e esperei num ponto de ônibus. Estava quase desistindo, já que não tinha ninguém esperando também e não parecia que passaria nenhum outro ônibus por lá. Quando eu vejo os farolões e o vermelhinho vindo na minha direção. Subi e tentei explicar pro motorista a merda que eu tinha feito. Ele então sorriu, o dente da frente de ouro, dread lock pelos ombros: “Minha filha, você está indo para o lado errado. Isso aqui vai para Edgware Station”. Me rendi e tive de implorar: “eu sei, moço, estava voltando para casa, tentei inventar um caminho diferente e acabei me perdendo. O que eu faço?” O cara era muito gente fina. Falava naquele jeito negão de falar, meio cantando, meio cuspindo, e sempre mostrando o dente de ouro. Ele foi muito legal. Disse para eu ir com ele até o ponto final e lá perguntaríamos para o supervisor dos ônibus.
Acabou a noite. Cheguei em casa faminta, exausta, meia-noite e meia. Mas eu juro que estava rindo por dentro.
No comments:
Post a Comment