Tuesday, April 25, 2006

tudo azul

Dias melhores estao vindo. Ja eh quase desnecessario carregar um casaco, a nao ser pelos extremos do dia. Londres estah virando a cidade que eu amo e que nasce em fim de abril e morre em fim de outubro.

**

A natacao estah aos poucos ficando importante. Meus tempos nos 400m livre baixam a cada treino e ontem ousei exibir meus ainda tortos 400m medley. Esse vai ter que esperar mais um pouco. Vexaminho. Mas estou bem feliz. Meu tecnico eh um fofo. Vive me dando “well dones” e dizendo que estou no lugar certo, na hora certa. Eu acredito, ateh.

**

Esse fim de semana foi todo bom, em sua calma e promessa. Aniversario de uma amiguinha nova em Wimbledon, trabalho na academia no sabado, encontro com o Chris que me fez mais uma vez entender o porque de ele ser ex e nao atual, natacao no domingo, cinema frances e amigos no Tinto Coffee, pertinho de casa.

Fim de semana que vem eh feriado de novo. Estamos tramando Inverness. Estah meio em cima. Vamos ver se rola.

**

Eu reclamei e agora estou tomando. Estou com tres projetos sobre os ombros, os tres precisando de uma acao relativamente urgente. Estou feito uma barata tonta para la e para ca. Nem reclamo. Ontem achei que fossem 3pm. Fui conferir e eram 4.30pm.

**

Estou toda tecnologicada em casa ja. Telefone unlimited, broadband wi-fi e TV digital com uns 30 canais. Viu, me adicionem no Skype. Nao lembro meu username mas procurem la que deve ser facil me achar.

**

Os dois encontros de sexta foram bons. No primeiro, em que servi de interprete, foi bem tranquilo. Na verdade nao precisei fazer muito. Acho que era mais para dar seguranca aos presidentes da associacao, que ateh falavam um pouco de ingles. Alem disso, eles sao uns amores, e me pagaram bem.

O segundo encontro foi mais de gente grande mesmo. A mulher com quem tinhamos que nos reunir era meio bruxa travestida de princesa, sabe? Sei la. Nao gostei do olhar dela. E morri de vergonha porque ela me perguntou algo e eu nem me liguei que ela falava comigo porque estava prestando atencao na mocinha que servia café. E tambem morri de vergonha quando eu disse que “I don’t have a car” quando na verdade ela perguntou “do you have a card?”

Coisas de Bibinha.

Mas foi bom. No final, fiz minha apresentacao exatamente como queria fazer, fui muito bem entendida e tive minhas perguntas todas respondidas. Bom.

**

Last but not least, tenho um date na quinta-feira. Nao perguntem ateh que aconteca. Please.

Thursday, April 20, 2006

post-Easter blues

Voltei. Muito, muito, MUITO trabalho. Reclamei, tomei. Muito mesmo. E muita tensao tambem, ja que a amanha tenho uma reuniao, dessas de gente grande, nos headquarters da Grant Thornton UK. Meda, panica, horrora, desespera, socorra, salve salve. Vai ser lindo. Ontem tive uma reuniao com meu chefe sobre o que vai ser discutido na reuniao. Fiz anotacoes e tal. Ainda assim nao sei, nao. Acho que vou boiar. E vai ter um monte de gente na reuniao. E eu vou ter que falar para esse monte de gente sobre algo que eu nao entendo e eles entendem e muito. Vai ser bonito. Vai ser legal. Vai ser quase magico.

**

Sobre a Sardenha, que eh onde busco refugio nos meus pensamentos para nao panicar com a reuniao, soh tenho boas lembrancas. Recomendo a viagem a qualquer um que aprecie belezas naturais. Praias lindas, montanhas lindas, cavernas, canyons, rios. Tudo em uma soh ilha.

O apartamento ajudou. De frente para o mar, vimos o entardecer mais lindo da historia, e vimos golfinhos tambem, que paravam o tempo para saltar.

Nao tenho muito como contar e descrever. Tem que ir la ver. Mas ainda assim, bem resumidamente, vou tentar contar:

DAY 1
Chegamos no aeroporto, dia de sol mas nao muito calor. Alugamos um carro e fomos direto para a costa. Conhecemos San Teodoro, parte da Costa Smeralda. O nome entrega. Eu tambem me entreguei. Fiz forca com os olhos, forca mesmo, para marcar aquela cor de mar para sempre na minha retina. Almocamos frutos do mar e seguimos para Cala Gonone, nosso cantinho no paraiso. Chegamos, demoramos um tempo para achar a casa mas achamos. De frente para o mar. Eu nao acreditava. Fui passear com Broo no porto, reconhecimento de area mesmo. Descobrimos que as pessoas que levam aquela vida nao poderiam levar nenhuma outra porque morreriam de desgosto.

DAY 2
Dia de acordar cedo e alugar um barco. Acordamos as 8h para estarmos as 9h no porto. O barco era bem pequeno, mas demos aquela cafofada. Fizemos toda a Costa Orosei e nadamos em piscinas travestidas de mares, tao clara a agua. E fria. Muito fria. Fria de dar falta de ar e deixar o musculo bobo. Fria de dar medo de ir e nao voltar, porque tudo endurece. Morri de frio na praia mais bonita do mediterraneo, uma das mais bonitas do mundo: Cala Gonoritze, acho. Ou algo assim. Foi o dia inteiro assim. De praia em praia, uma mais linda e virgem que a outra. Visitamos uma caverna, Bue Marino, e eu me perguntei como alguem pode nao achar cavernas e estalactites e estalagnites dos lugares mais sensuais. Tudo eh falico e ao mesmo tempo confortavel. Cheia de ecos e misterios e minigrutas e nomes estranhos como “couve-flor” dadas aas formacoes. Vimos tambem um casal praticando nudismo descarado numa praia que nem era de nudismo e me deu ateh uma certa invejinha de nao pertencer a esse mundo mais puro e desencanado. De noite fomos ao unico barzinho “cool” da vila, onde nosso amigo Mr Suecia ficou bebado como sempre e, como sempre, arranjou confusao. Nem foi culpa dele, mas como bebado ele fica insuportavel, acabou pagando um preco por algo que nem comprou: insistiu em ficar mais no bar, sozinho,e as 4 da manha chega em casa gritando, chorando e sangrando. Foi espancado por uns capangas do dono do bar, que jurava que Mr Suecia tinha dado um calote de, sei la;, 5 cervejas. Acordei com os gritos, fiquei ansiosa, nao sei direito, me descontrolei. Ataque de panico. Mas bobagem. Bobagem. Nem precisam se preocupar. Passou. Eu nem chorei.

DAY 3
Contrariando todas as preces, o dia amanheceu nublado. Nao um numblado ruim. Tinha um mormacinho la e ca. Tentamos. Fomos para Cala Osala e Cala Canoe, tentar pegar um solzinho. Eu acabei com meu agasalho de nailon, de capuz e tudo. Achamos que nao seria mais uma boa. Voltamos para casa, meio sem saber o que seria daquele dia. No final das contas, resolvemos sair. Tinhamos combinado que nao iriamos mais numa festa em Olbia, que fica a desnecessarios 150km de onde estavamos e eh a capital local. Mas sairiamos para jantar for sure. Qual nao foi nossa (minha, da Broo e do Ma) surpresa quando percebemos que os meninos (Mr Australia, Mr Suecia e kangaroo) estavam na verdade dirigindo ateh a maldita festa! Nos fazendo de trouxa, no minimo. Nos nao queriamos ir na festa e estavamos sendo arrastados. A partir dai rolou uma cisao no grupo que jamais voltaria a unir. Brigamos. Nos viramos os sharks; eles, os tigers. Eramos um perfeito No Limite aa italiana. E, na boa, os sharks ganharam disparado. Mas calma. Deixamos os meninos na maldita festa e toca dirigir mais duas horas de volta para Cala Gonone. O indio em seu melhor programa.

DAY 4
Acordamos cedo, nos tres. Os tigers, claro, ainda estavam sabe deus onde. Pegamos o carro, tomamos café num boteco qualquer, so nao digo que tomei um pingado porque estavamos na Italia. Tomei um macchiato. Dois, na verdade. Fomos direto para o rio, destino: caiaque. Nao rolou. Todos os caiaques estavam alugados e meu sonho de remar pelas calmas aguas do rio que ziguezagueia montanhas, afundou. Mas nao deixamos por isso, nao. Caminhamos ateh o rio e mergulhamos. E nadamos. E foi bom. A agua estava bem mais quente que a do mar. Eu achei que estaria mais fria, por causa da sombra das montanhas. Me enganei. Nadamos e tomamos sol no pier, e o Ma quebrou a haste do meu oculos escuro quando tentava agarrar um calanguinho. De la fomos para a praia, porque merecemos. E da praia para outra gruta, Ispigninola (ou algo do genero), que tem a maior estalactite da Europa, segunda do mundo. Cinquenta metros para baixo, fomos. Gente morreu la em excavacoes. Eu achei lindo e descobri que italiano eh uma lingua muito facil, muito mais facil que frances. Depois passeamos por uns Canyons perto de Tiscali, fomos parando aqui e ali. Onde um dos tres gritasse para, paravamos os tres. Uma delicia. Passeamos no centro de Dorgali, uma coisa fofa de cidade, dessas que soh existem pintadas em quadros. O dia perfeito. Chegamos em casa soh depois do jantar. E nada dos tigers. Comecei a ficar preocupada. Mas ainda assim fui para cama e dormi na hora

DAY 5
Tigers voltaram para casa. Parece que chegaram depois das 11 da noite apos 18km de caminhada e um dia inteiro tentando achar onibus para voltar para Cala Gonone em domingo de pascoa. Mas hoje seria o ultimo dia que teriamos para passear. Eles estavam acabados, perderam entao mais um dia. Eu e os outros sharks estavamos com a macaca. Pegamos o carro e saimos para aproveitar o ultimo dia. Fomos a um sitio que tem uma tumba milenar. Fomos para cima e para baixo em cidadezinhas. Fomos para uma vila nuralgica que acabamos nao entrando. Fomos almocar num restaurante de comida tipica sarda. O dia estava cinza, feio, mas estava lindo. Era nosso ultimo dia, afinal. Chegamos em casa e os meninos ainda nao tinham saido de casa. Eram 7 da noite. Mr Suecia mancava. Andou 18km com sapatinho de balada. Segurei o riso, porque deve ter sido foda. Merecido, mas foda. Passei a noite fazendo Sudoku e outros quebra-cabecas japoneses legais com Broo. Os tigers estao tentando se aproximar, mas nao estah Rolando. Principalmente porque o Ma nao consegue nem ouvir a voz deles, em especial do kangoroo, que se revelou uma mala sem alca e sem rodinha, daqueles casos perdidos mesmo. O cara eh daqueles chatos que fica repetindo ad nauseam dialogos de filme sem importancia alguma. Inconveniente. Chato. Sem limites. E fedidim. Juro.

