Tuesday, June 28, 2005

give peace to my black and empty heart

I can’t believe life is so complex, when I just want to sit here and watch you undress.

Não tem como não se inspirar com PJ Harvey. Novamente tudo virado por aqui. Uma coisa assim meio mar do triângulo das Bermudas. Entenderam?

Domingo eu estava em luto. Anna, uma das duty managers da St George’s, piscina onde trabalho, ligou para falar, entre outras coisas, que meu gatinho salva-vidas pediu demissão e largou o shift, assim, no meio. Num desses acessos fuck-offs moleques em que eu tenho que me segurar bravamente para não achar lindo.

Se encheu e saiu. A chefona dessa piscina é um carrasco mesmo, não o culpo. Mas fiquei com aquele gosto de cinza na boca. E agora? Ele era um dos grandes estímulos para ir trabalhar todo dia. Perdeu boa parte da graça. Obviamente, it’s not about graça – I need the money. Mas que ficou mais penoso vigiar uma piscina, não importa o quanto eu goste do ambiente, isso ficou.

E o gosto de cinza ficou ainda mais empapucento quanto mais eu fosse pensando que nunca mais o veria. Nunca mais, a não ser que ele me procurasse por meio de alguém da St George’s, ou que aparecesse por lá. Enfim, queria manter minhas expectativas no nunca mais mesmo, para não me iludir. Um luto rápido, afinal tivemos pouco tempo juntos para nutrir qualquer coisa especial. Mas ainda assim um luto desconfortável. De um vazio que nunca deixou de ser vazio. Que nunca chegou a ser preenchido com nada. Uma tela vazia jogada no lixo antes do primeiro traço. Praticamente um aborto. Considero luto tudo o que era para ser e não foi por força maior. Nesse caso, eu e ele era para ser.

Ontem resolvo fazer o shift mais inumano do mundo. 7 às 11h, depois 15:30h às 22:30h. Ridículo, eu sei. Mas por uma boa causa: babái está chegando em menos de uma semana e, enquanto ele estiver por aqui, quero aproveitá-lo até a última gota. Isso significa trabalhar shifts de 4 horas, façavô, porque eu não nasci pra sofrer.

E aí é que aconteceu. Estava chegando no trabalho para o segundo turno da jornada inumana, a cara amassada do travesseiro ainda, meio correndo e mal humorada por ter esquecido os óculos escuros com tanta luz lá fora. Entro na St George’s e quem está lá, lindo, sacana, canalha? O gatinho. Meus olhos brilharam, os dele também. Parecia que ele só estava esperando eu chegar para poder ir embora.

Naturalmente, trocamos telefone. Naturalmente, trocamos mensagens naquele mesmo dia, algumas poucas horas depois. Obviamente ele disse que gostaria de me ver: Give me a call when you get a chance. It doesn’t have to be about work. It would be nice to here from you when you got some free time, maybe go out for a drink. E algumas células nervosas morreram dentro de mim nesse momento. Fiquei toda formigando, quentinha, babaca, não posso me envolver com MAIS UM CANALHA. Eu estava melhorando. No último ano só tive caras legais, de família, fiéis, companheiros, de sorriso de boca inteira. Não posso me deixar regredir para o mulher-das-cavernas mode-on. Não posso pensar em voltar a ser aquela mulher volúvel que, no mesmo dia em que quer morrer, quer também viver para sempre.

Não se assustem. O Chris continua presente. Meio como sombra, mas continua. Fazendo tudo errado, como sempre. Me provando o quanto mudei: se fosse alguns meses ou anos atrás, ele teria rodado em um mês. E lá se vão mais de seis. Céus. Isso tem que acabar.

E tem o que acabou virando a segunda opção. O gatinho da festa de despedida. Vamos no cinema amanhã. Ver Bonbón. Estou planejando dormir em seus braços se estiver muito cansada.

Mas quem tem ocupado mais espaço nas minhas viajadas ao longo do dia, quem tem evitado que eu me entupa de chocolate, é o canalha charmoso que me derrete em meio sorriso. Aqueles meios sorrisos que ficam irresistíveis nos verdadeiros cafas e patéticos nos que tentam agir como tal mas nunca serão.

Não sossego enquanto não conseguir o que quero. Sempre fui assim. You’re the only story that I never told, you’re my dirty little secret – wanna keep you so.

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Enquanto as novidades estão entre o inspirar e o expirar, um aviso aos navegantes intrometidos (vocês sabem quem são) dessa humilde página: não tente cuidar da minha vida, amigo. Você não me conhece. Não sabe dos meus sonhos, taras, vontades, idéias, convicções, condenações. Você, acredite, é um mero leitor cuja existência eu, do fundo do coração, ignoro. Então desencana de tentar me julgar porque suas palavras têm sobre mim o efeito que um tiro tem no corpo de um morto. Mesmo.

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