Monday, June 14, 2004

as últimas vezes

Vou dizer que não foi fácil, mas também não foi tão difícil como eu pensei. Porque, vocês sabem, eu sempre fico ali, arando um monstro na minha cabeça, e no final das contas não aparece nada além de um gremlin. Um monstrinho feio, mas pequeno.

As últimas vezes de tudo foram menos dramáticas porque de alguma forma não parecem últimas e, na verdade, parece que não, mas isso tudo é um filme e a hora de eu entrar no avião está a anos-luz de distância. A verdade é que algumas horas ficam a anos-luz. Dentro de, sei lá, oito horas, já estarei voando. E todos os sentimentos do mundo se misturam num sopão. E meu estômago é o caldeirão. E o meu cérebro é a grande pá que põe tudo em movimento e mantém a mistura homogênea. E o futuro é quem manipula e mantém ativa essa pá.

A família, pequena porém unida, vai fazer uma falta cã. Babãe, babái, principalmente a minha Piu, que é tão próxima e tão amada e tão amiga. Muito mais que uma irmã. Sei, por exemplo, que se não fôssemos irmãs seríamos amigas daquele tipo de ter lamentado não ter nascido irmã. De qualquer forma, as alegrias vão continuar. As festas, as besteiras, os arrotos ao pé do ouvido, tudo isso continua. E a alegria ofegante e canina quando eu chegava da natação, a ternurinha que eu provocava quando acordava e a chamava bem baixinho, as discussões pelas calcinhas e, principalmente, pelas meias, as trocas de olhares que dispensam palavras, isso e muito mais - eu ficaria até amanhã - continua vivo aqui dentro.

E junto a essa família maravilhosa, há um novo agregado, o Tiago. Novo, mas muito especial. Por causa dele, perdi um pouco do meu ar mau humorado, rabugento e irônico que fazia a festa de muitos de meus leitores. Reclamem com ele. Porque realmente ao lado do Ti eu não preciso disso. Não preciso ser *cool* o tempo todo. Não preciso tanto assim de feedback -- ele já me dá o suficiente. Não preciso sofrer até a veia. Não preciso de sangue. E nossa despedida só não me tirou o ar por completo porque sei que nos veremos em breve. Enquanto estou lá, ele está arrumando as malas por aqui.

E meus amigos, é claro. Todos tão amados. Nunca recebi tanto carinho. Nunca me senti tão querida. Nunca ganhei tantos dias com pequenos gestos que fazem qualquer um ganhar o dia. Nunca pensei que pudesse, realmente, fazer tanta falta. Acima de tudo, essa viagem é exatamente para isso: para recuperar a minha visão de mim mesma, já tão agredida que virou uma massa amorfa. Me despeço de todos aqui para ir ali me reencontrar.

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