Sunday, October 23, 2005

grito de dor feliz

Estou cansada. Dormi menos de sete horas nas últimas três noites; menos de oito nas últimas semanas. Estou cansada mas estou sorrindo. Meio xingando o mundo, mas eu sou assim, xinguenta, rabugenta. Ainda assim sorrindo. Um sorriso que é mais um rasgo na diagonal, mas ainda assim um sorriso. Torto de guerra. Sou uma puta guerreira, é isso que sou. Não paro porque não posso parar. Se parar, morro, tal qual uma guerreira. Nunca o termo foi tão bem aplicado. Me orgulho do peito ferido, do coração esmagado, das marcass de pneus nas minhas costas. Me orgulho das marcas de bota na bunda, das bolhas nesses pés que só fazem andar, dessas mãos que derrubam tudo, mas não desistem de levantar tudo o que derrubam.

Sinto-me perfeitamente confortável com olheiras e ombros duros. Meio assustador, porque se me pego sem fazer nada, a guerra começa na minha cabeça.

Hoje a Fru voltou para o Brasil, mas não sei se quero falar disso. Não sei se quero falar da pessoa que me foi mais importante aqui, junto com a Bobby. Não sei se quero lembrar o quanto rimos e choramos e ignoramos o silêncio juntas. Não sei se quero entender que estou mais sozinha ainda. Eu, que já vinha me sentindo cada vez mais sozinha. Não sei se quero guardar na memória nossos rosto contorcidos de choro de despedida. Sei que vou vê-la no Brasil em menos de dois meses, mas, ninguém vai entender, ela é parte de Londres para mim. Ela está aqui comigo desde meu terceiro mês por aqui. Ela indo embora equaliza Londres faltando um pedaço. Para mim, a vida aqui perdeu um pouquinho mais da graça. Que já não é mais a mesma anyway.

Olha, não me venham com papinho de que sou pessimista. Vem aqui pôr o cu na pimenta um tequinho para entender. Não tenho tempo para chorar.

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Estou querendo uns dias de luxo. Novidades mais concretas, quando a vontade se fizer concreta. E possível, for a change. Por enquanto, luxo é aquilo que posso ver sem tocar. Nem sempre foi assim. Sinal de que nem sempre será.

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Fui chamada para trabalho permanente no Imperial College. Eles estão inaugurando um novo centro esportivo do caralho, piscina semi-olímpica e pans, e eu faria um papel meio que de tudo: salva-vidas, recepcionista, supervisora esportiva, instrutora sabe deus do quê...

Eu disse sim.

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Então começo meu trampo novo no começo de dezembro. Até lá, muito trampo para pagar as contas. Quando o trampo novo começar, quero crer que minha vida vai entrar nos eixos. Vou ganhar relativamente bem.

De qualquer maneira, amanhã tenho entrevista em Kingston. A terceira. Palhaçada. Nem sei se quero mesmo. Vou por desencargo de consciência e para entender porque eles querem me ver pela terceira vez. Mas é isso. Não irei uma quarta vez, a não ser que seja para de fato trabalhar. Faz tempo que o mundo já não é mais uma criança carente pedindo dinheiro no farol e ganhando minha compaixão e meu bolso. Não dou nada de graça para o mundo se não houver a perspectiva de receber. E se recebo primeiro, dou um pouco de volta, e mais um pouco, e mais um pouco. De pouco em pouco, para me iludir com a idéia deliciosa de que o mundo sempre vai me dar e vez ou outra receber.

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Dia 18 foi aniversário do meu Hemingway. Ele me disse ao telefone, pouco antes de desligarmos: "Você escreve muito bem, né?" Acho que meu Hemingway não sabe o quanto isso significou para mim. Você, meu Hemingway, é uma das poucas pessoas para quem escrevo esse blog. A maioria apenas lê. Você, meu Hemingway, você recebe. Você sabe que é para você. Happy birthday, dear Hemingway. Quem sabe ano que vem não estarei na área para comemorarmos juntos?

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Sabem meu último post? Então. Na mesma noite sonhei com meu avô. Ele estava deitadinho, sereno, na cama do hospital. Eu, ao lado dele, segurando suas duas mãos com minhas duas mãos, um pavor de que qualquer parte dele escapasse por entre os dedos magros. Eu estava ali para me despedir. Dava um beijo em sua testa e saia. Ao lado de fora, uma excursão de crianças esperava para entrar no quarto também. Eu pensava, ufa, cheguei a tempo.

Obrigada, vovinho, por me deixar te dar adeus. Eu não sabia que você lia meu blog.

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