Saturday, February 21, 2015

Ivy (dis)League Feelings

Empaquei neste blog, comecei outro com outro propósito e resolvi voltar aqui  hoje para falar um pouco das preocupações da vez. Sempre vão haver preocupações, certo?

No início é o ganho de peso, como e quanto está mamando, quanto está dormindo. Depois passa a ser os milestones de desenvolvimento: já engatinha? Anda? Fala? Conta? Corre? Pula?

E depois as preocupações começam a ficar mais complexas, e é por isso que voltei aqui. Estou começando a passar por uma crise. Não em relação a meu filho, mas ao mundo a qual ele está prestes a ser exposto.

Ano que vem será o ano em que ele completa 4 anos. Portanto, aqui nos EUA já é elegível ao Pre-K. Eu e meu marido sempre fomos a favor de educação pública aqui nos EUA. Escolhendo bem, é possível uma educação bacana. Certo? Hum, mais ou menos. Depende de onde você mora. E mesmo assim, ranking oficial de escolas não diz muita coisa para mim. Basta lembrar que o último episódio de tiroteio juvenil aconteceu numa escola pública muito bem posicionada neste ranking.

Então, quando falo de escolas boas, não falo em escolas com notas altas nos testes oficiais. Estou falando do que, desde já, quero para meu filho. Não estou pensando no currículo per se, ou em quantas cambalhotas ele vai estar conseguindo virar e se aos 3.48 anos já vai estar escrevendo o próprio nome. Não faço a menor questão de ter um filho precoce. Para falar a verdade, prefiro que ele não seja! Eu fui uma criança precoce, e isso não me trouxe benefícios. Muito pelo contrário, estou convencida, após anos de terapia e auto-reflexões, que a disparidade do meu desenvolvimento emocional e do meu desenvolvimento intelectual me trouxe muitos problemas na escola, e acho que resquícios dessa disparidade me atrapalham até hoje.

Estou falando de fundamentos de uma pessoa feliz e pronta para o mundo que ela escolher trilhar. Não pronta pro mundo que temos hoje. Azamiga e uzamigo hão de concordar que o mundo as we know it não é e não será exatamente um benchmark de felicidade. Então comecei a me perguntar se se encaixar no *sistema* é tão importante quanto sempre achei que fosse.

Afinal, vamos lá, o que é o *sistema*?

O sistema aqui em Nova York funciona mais ou menos assim:

Você participa de uma loteria para conseguir fazer a application para seu filho entrar na escola que você escolheu. A maioria vai escolher escolas de nome, com ranking alto. Por quê? Porque depois do Pre-K e Kindergarten, vem outros anos da Elementary School. Você só vai conseguir colocar seu filho numa elementary school *conceituada* se ele passou por um kindergarten *conceituado*. E ele só vai para uma middle school *conceituada* se tiver vindo de uma middle school *conceituada*. E ele só vai para uma high school *conceituada* se vier de uma middle school *conceituada*. E ele só vai conseguir entrar numa faculdade *conceituada*, uma Ivy League da vida, se vier de todo um histórico de escolas *conceituadas* (quase sempre privadas) e se, claro, passar em testes que avaliam coisas que se ensinam em escolas *conceituadas*. A ex-criança entra na faculdade *conceituada* e sai de lá com a maior empregabilidade possível na face da Terra. Toda a família, menos a ex-criança, viveu feliz para sempre. Cai a cortina, The End.

Há excessões à regras? Sempre. Mas estou querendo dar um panorama bem geral. Pense numa pessoa com preguiça de elaborar. Lógico que o esquema não é tão simples, mas dá para dar uma ideia de como o ciclo costuma se fechar.

Eu segui esta trilha. Não nos EUA, no Brasil. Me formei numa faculdade conceituada após estudar em escolas conceituadas. Hoje minha empregabilidade é alta mesmo nos EUA, mesmo em Nova York. Todo mês sou contactada por concorrentes da minha empresa ou headhunters. Puxa, parabéns, que bacana, né? Nem um pouco. Enquanto minha empregabilidade permanece alta, minha vontade de fazer uma CARREIRA BRILHANTE cai. Hoje minha vontade está canalizada para a educação, alimentação e desenvolvimento emocional do meu filho. Está canalizada para o sonho que sempre tive de viver da escrita. Está canalizada para aumentar a qualidade de vida da minha família. Está canalizada para fora do *sistema*. E levei 35 anos para chegar lá. No final do ano passado pedi demissão da empresa onde trabalhava para ser "recontratada" num esquema flexível, e num cargo mais baixo. Hoje trabalho 3 vezes por semana, sendo apenas 1 delas fisicamente no escritório. Hoje não tenho equipe, fator que sempre me estressou muito mas que eu me recusava a abandonar por orgulho de não querer dar "um passo para trás" (exatamente como o *sistema* me ensinou). Hoje tenho um dia inteiro na semana para mim e para por a casa em ordem, e outro dia para ficar exclusivamente com meu filho. Apenas hoje eu realmente tomei as rédeas da minha rotina. Até então, o *sistema* ditava as regras e eu, infeliz, seguia.

 Foto tirada hoje

Decorrência de 35 anos no *sistema*? Ansiedade, depressão, estresse, dor de coluna, obesidade, retração social. Como estou hoje em relação a um ano atrás? 16 quilos mais magra, sem depressão e com ansiedade controlada, mais sociável e, de forma geral, mais risonha, paciente e disposta. Tomo uma dose alta de anti-depressivos, é verdade. Mas há um ano os remédios não estavam adiantando. E, quem sabe?, em breve poderei começar a diminuir.

Imagino que hajam pessoas naturalmente felizes dentro do *sistema*. Mas algo me diz que esse número é bem baixo.

Então não, não quero preparar meu filho pro *sistema*. Não quero alguém repetindo meus erros e seus efeitos. Quero que ele crie seu próprio caminho, e que este caminho seja tão tortuoso quanto necessário para que ele se sinta completo.

A teoria está show. E a prática?

Pois é. Eu pergunto também, todos os dias: e a prática? Eu bem que queria ter as resposta. Queria saber fazer as escolhas certas para que meu filho se desenvolva da forma mais prazerosa e inteira possível. Mas não tendo eu vivido uma vida assim, fora da caixa, é difícil enxergar com outros olhos. É difícil fazer as melhores escolhas. Assim como também é difícil não ficar obcecada em acertar sempre nas escolhas (outro efeito colateral do *sistema* sobre mim, e 99% das mães que conheço).

Hoje, o que sei é que além de tomar decisões conscientes próprias (levando em conta a opinião dos outros, sim, mas não me baseando nela), preciso ter em mente que se minha decisão foi errada, posso voltar atrás e tentar outra trilha - e não tem problema. Que o mundo de hoje não é um exemplo de mundo para ninguém e que, portanto, questionar constantemente o protocolo tem que ser tão natural quanto não questionar foi no passado.

Dedico este post a minha mentora e irmã, Bobby, que tem me influenciado muito, e positivamente, nessa trilha tortuosa que é a "maternidade fora da matrix", como ela diz. 

1 comment:

S. said...

Oi Bia,

vc comentou que começou um novo blog mas não deixou o endereço por aqui... comecei a ler suas coisas no inspira há mais de 10 anos e de vez em quando ainda gosto de passar para ver o que você anda escrevendo. Sempre me emociono com seus posts.
Abraço,
Sylvia