DAY 6
A volta. A viagem para Olbia, onde fica o aeroporto, foi tranquila. Eu e Broo na frente, os tigers atras. Quase nao conversamos. Voamos juntos e tudo. Chegamos em Gatwick e as malas minha e da Broo chegaram primeiro. Nos despedimos, abraco, promessa de troca de fotos e tal. Fiquei triste. Eu gosto do Mr Australia, voces devem saber. Nao queria que as companhias malas que ele carrega pela vida me afastassem dele. Por outro lado, se ele escolheu esses amigos eh porque ha um que de veneracao aos malas que em nada me atraia. Como diz Bobbynha, citando sua amiga “Ju”, se dizem que a vaca eh pintada, eh porque alguma mancha ela tem.

Wednesday, April 12, 2006

sardinha

Ultimas palavras antes de ir m’embora pra Sardenha. Eu mereco muito essa viagem. Muito mesmo. Eu mereco que faca sol todos os dias. Que de para dar umas bracadas no mar (nao mais que uma duzia de bracadas, soh para purificar mesmo). Nao importa que a agua esteja fria. Eu quero coisa fria. Eu quero me contrair inteira. Me arrepiar inteira. Encolher em minha imensidao. Eu me transbordo todo dia. Preciso de um mar congelando para me manter no ponto.

Pensei ateh na loucura de lever meu notebook, mas nao. Eh loucura. Para que? Para escrever, claro. Mas acho que vou ter que ficar sem. Vai ser bom, ateh. Nada de computador, nada de telefone. Nada de pessoas brincando quando nao quero brincar. Toda a ilha tentando me agradar, eh o que quero.

Sardenha, o lugar que eu meti na cabeca que conheceria no ano passado. Tentei ir com Bobbynha, nao deu certo (porque poucas coisas deram certo entre as zilhoes que nossas imaginacoes ferteis bolaram). Mando noticias quando voltar, na quarta-feira que vem.

**

A natacao vai bem, obrigada. Ja estou sentindo que a puxada ta mais ponderosa, sabe? Aquela sensacao maravilhosa de se sentir deslizando, quase sem fazer forca. Em junho, parece, ja temos campeonato. Mas calma. Muita calma. Senao me bate aquela meda-panica-horrora-desespera-socorra que voces ja conhecem bem.

De qualquer maneira, ja sou membro da Amateur Swimming Association. E ja adoro meu tecnico – que parece adorer pronunciar meu nome, o tempo todo ele tenta enfia-lo nas frases que dirige a mim. Por ora eh o suficiente.

Monday, April 10, 2006

I've got to admit it's getting better

Mais um fim de semana todo bom.

Bom porque sexta fiquei bundando em casa, vendo O Homem do Ano.

Bom porque no sabado trabalhei e assim nao me sinto tao mal em ir viajar.

Bom porque finalmente estou com telefone em casa.

Bom porque meus ex-flatmates vieram jantar em casa e foi muito, muito legal.

Bom porque estamos todos muito empolgados com Sardenha.

Bom porque fui fazer meu teste no clube de natacao e, apesar de ter morrido apos 4km, passei!

Bom porque descansei ao lado de pessoas muito queridas.

Can it get any better? Claro que sim. Quinta cedinho voamos.

Friday, April 07, 2006

quase 28 aninhos

Senhoras e senhores, minha irma, hoje de manha:

Agora que me toquei que a Eurodisney fica em Paris!! é isso mesmo?!?!?!?!?! será que a gente pode, pelo amor de deus, passar um dia lá? foda-se torre eiffel!

Eu ainda te estrago de tanto apertar, menina!

Thursday, April 06, 2006

La vie en rose

Ontem conhecemos Bishop’s Park. Esse eh nosso parque local, a dois minutos a peh de casa. Fomos Broo e eu apos o trabalho desbravar a selva. Nao tivemos grandes problemas. Talvez o momento mais radical foi quando resolvemos brincar de gangorra.

Tem gente correndo, tem plantas de varios tipos, tem um jardim exotico que nao eh exotico, tem patos, tem o rio logo na beirada, tem cachorros e poucos cocos de cachorro. Tem muita grama e ateh laguinho. Esse eh nosso parquet local.

E decidimos que agora torcemos para o Fulham FC, seja la qual for a divisao em que se encontre nosso timinho do coracao.

Chegamos em casa e jantamos e assistimos The Apprentice e ela insistiu para eu me inscrever no proximo programa e eu falei para ela nao viajar. Se Sir Alan Sugar me aponta o dedo eu tenho um ataque de panico ali na hora, pah! E ai me deu um quentinho de estar na minha casa, com minha amiga, numa cidade que amo, vivendo, simplesmente deixando o sol do fim da tarde entrar.

