Thursday, June 14, 2007

a faxineira

Eram quase seis e eu já estava atrasada. Tinha que estar às 7pm em Wandsworth Town para assistir a uma palestra. Fui ao banheiro e, ao sair, dou de cara com uma das faxineiras do escritório. Ela não olhou para mim, só eu para ela. Novamente, não foi a cara, não foi nada que ela falou (ela não abriu a boca), mas o jeito de pegar o papel-toalha, de enfiar os braços cruzados por dentro do avental, de lavar as mãos com a planta de um dos pés recostada sobre a lateral da outra perna. Não tive dúvidas e, mesmo atrasada para pegar meu trem, tive que perguntar.

E novamente, era brasileira. Novamente aquele sorriso escancarado que me faz sentir erroneamente especial por também ser brasileira e *entender*, mesmo que nossas vidas sejam completamente diferentes. Mesmo que meu dia-a-dia tenha mais a ver com o de uma inglesa nowadays.

Mora aqui há três anos, como eu. Aliás, três anos exatos HOJE. Veio por causa da irmã. Casou com um português. Mora em Surbiton, uma região muito boa no Surrey. Trabalha de faxineira, vai de carro a todo lugar. Não me pareceu envergonhada por isso. Carioca, graduada e faxineira. Ela realmente não ligava.

Me senti pequena por ter um dia ligado de confessar que apesar de toda a minha formação, toda a minha bagagem intelectual, eu por um tempo virei salva-vidas. Eu tinha vergonha, claro. Salva-vidas não faz nada. Fica o dia inteiro sentado na cadeira olhando os outros se divertirem, vez ou outra apitando para quem se divertia inadvertidamente atrapalhando os outros. E quando não estava na piscina, estava limpando banheiros, espelhos, passando aspirador de pó na recepção, contando band-aids nas caixas de primeiros-socorros.

Mas voltando à moça, Monica, ela não quer voltar. Ela fala português com sotaque de Portugal. Ela bufou de saco-cheio quando disse que os ingleses do escritório vivem tentando cantá-la. Ela bufou, mas não desgosta. Ela bufou sorrindo.

Descrevi para ela onde no escritório fica a minha escrivaninha. E no mesmo momento me perguntei por que fui dizer isso. Que diferença faz? Talvez eu tenha pensado, num flash, que minha mesa pudesse ser uma ilhota de refúgio. Saber que uma brasileira senta ali poderia trazer qualquer coisa de familiar para um escritório tão vazio, sem rostos, apenas um ou outro zumbido de hardware que não foi desligado.

Me arrependi de falar onde sento. Achei que ela pudesse achar arrogância, já que tenho um so-called “proper job”. Aí pensei novamente que não é porque a mulher é faxineira que preciso ser cheia de dedos e cuidados, achando que sua profissão a faz mais sensível, mais suscetível a enxergar ofensas onde não há. Prepotência minha. Ela estava tranqüila. Ela nem devia desconfiar de metade do que se passava na minha cabeça estranha. Se soubesse, claro, me acharia uma louca varrida.

“Bom”, ela disse, “melhor eu agilizar aqui”. Claro, claro, eu disse. E pensei que fazia tempo desde a última vez que alguém terminou a conversa por mim. Geralmente eu termino, por falta de interesse, por falta de tempo, por falta do que falar.

Peguei o telefone dela para dar para alguém que esteja precisando de faxineira. Ela disse que adorou conversar comigo. Abriu mais um daqueles sorrisos bem brasileiros, de rir com boca, olhos, nariz e quase orelha, e antes de eu virar as costas perguntou: “Onde mesmo fica sua escrivaninha?”

No comments: