Thursday, July 29, 2004

a primeira vez que me perdi bonito – e ri por dentro

Até achei que demorou muito. Estava sentindo falta de arregalar os olhos e comer as unhas e ficar atenta a todas as placas e ruas. Ontem à noite, pela primeira vez, me perdi em Londres. Mas me perdi bonito. Já estava quase saindo da cidade. Juro. Fui parar na última estação de metrô da linha norte. Obviamente eu não estava no metrô, mas no ônibus. No metrô daqui não tem muito como se perder, como qualquer metrô. Já ônibus.

Foi assim. Eu estava voltando do centro da cidade à noite. Eram 23h. Eu estava no ponto de ônibus esperando o 98, que vai bonitinho até minha casa. Mas como eu estava tão feliz de saber para onde eu tava indo, resolvi inventar. Peguei outro ônibus, o 13, me achando a Londoner, para depois pegar mais um adiante. Eu estava com um ticket único, então não precisava pagar duas vezes se quisesse pegar dois ônibus.

Não demorou tanto quanto o de costume para eu perceber que estava perdida. Umas avenidas tipo Brasília que não têm nada a ver com Londres, umas placas indicando saídas da cidade. Arrepio na espinha. Desci do ônibus. Reação típica minha. E assim que desci do ônibus pensei, ótimo, e agora, para onde ir? Por que você desceu, retardada? Estava com medo de não ter mais busão passando naquela região, apenas Night Buses em direção à cidade. É claro que se tudo estivesse perdido,eu ainda poderia descer do ônibus, atravessar a rua, pegar o mesmo número em direção ao centro e de lá pegar algum dos ônibus que eu conheço para casa. Mas demoraria uma eternidade. Daqui de Willesden Green até Oxford Street, no centrão, demora uns 45 a 50 minutos de busão. Façam a soma.

Havia ainda outra saída: descer numa estação de metrô e tenta pegar um dos últimos trens. Mas não. Aí seria fácil demais. No final das contas, eu nunca achei tão ruim assim me perder. Porque eu sei quão bom é me achar depois. Claro que tentei ligar para o meu primo, toda chorosa, para receber uma assessorada. Mas ele não atendeu o celular. Acabou de arrancar o siso e está todo grogue.

Depois de descer do 13, tentar falar com meu primo e pensar “agora fodeu mesmo porque aqui não tem estação de metrô”, peguei uma avenidona adjacente e esperei num ponto de ônibus. Estava quase desistindo, já que não tinha ninguém esperando também e não parecia que passaria nenhum outro ônibus por lá. Quando eu vejo os farolões e o vermelhinho vindo na minha direção. Subi e tentei explicar pro motorista a merda que eu tinha feito. Ele então sorriu, o dente da frente de ouro, dread lock pelos ombros: “Minha filha, você está indo para o lado errado. Isso aqui vai para Edgware Station”. Me rendi e tive de implorar: “eu sei, moço, estava voltando para casa, tentei inventar um caminho diferente e acabei me perdendo. O que eu faço?” O cara era muito gente fina. Falava naquele jeito negão de falar, meio cantando, meio cuspindo, e sempre mostrando o dente de ouro. Ele foi muito legal. Disse para eu ir com ele até o ponto final e lá perguntaríamos para o supervisor dos ônibus.

A essa altura eu já estava me divertindo. Cheguei na garage do ônibus, onde teoricamete não é permitido estranhos entrarem, e vi aquele mundo de vermelhinhos prontos para ir para as ruas. O negão do dente de ouro me levou até o chefe dele e disse: “chief, I’ve got a princess for you!” e foi-se embora. O tal superindente, depois de perguntar se eu sou australiana (???) e se eu não queria esperar até 1h30 da manhã para ele me levar de carro (!!!) – com evidente negativa de minha parte, nem preciso dizer -, me meteu num ônibus que vai direto a Cricklewood, do lado de casa.

Acabou a noite. Cheguei em casa faminta, exausta, meia-noite e meia. Mas eu juro que estava rindo por dentro.

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