Tudo vai manso. Tudo vai passar. E eu vou ficar. Ateh quando for de novo.

Wednesday, April 05, 2006

onde canta o sabia

Chega. Nao achei que isso tudo fosse me fazer tao mal.

Respirar.

E pensar em outras pessoas que sacaneiam tanto no mundo e jamais olham para tras para conferir o estrago. Mas sao pessoas mais felizes, sem culpa. Podem sofrer as consequencias, mas jamais vao enxergar que sao consequencias.

Nem sei do que estou falando.

Estou caindo de sono, hoje.

Comecei a ler O Processo, de Kafka. Fiz mal?

Em uma semana estarei de malas semi-prontas. Preciso de um guia da Sardenha. Alguem tem dica?

A Broo inventou de fazer um curso de fabricacao e escultura em vidro. Eu adoro a ideia. Eu odeio o preco. £125 por um dia. Complica, neam?

Amanha vou ver Bobbynha custe o que custar. Ja combinamos: eu a pego em Putney Bridge, onde ela estarah me esperando paradinha, sem balancer a lancheira para nao voar suco de uva. Aih eu vou pega-la e abraca-la tanto que vai sair amor pelos olhos.

E hoje eu decidi que merecia comer bem e ganhar um presente. Comi um Irish stew (como se traduz isso? Ensopado irlandes?) e depois me dei um creme para maos da Body Shop. E comprei menos pelo cheiro (nao muito bom) que pela origem: a material-prima vem do Brasil. A Body Shop eh uma das pioneiras em Community Fair Trade, que apoia pequenos produtores em paises em desenvolvimento. E esse creme que comprei, em especial, vem da soja de pequenos agricultures brasileiros, aqueles fofos.

**

Preciso de mais noticias do Brasil. Tenho me sentido muito desconectada de meus amados ultimamente. Nao sei das ultimas, nem das penultimas. Nao sei se tudo caminha bem. Imagino que sim. Imagino.

Preciso de mais. Sou pidona mesmo. Mas o dia em que eu parar de pedir eh porque tem algo errado. E nao ha nada de errado agora. Soh nao ha nada definitivamente certo.

Tuesday, April 04, 2006

move on (I did)

Os treinos estao ficando cada vez mais gratificantes. Finalmente estou voltando a ser ao menos a sombra do que um dia fui. Antes, nem isso. E ja marquei a data do teste no Wandsworth Swimming Club: domingo de manha.

**

Os dias estao ficando cada vez mais agradaveis. Essa semana vou deixar o sobretudo em casa, ja estah decidido.

**

Falando em dias mais agradaveis, contagem regressivissima para minha viagem de Pascoa. Eu, Broo, Mr Australia, Mr Suecia e o outro kangaroo. Num bangalo em Sardenha. Quase nada a vida que eu quero para mim.



Quinta-feira da semana que vem, entao, voamos para Olbia. Ateh la, devo encontrar Mr Australia no fim de semana. Eu e Broo vamos fazer um jantar para ele e o amigo. Saudadinha ja.

**

E tem ainda a Bobbynha, que chegou tumultuando e inacessivel. Cade voce, esposinha? Eu quero!

**

E finalmente, a derradeira mensagem para nossa amiga do queixo indecente (porque nao tenho tempo a perder com tolices, see, I myself have a life):



Mas, sabe, eu entendo. Ta ficando tarde, ne? Os anos passam... E a gente tem que aceitar o que aparece, mesmo que o que apareca esteja mais voando que na sua mao.

E chega dessa obsessao pelo meu blog e pela minha vida. Pega mal.

Monday, April 03, 2006

chega de poupar quem nao me poupou

Alo alo, anuncio oficial: nao vou mais me censurar! Neste espaco, aguardem.

Se eu pudesse, ah, se eu pudesse, eu juro que punha o link do meu outro blog aqui. Mas nao. Meu bom senso e a certeza de que cada um tem o que merece independentemente dos meus atos, me impedem.

Pode voar, mas nao perca o caminho de casa: voce vai precisar dele para voltar.

Um sorriso de pena rasgado nos labios. Seja feliz agora. Ria agora, hiena sem causa. Porque eh soh o agora que voce tem mesmo.

Lembram que eu estou aprendendo alemao? Eis a prova mais cabal: Ich bin der heraus loud lachend. Sie sind das, wer an betrogen wurde. schande, schande, schande.

Friday, March 31, 2006

eu ri por ultimo, meu bem

Nao eh engracado ser chifrada por uma menina que depois seria por mim chifrada? Eh engracado, sim, e o cara soh pode ser um palhaco.

Oh, well, a batata quente nao eh mais minha anyway.

(ALIVIO)

Thursday, March 30, 2006

2006 e um quarto

Sensacao estranha: hoje acordei como se acordasse de um sono de anos, mas ao mesmo tempo como se ainda faltassem anos para eu realmente me sentir descansada. Eh normal? Devo estar ficando velha.

Ou soh cansada mesmo.

