Monday, August 30, 2004
feriado bancario
Ao que interessa: esse eh o final de uma segunda-feira molenga. Feriado bancario. Sol frio. Dia de conhecer a casa em que vou morar ate pelo menos janeiro. Fomos eu e Roberta. Amamos. Ja nos vimos ali. Impressionante como tem coisas que fazem as mulheres felizes. Duas pias num banheiro, por exemplo. Ficamos empolgadas com as duas pias no banheiro mesmo sabendo que a casa soh tem dois quartos para tres pessoas morarem. Foda-se. Vai ser uma festa estar com duas pessoas amadas. Frubinha, amiga do peito e de todo o resto; e Roberta, ou Bobby, como a chamo carinhosamente, que eh uma amizade recem-nascida mas ja muito forte. Duas fofas que estou feliz de carregar comigo na roda da sorte que me abateu nos ultimos tempos. Nao eh sempre, preciso aproveitar.
No mais, estou mais serena. Vez ou outra uma desequilibradinha baaaasica. Aquelas coisas de sempre. Horas depois passa. E pesadelos. Tenho tido muitos pesadelos. Acordo em prantos e fico pesada, mas depois do banho ja melhora e na hora do almoco ja esqueco. Sao apenas pesadelos.
O trabalho continua. Estou entrando na terceira semana e estou bem adaptada. Adoro meu chefe e adoro o lugar. Meus colegas tambem sao muito gente boa e ainda da para eu ver meus e-mails (e responder vez ou outra, escondido). Demoro 50 minutos para chegar la (pouco em termos londrinos) e passarei a demorar ainda menos quando mudar de casa.
Comprei meu celular, devolvi o do Owen. Estou pagando meu tio John toda semana. Comer fora ja nao me faz espremar os olhos na hora da conta. Marquei e desmarquei e remarquei programas. Arrumei e desarrumei e rearranjei flatmates. Fiz varias putas confusoes. Me meti em frias e em quentes. E continuo firme, esperando o sono bater para comecar cedo o dia amanha. Nao importa realmente se vai estar chuva ou sol. As coisas nao me abalam mais tao facilmente. Aprendi a gostar de leve. E a desodiar. E a ficar feliz mesmo triste, e a me sentir completa mesmo sentindo muita, muita saudade.
Tuesday, August 17, 2004
liquid London
O fim de semana foi uma correria absurda. Sexta teve jantar na minha prima, Fiona. A casa eh uma graca, em Clapham (que, ao contrario do que alguns julgam, eh um otimo lugar para se morar, bairro jovem e perto do centro), no sul de Londres. Conheci uns amigos do casal e Emily (outra prima) e Justin (marido dela) tambem foram. Por sinal, dormi na casa deles. Eh uma das casas mais simpaticas e aconchegantes que jah fui por aqui. Toda tematica, toda cheia de surpresas. Mas antes de cair na cama e dormir como merecia, fui conhecer o bar do Justin e de emenda fomos a uma festa num puta apartamento em Chelsea. Adorei, apesar do esquema meio festa estranha; gente esquisita, que costuma me causar asco. Chegamos na casa da Emily la pelas 4h da matina. Fazia tempo que nao ia dormir tao tarde. E dormi como um anjo. De manha, o Justin cozinhou um eggy bread com syrup e fomos tomar café no jardim.
De lah segui para Kentish Town, ao encontro do Ernesto e da Roberta. Minha tentativa de organizar uma ida ao cinema no parque falhou completamente. Tudo bem. No final fomos a um pub chamado Gordon’s, em Embankment, com o Ricardo, e foi legal de qualquer jeito. Quando eu estava para lah de Bagda (de sono, queridos, nao se iludam porque ainda nao me rendi aos costumes etilicos dos ingleses), inventaram de ir a um night club em Covent Garden (acho) onde soh tocava musica espanhola, daquelas indancaveis, se eh que voces me entendem. Somem: sono, lugar cheio, musica espanhola. Qual o resultado? Eu indo embora depois de menos de uma hora.
Dormi na casa do Ernesto e no dia seguinte tinha mais um café primoroso, feito pela querida Roberta. Ateh ovo (ugh!) eu comi sem reclamar. Soh reclamei mesmo do frances folgado que mora com eles, o Roman. Puta cara mala, folgado, espacoso. Isso porque nao moro com ele. Imaginem se morasse… A Roberta ainda cogitou essa ideia, tentou me convencer de como relevar a presenca do sujeito, mas eu simplesmente nao quero ter que relevar a presenca de ninguem em minha futura propria casa. Entao nada de Roman. Roman = abacaxi.
