Wednesday, August 16, 2006

the way I treat life

Agora melhor. A perspectiva de poder ir para cama bem cedo não significa que eu vá, de fato, para cama bem cedo. Mas só de saber que posso, que posso porque não tenho mais nada para fazer, só isso basta para me deixar serena. Eu tava precisando. Eu tô precisando. Eu e uma banheira e o shisha e a Nina Simone. Como nem tudo é perfeito, faltou sugar in my bowl, mas acho que se houvesse, eu reclamaria, e preferiria a simplicidade de eu e apenas eu, coisa que eu apreciava muito no passado, que desaprendi e estou reaprendendo. Não é me enclausurar. Não. É apenas saber, now and then, marcar um encontro inadiável comigo mesma. E uma banheira, ou uma piscina, ou uma tela em branco do Word. Qualquer coisa que me faça virar os olhos e não ter olhos para mais ninguém, a não ser para dentro.

Morar sozinha é isso aí.

Mas estão acabando meus dias de andar pelada pela casa, tomar banho de porta aberta, ocupar cada espaço da casa, largar a toalha, fechar a vida para o mundo num espaço que é só meu. Sábado a irmã da Broo chega em Londres e vai morar comigo. Ela é um doce, não tenho dúvidas de que nos daremos extremamente bem. Na verdade, acho que ela está chegando em ótima hora. Mais um pouco e a casa virava casulo. Preciso lembrar de não ser grande demais, porque pretendo um dia dividir minha vida, meu tempo, meu espaço, com mais uma pessoa, e depois mais uma ou duas, se tudo acontecer conforme eu sempre ensaiei.

Estou feliz com a chegada da Flá. Vai ser um desafio para nós duas, já que não nos conhecemos tão bem assim. Ela chega verdinha do Brasil. Toda aquela expectativa de vou-viver-em-Londres que é uma delícia. Uma sensação que ainda me assalta de vez em quando, mas que depois de dois anos e bolinha por aqui vai ficando na memória. Uma brisa gostosa que vez ou outra sopra meu cerebelo e me lembra com ternura que *não sou daqui*.

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Não foi nada, gente. O estresse está todo nos aeroportos. Nada mudou na vida em Londres. E como só vou pegar avião no fim da semana que vem, tem tempo de sobra para as coisas se aquietarem em Heathrow. É notícia todo dia, toda hora, claro. Mas tudo se restringe aos aeroportos e suas desgraçadas filas e suas desgraçadas regras e suas desgraçadas falhas.

Esquenta não.

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O que sinto mais falta da minha infância é a capacidade de gostar que se estendia ad infinitum na minha cabeça. Agora não. Agora esqueço bem mais rápido. Agora um pouco de tudo o que era docemente platônico vive, mais uma vez, no fundo da minha cabeça, em forma de memória.

Agora, alguns meses são suficientes para algo que me ocupava a cabeça durante todo o dia, não ser mais que reflexo de um tempo distante. Alguns meses já são um tempo distante. Onde foi parar a sabedoria da velhice? Eu fico mais velha mas parece que tudo o que pára fica realmente para trás. Não tenho mais paciência de esperar. Se não for agora, não é.

Não é.

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Ando muito espuleta.

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Mas espuletagem tem um preço. Primeiro veio no sábado à noite, quando tive a infelicidade de assistir, antes de dormir, a Vanilla Sky. Rapaz, entrei numa paranóia dessas que fazia tempo. Nada estava no lugar, meu mundo é um caos e eu sou um bebezão incapaz de: trabalhar; cuidar de uma casa; cuidar da minha saúde; ter relacionamentos, todos e quaisquer. Em alguns segundos eu me anulei. Virei pó. virei uma boneca com braços e pernas tortas cujo olho não fecha mais se deitada. Deitei na cama, sentei de novo, me olhei no espelho e comecei a chorar. Meu mundo não sobreviveria àquela noite. Meu mundo estava desabado e só eu não via. Como sobreviver àquela noite? Eu não sabia. Eram 2 da manhã quando resolvi ligar para minha Piu. Ela não estava. Para minha Bobby. Ela não atendeu. Antes de continuar com as tentativas frustradas de falar com alguém que me trouxesse pro chão, lembrei que felicidade e tranqüilidade, para mim, responde putamerdamente rápido pelo nome de Rivotril. E lá fui eu. Em menos de uma hora estava lutando com os olhos para continuarem abertos e avançarem mais um pouco no espetacular Bricklane.

Aí a noite passou, e veio o dia, e foi, e veio a segunda. E no final do dia aconteceu. Estava no trem voltando pro trabalho e começou. Aperto na garganta, palpitação, suor frio, desespero, maldito trem que não pára, mas se parar eu também não desço, então fodeu, fodeu mesmo, vou ficar para sempre derretendo e gelando naquele banco sujo de trem. Quando passei para o metrô, piorou. O cara da minha frente deve ter percebido, porque me olhava genuinamente preocupado.

Aos poucos foi passando, passando, uma eternidade de 30 minutos para chegar em casa. Uma eternidade horrível. Juro que parecia que 15 minutos haviam se passado entre uma estação e outra.

Quando cheguei em casa, passou completamente.

Perigoso, isso.

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