**

Pintou a oportunidade de fazer um frila bem legal aqui. O problema vai ser fazer meu chefe entender que quando eu quero, vou e faco. Comentei com ele ontem sobre o frila, e que provavelmente o evento comeria parte de uma sexta e parte de uma segunda em algum ponto em abril. Ele anda meio de mau humor. Sei la. Me disse que realmente eh uma oportunidade legal, mas que meu trabalho aqui deve vir em primeiro lugar.

Ele esta certo. Mas como eu disse, eu quero. E se eu quero, fodeu.

Meu chefe de mau humor ou “apressadinho” eh o que ha. A real pain in the arse.

**

Pois eu resolve me vingar do meu ex-futuro gatinho. Ele me mandou uma mensagem de texto me chamando para jantar e para ir no cinema assim que melhorar do joelho, que passou por uma segunda intervencao ontem. Ainda nao respondi. Mas vou. E aos 45 do segundo tempo vou perguntar quando nasce o pimpolho.

**

Comecei meu treino para fazer o teste no Wandsworth SC. Fiz o Day 1 passado pelo Edu, meu tecnico no Brasil. O treino tinha 3,000m e, rapaz, confesso que cansei. E estou consciente de que se pretendo realmente entrar na equipe, devo comecar a me acostumar com a ideia de nadar o dobro disso seis vezes por semana.

Hoje vou fazer o Day 2 depois do trabalho. Estou meio dura, ainda. Como eh facil perder a forma…

**

Quero aprender uma nova lingua. Ja falei isso mil vezes aqui, e talvez essa seja mais uma que vai morrer com as outras vontades. Dessa vez encafifei com o alemao. Talvez porque ultimamente tenha lido muitos autores alemaes. Frances continua na lista das must-learn languages. E espanhol, da must-not-embromate.

Tuesday, March 28, 2006

midland blues

E o que eh uma bosta para os padroes ingleses, descobri, eh uma bosta para meus padroes tambem. Nao sei se estou virando inglesa demais, mas realmente Birmingham eh a escoria da Inglaterra. Nunca vi lugar tao feio aqui. Inclusive deprimente. Fabricas por todos os lados, cinza, ateh o centro que tenta ser simpatico com uma roda gigante imensa e desconexa conseguiu me causar asco. Bad Karma eh nascer num pais como a Inglaterra mas vir da menos inglesa das cidades, Birmingham.

Oxford eu conhecia por cima, conheci mais a fundo, mas ainda nao conheci inteira. Faltou estar la num dia de sol para andar sem pressa e praticar o famoso punting, uma especie de barco que rola down the Magdalen bridge.

Fica pra proxima.

Fomos tambem para Stratford-Upon-Avon, cidade onde Shakespeare nasceu e morreu. Eu gostei. Pequena, toda historica e fofa. Claro que eles espremem o fato de Shakespeare ser de la ateh a ultima gota para atrair turistas. Nem eh tudo isso. Mas eu ja sabia que nao era mesmo. Fui descrente para me surpreender com a fofura da vila.

Passamos tambem em Warwick, onde tem um castelo cujos arredores exploramos bem, mas nos negamos a pagar £14 para entrar.

E, claro, a experiencia mais traumatizante, o albergue em Oxford. Ficamos num Backpackers da vida, £14 a noite sem café da manha. Uma piada para o que oferecia. Minha cama estava suja com farelo de pao. O quarto em que fiquei era carinhosamente chamado de China, talvez pelo infeliz fato de haver dezoito, ALO, DEZOITO, neguinhos dormindo. Imagina o cheiro. Imagina pessoas entrando e saindo a toda hora do dia e da noite. Mexendo em sacolas daquelas barulhentas. Atendendo celular. Rindo. Peidando. O apice veio quando uma vaca bebada sentou em cima de mim. Sim, sentou em cima de mim. Garrafa de cerveja em punho, ela perguntou com a voz arrastada “Are you jsfkawhr?” Minha resposta foi surpreendentemente sobria: “Do I look like fucking jsfkawhr?”

Dai para uma hora de insonia travestida de mau humor foi um pulo.

No banheiro havia uma calcinha roxa no chao. Meninas mijando (acho) de porta aberta. Meda, panica, horrora, desespera, socorra, muita socorra.

Esta no top 3 piores lugares onde ja fiquei.

Mas como um todo, valeu muito. Cansamos mas passeamos e pegamos a TV. Ja temos planos para o final de semana: nao fazer absolutamente nada.

**

Havia um gatinho no meu caminho, para os desavisados. Uma bela pantera, eu diria. Mas ja foi embora. Sailed away in a grey sky morning. Ele ainda nao sabe, claro, mas ja dancou. Ele nao sabe que eu sei que ele tem namorada e ela estah gravida. Puta brincadeira de mau gosto, amigao.

Desencantei. Nao vale o trampo.

Friday, March 24, 2006

hungry for a little more

Estou correndo mais que minhas pernas. Mas ja nem sinto.

No Brasil as coisas tambem tem estado estranhas. Muita coisa ruim, gente morrendo e muita incerteza. Eu tento ficar na superficie. Afinal, aqui as coisas vao bem, apesar do cinza nosso de todo dia.

Hoje vamos no Ikea, eu, Broo e o Ma. Aproveitar que estamos de carro. Alugamos um carro para o fim de semana para aproveitar que temos que buscar a TV em Cannock e passear por Oxford e pelas Midlands. Nao que seja assim indispensavel ir para as Midlands do ponto de vista turistico. Parece que eh uma bosta. Mas eu quero muito ver o que eh uma bosta para os padroes ingleses. Eles, que nao sabem direito o que eh realmente bosta.