Voltei para casa rapidao, soh para trocar de roupa e checar e-mails, e fui para o Hyde Park jogar Frisbee com o pessoal. Foi otimo correr um pouco, fazer algum exercicio, endorfina nas bochechas, e descobrir que algumas pessoas que eu achava meio malas nao o sao na verdade (naturalmente nao estou falando do frances, que foi ao frisbee e continua mais mala que nunca - bebeu mais da metade da minha garrafinha de agua quando ofereci um gole). Findo o frisbee, todo mundo estava esfomeado e sedento. Fomos para um restaurante indiano chamado Chowky, em Piccadilly. Foi uma paulada (£17!), mas comi muito bem.
Nisso o fim de semana passou. Voando. Soh me dei conta de que o dia seguinte seria meu primeiro dia de trabalho quando lembrei que nao tinha comprado o Week Travel Card para ir pro escritorio no dia seguinte. Teria de comprar na segunda-feira, enfrentando uma fila monstruosa.
E o trabalho comecou sem grandes sobressaltos – a fila nem foi taaaao monstruosa. A unica coisa que me fez suar ontem foi minha dificuldade de achar a saida certa do metro (tem 10) que daria em frente ao meu trabalho. Mas cheguei na hora e achei as tarefas facim, facim.
Consegui chegar a algumas definicoes em relacao aa casa, apos longos papos com Ro e Frubinha. Vamos morar as tres numa casa de tres quartos, que custe ateh £100 por semana. Assim que sair alguma coisa, eu e Ro mudamos, Fruba vem depois, mas paga pelo aluguel do quarto vazio. Pronto. Assim fica bem mais facil. Vou afunilar minhas pesquisas.
Noticia ruim recebida no momento em que escrevia esse post e que tirou completamente minha concentracao: a casa que eu ia ver em Willesden Green hoje, com a qual estava toda empolgada porque o preco era bom e a regiao eh show, jah foi alugada. Merda.
Mas a busca continua. Vou ali almocar.
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Achei meus oculos!
Friday, August 13, 2004
drops
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Comprei umas roupas de trabalho numa charity shop. Barato bagarai.
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Estou atras de um celular usado. Tenho o SIM card, mas preciso do telefone em si. Estou quase conseguindo.
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De agora em diante andarei com meus remedios na bolsa para poder dormir fora de casa se necessario for.
panela de pressao
Fora que ela tem TOC. Dos brabos.
Mas nao vou ficar aqui demonizando a mulher. Ela me trata bem e conversamos bastante. Mas tenho certeza de que o grande medo dela eh que eu vai ficando, ficando, ficando indefinidamente. Coitada, ela nao me conhece. Mal sabe que jah estou com a bunda formigando ha tempos e que soh sosseguei e continuei aqui apos telefonemas desesperados do Brasil e uma conversa de gente grande com meu tio -- que insistiu em que eu ficasse ateh final de setembro.
De qualquer maneira, tenho para quem gritar. Qualquer problema vou para a casa do Ricardo, que ja me ofereceu um quarto vazio, ou para a casa do Ernesto, que nao me ofereceu nada mas eu me convido numa boa, ou para a da Emily e do Justin, que disseram ter um quarto vazio e tambem podem me abrigar quando eu quiser, ou, em ultimo caso, tem a Agi, prima do meu pai do outro lado da familia, que tambem ofereceu espaco.
Pelo menos ateh o final do mes fico aqui, imagino. Depois disso, considero abrir o jogo com meu tio + sua mulher, mas o que quero mesmo eh zarpar.
Wednesday, August 11, 2004
mind the doors
Com o coracao na mao (odeio dizer nao para trabalho, quem me conhece sabe que por causa disso ja acumulei varios papeis e acabei quase louca - ou louca mesmo, nao tenho vergonha de falar), com o coracao na mao falei que tinha acabado de aceitar outro trabalho, mas que era um contrato de apenas cerca de oito semanas. Perguntei se, se eu nao fosse renovar depois, poderia voltar a ligar para ele em busca do trabalho na charity. Ele disse que sim e que ficaria mto feliz! Ou seja, se por acaso meu contrato na BMI acabar e nao for renovado, praticamente jah tenho um emprego engatado.
O trabalho na charity seria muito legal. Eu acho. Tem gente que nao chega nem perto desse tipo de trabalho. Eu teria de bater de porta em porta pedindo para participarem da charity, o que significa contribuir semanalmente com qualquer quantia, a ser descontada da conta bancaria. Claro que eh estafante, frustrante e estressante, jah que eu receberia uma media de 30 batidas de porta no nariz a cada alma gentil que aceitar assinar. Mas acho que mesmo assim eu iria gostar. Essa coisa de ter que falar com as pessoas, ouvi-las, sentir diferentes reacoes, acho que seria uma verdadeira escola de antropologia dos londrinos. Alem disso, o salario eh bom -- melhor que o da BMI. Mas sao menos horas de trabalho por semana e no total eu ganharia menos.