E passei uma tarde profundamente entediada numa conferencia da empresa. Estrategicamente, sentei na janela para olhar a vista de Sandown Park. Linda, linda. E nao absorvi lhufas, ou muito pouco, do que foi dito. Porque o assunto era chato e porque ainda nao entendo nada dos planos da empresa ainda.

Mas OK. Tres horas de falacao e eu louca para ir embora, ja sem achar posicao confortavel na cadeira. Oh well, sobrevivi.

Tuesday, March 21, 2006

along came Bobby

Mudei. Eu e Broo. Nova casa, novos horarios, novas vizinhancas, novo landlord, novas idiossincrasias na casa, novos mercadinhos de esquina. Ontem, voltando do trabalho, sai do metro e virei para o lado errado. Ainda me acostumando. Se bem que eu sempre ia no sebo da Clodomiro Amazonas e, ao sair, nunca sabia para que lado virar para voltar para casa. E morei no Itaim Bibi por mais de 20 anos.

Economizo uma hora por dia em viagem. Muita gente nao sabe a real diferenca que isso faz. Por outro lado, meu quarto eh bem, bem pequeno. Ainda estou tentando entender como vou por todas as minhas coisas la e ainda ser capaz de andar la dentro. Mas por outro lado estou mais perto de tudo. Mas pago mais aluguel. Mas pago menos em transporte. Mas mais em Council Tax. Mas agora moro com a Broo e morar com uma amiga eh bem melhor que morar com um bando que foi juntado por um site de flatshare na internet. E moro com uma pessoa, alem de mim, e nao tres. Tem pros e contras, como qualquer escolha que se faz desde os dois anos de idade. Ateh antes. Mas nesse caso ha mais pros. Estou feliz. Muito feliz. Eu no meu quarto pequeno. Estou realmente feliz.

**

A unica coisa que ja estah me tirando do serio em menos de 100 horas vivendo naquela casa eh a vaca da landlady. Que ja se revelou uma vaca desde o primeiro instante. Mas deixe estar. Deixe estar e aquela anta vai sentir o gosto azedo da minha ira.

**

Domingo fui ver Tsotsi, o filme sul-africano que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Muito, muito bom. Cenas fortissimas, apesar do enredo se revelar ligeiramente americanizado. Vale a pena. Poderia ateh ser um filme brasileiro. Vao ver, vao ver.

**

Terminei Of Mice and Men, do Steinbeck. Escuta, como eh que um livro pode ser tao completo e bom com tao poucas paginas?

**

Ontem foi o penultimo dia do meu curso na Birkbeck College. Vou sentir saudades... E ja vou pensando aqui em algum outro curso para fazer mais para frente. Se bem que vai ter o swimming club e...

**

Quem? Quem? Quem eh que chegou do Brasil? Londres voltou a ficar mais colorida, pelo menos a meus olhos: Bobbynha estah na area! Nada como aqueles "ta-tchaus" amados, os croc crocs que nao canso de ouvir, tanta, tanta historia para contar e lembrar. Faz meses, mas parece decadas, que estivemos juntas. Todo dia, todo dia, vivendo sob o mesmo teto, dormindo, acordando, indo andar de manha ateh o trabalho. Tudo, tudo junto. Eh claro que a falta que ela fez ficou muito maior que qualquer outra falta. Eramos praticamente casadas.

Saudade de voce, esposinha.

Friday, March 17, 2006

love

Para alguem que amo – com muito, muito amor

Hoje meus pensamentos estavam todos com uma das pessoas que mais amo. Hoje meus pensamentos todos estavam no coracaozao dessa pessoinha que conheco ha 20 anos e cuja presence eh tao forte que ha 20 anos passo sequer um dia sem pensar nela.

Ela, minha Bathathinha, toda especial, toda e sempre. Hoje toda minha energia eh sua. E toda a forca que te faltar eh minha. Hoje, e sempre que for preciso.

Fica com Deus, Thatha. Porque Ele, eu sei, eu vi, Ele estah com voce.

Wednesday, March 15, 2006

stay with me

Sei que faz tempo. Estive doente. Ainda estou, para ser sincera. Não fui trabalhar. É uma gripe que dura cinco dias, me disse o cara da farmácia. Acho que ele só queria mesmo era vender mais. “Eu saro rápido”. Comprei a caixa menor. Aí “realizei” que aqui não tem esse tipo de malandragem. E toca voltar à farmácia e comprar mais uma caixa, o que tornou tudo mais caro. E para completar, aquela cara do farmacêutico de eu-já-sabia que eu, do alto do meu nariz entupido, tive que engolir.

Junto com a gripe, os preparativos para a mudança. Tudo o que é livro, DVD e utensílios de cozinha já foram devidamente encaixotados. Ainda falta o mundo de roupas. Não sei como vou conseguir empacotar tudo. Já pedi para o Chris me emprestar uma mala, e estou contando fielmente com isso.