De qualquer forma, a decisao estah feita e o celular do David estah gravado no meu celular. Fechei a porta, mas deixei a janela aberta.
Tuesday, August 10, 2004
valeu
Dear Bia,
UAU!!!!! Parabéns!!!!
Boa sorte no seu primeiro emprego em Inglaterra.
"Corporate Researcher" sounds like a really interesting job.
You might be a corporate spy, infiltrating yourself as an apparently-innocent employee into large corporations, ruthlessly stealing the secret formula for their new ultra high-cholesterol french fries! Executives riding in their Rolls Royces will worry about you, hate you, and fear you, but they will never know who you are or where you might strike next. In fact, I am in great danger just writing you this e-mail.
On the other hand, you may spend eight boring hours per day looking through reference material for words that rhyme with Chevrolet.
Adorei!
A iniciativa da Deia tambem foi legal: ela assinou o boletim diario sobre America Latina e Caribe do Business Monitor International, to keep an eye on me.
Brigadao, babae, pelo e-mail lindo - quase pude ver seus olhinhos marejados -, babai, pelo telefonema quase impulsivo e cheio de orgulho na voz, e a todos que me escreveram soh para dizer, com diferentes palavras, algo como "eu ja sabia".
E, claro, aos que ainda vao escrever porque nao viram meu e-mail ou meu blog a tempo de responder antes deste post ir ao ar.
consegui
Comeco segunda. Puta merda.
Monday, August 09, 2004
Thursday, August 05, 2004
updates da semana - para quem sente falta de detalhes
Entao tah. A boa eh que a entrevista a que fui hoje foi um sucesso. Conversei com os entrevistadores (eram dois) e eles pareceram satisfeitos com as minhas respostas. Depois fiz uma prova que foi moleza. Um pouco de matematica, um pouco de ortografia inglesa, um pouco de conhecimentos gerais e um proofreading em ingles que tambem foi baba.
O problema eh que sao 150 pessoas disputando oito vagas. Entao eh bom eu ficar bem quietinha aqui ateh receber alguma resposta.
Detalhe: quando eu cheguei lah eles falaram: "so... you speak Portuguese, Spanish and Brazilian, is that right?" Acho que consegui nao fazer cara de nao-seja-monga-minha-senhora. Mas foi dificil. Eu respondi: "well, yes, Brazilian Portuguese and some Spanish". Ela ficou vermelha, mesmo minha resposta tendo sido gentil. E deveria ficar vermelha mesmo.
Agora a ma noticia: recebi uma multa e por pouco nao fui presa. Isso mesmo. Fui dar uma de malandra e tentar voltar de trem da entrevista sem pagar. Aih apareceu um fiscal, desses que aparecem a cada ano bissexto, e pediu para ver meu cartao. Claro que eu fiz aquele drama todo, "me Brazilian, anderrrrstandi?", mas nao colou. Ele ateh ficou com pena de mim no final, mas disse que teria de me multar em 10 pounds. Eu abri a carteira e... Nao tinha 10, soh 5. "Agora fodeu", pensei. Ele disse: me dah os 5 e eu te dou uma multa cobrando mais 5, ok? Voce vai ateh o correio e paga.
Que vergonha.
Nunca mais.
Nao me venham com sermoes porque eu aprendi a licao.
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O banheiro, que estava quebrado, jah estah consertado. Eu estava me sentindo uma indigena. Cinco pessoas dividindo uma unica privada. Sem descarga. E nenhum chuveiro funcionando. Nao sei como foi acontecer, mas a culpa nao foi minha.
De qualquer forma, pude me aliviar dos refluxos matinais na estacao de trem. Ninguem merece.
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Ontem fui aa Ladies' Pond com a Paige. Eh uma lagoa em que soh entram mulheres e eh toda cercada por arvores. Ninguem de fora consegue ver, teoricamente. Entao jah viu, neh? A mulhegada toda de topless, as mais ousadas de less-tudo. Eu e Paige fizemos topless depois de constatar que seriamos vistas como extraterrestre se nao o fizessemos.
Dei minha nadada na lagoa. Nada que me lembrasse os tempos de treino pesado, mas deu para esticar em uns 1000m.
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Ainda fico na duvida se entendo realmente o que as pessoas falam. E geralmente entendo, mas o esforco para entender faz com que a situacao fique patetica. Hoje no almoco, por exemplo, eu estava fazendo alongamento e massagem na Jane porque ela tava toda dura de pintar (!!!) a casa. Aih eu puxei o braco dela pra baixo. E ela disse assim: "fica melhor se voce colocar o queixo para baixo, no pescoco". Achei estranho mas lah fui eu, puxando o braco da mulher por tras e metendo o queixo na nuca dela. Bem esquisito. E ela disse, "oh, thanx, mas eu quis dizer que eu deveria por o MEU queixo para baixo para alongar minha nuca. But that was fine anyway. Thank you".
Pelo menos me orgulho de ter preparado o almoco.
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Acabo de receber outra resposta e semana que vem tenho outra entrevista. Numa charity. Como diria babae, "vai, boba, vamos ver que bicho dah".
Tuesday, August 03, 2004
balanca mas nao cai
Nao pus o peh pra fora de casa. Biggles ateh veio me convidar para uma voltinha pelos canteiros mais atraentes da vizinhanca, mas tive de deixa-la na mao (ou nas patas). O sol brilhou incansavel e nem assim foi capaz de me seduzir. Estou determinada a achar um emprego. E quem me conhece sabe o que isso significa. Dedicacao 24-7.
Soh que nao estava sendo muito alentador. Dezenas de curriculos enviados e poucas respostas, todas negativas.
Estava ansiosa. Com medo. Estava sentindo que estava criando a situacao propicia para um ataque. Estava estendendo o capacho para o panico.
Escrevi, escrevi. Meu livro eh um consolo nessas horas. Porque meu livro tem como protagonista um personagem ainda mais angustiado que eu. Entao eu solto minhas quimicas distimicas nele, e por mais que nao me ajude em nada, pelo menos sai um bom trecho de pretensa literatura.
Ontem desanimei.
E hoje tudo mudou. Acordei e o primeiro e-mail que abri era uma chamada para entrevista. Nao que eu vah pegar o emprego, mas pelo menos passei para a "segunda etapa" da selecao.
Hoje tambem recebi e-mails queridos. Encontrei outras queridas no MSN. Estou menos ansiosa. Tenho programa para depois da chuva. marquei com a Biggles de ver uns caes sarados em Gladstone Park. E mais tarde ver um filminho bacana.
Eh isso, minhas obsessoes sao afiadas, mas nao duram muito tempo. Sei quao louca fico se deixo os dias passarem e cabeca fixa em um soh ponto.
Agora passou.
Monday, August 02, 2004
vao la ver
Todo dia novas fotas.
Por enquanto soh da Ilha da Madeira. Mais pra frente vai ter mais.
Thursday, July 29, 2004
a primeira vez que me perdi bonito – e ri por dentro
Foi assim. Eu estava voltando do centro da cidade à noite. Eram 23h. Eu estava no ponto de ônibus esperando o 98, que vai bonitinho até minha casa. Mas como eu estava tão feliz de saber para onde eu tava indo, resolvi inventar. Peguei outro ônibus, o 13, me achando a Londoner, para depois pegar mais um adiante. Eu estava com um ticket único, então não precisava pagar duas vezes se quisesse pegar dois ônibus.
Não demorou tanto quanto o de costume para eu perceber que estava perdida. Umas avenidas tipo Brasília que não têm nada a ver com Londres, umas placas indicando saídas da cidade. Arrepio na espinha. Desci do ônibus. Reação típica minha. E assim que desci do ônibus pensei, ótimo, e agora, para onde ir? Por que você desceu, retardada? Estava com medo de não ter mais busão passando naquela região, apenas Night Buses em direção à cidade. É claro que se tudo estivesse perdido,eu ainda poderia descer do ônibus, atravessar a rua, pegar o mesmo número em direção ao centro e de lá pegar algum dos ônibus que eu conheço para casa. Mas demoraria uma eternidade. Daqui de Willesden Green até Oxford Street, no centrão, demora uns 45 a 50 minutos de busão. Façam a soma.
Havia ainda outra saída: descer numa estação de metrô e tenta pegar um dos últimos trens. Mas não. Aí seria fácil demais. No final das contas, eu nunca achei tão ruim assim me perder. Porque eu sei quão bom é me achar depois. Claro que tentei ligar para o meu primo, toda chorosa, para receber uma assessorada. Mas ele não atendeu o celular. Acabou de arrancar o siso e está todo grogue.