Broo também está toda ansiosa. Na verdade não vejo a hora de me mudar para estabelecer paz de novo aqui dentro. Morar mais perto do trabalho, economizar tempo e dinheiro, viver numa casa menos povoada. Quer dizer, esse começo vai ser esquema asilo. O Má, alguma-coisa da Broo, vai ficar lá, e trará junto mais dois amigos para passar o fim de semana. Vai ser uma bela experiência antropológica já que o apê é, apesar de lindo, deveras pequeno. Tudo é festa. E mais dois, numa altura dessa, significa maior força-tarefa na mudança. Estou feliz com a possibilidade de apenas dizer isso-vai-aqui, isso-vai-ali. Sem riscos para minha frágil coluna de nadadora.

Obviamente quando tudo passar e eu voltar a navegar em águas mansas, todosm os planos que estavam on hold voltam a funcionar, ao menos na minha cabeça perturbada. O Edu, meu técnico no Brasil, me passou um treino intensivo de cinco dias para antes do teste no clube de natação. Olha, vou dizer, não vejo a hora de entrar em forma novamente. Tá foda.

**

Sábado foi o housewarming da Joo. A Joo chegou aqui faz menos de dois meses. Ela é amiga da Rê e chegou como se chega: desamparada, ansiosa, estranha, desconfortável. Mas aprendeu rapidinho a sobreviver nisso aqui que se chama primeiro mundo. A festa foi um sucesso e eu, apesar da gripe (que obviamente piorou), me diverti como se estivesse bêbada. Quase agi como se estivesse bêbada também, mas aí é que agradeço à Nossa Senhora da Sobriedade, essa que abençoa pobres almas segundos antes de cometer a Cagada do Ano.

A verdade é que, novamente, voltei a aproveitar festas. Tenho minhas fases ostra. Não saio nem arrastada, não tenho o menor saco de me deslocar para a puta que o pariu para falar frivolidades e arranjar desculpas para não beber e perguntar coisas fúteis a pessoas que não conheço e nem quero conhecer e que não me conhecem e nem querem me conhecer. Ganho mais em casa, sem passar frio, vendo TV, lendo um livro, resolvendo algo que tem que ser resolvido, escrevendo, até cansar e dormir. Com festas e baladas não é assim. Ainda não entendo porque tem fases em que vou. Como esta. Não entendo direito por quê estou me divertindo, mas estou. Não entendo o propósito, mas vou. Sei lá, deve ser bom, uma coisa assim mais humana. Um dia vou entender melhor.

E falando em farra, Broo e eu já começamos a planejar o nosso housewarming. Engraçado é que antes de pensarmos na festa, pensamos nas regras dela. Tipo, proibido fumar dentro da casa, sujou-limpou, utensílios descartáveis. Enfim, mudar já dá trabalho demais para vir baderneiro e dar ainda mais trabalho. Percebam que posso estar em festa mode-on mas jamais deixo a rabugem. E ela jamais me deixa.

Monday, March 06, 2006

who wants to live forever?

Estah dificil de me concentrar. Ontem acordei e fiquei olhando para o ceu. As nuvens, impassiveis, passavam. Eu nao sabendo como fazer a cabeca parar. Eu e Broo achamos nossa casa, nossa casinha, pequena porem fofa, na Fulham High Street. Uma grana violenta. Tive que badernar minha conta reserva. Ah, mas foda-se. Preciso de qualquer jeito, nao preciso? Entao pronto.

A casa estah a passos de ser nossa. Ja preenchemos a papelada, ja demos referencia, ja pagamos um deposito para nos garantir. Agora comeca toda a outra parte. Tenho que pensar em etapas senao fica tudo acavalado, e esse blog, entre outras coisas, me serve de organizador de ideias selvagens e arredias.

**

Depois de amanha serah o enterro do meu tio-avo. Faltarei no trabalho para ir ao funeral, em Brighton. Ele vai ser enterrado e sobre seu tumulo sera plantada uma arvore. Coisa mais linda. Uma arvore que vai se alimentar de meu tio-avo para crescer forte. Um ciclo perfeito, da terra aa terra, do poh ao poh.

Ele vai ser enterrado no mesmo dia em que meu avo morreu no ano passado.

Mesmo nao querendo romantizar tanto para sofrer menos, nao consigo deixar de ficar assombrada e maravilhada com a estranha coincidencia.

A partir do dia 8, o mel das abelhas de Brighton serah mais doce.

**

Fim de semana bem legal. Sexta fui ao show de uma banda chamada “The Go! Team” com um amigo. Legal. Legalzinha. Para ser sincera, gostei mais da banda que abriu o show, um trio chamado “The Grates”. Mas sempre sou do contra.

Sabado foi dia de trabalhar um pouco, nadar mais um pouco, e depois ir para a casa da Broo. Assistimos a Hitchiker. Que grandecissima bosta. Nunca mais confio de olhos fechados no gosto da Broo.

Iamos numa boate (!) dancar salsa (?) mas acabei puxando o cordao do desanimo e ninguem foi no final. Pior: ficamos em casa, pusemos salsa no som e comecamos a dancar. Nada como dancar sem querer seduzir. Adorei.

E dormi por la mesmo. Acordei com o ceu azul gritando para mim. Ficamos todos preguicosos ateh meu querido australiano nos chamar para um churrasco em casa. Bem legal, bem legal. Adormeci comendo meu ultimo pecado, bolo de chocolate com sorvete de creme, antes de voltar para minha dieta emergencial, tambem chamada de cala a boca.