Depois de descer do 13, tentar falar com meu primo e pensar “agora fodeu mesmo porque aqui não tem estação de metrô”, peguei uma avenidona adjacente e esperei num ponto de ônibus. Estava quase desistindo, já que não tinha ninguém esperando também e não parecia que passaria nenhum outro ônibus por lá. Quando eu vejo os farolões e o vermelhinho vindo na minha direção. Subi e tentei explicar pro motorista a merda que eu tinha feito. Ele então sorriu, o dente da frente de ouro, dread lock pelos ombros: “Minha filha, você está indo para o lado errado. Isso aqui vai para Edgware Station”. Me rendi e tive de implorar: “eu sei, moço, estava voltando para casa, tentei inventar um caminho diferente e acabei me perdendo. O que eu faço?” O cara era muito gente fina. Falava naquele jeito negão de falar, meio cantando, meio cuspindo, e sempre mostrando o dente de ouro. Ele foi muito legal. Disse para eu ir com ele até o ponto final e lá perguntaríamos para o supervisor dos ônibus.
Acabou a noite. Cheguei em casa faminta, exausta, meia-noite e meia. Mas eu juro que estava rindo por dentro.
Sunday, July 25, 2004
London calling
Bom, o churrasco foi muito legal. Acordei de madrugada com Piuzette Maria me ligando do Brasil. Claro que eu adorei. No comeco minha voz estava indisfarcavelmente embargada. Depois fui acordando e adorando e comemorando a minha volta a Londres, onde finalmente posso falar com meus queridos porque tenho um celular.
Sabado fui comer doce numa doceria nova que abriu aqui e que a Paige estava batendo o peh para o namorado, meu primo Rols, leva-la. Fomos e atestamos o bucolico cookies and cream com o certificado de bosta de lugar.
Passei a tarde no parque sem fazer nada. Foi delicioso. A noite um cineminha basico. Fahreinheit 9-11. Jah chegou no Brasil? Vou dizer o seguinte: gostei muito do que vi. Isso porque nao vi tudo, sabe? O sono me fez comecar a ver dois Bushes naquela tela imensa. Foi demais para a minha cabeca e tive medo de ter pesadelos. Entao fechei os olhos soh um tequinho e acordei com "Keep on rockin' in a free world" que tocou quando os letreiros subiram. Terei que ir novamente. Mesmo porque do jeito que eu tava podre, devo ter entendido tudo trocado.
Naturalmente, hoje fui acordada ao meio-dia pela mulher do meu tio, com o telefone na mao. Era minha prima Jessica, querendo almocar no Hyde Park e se jogar na grama para aproveitar o sol. Fomos. Comecou a chover. Assim eh Londres. O ceu estava absolutamente azul. Impressionante. Bateu uma ventania e pronto. Comeca a chover. Mas nada que me dissolvesse. Neste exato momento, voltei da casa do Jamie, onde fomos assistir ao jogo do Brasil e Argentina. Roland e Paige, assim como eu, vestidos a carater. O jogo foi emocionante -- nem preciso dizer. Cheguei, afofei a Biggles e estou aqui. Daqui a pouco eh hora de nanar. Amanha acordo cedo e comeco a disparar telefonemas. Ninguem segura eu!
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By the way, vai ser complicado por mais fotos no ar porque descarreguei as imagens em outro maquina, que neste momento estah no quarto temporariamente ocupado por uma senhora idosa, mae da Jane, que nao faz ideia do que eh essa coisa estranha que soh ocupa espaco, chamada por nos carinhosamente de computador. Entao segurem perus e periquitas que eu vou atualizar.
Saturday, July 24, 2004
Thursday, July 22, 2004
princípio, meio, fim
Acabou e eu nem estou triste. Primeiro, porque recebi um convite para voltar no Natal e ano-novo, o que não sei realmente se vai rolar porque tudo indica que estarei com duas pessoas amadíssimas, Frubosa e Titi, por aqui comigo. Claro que se eles disserem que os três podem vir para a Ilha, eles não têm como recusar. Mas acho meio difícil. Em segundo lugar, porque estou a fim de assentar minha vida em Londres. Começar uma rotina, levar uma vida um pouco mais regrada, que é do que mais reclamo mas de que acabo setindo falta afinal.
Sem falar do resto. Assim, eu até tento não demonstrar, mas é difícil. Esses dias na Madeira foram paradisíacos, totalmente dignos de um conto de fadas. Mas foi muito complicado ver as famílias (minha família, mas mesmo assim) todas unidas, à vontade. Senti falta dos momentos de intimidade com minha família, com meus amigos, com qualquer pessoa com quem eu podia ser realmente espontânea. Não que eu não tenha sido aqui. Claro que fui. Mas eu era o centro das atenções, a half-Blandy que ninguém conhecia, que veio do Brasil, que nada, que escreve, que fala português. Então eu acabava pensando algumas vezes além do convencional antes de falar o que me viesse na cabeça.
É por essas e outras que não vejo a hora de Fru e Ti chegarem. Seria exponencialmente mais difícil sem eles. E sei que para eles também seria mais difícil sem mim. Nada como uma relação de mutualismo.
Mas chega de divagar. Desacostumei a pensar durante esses dias de torpor (uh!). Nadei quase todos os dias, dormi quase sempre muito bem, comi feito uma porca, pensei muito em babái e aprendi muito sobre sua família e sobre ele, descobri que família importa muito, me apaixonei pela Madeira, não me entediei em um só momento (juro, juro). É por tudo isso que essa foi só a primeira vez.
Thursday, July 15, 2004
carta da Madeira
Estou escrevendo neste momento aqui da Quinta do Palheiro. Não imaginei que fosse me tocar tanto a idéia de visitar o lugar onde uma parte da minha família cresceu e viveu, como minha avó paterna Rosemary. Segundo meu tio Adam, a casa praticamente não mudou nos últimos 100 anos.
Ainda não conheci todos os cômodos da casa. Estou hospedada no terceiro andar. A casa fica no topo do morro e minha janela dá para o mar. Dormir ou fazer qualquer outra coisa chega a parecer pecado quando se tem uma vista dessas da própria janela.
Mas vamos começar do começo. Cheguei aqui na Madeira anteontem, após um estresse do cão durante a viagem. Peguei um ônibus em Willesden Green (bairro em que estou morando em Londres), fui até Victoria Station, de lá peguei um trem para Gattwick, de onde saia meu vôo da Air Portugal. Fiquei amiga de uma advogada italiana, Carmela, que estava voltando para Nápoles após três meses estudando inglês em Londres. Meu avião foi lotado. E é óóóbvio que bem atrás de mim sentariam umas crianças infernais que socavam e chutavam minha poltrona, ignorando sumariamente meus olhares reprovadores. FOra que o jantar foi um sanduíche michuruca e eu tava morrendo de fome já que não tinha almoçado. Mas tudo bem. Cheguei na Madeira já amiga de dois madeirenses que conheci no avião. Um deles, Manuel (como não?) me deu o telefone para me levar para passear - o que logicamente não vai acontecer porque o que não me faltam são pessoas oferecendo-se para me levar para passear.
Um dia lindo estava morrendo. Eram 21h quando cheguei na Quinta do Palheiro, propriedade de titio Adam. Conheci sua mulher, Christina, e reencontrei o casal australiano que também se hospedara na casa do John em Londres.
Dormi menos do que gostaria, mas o suficiente para aproveitar o dia. Oito horas me gritaram "good morning". Não respondi. Depois de um tempo gritei de volta: "ok". Seria um longo e lindo dia. Fomos até o Pico do Arieiro, de onde comecei uma trilha sozinha, já que Adam e o casal australiano não são lá muito jovens. A trilha pelas montanhas levaria 2 horas, segundo meu tio. Ele estaria me esperando ao final da trilha. Só que a trilha era um "pouquinho" mais longa do que ele pensava. Foram 3 horas sem parar, subidas descidas, bichos estranhos me perseguindo, suor caindo no olhos, sol escaldante na cabeça (a trilha era numa altitude acima das nuvens), e eu sem um mísero mapa para me dizer onde eu estava e para onde deveria ir. Simplesmente fui. Sozinha. Até encontrar um casal belga que veio todo equipado com mapas e bússola. Aí fiquei na cola deles e chegamos ao Pico Ruivo, onde lembrei incessantemente de minha irmã linda. Pico Ruivo é o ponto mais alto da Ilha. E, numa metáfora justa, poderia dizer que a Ilha da Madeira é mais ou menos como o meu coração. Porque aqui também o pico é ruivo.
Do Pico Ruivo segui à Achada do Teixeira, onde meu tio estaria me esperando. Apesar de sair correndo desembestada no meio da trilha achando que em questão de minutos meu tio poria uma helicóptero para me resgatar, não tenho dúvidas de que foi a MELHOR (e uma das maiores também, acho que foram 12km) trilha que já fiz na minha vida. Cada curva que eu fazia, cada pedra que eu subia, cada lamaçal em que eu escorregava (e, acreditem, foram muitos), uma nova paisagem me deslumbrava. Em determinado momento, lágrimas me vieram aos olhos. Eu olhava à frente e só via o caminho que eu tinha de seguir, em volta apenas nuvens, inclusive na frente da montanha para onde eu rumava. A sensação que eu tinha era de que poderia sair correndo de olhos fechados e conseguiria andar sobre as nuvens.