Chega. Preciso voltar a me concentrar. Preciso me organizar. Preciso talvez fazer listas, e listas de listas. Preciso quem sabe de ajuda, mas nao muito. O suficiente para eu entender que posso ser ajudada. Preciso de um ou outro olhar preocupado, seguido do olhar doce e sereno do eu-ja-sabia. Preciso que alguem me puxe pela mao, mesmo sem saber direito onde estah me levando. Eu, preguicosa, confortavel e alienada, prometo que nao pergunto.

Tuesday, February 28, 2006

flocos de neve II

Ha pouco menos de um ano, postei um texto intitulado “floco de neve”. Ele comecava assim: “Lendo John Fante, outro dia, me emocionei. O avo do personagem de 1933 Was a Bad Year tinha morrido e ele tinha lido em algum lugar que quando uma pessoa morre, elas se transformam em flocos de neve. Uma imagem infantil, mas bonita. Uma imagem daquelas que mae conta para filho novo quando tem que se deparar com a morte pela primeira vez e precisa entender que a pessoa foi, mas continua no ar. Uma imagem daquelas para refletir as dores e tentar sentir menos dor. Principalmente porque nesse mesmo dia estava nevando aqui em Londres. E porque meu avo ja estava dormindo um dos seus ultimos sonos vivos.”

Aqui, hoje, novamente, neva. Hoje, em especial, houve sol e neve. Um frio e uma beleza que, juntos, fazem doer tudo.

E mais uma vez tive que me emocionar ao sentir os flocos caindo e derretendo sobre meu sobretudo quente. Nao era apenas neve. Era a despedida novamente. Dessa vez, meu tio avo se despedia. Quase um ano apos seu irmao. Enrugadinho, pequeno, sabio, muito mais sabio que eu e voce e todos nos juntos. Recebeu uma visita do medico no sabado. O medico desconfiou de infeccao urinaria e quis leva-lo para o hospital para fazer uns exames. Ele disse que nao. Nao queria. Se despediu do medico e foi dormir. Nao acordou mais.

Recebi o telefonema da Elaine, uma especie de governanta que viveu decadas cuidando da familia, quando saia do cinema. Ela deixou recado e liguei de volta. Meu coracao ja acelerado. Sentei para falar com ela porque sabia da potencial queda. Mais flocos de neve sobre meus ombros cansados. Uma das maiores dores do mundo sao de saudade. Mas dessa saudade. Uma saudade que ainda nem comecou. Uma saudade previa do que sera a vida sem quem partiu. E parece que cresce. A saudade que sinto de meu avo se acumula para quase dois anos. A ultima vez que o vi, ainda morava no Brasil. Mas era saudade boa de saber que ele ainda estava la, e que havia vida para viver e historia para contar e historia para ouvir.

Alem da saudade, ficou a dor de saber que minha irma nao pode conhecer uma das pessoas mais notaveis da nossa familia. Uma pessoa que em muito lembra nosso querido avo.

Mas ja quase nao consigo mais chorar se penso que eles estao juntos agora. Os dois irmaos, com historias tao diferentes. Historias que comecaram quase juntas e agora acabaram quase juntas. Eles foram para diferentes cantos, separados por uma Guerra nojenta, mas fizeram e viveram suas vidas, tiveram a delicadeza de trocar cartoes de aniversario ano apos ano.

Eles nao sabiam o quanto sao parecidos. Agora talvez saibam. E isso estranhamente me faz torcer para que quando eu va, tambem seja assim. Enquanto choramos aqui pelo desencontro, eles comemoram, la, o reencontro.

Thursday, February 23, 2006

cai a tarde

Enquanto todos ao sul do Equador derretem em pre-carnaval, aqui neva. Nevou o dia todo. Vai nevar de noite. Ha algo de errado com o aquecedor la de casa e eu nao sei como consertar.

Aqui neva, no Brasil frita. Porque esse contraste, depois de um ano e sete meses, ainda me deixa tonta?

Estao todos ai em ritmo de Carnaval, eu sei. Os jornais ja dao as noticias do transito e do quao estupido eh deixar para “descer” na hora que todo mundo “desce”.

Na Folha de hoje, um Cony bastante bairrista me mata de inveja: “o carioca está vivendo sua ‘finest hour’, meio avacalhada, mas gostosamente sua, intransferível”. A deliciosa avacalhacao carioca. Por que tudo o que eh avacalhado seduz? Talvez porque nada eh levado a serio. Nem quem eh seduzido.

Mas eu nao vou morrer de inveja porque nunca fui de Carnaval. Amanha, por sinal, irei a uma festa anti-carnaval na Toca dos Mongos, carinhosa alcunha para a casa do Ernesto & Cia Ltda. Se estivesse no Brasil, provavelmente me enfiaria num cinema com ar-condicionado por quarto dias.

Alem disso, a Pascoa ja estah chegando. Ou nao. Mas como eh meu proximo breque na vida, ja tenho que ir me envolvendo. Vamos eu, Broo, Mr Australia, Mr Suecia e um amigo de Mr Australia que chamaremos de Kangoroo. E talvez mais uma pessoinha linda, neam, pessoinha linda? Para onde? Para ca.