Quando terminei a trilha, um misto de alívio por ter terminado tudo e poder finalmente sentar, e de realização por estar carregando um pedaço tão precioso do mundo na minha retina e na minha memória. Jamais esquecerei essa experiência. Minha primeira trilha sozinha. Metafórico, não?
Depois da trilha fomos fazer um pic-nic na beira da estrada. Comi feito um leão, sem o mínimo esforço para disfarçar a fome. Depois fomos até a praia do Faial, onde tive meu primeiro reencontro com o Atlântico. O mar deveria estar uns 22 graus. Temperatura certa. Chão de pedras, mas não importa, o importante era flutuar e setir a brisa e o gosto do sal na boca e as ondas embalando. Ondas imensas, diga-se. Nessa parte da ilha, os surfistas fazem a festa.
Depois de eu e Adam nos refrescarmos, voltamos para o carro com os australianos (velhinhos ultrafofos, estou para apertar as bochechas da velhinha, preciso confessar). Fomos passear em Portela e depois em Quinta do Santo. Mais vistas espetaculares, mais flores, meus sentidos foram inundados por este lugar. Passamos no aeroporto para pegar Jessica, minha prima, filha do Adam. Voltamos para casa e tivemos um jantar com toda a família. Além de mim, Jessica, Adam, Christina e o casal de australianos, estavam minha prima Louisa, o marido Philip e os três filhos, meu primo Jonathan, a esposa (ooops, não lembro o nome) e a filha, meu primo Andrew, Michael (tio), Rosemary (tia) e mais gente que devo estar esquecendo.
Foi uma delícia. Ataquei o camembert e depois o brownie. Sem piedade. Eu tinha caminhado por três horas, estava no meu direito.
Depois disso fui direto para a cama, tonta de sono e com os ombros em chamas por causa do sol.
Acordei hoje às 10:30h. Passei o dia como merecia: lagarteando na piscina e na praia do Reids, hotel que no passado pertenceu à minha família. Almocei lá e dei umas braçadas de leve, já que meu ombro doía tanto por causa da queimadura que não conseguia rodar. Mas foi o suficiente para perceber o quanto um mês sem natação me deixou travada. Lebrei muito de babái. Tirei fotos pensando no meu Hemingway.
Cheguei em casa agora pouco. Não sei quão fácil vai ser caessar a net de novo, já que os dias têm sido bem cheios de atividade. Agora mesmo, Jessica passou por aqui perguntando se eu não quero ver o jardim antes de anoitecer.
Além disso, trouxe meu notebook mas a tomada daqui é diferente, então nada feito. Vou perguntar se eles têm algum adaptador.
Por enquanto, é isso! Amanhã chega outro primo, Christopher, e hoje chega outra prima, Emily. Estou me achando com essa família imensa. Nunca, nunca mesmo, pensei que fosse encontrar todo mundo. Daqui a pouco está na hora do jantar e depois devo ir com a primaiada em algum point em Funchal.
Estou roxa de saudades, penso em vocês direto. Acreditem: tem espaço na minha cabeça para pensar na maravilha que está sendo o presente, nas deliciosas lembranças do passado e no nebuloso mas promissor futuro.
Mas vocês estão sempre na minha memória, seja a Joaninha no Pico Ruivo ou nas infindáveis hortências (não sei porquê, mas sempre que vejo hortências, lembro da Piu), seja papai em todos os momentos de família e em quase todas os momentos em que estou em casa, seja na mamãe quando estou perdendo o juízo, seja no Ti quando estou nadando ou nas trilhas (preciso te trazer aqui aqui e fazer tudo isso de novo, com você, um dia), seja Frubinha, minha fotógrafa preferida, nas nuvens e paisagens e detalhes inexplicavelmente belos, seja Julinho, no samba e nos momentos em que babo a comida... enfim, não vou ficar listando todos, vocês sabem exatamente quem são porque levo vocês comigo.
Um beijo no coração e até a próxima oportunidade de usar a net!!!
AMO VOCÊS!!!!!!
Monday, July 12, 2004
Notting Hill é o lugar, BBC é o emprego
Tenho dois anúncios a fazer: o primeiro é que vou morar em Notting Hill. O segundo, que vou trabalhar na BBC.
Claro que não sei se a BBC me quer lá, só sei que eu vou trabalhar lá, queiram eles ou não.
E também decidi que Notting Hill é uma região bastante morável. Fica ao oeste, numa região central, mas não chique a ponto de ser um absurdo o aluguel. As casas são uma delícia e é mais ou menos o equivalente à Vila Madalena de Sampa.
Os anúncios foram feitos justamente para que possam me cobrar. Notting Hill não garanto, já que há outras regiões legais em Londres e possivelmente mais baratas. Ainda não sei porque não pesquisei. Mas que vou trabalhar na BBC, isso eu vou. Fui lá na sexta-feira, encontrar com a Fiona. Almoçamos e depois fizemos um tour pela BBC. E foi paixão a primeira vista. Por isso eu digo que vou trabalhar lá, custe (ou pague) o que custar (pagar). Voltando da Madeira focarei nisso.
fantasma onipresente
Hoje foi um dia normal. Acordei pesada, tomei café, fui encontrar amigos no Hyde Park, fiz pic-nic, fiquei passeando até anoitecer e voltei para casa. Ninguém saberia dizer que naquela mesma madrugada eu tive um ataque de pânico.
Meu primeiro ataque de pânico londrino, com tudo a que dá direito. Corpo gelado, dor no peito, nada entra pela boca, nem água, suor, palpitação, uma corrida desesperada ao banheiro, o corpo desfalecendo a ponto de eu não conseguir trancar a porta. E um grito para dentro, já que não havia ninguém para me abraçar. Um grito mudo, dos mais agoniantes que já dei. Como é ruim ouvir o próprio arfar no meio de um ataque. Todas as outras vezes, tive alguém do meu lado para me abraçar, jogar água na minha cara (???) ou ao menos me entupir de perguntas idiotas, o que eu considerava o nível máximo do não saber o que fazer, já que a pior coisa numa hora dessas é ficar fazendo perguntas. Agora eu sei que a pior coisa, na verdade é o silêncio. O silêncio exalta o estado do desespero. Parece que cada suspiro tem a potência de um tambor.
Fazia mais de um ano que eu não tinha um ataque de pânico do começo ao fim.
Depois veio o choro. Aquele choro dos cansados. O mesmo choro, imagino, de quem chega de uma guerra perdida, mas pelo menos chega vivo. Passei meia hora com a luz acesa e os olhos fechados, aproveitando a letargia de voltar a mim. Como se eu tivesse de agradecer todos os dias por estar no meu corpo e não desesperadoramente fora dele. Depois de meia hora, o Rivotril começou a fazer efeito e meu peito foi ficando quentinho.
Mas o bolo na garganta continua. Preciso muito de um abraço.
Wednesday, July 07, 2004
ontem
Não importa. Levei-os a Hampstead Heath e ficamos horas num papo ora divertido, ora sério, ora inflamado, ora curioso. Só saímos porque realmente o frio nos expulsou. Após a saga para chegar no famigerado (fomegerado) Burguer King em Piccadilly Circus, nem comer foi tão bom quanto ficar observando a habilidade humana de não entender onde é a saída de uma catraca – o banheiro lá tinha catraca e para um mísero xixi, 20p a menos – ou da tentativa de surrupiar o sistema ,nem que seja por 20p, em várias tentativas vãs de enganar as grades de ferro. Foi divertido e, como levantamos do alto de nossos olhos de científicos observadores, valeria um curta. E valeria mesmo. Preciso começar a anotar essas idéias.
Ainda lavei minha roupa e fiz um café brasileiríssimo. Dois alívios numa tacada só.
anteontem
Abrir a janela e desconfiar que não haveria uma única nuvem no céu até a hora de eu ir dormir novamente – prognóstico devidamente incorreto, apesar de não ter chovido.
Falar deliciosamente ao telefone com meu Hemingway (babái para não-íntimos).
Ir ao banco para abrir uma conta e conseguir abrir a conta.
Ir a uma agência de emprego e quase conseguir um emprego (*bom*), ainda pendente, não se ouricem.
Sentir que a bronca que a Jane me deu por ter gritado ao telefone enquanto ela dormia (eu não sabia, juro, mas naturalmente tive de gritar porque afinal falava com minha irmã poucas horas antes da estréia de sua peça) só serviu para me deixar ainda mais à vontade aqui.
Zanzar em boa companhia por Piccadilly Circus (ainda me perco encantadoramente em qualquer lugar de Londres).
Mandar um bêbado no ônibus shut the fuck up e ganhar a benção do motorista.
Chegar em casa e encontrar Rols e Kelsye acordados para uns biscoitos digestivos e aquela última conversa (odeio ser a última a dormir, desde pequena. Sempre me deu uma sensação de abandono).
O dia perfeito quase chegou, só que eu soube cumprir a maldita profecia e estragar no final.